Quebrei minha casca
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De volta ao distrito, Yose entra de maneira intempestiva na sala de sua equipe, sendo seguido por Regina. Ele estava histérico.
— Já vi cenas horríveis desde que me tornei policial! Vi todas as mídias que Radu nos entregou e confesso que nada consegue ser tão abjeto e repugnante como aquela cena com aquela menina! Que monstruosidade é aquela?
— Minha afilhada é gótica...
— Mentira deslavada! – ele grita. – Aquela criança estava bebendo o sangue do atirador e você permitiu! Que tipo de tara Marcus ensinou a você, Regina!
— A menina precisa disso. Ela não matou o homem!
— Ela bebeu o sangue do cara! Aquela menina pediu e você autorizou! Ela transfigurou o rosto !O que você está mantendo em sua casa?? Será que devo perguntar se apenas Marcus estava envolvido naqueles rituais de tortura? – ele se dirige para a porta.- Eu vou denunciar você!
Regina estende as mãos e o impede, usando uma força desconhecida até por ela mesma.
— Não me toque mais! Não conheço mais você! Você está abrigando uma criança monstro que bebe sangue humano! Onde estão os pais dela? Você está cometendo um crime e eu vou denunciar!
— Ela não é mais uma menina! Ela é um espectro hematófago!
— Espectro hematófago? Não invente mentiras para amenizar o fato de que você está mantendo uma criança demente em sua casa! Você tem a guarda legal dela ou é mais uma vítima de Marcus? Ou será que a criança é vítima sua também? O que é aquilo?
Regina nega com a cabeça.
— Como não pude perceber? Marcus e você são idênticos! São loucos, manipuladores e inclementes! O que pretende fazer com a menina? Nutrir a doença dela e depois matá-la? Ou mantê-la como aberração para ganhar dinheiro com a desgraça da criança?
Erguendo o queixo, Regina olha-o de maneira desafiadora. Precisava encontrar uma maneira de contar sobre a condição singular de Chloe. Mas como?
— Por isso você permitia que Marcus a chamasse de homenzinho com vagina! Você é tão doente quanto ele! Conseguiu conduzir as investigações com serenidade, porque há coisas mais horrendas em sua vida, do que sadomasoquismo que leva à morte!
— Chloe é uma mulher aprisionada no corpo de uma menina. Ela não pertence mais ao nosso mundo, Yose. Para sobreviver, precisa ingerir sangue. Ela é uma...
“Não diga mais nada!”— ele não diz com palavras. Gesticula nervosamente e começa a andar de um lado ao outro da sala. “Você não consegue denunciar Marcus, porque é patológica como ele! Talvez já soubesse de todas as atividades dele e mantinha um teatro apenas para legitimar a existência de sua equipe!”
Regina avança e segura os braços de Yose com tanta força, que dá a impressão de era ela quem media um metro e noventa de altura. Desconhece a própria força.
— Não me toque! – Yose tenta sair, mas sente dor com a pressão dos dedos de Regina em sua carne.
— Não sou criminosa. Chloe salvou a minha vida quando fui atirada no fosso do elevador, naquela fábrica velha. Uma estaca entrou em minha barriga e eu morreria, caso ela não tivesse surgido.
Yose se inclina para frente.
— Você não foi encontrada no fosso do elevador e tampouco tinha uma estaca enfiada na barriga. Não invente mais mentiras e trate de tirar as mãos de mim!
— Aquela menina que está em minha casa é uma mulher velha, uma pessoa transgressora e que não irá envelhecer. Ela é uma menina vampira.
— Como é? – a voz de Ruby chama a atenção do casal. Ela fecha a porta atrás de si, de maneira calma. – Eu ouvi mesmo o que penso que ouvi?
Yose consegue desvencilhar-se das mãos fortes de Regina.
— Sua amiga está com pensamentos anormais! Tente convencê-la a entregar a criança que bebe sangue, para as autoridades ou eu a denunciarei pela manhã. Vamos ver o que irá acontecer a uma policial que mantém uma criança ilegalmente em sua casa e a incentiva a beber sangue humano! – ele sai da sala e bate a porta atrás de si.
Ruby arregala os olhos e encara Regina. Queria muito saber o que estava havendo ali.
— Você está mantendo uma menina vampira em casa?! Onde você a descobriu? Há muito casos de pessoas que são viciadas em beber sangue humano e animal, mas são adultos! Nunca soube de relatos sobre crianças que praticam isso!
Estendendo a mão e tocando o braço da amiga, Regina espreme os lábios e levanta as sobrancelhas.
— Ruby, preciso de sua ajuda. Quero que convença Yose a ir para minha casa, depois de prestar depoimento sobre o tiroteio de hoje. Eu estarei lá com Akin e preciso que me ajude. Tenho algo a revelar.
Mesmo a contragosto e ainda furioso com que havia presenciado, Yose se deixa levar até a casa de Regina.
Era madrugada quando ele e Ruby chegam ao local onde havia acontecido o atentado horas antes. Tudo já estava liberado pelos peritos e todos poderiam continuar sua rotina comum, exceto por Regina, que jamais teria sua rotina comum.
É Akinnagbe quem abre a porta e recebe os dois parceiros. Percebe que algo estava muito errado e decide não precipitar nada, aguardando pela presença de Regina, que estava na cozinha alimentando o gato de rua.
Ruby empurra Yose para que entre primeiro, fecha a porta e vai sentar-se num dos sofás. Estava ansiosa demais e não conseguir controlar-se serena estando em pé.
— Obrigada por vocês confiarem em mim e atenderem ao meu pedido. – Regina chega à sala e vem seguida pelo gato melindroso e malemolente. Ela se senta ao lado de Ruby – Serei objetiva e prática: Quando eu sofri aquele acidente na fábrica, algo incomum aconteceu comigo e por isso ainda estou viva. Fui atirada no fosso e iria morrer, caso não tivesse sido socorrida por uma garota que morava naquele lugar.
— Essa é a versão que você irá sustentar para justificar a presença da menina que bebe sangue? De onde a tirou? De algum abrigo ou de um sanatório? Você a comprou de algum adulto sujo que precisava de dinheiro para as drogas? Imitou os atos da juíza Anadette? Gostou do que ela fez ao longo de quase duas décadas?
— Por favor, Yose, deixe-me terminar.
— Menina que bebe sangue? – Akinnagbe olha para todos os rostos. – É membro daqueles grupos que frequentam bares em Nova Orleans?
— Não, Akin! É a afilhada dela! Regina autorizou a menina a beber o sangue do atirador que nos atacou! – explode Yose. – Eu vi!
— Como assim?
O som de passos atrai a atenção dos adultos. Todos olham na direção em que uma garotinha de rosto triangular estava vindo. Simples e com aparência comum, a menina se aproxima do grupo e sorri amável.
— Esta é Chloe. – Regina gesticula displicente.
— Apenas pedi para beber, porque o homem pertencia à Regina. Como não fui eu a autora do ferimento, não cabia a mim, beber dele.
Yose gargalha ironicamente. Tudo estava insano demais para ser real. Aquilo era doente demais para ser compartilhado e como policial precisava pôr um ponto final.
Ele se vira para a saída da casa e caminha para fugir daquele ambiente, mas antes que pudesse entender o que estava havendo, tem sua passagem obstruída pelo corpo franzino de Chloe, que praticamente se materializa na frente dele.
— Não pretendo fazer-lhes mal. – a menina fala ao ver Yose praticamente saltar sobre o sofá para fugir daquela aparição. Ela levanta as mãozinhas quando Akinnagbe aponta sua arma trêmula em sua direção.
— Que porra está acontecendo aqui?? – grita Akinnagbe. – Como fez aquilo??
Chloe sorri e abaixa a cabeça, mantendo os olhos fixos na direção dos adultos. Queria escandalizar para conseguir fazê-los entender a sua condição. Ela arreganha a boca e exibe dentes disformes, além de modificar a cor de seus olhos, tornando-se monstruosa e atemorizadora.
Sem hesitar, Akinnagbe dispara contra aquela coisa de olhos dourados.
A confusão está formada: a menina cai, o gato foge, Regina grita, Yose começa a pular, Ruby corre na direção do parceiro trêmulo, pálido e arranca a arma de suas mãos.
— O que pensa que está fazendo, Akin? Ela é uma criança! – antes que Ruby pudesse correr para socorrer a menina, percebe que a criança já estava em pé outra vez, massageando o ombro como se nada tivesse acontecido.
O silêncio no cômodo se torna maior do que entre os sepulcros.
— Eu sou isso. – a voz de Chloe é ouvida. Seu rostinho estava bonito de novo e ela estava intacta. – Não serão armas que me matarão.
— Era isso que eu queria explicar. – murmura Regina.
— Preciso apenas de um lugar para dormir e exigi que Regina me abrigasse. Não farei mal a ela...porque eu a amo. Quando eu dei meu sangue a ela, naquele fosso, criei um vínculo vitalício que se quebrará com a morte de uma das duas. Tudo o que preciso é do que ela me oferece: a companhia e um porão para esconder-me durante o dia.
— Você é uma...menina? – Ruby se atreve a perguntar, sentindo que seu coração estava batendo fora do peito.
— Não sou uma menina há mais de setenta anos. Minha família foi dizimada e eu fui criada para ser isso. Desde então, tenho implorado a adultos para que cuidem de mim. Mas eles morrem ou partem sem dizer nada. – Chloe mexe no ombro e observa a blusa furada pelo disparo do policial. – Sou uma forma de vida, misteriosa e mística, conduzida pela força do vento que vaga entre o Céu e a Terra. Eu sou isso.
O céu já estava claro lá fora, quando Chloe se retira e desaparece do campo de visão dos adultos. Suas palavras foram as últimas a serem ditas até a sua saída. Calados, absortos em seus pensamentos, os adultos apenas aguardam a chegada da coragem para que aquela situação fosse analisada e rotulada.
— Eu deveria ter ficado na UTI, dormindo por mais seis meses. – Akinnagbe é o primeiro a manifestar-se. Levanta-se, apanha sua arma e a guarda no coldre. Caminha até Yose e toca seu ombro, tirando-o do devaneio. – Vamos embora, irmão. Aqui não fico nem mais um minuto.
Sem dizer nada, Yose se levanta e suspira profundamente como se tivesse chorado. Caminha até a porta e a abre, esperando que o amigo passasse primeiro. Antes de sair, olha Regina por cima do ombro, de soslaio e depois vai embora.
Horas depois, Regina e Ruby estão sentadas à mesa do café da manhã.
— Vão hipnotizar o pão? – Kane se senta ao lado delas. – Vamos tentar ser razoáveis. É o que eu sugiro para esta situação.
— Você ouviu o que lhe contamos?
— Ouvi, Ruby.
— Você não ficou histérico e nem arrancou as calças pela cabeça.
— Por que eu faria isso?
— Falamos sobre uma criança vampiro em nossa cidade. Não relatamos um conto de Anne Rice. – Ruby altera um tom a sua voz.
Kane dá de ombros. Sorri muito sereno.
— E você acredita que conhecemos todos os mistérios que existem entre o Céu e a Terra? Pensa mesmo que somos os únicos que caminham nesta cidade maluca? Neste mundo insano?
— Mas conviver com o fato é diferente do que conviver com a ideia, Kane. – Regina bebe um gole do café. – Isso maculou minha convivência com meus parceiros. Tenho certeza de que Akin e Yose não ficarão ao meu lado, depois do que viram e ouviram esta noite.
— Eles se acostumarão. Yose ama você e não irá querer perder o que construíram.
— Chloe é uma menina vampiro!
Kane bebe um gole de café e sorri. Fala:
— Os seres humanos são mais cruéis do que crianças vampiros. Convivo com a inclemência dos seres humanos desde que eu nasci e tive de aprender a lidar com isso, quando me tornei policial.
Regina se debruça sobre a mesa.
— Perdi o único homem que me viu como mulher.
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