Yose termina de lavar a louça, enxuga as mãos e apaga a luz da cozinha. Precisava de uma noite de sono para apagar todos os sentimentos ruins que havia corroído seu coração o dia todo. Sai do cômodo e antes de subir para o quarto, observa o celular e vê uma mensagem recente de Akinnagbe, desejando muita sorte e paciência na nova fase de sua vida.

Além dessa mensagem, muitas e muitas outras pediam que ele usasse sua influência com o Governador Thomaz, para conseguir seu retorno ao Distrito. Mas ele sabia que seria imprudente, já que Regina deveria ter interferido pessoalmente para tirá-lo dali e afastá-lo de sua vida. Afinal de contas, ela já não era aquela policial desmilinguida e sem brilho que ele havia conhecido. Era a Capitã Regina, condecorada por desmantelar uma quadrilha tremenda e poderosa.

A mulher que ele amava, o havia empurrado para fora da vida dela. O recado tinha sido claro: não preciso mais de você. Tenho fama, poder, dinheiro e uma menina vampira para me proteger. Não seria de admirar, se ela conseguisse um modo de proteger Marcus das penalidades por ser traficante, ocultador de cadáveres, manipulador de cenas de crime e assassino.

“Agora eu entendo porque ela aceitava os insultos de Marcus e a grosseria dele. Marcus e ela são insanos e compartilham das mesmas taras. Eu fui ingênuo por acreditar que ela me aceitaria como namorado ou marido. Desejo ótima sorte para ela!”— é a mensagem enviada de volta para Akin.

Ele larga o aparelho sobre o sofá e começa a subir a escada. Ao chegar no corredor, o vento frio vindo da janela aberta no fim daquele espaço, chama sua atenção. Aquela janela não deveria estar aberta. Um arrepio percorre sua coluna e ele estende a mão para tocar o interruptor, mas não há resposta. As luzes do corredor continuam apagadas.

Seu instinto grita mais alto e ele desce correndo em busca de sua arma, mas encontra o coldre vazio onde tinha sido deixado. Outra arma! Ele sempre tinha outra arma! Corre na direção de um móvel e antes que pudesse alcançar a gaveta onde ficava sua arma reserva, sente uma pancada forte no lado de sua cabeça.

Yose cai, completamente zonzo, embora ainda estivesse consciente. Levanta-se e consegue travar uma luta feroz contra o seu agressor. Os dois se debatem, caem e derrubam móveis, porém, Yose percebe que não tinha equilíbrio suficiente para escapar daquele ataque. Recebe um golpe no mesmo lado da cabeça que havia sido atingido e sente o sangue começar a escorrer pelo pescoço. Luta para ficar em pé, porém, sofre mais dois golpes violentos e não consegue ver ou sentir mais nada.

Em seu gabinete, Regina organiza sua agenda para o dia seguinte, tentando ocupar a sua mente para não pensar no que havia feito naquele dia. Seria sua primeira noite longe do seu jovem amado e seria a primeira de muitas. Seu celular vibra e ela vê a fotografia do rapaz aparecer na tela. Era uma chamada de voz e Regina decide não ouvir, porque se o fizesse iria sucumbir aos encantos do dono do par de olhos celestes mais apaixonantes que já vira.

“Fizemos nossa escolha, Yose. Siga seu caminho.”— ela envia uma mensagem a ele e decide bloqueá-lo em seus contatos.

Quando Yose desperta, começa a recobrar sua consciência e com ela surgem dores. Consegue sentar-se sobre uma superfície macia e percebe que seu corpo deveria estar ferido. Abaixa os olhos e observa que suas roupas tinham sido retiradas e somente sua cueca impedia que estivesse totalmente despido.

Ele havia sido espancado. Várias marcas pelas pernas, braços e barriga mostravam que a surra fora impiedosa, mesmo com ele desacordado.

A figura grande e volumosa de Marcus surge carregando uma bandeja. Os olhos de Yose se arregalam e ele não quer acreditar que estava à mercê do policial truculento enquanto não estava consciente.

— Olá, menino bonito! Você deve estar com fome, porque dormiu por mais de doze horas.

— O que aconteceu? Você me espancou?

Marcus se senta na mesma cama e encara Yose. Exibe o prato com uma sopa repleta de legumes e carne.

— Coma e recupere suas forças. – ele sorri. Estava mais assustador sem seu cavanhaque. – Você se rebelou e eu tive de puni-lo. Mas você passou pela academia e suportou os treinamentos físicos, então, suportará os hematomas.

— O que você quer, exatamente? – Yose apanha cuidadosamente o prato com a sopa. Queria mesmo comer.

— Faz mais de doze horas que entrei em contato com Regina e ela não me respondeu.

Yose mantém seus olhos imensos na direção do policial.

— Regina e eu rompemos o nosso noivado e ela me transferiu de volta para minha antiga unidade...

Marcus é pego de surpresa: Regina e Yose noivos? Transferência? Regina livre? Por segundos, ele fica pensativo, imaginando uma alternativa para o objetivo daquele sequestro. A quem reivindicaria o retorno da presença de Yose? Como manter a graça em sua brincadeira? Quem mais iria rir com ele? Para quem enviaria o resultado de sua diversão? Aos poucos, ele vai sorrindo e imaginando a bagunça que poderia criar entre os interessados pela saúde do menino. Iria brincar um pouco, animar-se, antes de entregar o corpo do amante morto para Regina.

— Quem diria isso, hein? Tomou um pé na bunda!

No final daquela tarde, o advogado de Manson chega acompanhado por Severina, a sobrinha do empresário. Era uma visita extraordinária ao prisioneiro e causa incômodo.

— O que houve? Você está bem? – ele se preocupa.

— Estou bem, tio, mas precisava muito falar com você.

— Não me mate de ansiedade. Fizeram algo de ruim?

Severina e o advogado se entreolham.

— Nossa casa foi invadida. Todos os diamantes que estavam lá, foram roubados.

O rosto de Manson sofre uma alteração.

— Vocês verificaram as câmeras de segurança? Viram quem foram os invasores?

— As câmeras foram todas danificadas depois do blackout, tio. Inclusive abriram o seu cofre particular, aquele que fica no banheiro de sua suíte. Estavam atrás de algo específico.

— Maldição! As mídias do leilão de Yose! – ele se levanta e começa a andar de um lado a outro.

— Mas o pior é que...Marcus entrou em contato comigo e ele...bom, ele está com Yose. Ele sequestrou Yose e criou uma página da dark web para interagir com os usuários, sob maneiras de produzir dor em seu menino de ouro.

Um rosnado furioso é a primeira reação de Manson.

— Eu vou aumentar o preço pela cabeça daquele desgraçado!!

— Vamos tentar tirar a vantagem das mãos de Marcus. – o advogado opina. – Use outros diamantes para pagar informações que tragam Yose para nós. Severina sabe lidar com a darkweb, então, sugiro que jogue os internautas contra Marcus. Ponha uma imensa recompensa pela cabeça dele.

— Não posso entrar na darkweb sem convite, mas posso achar alguém que nos ajude.

Manson fica pensativo por alguns segundos e depois exibe seu sorriso assustador.

— Avise Regina, o Governador Thomaz e a Imprensa. Vamos inventar que existe alguém de alcunha O Colecionador e que ficará furioso com o rapto, porque ele pôs valor altíssimo em Yose e não quer a obra de arte, avariada. Digam que ele pagará recompensa para quem der pistas sobre nosso menino.

Na manhã seguinte, Yose é acordado de maneira abrupta e rude.

Marcus estava furioso demais e queria um bode expiatório para direcionar sua raiva. Estava vendo as paredes se aproximarem e as saídas começarem a ser bloqueadas. Tinha agido por impulso para vingar-se de quem o havia prejudicado e não tinha pensado nas consequências. Agarra o queixo do prisioneiro para que o encare.

— Pedi aos visitantes da nossa página, para que compartilhem suas ideias. As sugestões serão enviadas, vou avaliar e escolher uma delas. Aplicarei a sugestão em você e depois darei um diamante para o autor da ideia.

— Do que você está falando, Marcus?

O policial sorri, apreciando a expressão de medo e confusão do homem mais jovem.

— Você ficará sabendo no momento oportuno. Hoje, você ficará sem alimento e sem água. Na virada no dia, eu trarei provisões.

Yose se move sobre a cama e percebe que seu tornozelo está preso por uma corrente longa, que apenas lhe daria acesso até ao banheiro. Deixado sozinho naquele porão, o policial observa que o ambiente não havia sido improvisado para recebê-lo: era parte de uma residência e tudo era perfeitamente organizado como parte integrante da casa, tudo ricamente decorado em preto e vermelho. Não tinha janela, tinha ar condicionado e tudo indicava ser um porão. Mas um belíssimo e elegante porão.

Dois computadores estavam ligados e Yose consegue ver a rapidez com que os números de visitantes da página aumentavam rapidamente. Eram pessoas sedentas por imagens ruins e provavelmente de tortura. E tinha a absoluta certeza de que eram adolescentes.

Noutro ponto da cidade...

— O Governador Thomaz já ordenou que sua guarda pessoal entre na busca de Yose. Eu soube que Manson estipulou uma recompensa para quem devolver nosso menino. Há um forte boato sobre um tal Colecionador que quer Yose vivo e oferece diamantes para quem devolvê-lo saudável.

Regina praticamente não escuta o que Akinnagbe tinha dito. Precisava fazer algo porque o sequestro tinha acontecido dentro de sua jurisdição e ela iria cortar caminho.

— Ruby, organize a equipe e comece a trabalhar. Faça o levantamento das propriedades da família de Marcus e envie equipes para todas elas. Vasculhem cada canto sem piedade, mas quero Yose inteiro. – ela se volta para Akinnagbe e segura-o pela nuca. – Você vai se sentar na frente do computador e vai descobrir um meio de interagir com a página de Marcus, na dark web.

— Pode deixar...vou tentar...

— O que está esperando? Mãos à obra!

Deixando sua equipe para trás, Regina praticamente voa para sua casa. Orava pedindo que Chloe estivesse por lá, porque a menina costumava desaparecer por dias inteiros e sem dar satisfação. Mas naquele dia, tudo parecia diferente.

Chloe estava limpando o corrimão da escada que dava acesso ao segundo andar, quando Regina entra na casa escura pelo fechamento das cortinas, de forma abrupta.

— Os banheiros estão livres. Não precisa correr. – ironiza a menina lá de cima da escada.

— Marcus sequestrou Yose! Precisamos encontrá-lo, antes que Marcus o mate!

Chloe apenas arqueia as sobrancelhas, como se estivesse esperando a parte importante da história.

— Não entendi.

— Marcus sequestrou Yose!

— Regina, eu disse que não entendi. Não disse que não escutei. – ela para sua arrumação. — E o que eu tenho a ver com isso? O que posso fazer pelo homem que vive me rejeitando?

— Eu amo aquele homem! Caso ele morra, vou com ele!

A menina acha graça na pieguice de Regina.

— Não irá não. Seus pais morreram e você continua viva. Você foi apartada de Kane e de Marcus quando descobriu que ambos eram falíveis, e continua viva. Caso Yose morra, você seguirá viva.

Regina se aproxima da menina e segura a gola da camiseta da garota.

— Estou pedindo ajuda a você, menina velha. – ela rosna com os dentes travados. – Caso meu homem morra, vou encontrar alguma criatura como você, tornar-me uma vampira e vou viver os próximos séculos para infernizar a sua existência.

Desvencilhando-se da prisão, Chloe se afasta.

— Mesmo que você se torne como eu, sempre será mais jovem que eu. Eu saberei sempre mais do que você e não serei pega em truques amadores de recém-transformados. – ela cruza os braços na frente do peito. – Além do mais, Yose não é mais seu homem, porque você escolheu ficar cuidando de mim. Ele está livre e qualquer policial do país, poderá reivindicar o filho do governador.

Afastando-se, Regina fica pensativa. Precisava encontrar um modo eficiente dentro de suas possibilidades, para encontrar Yose, mas sem pôr em risco a vida dele e de Marcus. Apanha sua bolsa e as chaves do carro para sair dali, quando sua passagem é obstruída pela garota velha.

— Não tenho como localizá-lo rapidamente, porque ele não tem vínculo de sangue comigo. O que sugere?

— Você poderá localizá-lo pelo cheiro!

Chloe gargalha.

— Eu não sou lobisomem! Sou uma vampira!