Quebrei minha casca
39 Sozinha com a verdade
A casa estava vazia e ficaria silenciosa se não fossem os miados do gato de rua, que sempre vinha em busca de aconchego e comida. E naquela noite não fora diferente, exceto que no momento em que Regina entra em sua casa, encontra a vasilha do bichano cheia de comida fresca, recém colocada. Não era a ração colocada no começo do dia.
Regina acende a luz da sala de estar e larga-se no sofá. Retira os sapatos e encosta a cabeça no espaldar do móvel, sonhando em descansar. Tudo o que ela queria era um banho e uma cama macia, mas seria bem mais convidativa se ela visse com um delicioso moreno de olhos grandes e sobrancelhas grossas, sobre o colchão.
O gato de rua caminha melindroso e sobe nas almofadas, deitando-se possessivamente ali.
— Você demorou em entrar em contato. Por que fez isso?
O som de sapatos com solado de borracha se aproxima de Regina. Passos seguros e tranquilos demais para quem estava devendo alguma coisa.
— Como sabia que eu estava aqui?
— E para onde mais você iria? Além disso, reconheço seu perfume a léguas de distância. Jamais se esqueça de que quinze anos de convivência. – ela responde desdenhosa. – Achou que eu estava falando com o gato?
Marcus ri e vai sentar-se na outra extremidade do sofá. Seu rosto rude estava muito sereno e não havia vestígios de medo ou de arrependimento.
— Você está com fome?
— Não, Gigia. Eu estive a tarde toda aqui e fiz algo para me alimentar. Fiz um excelente refogado para você.
— Como sabia que eu viria sozinha? – ela olha o parceiro com ternura.
— Regina, meu amor, tenho meus informantes na chefatura e soube que o menino bonito está ocupado com outros afazeres. Aliás, como está Akin? – ele bate o dedo indicador na própria cabeça.
— Já recebeu alta. Aquilo não é um crânio, mas um pedaço de pedra retirado de uma das pirâmides, misturado com o metal das garras do Wolverine.
Marcus acha graça.
— Não foi nada pessoal contra ele, mas eu queria que o menino bonito tivesse um pouco de emoção naquela festa. Ele seria um dos “açoitados”, mas algo saiu errado. Não iriam matá-lo, mas teriam um pouco de divertimento. Além disso, ele seria bem remunerado.
Espremendo os lábios e concordando com a cabeça, Regina se controla o máximo que pode e como havia aprendido com aquele policial. Disfarça seus sentimentos e emoções. Era pura e profunda raiva.
— Por que envolveu Kane neste caso?
— Não o envolvi, meu amor. Eu apenas desviei ainda mais a atenção de vocês. Estava divertido demais ver você e sua equipe querendo morder o próprio rabo, mas admirei seu empenho. – Marcus observa as próprias unhas. – Eu sempre orientei Manson a tomar cuidado com as digitais dele, mas o “pintinho” dele tem mais poder pensante do que o cérebro, e ele se perdeu nos olhos do seu menino bonito.
Regina solta um gemido risonho e agudo.
— Eu insisti muitas vezes para que Manson queimasse as digitais com ácido, já que Nicolas Sandero não existia mais. Sabe, duvido que a Interpol consiga localizar Vladimir, porque ele sabe que a praça pública é o melhor lugar para esconder-se dos inimigos. – ele dá de ombros. — Para esconder-se do seu inimigo, sente-se na porta dele. Ele lhe dará esmola, água e até roupas, mas não perceberá você.
A policial estava cansada demais para discutir ou debater com seu ex-parceiro. Tinha a triste convicção de que seria morta, depois que aquele encontro acabasse. E que viesse a decisão de Marcus.
— Recebi muito dinheiro de Manson e de Vlamidir para proteger todos aqueles maníacos sexuais e suas fantasias bizarras. Era muita insanidade para ser cometida contra pessoas inocentes e com vínculos, por isso decidimos buscar matéria prima em presídios. Criamos nosso esquema e deveríamos proteger a Família, mas Manson caiu numa armadilha tão velha quanto à história da polícia.
Com movimentos lentos, Regina se levanta do sofá e vai apanhar o controle remoto da televisão. Retorna para o sofá e mais uma vez se larga ali.
— Do que você está falando?
— Uma atitude simples e amadora de seu menino bonito e que desmantelou todo nosso esquema: as impressões digitais de Manson naquele copo...foi a coisa mais pueril que já presenciei. Descobrindo quem era Manson, descobriu-se sobre a irmã dele e o ventilador foi ligado no prato de farofa de muita gente.
— E o seu roubo dos pertences de Mia Kane? O uso do celular ela para incriminar Kane e do apartamento, como cenário para a fotografia de Radu? Usar o teor das conversas que tivemos com Kane, sobre as lendas orientais para criar a assinatura dos assassinatos, também não foi pueril?
Marcus ri, orgulhoso da sua brincadeira.
— O que eu não entendi foi o surgimento das mídias com as imagens daquela festa. Eu vasculhei aquele apartamento de cima até embaixo, cada espaço, cada nicho, cada fundo falso e não encontrei pistas sobre a existência das mídias. Não imaginei que Radu as tivesse guardado em um cofre de banco.
Regina inspira profundamente e arqueia as sobrancelhas. Marcus continua:
— Não sei porque tanta comoção com a morte de criminosos. Eles estavam presos porque cometeram crimes e não porque eram inocentes. Iriam morrer lá dentro do presídio ou nas mãos de algum desafeto caso saíssem de lá. Então, que se tornassem úteis em algum momento de sua merda de vida.
Regina dá de ombros.
— A Prefeita quis que investigássemos porque teve medo de que realmente fosse um serial killer. Ele iria pôr em risco a vida de quem frequentava a boate e sabemos que são os mesmos que financiam as campanhas eleitorais. Perguntamos, observamos e acabamos logrando êxito. – ela liga a televisão e encolhe as pernas sobre o sofá. – Vai me matar agora?
O rosto de Marcus se muda rapidamente com a pergunta.
— Por que essa pergunta idiota?
— Porque eu ainda quero ver o Brad Pitt de minissaia. Vai passar o filme Troia e eu quero ver.
— Também gosto do filme. Importa-se que eu fique para ver?
— Você é definitivamente um saco de merda podre, Marcus. Mas eu amo você.
Quando Regina acorda, já é de manhã e o sol entrava por uma pequenina fresta da cortina. A televisão estava desligada e Marcus havia posto um cobertor para aquecer o corpo da amiga.
Encolhida sobre o sofá, Regina chora ruidosamente como fazia quando era criança.Tudo estava quase escuro, com as cortinas semi fechadas, embora fosse dia lá fora. Sentando-se no sofá, Regina enxuga o rosto e busca forças em algum ponto escondido de sua alma para recomeçar seu trabalho.
— Por que você chora por ele?
A voz de Chloe provoca um susto rápido em Regina. Ela se vira e vê a menina em pé sob o batente da porta que levava ao porão.
— Você estava o tempo todo aí?
— Vim para dormir. Não fico durante a noite em sua casa, amiga.
Regina bate no sofá, convidando a garota para sentar-se ali. É atendida.
— Eu amo aquele desgraçado. Durante muitos anos, ele foi o meu porto seguro, meu abrigo, meu amigo...agora, estamos em lados opostos.
— Quer que eu o mate?
Regina acha graça na pergunta.
— Não.
— Você sabe o que acontece com policiais dentro das cadeias. Vai condenar seu amigo a isso? Dê o sinal verde e eu darei a libertação dele. – a menina brinca com os dedos da mão de Regina.
Negando com a cabeça, a policial refuta a oferta. Acaricia os cabelos da menina e percebe o quanto estão limpos.
— Como está o porão? Confortável? Tem certeza de que não quer ficar em um dos quartos?
Chloe sorri lindamente.
— Tudo o que quero é estar perto de você. Mesmo que eu dormisse numa gaveta de seu armário. Sabia que arrumei seu porão e descobri que há um banheiro ali?
As duas riem.
— Ficarei sempre invisível para você, Regina. Mas sempre estarei vigilante com você.
Um beijo é a resposta de Regina. Ela abraça Chloe e se esquece de que a menina não era mais tão menina como aparentava. Era um mistério de transgressão, mas que não lhe causava medo ou horror. Era a sua menina velha.
O relógio marcava duas horas da tarde do dia seguinte, quando uma motocicleta grande estaciona na entrada do distrito e Ruby desce da garupa. Ajeita uma mochila grande nas costas e despede-se do piloto, que sai do local e desaparece do campo de visão de quem vigiava os passos da equipe de Regina.
O vigilante sorri. Ruby era Ruby e teria sempre o mesmo comportamento despojado. Iria atacar qualquer coisa que se mexesse à sua frente e que pudesse proporcionar prazer ao seu corpo.
A policial se dirige para o gabinete de Regina e a encontra lendo alguns relatórios. Agora que estava à frente do distrito, teria de acomodar todo o trabalho que antes pertencia a Kane.
Quando a Chefe vê sua policial, salta da cadeira e vai fechar a porta para terem privacidade.
— Meu coração estava batendo dentro de minha cabeça. Como você está?
— Radu e eu ficamos muito bem. A ideia de trocar o lugar para colhermos o depoimento foi absurda, mas deu certo. Quem imaginaria que eu passaria quatro horas em um motel, com um homem como aquele, colhendo o depoimento.
— Foram escoltados?
— Sim, porque os seguranças deles estavam acompanhando a moto onde estávamos. Mas creio que não fomos seguidos pelos adversários. Todos devem imaginar que cheguei com mais um amante.
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