Regina recebe uma garrafa com água gelada das mãos de Ruby, que despenca numa cadeira.

— O que foi aquilo?

— Um genocídio. – Ruby bebe a água no gargalo de sua garrafa. – De onde ele saiu? O faraó escondido no sarcófago e as múmias aqui em cima na sala trono?

Um policial entra na sala e entrega um pen drive para Regina. Ele informa:

— Isso pertence ao Akinnagbe. O DJ mandou devolver para ele. É a sonoplastia da dança do Yose.

Regina apanha o pen drive e aproveita-se para obter algumas informações.

— Ei, policial! Em qual setor o policial Yose trabalha?

— Ele fica no outro prédio trabalhando na digitalização dos arquivos, Senhorita Mills. – o homem encolhe os ombros. – Fizemos uma aposta de que ele conseguiria a vaga, mas foi apenas por brincadeira, porque pensei que surdos não dançassem.

— Ele é surdo?

— Não viram o aparelhinho atrás da orelha?

— Surdos dançam, tanto que fez o que fez. – Regina bebe a água. Inspira profundamente. – Agora, temos de reunir a equipe e estabelecer as prioridades. Mas antes, preciso ir a um encontro para fazer compras. Até mais tarde!

Quando Regina sai da sala, o policial olha por cima do ombro e levanta as sobrancelhas ao ver a pequena mudança no estilo da policial. Havia admirado as novas roupas e os contornos dela exibidos pela calça jeans mais justa, atraíram os olhos dele. Ela estava escondendo o jogo de sua beleza e de suas curvas, com aqueles jeans horrorosos que costumava usar. O homem inclina a cabeça para o lado, para ter visão melhor da parte traseira de Regina e não consegue disfarçar que estava babando.

— Concordo, cara! Ela estava perdendo tempo usando aqueles trapos de espantalhos, enquanto havia uma mulher perfeita ali. – Ruby bebe mais água e vai trabalhar em suas pesquisas.

Mais tarde, Marcus chega de sua investida na periferia e não parecia muito feliz com o resultado. Encontra Ruby fazendo anotações sobre as possibilidades do uso do desenho da montanha com traços de desenhos orientais.

— E o Mordomo Tropeço dos Adams? Ele levou o novo dançarino?

— Dançarino? Que dançarino? Você é tonto, por acaso?

— Falo do garoto nota dez da academia. O Monstro do lago Ness o levou para a boate?

— Claro que não! O Sr. Manson apreciou muito e ainda temos detalhes para cuidar da proteção de Yose.

— Não fazia ideia que tínhamos um stripper dentro da polícia. O cara é cheio de trejeitos, expressões...e agora mostra mais do que um boletim com notas altas.

— Despeitado! Conforme-se que há homens mais bonitos que você, Marcus. Tente ser charmoso mesmo dentro de sua feiura.

— Nossa! Regina me chamou de burro, agora você me chama de feio...o que falta mais?

— Limítrofe, machista, homofóbico e desinformado. Eu me esqueci de algo?

— Magoei. – ele se aproxima da colega e olha a tela do computador.

— O quanto se aproximou do uso do desenho?

Ruby empurra o homem para longe e mostra-se incomodada com a proximidade. Detestava a fragrância que ele chamava de perfume. Cheirava a tronco de árvore podre com limão.

— Estou unindo material porque vou ao bairro japonês, conseguir mais informações sobre as possibilidades.

— Empenhada, hein? Tem algum japonês com algo interessante para você, por lá?

Ignorando a provocação do policial, Ruby continua seu trabalho em poucos minutos se esquece de que há mais alguém na sala com ela.

Noutro ponto da cidade, Regina e Lacey entravam e saiam de lojas de roupas, cosméticos e acessórios femininos. Já que iria fazer uma mudança, que fosse radical e confiante. Por muitos e muitos anos, Regina havia apenas guardado dinheiro sem se preocupar em adquirir coisas de seu agrado e agora precisava mudar aquela situação.

— Precisa fazer algo com seus cabelos. – Lacey fala sorrindo, apontando para um salão no final do corredor do shopping.

— Nós duas. – Regina segura o braço da jovem e as duas vão se aventurar em novos ventos.

No final daquele dia, Regina deixa Lacey em sua casa e ao entregar um envelope para a jovem, a toma de surpresa.

— O que é isso?

— Sei que estou empatando o seu tempo, Lacey. Quero que aceite esse dinheiro.

— Eu vou aceitar sim, mas não torne isso um hábito. Fiz porque adorei a tarde e porque você deu uma lição naquele cliente maldito. Eu me diverti, fiz compras e estou linda! O que uma garota quer mais?

— Um emprego e uma vida decentes.

Lacey sorri constrangida, mas não desfaz o sorriso. Despede-se da policial e entra em sua casa.

Algum tempo depois, o carro de Regina para em frente a uma casa com fachada da madeira branca e ela olha o endereço escrito no papel, mais uma vez. Desce do veículo e vai anunciar sua chegada ao morador. Sim, havia acertado o local.

Olhando em volta, a policial vislumbra os contornos de uma criança parada do outro lado da calçada. Era uma menina, que sai correndo ao perceber que havia sido vista.

Regina faz uma careta engraçada e continua com o objetivo de sua visita.

— Boa noite! – ela sorri ao ver Yose abrir a porta.

O homem fica em silêncio por alguns segundos, observando a mais uma etapa de mudança no visual da mulher que comandaria sua equipe. Mas ela não precisava de tudo aquilo! Mesmo dentro daqueles jeans encardidos, Regina era a coisa mais linda para ver.

— Boa noite, Srta. Mills! Queira entrar! – ele possuía um sotaque desconhecido e falava macio. – O que a trouxe aqui?

Ela entra na sala pequena e admira toda a organização. Era a casa de um jovem solteiro e tinha tudo perfeitamente em ordem, como algumas casas de garotas zelosas. Nem todas as garotas eram assim...

— Sua casa é bonita.

— Obrigado! Eu estava preparando o jantar. Quer comer comigo?

— Eu trouxe legumes empanados. – ela ergue um pacote, o entrega ao jovem e o segue até a cozinha. – Quero dizer que fiquei impressionada com sua dança.

— Muitos ficaram. – ele abre o pacote e coloca o conteúdo em uma travessa refratária. Aponta uma garrafa de vinha sobre o balcão americano. – Abra o vinho. As taças estão ali.

Regina atende ao pedido que mais se parecia com uma ordem, mas não se esquece de dar uma boa admirada na parte traseira do corpo do homem. Belos contornos!

— Eu dançava no colegial. Fiz jazz e um ano de balé clássico, depois fiz free style.

Free Style? Ah, entendi o que é! O que seria? Regina concorda com a cabeça e começa a abrir a garrafa de vinho. Não iria assumir sua ignorância.

— Há quanto tempo trabalha conosco? Eu nunca o vi.

— Fui transferido há cerca de dois meses. Eu sofri um acidente enquanto estava noutra delegacia e depois que saí do hospital, meu superior decidiu que eu deveria ser afastado de lá para minha proteção. Meus pais queriam que eu saísse da profissão, mas sou persistente.

— Eu li sua e ficha e vi suas notas na academia...nunca o vi na redondeza do nosso distrito.

Yose olha rapidamente por cima do ombro e sorri, retornando sua atenção para o término do jantar.

— Mas eu sempre vi você, Srta. Mills. Só que você nunca olhou em minha direção. Permita-me dizer que sempre a achei tão linda, porém, agora está superando qualquer fantasia.

Um sobressalto na alma de Regina a faz derramar um pouco de vinho sobre o balcão. Apanha uma toalha de papel e enxuga a sujeira. Entrega uma taça para Yose.

— Bonita?

—Não. Eu disse linda. Sempre a achei linda. Por que está mudando o visual? Pelas piadas dos seus colegas? Caso esteja fazendo isso por eles, perde o seu tempo.

— Por que acha isso? – ela bebe um gole de vinho.

— Eles são rudes e vão entender errado a mensagem. Irão imaginar que você está ligando o sinal verde. Vão ser ainda mais rudes, mas desta vez com olhos gulosos de machos sobre a fêmea.

Que conversa surreal! Será que o cara tinha cheirado cimento? Cal ou pimenta?

— O que aconteceu a você? Por que sofreu o acidente?

— Fui colocado em campo e meu aparelho caiu durante uma luta. Em vez de comunicar ao meu superior na operação e ser retirado da batalha, continuei e não percebi a aproximação de um meliante. O cara me pegou e arrebentou comigo, porque eu não ouvi a aproximação dele. Lutamos, mas como eu estava zonzo, não pude revidar os golpes e também pus minha equipe em risco.Um gole de vinho é bebido.

Regina fica atenta ao homem, mais do que ouve sua história.

— Quando saí do hospital, fui transferido para um local onde não colocaria em risco a vida de meus colegas. Mas como eu disse: sou persistente e aceitei a aposta com Akinnagbe para fazer parte de sua equipe. – ele aponta para o aparelho auditivo. – Posso tomar conta de mim mesmo.

— Eu sei que pode, que irá e deverá. Preciso de alguém confiante, porque a boate é o covil da pessoa criminosa. Não falo mais no masculino, porque tudo é possível ali dentro. – Regina olha para os lados.

Ele sorri.

— Sabe, Akin é um excelente policial, mas sempre o deixam enfiado naquele arquivo. O cara tem potencial para trabalho de campo, mas nunca é lembrado. Gostaria de pedir que oferecesse um lugar para ele em sua equipe.

A mulher dá de ombros e sorri. Concorda.

Yose começa a preparar mesa para o jantar. Estava à vontade e permite que Regina se sinta bem com alguém desconhecido. Trocam sorrisos amáveis.

— Você usa Libras também? — Regina encolhe rapidamente os ombros.

— Aprendi depois que tive Meningite e perdi parte da audição. Fui levado pelos meus pais a uma escola especial e reaprendi a viver num mundo de sons. Os tratamentos conseguiram manter dez por cento de minha audição, mas há momento em que prefiro os sinais manuais.

— Você me ensinaria, um dia? São lindos!

As sobrancelhas grossas e escuras do homem se levantam rapidamente, junto com o esboço de um sorriso. Regina percebe a gula masculina naquele olhar celeste e poderoso. Tenta disfarçar.

— Já trabalhou infiltrado antes?

— Sim. Fiz papéis de manobrista, garoto de programas, vendedor de hotdogs, segurança...pode confiar em mim, Srta. Mills, porque não irei decepcioná-la.

— Precisa ser muito cuidadoso, Yose. A pessoa criminosa estará ao seu lado e talvez tocando em seu ombro.

— Ela precisará me conhecer primeiro, antes de estabelecer que pertenço à classe dos que devem ser punidos. Isso é uma punição, certo? O ritual tem todas as características de uma punição.

Regina faz uma careta e precisa concordar com o homem. Mas naquele momento, queria apenas jantar e conversar coisas sem importância.