Quebrei minha casca

49 Tic, tac...tic tac...


— Termine seu almoço. Depois, quero que se banhe e vista algo requintado. – Marcus vai sentar-se afastado do seu cativo.

Abre uma das gavetas e apanha um charuto.

Yose observa a tranquilidade do policial e percebe algo como porta retratos ali dentro da gaveta. Disfarça, mas vê que Marcus não havia trancado a gaveta. Por ali, ele poderia descobrir onde estavam.

— Acha que Regina está me vendo?

— Claro que está! Meu informante me disse que montaram um QG numa das salas. Meu homenzinho feminino é ligeiro!

— Então, é uma questão de tempo para saber nossa localização.

Uma risada larga e uma baforada de fumaça é a primeira resposta do policial.

— Ela é ligeira e esperta, mas não é adivinha. Regina irá nos descobrir, quando eu quiser que ela descubra. Apenas torça para que chegue a tempo de salvar sua vida. Porque me pegar, ela não irá.

Yose retoma sua alimentação. Teria de aproveitar enquanto seu algoz estava com boa vontade.

A porta da sala de Regina é aberta e Ruby surge trazendo uma bandeja com comida. E é naquele momento, que a Capitã percebe que não havia se alimentado há muito tempo. O cheiro bom atiça seu estômago vazio.

— Recebi a informação de que mais usuários foram localizados pela Guarda do Governador. – a morena de cabelos longos coloca a bandeja sobre a mesa. – Akin me disse que está um alvoroço entre os hackers na darkweb, por causa de uma recompensa estipulada por um tal Colecionador. Ele quer Yose intacto.

— Colecionador? Outro maníaco?

— Não. Severina me confidenciou que foi invenção de Mason, para tornar Marcus um alvo dos caçadores de recompensa e dos mercenários.

Regina consegue sorrir. E mantém seu sorriso ao ver Chloe entrar na sala, com cara de recém despertado.

— Ruby, preciso ficar a sós com minha afilhada.

Instantes depois, Regina está lutando contra náuseas. Havia bebido sangue conscientemente e aquilo deveria valer a pena. Era sua dose de sacrifício para salvar a vida do seu homem.

— Não acontecerá agora, minha querida. Mas em algumas horas, seu corpo irá desenvolver algumas percepções. – Chloe sorri. – As coisas começarão a ficar mais claras aos seus olhos.

— Espero que sim, porque isso é horrível!

— É porque tinha anticoagulante no sangue.

— Ah! Só por isso, né?

O trabalho no Departamento de Polícia continua. Não era somente o caso de Yose que merecia atenção dos profissionais. A cidade inteira precisava de cuidados.

Quando Yose é acordado, sente a típica amnésia dos recém despertados. Lembra-se de ter sido bem alimentado e hidratado, o que provavelmente seria a porta para nova ingestão de alguma droga.

Senta-se na cama e é conduzido por Marcus para a sala onde estavam as câmeras. Tem os punhos algemados aos braços da cadeira. Ainda zonzo, não tem forças para saber o que estava havendo.

Momentos mais tarde, ele observa a movimentação de Marcus junto aos computadores. O homem também revezava sua atenção a um tablet, onde via imagens de um telejornal.

— Vai gostar disso. – ele aponta para a tela onde há o closed caption:

“ Um jovem de dezesseis anos foi morto na saída da escola, pouco depois do meio dia. Alvejado com um tiro na nuca, o jovem morreu na hora. O menor JM era um dos usuários da darkweb, envolvidos na investigação do rapto de Yose Dimarco, filho do nosso Governador Thomaz Landero. O mais assustador é que havia uma mensagem no celular do jovem, avisando que ele receberia na nuca, seu diamante pela sugestão dada para a tortura do policial Dimarco. Num exame urgente, peritos descobriram que não foi um projetil que matou o jovem, mas um diamante. ”

Marcus gargalha.

— Você matou uma dessas crianças estúpidas?

— Eu não. Meu comparsa e informante fez o serviço por mim, para confundir ainda mais os confusos policiais de nossa cidade e de nosso Estado.

Levantando-se, o policial mais velho esfrega as mãos como se as limpasse. Caminha até as câmeras e as posiciona na direção do prisioneiro. Depois, apanha uma caneca e a enche com água, colocando um pó cinzento lá dentro, logo em seguida. Mexe com a mesma colher que usara para pôr o pó cinza com cheiro característico.

— Reconheceu o cheiro disso? – ele acha graça na expressão de horror no rosto de Yose. – Sim, é cimento. A ideia é fazer você beber água com cimento, para aumentar seu sofrimento. A ideia não foi minha,viu?

Marcus apanha um pequeno funil, a caneca e vai na direção de Yose.

— Você tem duas opções: beber sem resistência ou engolir por meio deste funil.

Os olhos de Yose ficam descomunais quando ele os arregala. Isso não! Não seria tão dócil!

Marcus vai se aproximando de maneira serena, como se carregasse uma caneca com leite morno para ser servido. Sua expressão era calma e não havia sadismo em seu olhar. Tudo parecia tão natural!

Mas nada seria tão natural assim. Tão logo ele segura o queixo do cativo, percebe que não seria fácil fazê-lo beber aquilo. Yose se debate. Então, Marcus decide que a cabeça do rapaz deveria ser amarrada para facilitar o trabalho.

No momento em que retorna com uma fita adesiva para prender a cabeça de Yose no espaldar alto da cadeira, Marcus é surpreendido por uma reação feroz demais. Rosnando e gritando, o cativo se levanta e usando uma força brutal, nascida pelo desespero de uma morte iminente, arrebenta as algemas e avança sobre o policial mais velho, tomando-o de assalto.

Os dois lutam e Yose se cola ao corpo de Marcus como se possuísse ventosas grudentas e poderosas. A luta é feroz, assim como é feroz o aumento de usuários que começam a chegar na página. Uma corrente de avisos, alertando novos curiosos sobre o que estava havendo naquele lugar.

Marcus é surpreendido quando Yose abocanha uma de suas orelhas e com a força dos dentes, arranca todo o lóbulo, rasgando-o de cima até embaixo. O policial careca urra de dor e consegue se desvencilhar do agressor, desferindo um soco contra o lado de sua cabeça.

Zonzo de dor e gritando, o policial mais velho corre e sobe as escadas para fugir dali, deixando Yose sentado no chão, com a boca suja de sangue e a orelha presa entre seus dentes.

Cuspindo aquele pedaço de carne, Yose limpa a boca com o dorso da mão. Olha em volta e lembra-se dos porta-retratos na gaveta. Ele se levanta e vai até lá, abrindo o nicho em busca de algo que pudesse ajudar a identificar onde estava.

Ele sabia que Regina o estava vendo e iria oferecer informações para seu resgate. Mas ao apanhar os objetos, vê uma menina mal-humorada numa das fotos e um cachorro, na outra. Desespera-se, porque sabia que Marcus voltaria furioso contra ele.

— Pense, Yose, pense...

Nada ali serviria de ajuda.

Yose decide procurar informações em outro ponto. Aquele escritório era requintado demais para ser parte de alguma propriedade de Marcus. Ele não seria estúpido em esconder-se e usar uma de sus casas, como refúgio. Era obvio que eles estavam em um lugar que não pertencia a Marcus.

Mais uma vez, ele olha em volta à procura de informações. O decorador amava preto e vermelho. A cor preta também significa tristeza e reverência, mas também poderia significar elegância, luxo e sofisticação.

— Pessoas vestem preto em gala ou em luto...cor dos vampiros, dos dark...que são os góticos. – ele fica ofegante.- Pense, cara! Você já viu uma decoração como esta, em outro lugar.

Onde? Onde? Onde?A mente confusa não evoca memória alguma. Tudo estava efervescente, mas não estava nítido. Não conseguia fazer associação alguma.

Apoiando-se na mesa e orando para que Marcus não retornasse tão rápido, Yose se aproxima do monitor de um dos aparelhos e ajeita a câmera. Sabia que não o ouviriam, mas alguém saberia ler os seus gestos.

“ Regina, sei que você está me vendo! Venha depressa porque Marcus vai me matar agora! Eu não consigo saber onde estou! Não encontro pistas!”

Ele apanha a câmera e filma ao redor. Sabia que a imagem estaria horrível, porque suas mãos estavam trêmulas demais pela fraqueza, dor e drogas. Depois volta a câmera para seu rosto.

“ Não sei onde estou! Mas veja a decoração e ajude-me! Venha logo!”

Ia depositar a câmera sobre a mesa, mas acaba por derrubar. Instintivamente, tenta arrumar, porém, se assusta e larga o objeto, quando ouve sons ao longe e vê Marcus retornar intempestivo e raivoso.

O policial careca parecia usar uma máscara de terror. Rosnava e ainda trazia a pele suja de sangue. Estava totalmente alterado e animalizado.

Yose olha em volta e corre para alcançar um cinzeiro de coluna, num dos cantos da sala. Alcança o objeto e desfere um golpe no ar, quase atingindo o peito de Marcus, que habilmente se desvencilha.

Os olhos do policial careca estavam arregalados e pareciam querer saltar das órbitas. Marcus não havia limpado a ferida, mas havia usado alguma droga para sanar a dor. Pela reação, algo aplicável ou inalado.

Sem hesitar, Yose continua desferindo os golpes e Marcus fugindo deles.

— Vou acabar com sua raça, cachorro desgraçado!

Yose ataca e olha em volta, sabendo que teria de fugir. Percebe pela primeira vez, que um dos ambientes daquele cômodo imenso, estava escuro. Não poderia correr por ali.

— Você vai morrer hoje, maldito! – Marcus se afasta e aponta uma arma na direção do seu prisioneiro.

Dispara.