Na manhã seguinte, todos os servidores da delegacia forçam uma pausa para conseguirem ver a seleção dos “dançarinos”. Era a piada do dia e aquilo iria ficar ventilando por dias entre os assuntos mais bizarros da semana.

Regina se mostra indiferente às provocações e não sabia explicar porque, mas estava serena e tão confiante que algum milagre viria dar uma guinada em sua vida e em sua carreira.

Naquele dia, havia até arriscado usar um brilho labial e uma camisa menos masculina, mas uma mudança que não tinha sido percebida pelas pessoas.

Aos poucos, o pequeno auditório fica ainda menor para as apresentações. Vários policiais queriam começar seu dia bem e estavam animados com a possibilidade de quebrarem a rotina de sua luta diária. Não iriam assumir, mas estavam agradecidos por Regina ter inventado aquela pequena quebra de protocolo e possível diversão para os colegas. Sabiam que nenhum policial seria aprovado, mas iria valer a pena receber aquele presente inusitado para relaxar a tensão.

Quando Manson chega ao auditório, surge um silêncio constrangedor e sepulcral. O homem era uma figura assustadora em seus trajes escuros, elegantes e cabelos com corte incomum, para não dizer ridículo. Era um bizarro astro de rock, mal humorado e com a máscara da má vontade em seu rosto feio.

— Olá, Sr. Manson! Espero que não se incomode com os espectadores. – Regina sorri e sente-se incomodada com a maneira como o homem a devora com os olhos.

— Você está encantadora hoje, Regina. Posso dizer que está perfeitamente deliciosa e comestível. – Mason se mostra amigável e disposto a continuar aquela palhaçada até fim. Pelo menos seria um começo de dia bem agitado e divertido. – É verdade que você quer que eu veja essas coisas desalentadoras, dançando para mim?

— Sabe que preciso de alguém em sua boate. Tenha um pouco de boa vontade. Mas se o senhor não tem interesse...

— Tudo bem! Vamos começar a tortura da Inquisição.

Alguém se incumbe de cuidar do som e as apresentações começam. Ao som de gritos, assobios, aplausos, vaias e piadas, os policiais vão se exibindo apenas para sua diversão e da plateia, ignorando o verdadeiro objetivo daquele momento. Observando a animação de seus subordinados, Kane sequer se apresenta ao visitante e permanece junto à porta do auditório, rindo sem se conter. Era a situação mais ridícula que aquela delegacia havia vivido desde a sua inauguração. Aquilo poderia custar seu emprego.

— Tem mais alguma coisa saída do submundo dos zumbis para que eu veja, Regina? Talvez alguma autópsia ao vivo...- o empresário gargalha. – Talvez a volta dos mortos vivos?

Quando o último policial sai do palco improvisado, Regina começa a sentir humilhada e sem seu emprego. Teria de mudar de planeta, depois daquela situação nonsense, criada por ela. Quanta vergonha!

No corredor da delegacia, um policial agitado e sorridente arrasta outro policial insubmisso para aquele circo montado por Regina. Ele o havia arrancado de um setor afastado e o obrigado a acompanhá-lo até aquela reunião insana.

— Eu não quero!

— Ah, mas vai! Já que aquela explosão de uma ogiva nuclear está se exibindo, por que você não pode? Pode e vai!

Os dois entram na sala e antes que todo o pessoal fosse dispensado, o policial menor se apresenta com o mais abobalhado sorriso em seu rosto cínico.

— Ainda temos tempo de mais uma dança? Eu trouxe um amigo!

Manson abaixa a cabeça e cobre os olhos com uma das mãos, massageando as frontes com as pontas dos dedos. Solta alguns muxoxos e nega com a cabeça e depois esconde o rosto com o leque aberto. Mas levanta a cabeça ao sentir o toque da mão de Regina em seu braço, pedindo que ele desse mais uma chance a algum desavisado.

— Por favor...

— Estou no inferno. Caso eu dê um chute no saco do diabo, não mudará minha situação mesmo. — empresário resmunga e cruza braços e pernas, fazendo uma careta de desprezo e irritação.

O policial Akinnagbe saltita coordenado, sai correndo dali e quando retorna, vem arrastando outro policial pelo braço, deixando-o exposto para todos os olhares.

Um silêncio sepulcral toma conta do ambiente, até que o rapaz se posiciona para começar sua apresentação. Ele exibe seus olhos grandes e implora para que a música não seja iniciada, mas a pessoa que cuidava da sonoplastia o ignora e quando o som começa, gritos histéricos começam também.

Manson se empertiga na cadeira, deixa o queixo cair e retira os óculos para ver aquela criatura atrevida que havia sido jogada na arena para ser devorada pelas leoas. E que havia aceitado o desafio. E sua admiração cresce imediatamente, assim como determinada parte anatômica sua, animada com o regalo caído de algum recanto dos sátiros. Mas o que significava aquilo?

Regina não consegue acreditar no que estava vendo. Quem seria aquele pequeno Aquiles surgido do nada? Onde aquele homem estava escondido dentro daquela terra seca de ogros famintos e mal cheirosos? O que era tudo aquilo? Era uma flor de lótus!

E o rapaz começa a dançar sem dar importância se estava sendo criticado ou desejado. Move-se timidamente a princípio e depois assume a propriedade para divertir-se, sorrindo e deleitando-se com seus próprios movimentos. A jaqueta vai embora, em seguida a camisa, e somente a calça com o coturno são suficientes para atiçar o imaginário guloso das policiais, completamente fora de compostura. Ele sorri ainda mais quando a sua confiança aflora de algum ponto de sua alma. Sabia o quanto era bonito.

— Misericórdia! Isso é de verdade? – Manson se inclina para frente para ver melhor.

— Eu tenho fé de que seja... — resmunga Regina.

Quando o jovem roda uma cambalhota para frente, sem pôr as mãos no chão e para em sua posição final, provoca a mais barulhenta das apreciações. Eram gritos, assobios, aplausos, palavras sujas e mais piadas de duplo ou triplo sentido. Algumas policiais brincam ainda mais, erguendo cédulas de dinheiro.

— Estenda a mãozinha e ponho uma aliança! Casa, comida, dinheiro e muitos tapinhas no bumbum! – uma policial grita e provoca risos.

— Deixe-me pôr dinheiro em sua sunga, delícia! Quero ver meu investimento crescer! – grita outra.

— Sente-se aqui, gostoso! Eu me caso com você, caso fique grávido! – alguém grita lá no meio da multidão e não parecia ser uma mulher falando.

Manson se levanta como se quisesse apanhar o último pedaço do bolo da festa.

Caralho! Esse cara vai ser devorado vivo! Meus Vips vão comê-lo cru! — ele avança contra o policial, mas é impedido por Regina e rapidamente recobra sua sanidade e elegância. Depois segue com a policial cumprimentar o rapaz, que apenas sorria sem se importar com o alvoroço que havia causado.

— Sou o Sr. Manson e não tenho palavras para dizer algo sobre sua apresentação.

O jovem toca um aparelho atrás de sua orelha e mantém o sorriso.

— E a culpa é do policial Akinnagbe, por eu vir ao teste. – ele aponta para o companheiro que surge debochado e sorridente.

— Yose não queria vir, mas já que as apresentações foram abertas para o zoológico inteiro, eu insisti para que ele também participasse. Ganhei a aposta! – diz o policial sorridente.

— Obrigado por me incluir no “zoológico”. – Yose ironiza.

— Eu quero você como um dos meus dançarinos! – Manson estende a mão e toca o ombro do policial.

— Isso significa que Yose pode fazer parte de sua equipe, Senhora? – Akinnagbe encara Regina que havia se esquecido de respirar.

Ela apenas confirma com um movimento de cabeça. Depois se sente envergonhada por permitir que seu desejo fosse percebido. Com tantas belas mulheres ousadas em sua volta, o policial Yose iria rir de seu interesse nele. Ora, teria percebido? Abaixa a cabeça e procura algo para distrair-se.