Quebrei minha casca
40 Tão difícil!
Notas iniciais
Regina suspira serena e desta vez consegue sentir-se feliz.
— Ele chegou primeiro, registrou nossos nomes e ficou aguardando. Entramos separados no motel, mas saímos juntos como se fossemos um casal. Agimos de maneira natural e os seguranças dele estavam por toda parte, nos quartos vizinhos.
Regina sorri e sem conter seu alivio, abraça a amiga e parceira.
— E Sandra?
— Estava em um dos quartos com o advogado dele. Quando eu cheguei, os convoquei para iniciarmos o depoimento e providenciei toda a gravação. – ela apanha as mídias e entrega para Regina. – Antes de sairmos do quarto, eu enviei uma cópia do depoimento para a minha conta na Nuvem e outra para os nossos e-mails. Estamos protegidos.
— Para onde Sandra o levou?
— Ele deixará a motocicleta no estacionamento do próximo quarteirão e irá com ela para destino desconhecido. É estranho saber que estava sendo escoltada. Eu me senti uma celebridade.
— Sabemos que muitos estão esperando a chegada de Radu para depor em nosso distrito. Creio que devam ter criado até um esquema para matá-lo de longe. Mas isso não irá acontecer.
Horas mais tarde...
Ao retornar de uma diligência, Regina encontra toda a sua equipe reunida. Era o momento em que precisava muito conversar e agradecer todo o esforço naquela investigação.
— Seja bem vindo de volta, Akin! – ela o abraça com cuidado e muito respeito. Depois se afasta e vai abraçar cada um dos membros de sua equipe. Todos eram valiosos demais. – Eu quero agradecer a todos vocês por confiarem em mim, quando ninguém mais acreditava.
Olhares risonhos se desenham nas expressões. O orgulho brilhava em cada um deles.
— Todos se esforçaram ao máximo para conseguirmos descobrir algo que parecia não ter valor para os outros policiais e nem mesmo para Kane, o que me entristeceu muito. Recebi a notificação hoje pela manhã de que nosso governador Thomaz conseguiu acordo com os federais e a partir de hoje, o caso da Família será cuidado por eles.
— Então, há ramificações pelo país?
— Não sabemos, Akin. Mas isso agora cabe aos federais, descobrirem. Acreditamos que essa Família deva agir em vários ramos da sociedade, de vários Estados e arrisco a dizer que em países vizinhos. Nós apenas descobrimos a existência de um vespeiro, mas os federais é quem vão controlar a procriação.
— Marcus está com prisão decretada, porque foi citado nos depoimentos dos dançarinos, que o reconheceram como o policial que cuidava de determinada parte da logística. Ele também aparece no depoimento da juíza Anadette e de Manson, que confirmou a ordem dada para a exibição da fotografia. – Ruby fala sem entonação.
Regina abaixa a cabeça e esfrega uma mão contra a outra.
— Marcus esteve comigo ontem à noite e ele não demonstrou vontade em entregar-se.
— O que? – explode Yose. – Ele ameaçou você? Ele a tocou?
Os outros policiais começam um rápido debate indignado, interrompido por um pedido de Regina.
– Eu não pretendo entregá-lo aos federais, porque ele é meu irmão e meu amigo. Mas não pretendo atrapalhar, caso vocês continuem investigando sobre o paradeiro dele.
Por alguns segundos, o silêncio torna a sala um cemitério. Um clima totalmente constrangedor.
— Quero agradecer o empenho de todos vocês. – ela se vira para os mais novos membros da equipe. – Taylor e Sarah merecem um agradecimento especial por terem salvado a vida de alguém muito importante para mim. A intervenção imediata e rápida de vocês, impediu que os seguranças do dono daquela mansão, conseguissem alcançar Yose. Muito obrigada, mesmo!
Todos começam a bater palmas e em seguida participam de um abraço coletivo.
— Vamos, ainda temos outros casos para serem cuidados. – ela estende a mão e toca o ombro de Ruby. – Não iremos desfazer essa equipe, enquanto eu estiver no comando da delegacia. No entanto, não poderei ficar à frente dela e à frente do controle geral. Quero nomear Ruby como a nova líder da equipe de ouro. Líder do nosso esquadrão!
Novamente, mais palmas e mais outro abraço coletivo, desta vez mais demorado. Quando se dispersam, Regina sorri orgulhosa de seus filhotes. Estava feliz por ter trabalhado com aquelas pessoas que haviam se transformado em seus amigos, além de parceiros.
Saindo de seu devaneio, ela gesticula para que Yose a siga até sua nova sala de líder. Lá dentro, ela mal espera que a porta seja fechada e o empurra contra a madeira, imobilizando-o com um beijo atrevido e molhado. Em poucos segundos, ele está correspondendo e emitindo sons suaves de prazer.
— Regina...
— Eu não aguento mais ficar longe de você e ter de ser civilizada quando nos encontramos, Yose! – Regina segura o rosto dele com força. – Precisamos encontrar mais tempo para ficarmos juntos ou vou enlouquecer de tanto calor!
Ele ri e liberta o rosto daquele beijo, mas Regina não o liberta de seu assalto. Ela se ajoelha e sem pedir permissão, deixa-o despido da cintura para baixo. Mais uma vez, sem saber se era bem vinda ou não, a policial expõe seu desejo e sua gula, naquela luta ousada entre sua boca e o membro de seu amante.
Momentos mais tarde, Regina se olha no espelho do banheiro e sorri. Guarda sua escova de dentes em seu nécessaire e pinta seus lábios com um batom hidratante. Aproveita para retocar sua maquiagem, a fim de apresentar-se sem pistas indeléveis de seu “crime”.
Momentos depois...
— Srta. Mills, gostaria que visse as imagens das câmeras que encontramos no apartamento da juíza Anadette. – comenta um dos peritos.
Regina se inclina para ver melhor a tela do computador e as imagens minuciosas do crime contra a juíza começam a ser exibidas. Eram cenas chocantes, cometidas contra uma mulher drogada, indefesa e praticadas por alguém que deveria e que jurara defender e proteger toda forma de vida.
Desta vez, ela não se sente na obrigação de controlar suas emoções e seus sentimentos: cobre a boca com uma das mãos em concha e não evita que lágrimas atrevidas e salgadas subam até seus olhos e que rolem pelo seu rosto, em abundância.
Chorando e sem se preocupar com a comoção que estava causando, Regina assiste ao vídeo até o fim. Estava totalmente sem pudores e durante a exibição do vídeo, outro filme passa por sua mente e ela consegue ver todas as cenas em que havia vivido com seu amigo, por longos quinze anos de parceria policial.
— A juíza mantinha câmeras em diversas partes da casa, camufladas em objetos ou na decoração das paredes. – o perito estava nitidamente desconfortável com a descoberta e com a comunicação dela à policial. – Ficamos chocados quando vimos quem era o autor do crime e tive receio de mostrar a cena para a senhora. Devo enviar o material aos federais?
Regina funga algumas vezes e enxuga o rosto com o dorso da mão, até receber um lenço vindo de algum lugar.
— Faça isso. Cuide dos tramites que você já conhece. – ela se retira da sala e dirige-se até seu gabinete, lugar que a pouco tinha servido de cenário para um momento louco de pura paixão e que agora se tornara na mais obscura mastaba.
Ruby entra cautelosamente na sala e sorri constrangida. Deposita um copo com suco sobre a mesa e espera alguma ordem ou confidência de sua mais nova amiga.
— Quero que acrescente assassinato ao rol de acusações a Marcus. Divulgue que ele é autor da morte da juíza Anadette e reforce a informação de que ele é perigoso. Gostaria que você convocasse todos os funcionários da delegacia, para uma reunião relâmpago no auditório, para o dia de hoje. – Regina ordena para o perito e depois se volta para a amiga.
— O Governador irá fazer uma entrevista coletiva para falar sobre o caso, logo mais à noite, no Trevor Hotel Sofia. – Ruby fala mansamente.
— E-eu recebi u-uma notificação...é uma tática para...tirar os holofotes de nossa equipe.
— Por que não vai para casa, Gigia? Deveria tirar a tarde para descansar...sequestre Yose e vá para um SPA urbano. Você está precisando.
Os olhos vermelhos e molhados de Regina se levantam e fixam-se em Ruby.
— Foram quinze anos, Ruby! Marcus me pegou crua e ensinou-me tudo o que sei desta profissão! Era meu herói, depois de Kane e do meu pai! Agora, olhe para ele! Um traficante de drogas e de pessoas, traidor da polícia, assassino frio, torturador e... o que mais?
Ruby se aproxima de Regina e a abraça como os adultos fazem quando abraçam uma criança chorosa.
— Ele esteve rindo de nós o tempo todo! Não dificultou a nossa investigação, mas tentou incriminar Kane, que ainda vai ser investigado! Eu estou torcendo para que Marcus inocente Kane! E se ele insistir na participação de Kane nos esquemas da quadrilha?
— Manson inocentou Kane em seu depoimento. E quando Manson souber que Marcus é o assassino de Anadette, irá expor mais podridões ainda.
— Tenha certeza de Manson irá saber. – Regina se afasta e vai sentar-se. – Marcus não precisava fazer isso. Além da pensão que teria ao se aposentar, ele sempre fez investimentos na bolsa de valores...ele me ensinou como aplicar meu dinheiro! Ele comprou imóveis com o resultado dessas aplicações e não iria ser privado de uma boa velhice! Por que se enveredar pelo mundo do crime?
Ruby também se senta. Fala:
— É mais rentável, querida. Antes de eu entrar para a polícia, eu vivia de aplicar golpes em investidores. Aos vinte anos, recém-graduada, eu tinha um padrão de vida muito alto, mas com gastos bem altos também. Um dia, Kane me pegou, a justiça me condenou e fiz acordo de leniência. Foi um alívio para a minha alma.
— Marcus nunca precisou de meios ilícitos para ter dinheiro. Mesmo contrariando a família, ele ingressou na polícia e mesmo não participando dos negócios de seus pais, ele tinha dinheiro! Nunca faltou nada para ele!
— Regina, eu sei que... – Ruby é interrompida com a chegada de Taylor, que abre gentilmente a porta.
— Regina, precisa vir à sala de depoimentos.
Algum tempo depois, a Chefe está parada diante de um homem de meia idade, com semblante sereno e gentil. Era um homem comum.
— Este é o Sr. Dinardi e ele nos procurou depois da divulgação dos resultados de nossa investigação sobre a Família de Manson, pela imprensa. Esta é nossa Chefe de Polícia Regina Mills!
Dinardi se levanta e cumprimenta Regina, sorrindo timidamente.
— Por que nos procurou? – a policial se senta e convida o homem a fazer o mesmo.
— Vi reportagens sobre suas descobertas e fiz uma ligação com o que houve com meu irmão, porque ele ficou em um presídio comandado por Henrico Enos. Decidi compartilhar minha informação com vocês. Eu tinha um irmão mais jovem, que seguiu caminhos diferentes dos meus, embora eu tenha oferecido todas as oportunidades a ele. – Dinardi abre um envelope e exibe a foto de um rapaz jovem com traços bonitos. – Meu irmão trabalhou por alguns meses como modelo fotográfico, mas preferiu meios mais rápidos para ganhar dinheiro.
Sem expressão, Regina apenas continua ouvindo.
— Muitos delitos, depois muitos crimes o levaram para um presídio do interior do nosso estado, na época chefiado pelo Dr. Henrico Enos. Meu irmão e eu não temos o mesmo sobrenome, então, quando ele morreu numa briga de gangues na cadeia, tive dificuldade em requerer o corpo para enterrá-lo em nossa cidade natal.
As sobrancelhas de Regina se levantam, mostrando interesse na narração.
— Quando consegui exumar o corpo para o translado, verifiquei que meu irmão tinha cicatrizes que não foram adquiridas em brigas na cadeia. Consegui um mandato para nova autópsia e minha surpresa foi imensa quando soube que ele estava sem vários órgãos: rins, fígado, coração, pedaços imensos do intestino e também sem os ossos do fêmur.
— Como é?
— Roubaram os órgãos de meu irmão, porque era um homem muito saudável e porque acreditavam que ele não tinha quem o reivindicasse. ]
— O que o senhor fez?
— Fui à delegacia da cidade para denunciar, mas passei a ser perseguido e a receber telefonemas anônimos. Decidi fugir da cidade com a minha família, antes que os ataques fossem mais graves do que incendiarem meus carros, picharem minha casa e minha loja e matarem meu cachorro.
Regina se vira para Taylor e lembra-se da fala do policial, dias antes sobre a possibilidade da existência de tráfico de órgãos humanos.
— E o senhor tem provas do que diz? – ela se volta para o homem.
— Tenho todos os documentos e laudos que comprovam desde a exumação à nova autópsia.
Levantando-se e agradecendo ao visitante, Regina toca o braço de Taylor.
— Quero que acompanhe o Sr. Dinardi à sede da policial federal e procure pelo Dr. Beltrame. O caso agora pertence a eles e essa informação pode incrementar o foco das investigações. – Regina estende a mão para o visitante e sorri. – O senhor será orientado quanto ao sigilo do depoimento e sobre sua proteção.
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