Quebrei minha casca

41 Trabalhando como gente grande


Era quase noite, quando Regina se deixa ficar perdida em pensamentos tristes. Seus olhos estavam presos na janela, olhando a silhueta do prédio onde ficava o arquivo geral e onde seu amado de olhos celestes, trabalhava, possivelmente alheio às novas informações.

Despertando com o som da campainha de seu celular, Regina se lembra de que havia programado um alarme para lembrá-la sobre a coletiva do Governador Thomaz naquela mesma noite.

Ao ligar a televisão, percebe que a entrevista estava começando e o porta voz anunciava a chegada do líder estadual aos presentes no salão de convenções do luxuoso e protegido hotel.

O governador agradecia o empenho da equipe sob o comando de Regina Mills e rasgava elogios ao atrevimento de jovens policiais, na caçada a um suposto serial killer e a descoberta de uma máfia.

O político fala sobre os novos rumos das investigações e sobre os nomes citados como parte da engrenagem da chamada Família.

Lá pelas tantas, um falso repórter lança a pergunta que provoca burburinhos.

— A retirada do caso das mãos da Delegacia Boulevard Borun, seria uma estratégia para proteção dos policiais que descobriram a ponta do iceberg? E isso envolveria o seu filho ilegítimo, policial Yose Dimarco?

— Não. Penso na proteção de todos os policiais e na possibilidade de empregarmos tecnologia federal nas investigações. Entregar o caso aos federais, abre um leque muito amplo que pode abranger delegacias do país inteiro e do estrangeiro. Aliás, a Interpol já entrou no caso e estamos aguardando informações sobre o paradeiro de Vladimir Tedescu, sócio de Frank Manson ou Nicolas Sandero, como prefiram.

— Mas e seu filho?

Thomaz sorri e espreme os lábios finos. Parecia feliz demais. Olha para o lado e sorri para a Primeira Dama, que retribuiu o cumprimento do marido.

— Yose é fruto de um relacionamento que tive antes de casar-me. A mãe de Yose saiu do país e não tivemos mais contato. Foi um presente que a vida me deu a chance de receber.

— O senhor irá reconhecê-lo?

O Governador levanta as sobrancelhas e faz uma careta de dúvida.

— Essa pergunta deve ser feita a ele. Estou a sete anos, tentando convencê-lo disso. Mas respondendo à primeira pergunta: não estou querendo apenas proteger meu filho primogênito, mas proteger todos os policiais que destruíram as estruturas dessa quadrilha formada por pessoas abastadas e criminosas.

Regina já havia visto o que queria e desliga a televisão, porque tinha a sua própria reunião para resolver. O Governador tinha feito a lição de casa e concordado com a criação de um teatrinho para expor a existência de Yose ao país e assim deixá-lo sob todos os holofotes, para protegê-lo. Quem ousaria tocar no filho do Governador?

Ao chegar ao auditório, Regina é cumprimentada pelos seus subordinados. Estavam mais curiosos sobre a novidade, do que sobre o assunto que seria tratado na reunião extraordinária.

— Boa noite a todas e a todos...agradeço pela presença...- Regina observa a chegada de mais alguns policiais. – Eu serei breve porque muitos precisam ir para suas casas e outros precisam retomar suas tarefas.

O clima estava tenso.

— Mesmo tendo sido destituída do caso da Família de Manson, nossa delegacia continua recebendo informações. E uma das informações abrange a autoria da morte de juíza Anadette...- ela abaixa a cabeça. – Meu amigo, meu parceiro, meu protetor...alguém que me ensinou quase tudo o que sei deste trabalho, depois de Kane...é o autor. O Policial Marcus Khahan é o líder do tráfico de drogas na região sul de nossa cidade e é o homem chave, chamado de Death Cleaner da Família de Manson. Era ele quem fazia as limpezas das cenas de crimes, manipulava os cenários, desfazia-se dos corpos e ainda fazia a segurança.

Os comentários surgem imediatamente. Indignação, revolta, raiva e tristeza, tudo junto e misturado.

— O Policial Marcus é o criminoso número um, procurado em nosso Estado e agora em todo o país. – Regina recomeça. – Mas ele não estava sozinho em seus serviços sujos e contava com a ajuda de informantes e comparsas policiais desta Delegacia. Marcus tentou incriminar o nosso líder Kane, roubando pertences da falecida Mia Kane e usando-os como instrumentos que aproximassem nosso chefe aos dançarinos mortos. Porém, acredito que tudo será esclarecido.

Yose chega ao auditório e permanece junto à porta, sendo percebido por poucos policiais. Surgem comentários sobre as declarações do Governador.

— Não tenho a menor ideia de quem sejam os traidores entre nós, mas tenho a mais absoluta certeza de que todos vocês irão se empenhar para descobrir. Sobretudo, porque estou oferecendo cinquenta mil pela informação que me leve a prender esses desgraçados. Não é oficial. Mas é legal. O Estado não está oferecendo esta quantia...sou eu. Mas a informação tem de ser precisa.

Os policiais conversam entre si. Cinquenta mil pela informação? Um bom dinheiro pela cabeça do traidor. Policiais traidores eram considerados piores que policiais que se transformavam em bandidos.

Era tarde naquela noite e Regina continuava trabalhando em seu gabinete. Conversando ao telefone, ela apenas sorri quando Yose entra na sala e fecha a porta atrás dele, rodando a chave. Para que trancar a porta? Ele iria ficar sem roupas, por acaso? Seria a visão do paraíso.

Ele fecha a persiana e sem dizer nada, ajoelha-se na frente da mesa da Comandante. Regina sorri, continua conversando com alguém e fazendo anotações. Olhar Yose com aquela expressão que pedia carinho, beijos e proteção era gostoso demais. Porém, o melhor era saber que o coraçãozinho dele vibrava por alguém com onze anos a mais. Regina estava feliz porque sabia que era o seu corpo que excitava aquele menino de olhos gigantescos e alma sensível; eram seus beijos que ele procurava e que era em seus braços que muitas vezes ele dormia. Quer maior confiança do que dormir nos braços de alguém, sem poder ouvir os sons que surgiam ao redor?

Yose apoia o queixo nos braços debruçados na mesa e fica olhando Regina como se estivesse olhando uma tela em alguma exposição. Ainda sem dizer nada, ele desliga a luminária que estava acesa sobre a mesa da policial e move-se indo parar embaixo do móvel.

Lá embaixo, ele segura carinhosamente um dos tornozelos da amada e retira seu sapato. Delicado, faz o mesmo com o outro pé, deixando-os desprotegidos. Com segurança, ele acaricia as pernas dela, envolvidas pelas meias de nylon escuras e em poucos segundos retira-as para expor as pernas nuas de Regina, aos seus olhos. Começa a beijar as pernas dela, subindo para roçar os lábios nas coxas.

Atrevidamente, ele afasta as coxas dela e enfia o rosto naquele espaço que surge, iniciando sua ousada exploração, sem perguntar se poderia ou não. Ora, claro que poderia!

Aturdida, Regina luta bravamente para controlar sua respiração e a entonação da voz. Como explicaria qualquer deslize para a pessoa do outro lado da linha, sendo que tudo o que queria era segurar os cabelos do amante e forçar seu rosto para mais perto?

E Yose nem se importa. Aproveitando que Regina move os quadris para dar mais acesso, ele retira aquela pecinha de lingerie, inconveniente naquele momento. Arranca a calcinha dela e a deixa em algum lugar por ali, porque seu interesse era saborear aquele espaço que estava se exibindo pela seminudez da mulher.

Regina interrompe a ligação. Não poderia continuar. Poderia agora, dedicar-se ao assalto profano que estava sofrendo. Tudo estava resumido nos movimentos daquela boca e na intenção do policial em desarmá-la. Todos os seus sentidos tinham sido desligados e somente o tato de sua pele gritava e comandava seu corpo. Poderia ser efêmero, mas ela iria curtir e dedicar-se às delícias daquela petulância sensual.

Momentos mais tarde, Regina já está composta, exceto pela calcinha que havia sido apropriada pelo amante. Teria de ir embora sem a pecinha e com o corpo ainda aquecido pela experiência inédita.

— Você é demente.

— Sou seu fã e sou apaixonado por você. – Yose passa os dedos indicador e anular pela língua e solta um gemido prazeroso. Faz uma careta safada. — Caso você fosse um homem, eu faria questão de ser gay. – ele se inclina e beija os seios de Regina, mesmo por cima da blusinha. Abocanha os pequenos montes e depois a libera delicadamente. – Você seria um homem baixinho e invocado, e teria de dar conta de um amante muito faminto.

Regina sorri e desfere uma bofetada na bunda do amante. Indica a porta para saírem dali.

— Vamos embora. Poderemos fazer a prorrogação desta partida, lá em casa!

O carro de Yose para em frente à casa de Regina. O policial desce do veículo e vai abrir a porta para a amada descer. Os dois trocam um beijo apaixonado e antes de se separarem são surpreendidos por disparos contra eles.

Os policiais correm e saltam para o outro lado do carro, deitando-se no chão. Por baixo do veículo, eles observam um homem caminhando na direção deles. Yose e Regina se entreolham a tomam a mesma atitude sem discutir: atiram por baixo no carro e conseguem acertar as pernas do atirador. Ele cai e grita, enquanto o casal se levanta e rodeia o carro, cada um por um lado.

Sem hesitar, Regina dispara contra o homem e acerta uma de suas orelhas. Yose dispara e acerta a mão com que o homem segurava sua arma.

— Você está bem?

— Bati minhas costelas na guia da calçada, mas estou bem. – Yose mantém a arma apontada para o atirador que se contorcia de dor.

Regina avança e revista o homem, retirando dele, a outra arma que estava escondida em suas roupas. Olha para os lados e trata de chamar reforço policial para sua proteção. De repente, um vulto escuro e rápido demais surge saltando sobre a capota do carro de Yose.

Apontando sua arma para o invasor, Yose hesita ao ver uma criança agachada e inclinada para ver melhor a cena. O rosto da menina estava deformado como se tivesse sofrido algum tipo de queimadura, enquanto seus olhos eram de um azul muito claro, como se fossem desprovidos de visão.

— Não atire, Yose! Ela é Chloe, a minha afilhada!

Os olhos imensos de Yose se tornam ainda maiores. A criança era muito feia e assustadora! Mas ele luta contra seu primeiro impacto e em poucos segundos perde seu conceito prévio.

— Ela é maluca, por acaso? O que ela está fazendo aqui? Vá para dentro, menina!

— Regina, eu quero esse homem. – Chloe rosna com uma voz grossa demais. – Deixe-me beber dele.

Sem saber como agir, Regina abre os braços e autoriza a menina a saltar sobre o atirador e segurar a mão ferida pelo disparo. Chloe ergue o braço do homem e posiciona a boca arreganhada e com presas gigantes sob o filete de sangue que escorria pela ferida feita pelo projetil.

Yose sente o corpo convulsionar e solta uma golfada de vômito no chão. Apoia-se contra o capô do carro e ofega por vários segundos. O que era aquilo? Que coisa abjeta estava acontecendo? Em que Regina estaria envolvida?

— Regina...o que é isso? – ele gagueja.

O som de sirenes chega aos ouvidos dos policiais e Regina toca o ombro da menina, despertando-a para a realidade de fuga. Não poderia ser vista.

— Vá embora, agora!

Chloe leva seus olhos na direção de Yose e sorri, gulosa. Seu rostinho exibia-se infantil e não havia marcas como as vistas anteriormente. Salta sobre o carro e desaparece na escuridão.

— O que isso? — Yose grita e empurra as mãos de Regina, que tentava fazê-lo voltar ao seu controle. – Que porra é essa? A menina bebeu o sangue do cara!!