Quebrei minha casca

47 Perversidades e buscas


Yose observa Marcus entrar no cômodo, descendo calmamente pela escada acarpetada. O policial careca liga os dois computadores, aguarda alguns instantes e sorri ao ver a mudança dos números de visitantes. Ele se volta para o prisioneiro. Sorri ao perceber que estava sendo fitado.

— Consegui computar as sugestões e escolhi uma delas. Como a maioria dos visitantes são adolescentes, as soluções são bem pueris, mas considerei uma como viável, para começarmos.

— Do que você está falando?

Marcus vai para a cama e abre a corrente que prendia o tornozelo de Yose. Por segundos, descuida-se, confiando na fraqueza física do rapaz pela falta de hidratação e alimentação. Equivoca-se. Yose avança feroz.

Os dois não podem ver, porém, enquanto a luta física é travada, o número de frases é aumentado trazendo o teor da crueldade juvenil. Enfraquecido pelas feridas, pela droga e pela falta de abastecimento, Yose é dominado pela força e agressividade de Marcus. O policial mais velho ainda mantinha excelente forma física dos áureos tempos em que lutava em ringues, além dos constantes treinamentos com Kane.

Yose é arrastado e colocado em uma cadeira. Tem os pés e mãos amarrados ao móvel, para que nova surpresa fosse apresentada. É obrigado e levantar a cabeça, quando os cabelos são puxados.

— Seja inteligente, menino bonito. Precisamos manter sua vida, o máximo de tempo possível. Eu quero assistir a celeuma e quero ver os policiais batendo cabeça para descobrirem nosso paradeiro. – Marcus aponta para as telas dos computadores e sorri. – A meninada está ficando excitada e exige que eu tome providências contra sua falta de educação.

O policial mais velho abre uma pequena maleta e retira um alicate de lá. Olha-o com admiração e o exibe para os olhos arregalados e furiosos de Yose.

— Vamos realizar a primeira vontade de nossos espectadores. Vai doer um pouco, mas depois do sangramento, a dor diminui. Eu posso afirmar porque já vivi isso. – caminha para Yose e irrita-se ainda mais quando não vê o jovem implorar o contrário.

No distrito, naquele mesmo momento...

— Há policiais da guarda do Governador em visita a todas as propriedades da família de Marcus. Há uma fazenda de criação de cabras; há um hotel pesqueiro; duas pousadas e um silo desativado por motivos judiciais. Este foi o primeiro a ser visitado, mas somente encontraram os seguranças que tomam conta do local, durante o embargo. – Akinnagbe coloca as informações sobre a mesa. – Inclusive a casa dos pais dele, também foi vasculhada.

— A casa de Marcus esta vigiada há muito tempo. Ele não teria como retornar levando Yose. – Ruby estava agitada e incomodada demais com a situação, principalmente por ser fitada pelos olhos vítreos de Chloe.

— Sabemos que será preciso refazer todo o serviço da guarda do Governador. – Regina fala sem entonação, embora sua alma fervesse em desespero. – Por isso, preciso pedir a vocês, que confiem em Chloe.

— Ela irá trabalhar conosco? – Ruby consegue perguntar.

— Vamos contar com as habilidades dela. Posso contar com a discrição de vocês?

Akinnagbe e Ruby apenas se entreolham e depois concordam sem dizer nada.

— Chloe e eu iremos visitar as propriedades novamente, verificar detalhes que não foram percebidos. Peço que fiquem atentos a todas as informações que chegarem por denúncias. Serão vários trotes, mas algum deles será algo verdadeiro.

Naquela noite, Marcus desliga os computadores. Precisava de tempo para cuidar de seu cativo e depois ler as engraçadas sugestões de seus usuários adolescentes, sedentos por cenas de violência, mas sem imaginação para criá-las.

Yose ainda estava atado à cadeira, com a cabeça caída sobre o peito. O sangramento de sua mão havia parado. O policial havia suportado a dor sem reclamar, enquanto suas unhas eram retiradas com brutalidade e uso de um estranho alicate.

— Você precisa de um banho, menino bonito. – Marcus fala, segurando o queixo do prisioneiro. – Você está com uma mistura muito forte de odores e isso me incomoda.

Mesmo dolorido e cansado, Yose consegue banhar-se. As mãos trêmulas mal conseguiam segurar o tubo do sabonete líquido, mas ele se esforça. Retira o sangue seco de sua pele e consegue enxugar-se sem a ajuda do seu algoz, que não havia lhe dado privacidade.

— Lamento, mas hoje não tenho roupas limpas para você. Mas somos ambos homens e certamente já vimos outros homens nus, durante os banhos nos vestiários. Você é modelo e não deve ter problemas com sua nudez, então, ficará tranquilo sem roupas. – ele dá de ombros. – Sou hétero.

Yose não responde, embora tenha entendido a fala de Marcus. É conduzido para sua cama e enrola-se no cobertor para dormir, porque sabia que não seria abastecido naquela noite. Tinha de dormir.

— Eu vou fazer um curativo em sua mão. Não seja deselegante com quem quer ajudar você.

Uma pomada com propriedade anestésica é passada sobre os dedos feridos e bandagens protege a fragilidade da carne agredida. Marcus trata Yose com estranho carinho, conseguindo confundir a mente do policial mais jovem, que inicia uma nova luta: não desenvolver a Síndrome de Estocolmo.

Era tarde da noite, quando Severina chega ao distrito procurando por Regina. É conduzida até a sala da equipe, onde os policiais trabalhavam com as pistas que tinham em mãos.

— Regina, esta jovem precisa conversar com você.

Todos os olhos se voltam para a sobrinha de Manson. A jovem trazia um notebook nas mãos e sua expressão parecia assustada.

— Srta. Mills, preciso mostrar o que encontrei na dark web. Marcus abriu uma página e está mostrando a tortura contra Yose.

A máquina é praticamente arrancada das mãos de Severina por Akinnagbe, colocando-a sobre a mesa e ligando-a imediatamente. Severina auxilia a localizar o site, deixando os policiais perplexos.

As imagens de Yose deitado sobre uma cama grande, enrolado em um cobertor, tomado por hematomas nas partes de pele que estavam sendo exibidas.

— Os visitantes estão fazendo sugestões de provocação de dor. Marcus escolhe uma delas e aplica em Yose. – Severina aponta para a tela. – Marcus avisou que quer oito etapas e começou hoje, com a retirada de três unhas de Yose, com o uso de um alicate. Ele ofereceu recompensa para a sugestão escolhida.

— Marcus ofereceu recompensa?

— Um diamante que será enviado para a casa do escolhido. Ele sabe identificar o IP do computador, mesmo que seja trocado a cada duas horas. – Severina estava emocionada. – Não sou uma expert na dark web, mas conheço alguém que pode nos ajudar, localizando os endereços de quem está participando dessa atrocidade.

Momentos mais tarde, já no começo da madrugada, Regina, Chloe e Severina chegam à uma casa de dois andares em um bairro residencial de classe média. Param diante da casa e vão em busca do morador dali.

Quando a porta se abre, uma mulher de longos cabelos crespos e vermelhos sorri e não enxerga estranheza numa visita naquelas horas. Estava acostumada com o entra e sai de colegas do filho em busca de ajuda com a internet.

— Bom dia, Sra. Lorane! Sou Severina, amiga de Jared e precisamos da ajuda dele, para encontrar um policial sequestrado. Estes são meus amigos: a Capitã Regina Mills e Chloe.

— Amigos de meu filho são meus amigos. Podem entrar!

No porão da casa, um menino de nariz adunco e cabeça grande aparece sorrindo. Ele abre os braços e cumprimenta Severina.

— Precisamos de sua ajuda, Jared! É urgente, porque há um policial em cativeiro!

— Sei do que se trata! Raptaram o filho do Governador! Meus contatos me disseram! — ele gesticula e todos os seguem para sua sala de diversões e trabalho.

Lá dentro, vários computadores estavam ligados em várias páginas da dark web. A página de Marcus também estava sendo exibida.

— Pode encontrar os endereços dos visitantes dessa página em especial? – pergunta Regina controlando suas emoções. – Preciso saber quem está sugerindo torturas ao meu policial.

Jared se senta diante de um dos computadores e sorri desdenhoso.

— E o que eu ganharia com isso? Marcus está oferecendo diamantes. pelas sugestões. O que vocês podem me oferecer?

Chloe avança como se fosse um felino para o garoto. Exibe seus olhos bem clarinhos e brilhantes, além de dentes deformados. Rosna:

— Eu posso oferecer a permanência de sua medula onde ela está exatamente, assim como sua cabeça em cima de seus ombros! Considere-se privilegiado!

— Uau! Como você faz isso?? Que maneiro!!

Com a presença de mãe, o garoto hacker é levado com parte de seu equipamento, para o distrito policial. Imediatamente começa a trabalhar em companhia de Severina e Akinnagbe.

Era manhã, quando Yose acorda sentindo o cheiro de café fresco. Senta-se na cama e observa Marcus preparando um desjejum rico e farto. Rapidamente, olha para os computadores desligados e aquilo o tranquiliza.

— Bom dia, menino bonito! Consegui uma calça de moletom para você, querido. Depois do café, vou trocar o curativo de seus dedos e aplicar-lhe um coquetel de analgésico e anti-inflamatório. Precisamos mantê-lo bem, até o final das etapas. Cumprimos apenas uma delas.

Depois do café, hidratado e alimentado, Yose se encolhe sobre a cama. Seus olhos acompanham o trabalho de Marcus na leitura das sugestões enviadas pelos visitantes.

— Como você pretende efetuar o pagamento dos seus escolhidos? – ele arrisca a pergunta.

Marcus olha por cima do ombro. Sabia que deveria olhar para que Yose o entendesse melhor.

— Já identifiquei os endereços dos computadores, das casas, das escolas e vou entregar pessoalmente o pagamento. Vou dar mais trabalho aos policiais trapalhões do Governador.

— Esses usuários estão nos ouvindo?

— Não. Por isso não sabem que o diamante será fincado na nuca, com um disparo de revólver. – Marcus gargalha e vira-se de costas, ignorando a presença do cativo.

Depois de almoçar, Yose recebe uma aplicação de analgésico e anti-inflamatório, mas percebe que momentos depois, que algo mais estava misturado aos medicamentos. Sente seus músculos ficarem amolecidos e isso facilita o trabalho de Marcus em colocá-lo na cadeira, contendo-o com amarras nos pés e mãos.

Quando a noite cai, Yose sente impactos contra o seu rosto. Estava levando bofetadas para despertar e ele se empertiga na cadeira. Sente o coração tamborilar e o medo percorrer por todo o seu corpo, porque sabia que outra sugestão cruel tinha sido escolhida.

— Sabe, Yose, eu não sei que você provoca nas pessoas, mas a sua presença provocou muita desgraça em minha vida. Perdi meu emprego, minhas propriedades, minha amada Regina, minha liberdade, minha dignidade...

— Marcus...quem destruiu sua vida foi você mesmo. Suas escolhas, sua ganância...sua frieza e seus acordos com as pessoas erradas. Você atirou...no próprio pé.

Marcus não responde. Afasta-se dali e vai sentar-se numa poltrona. Aguarda pouco mais de uma hora e depois vai acionar a melhoria das imagens das câmeras. Em seguida, apanha uma pequena caixa de madeira. De lá dentro, retira um frasco cuja tampa era um conta gotas. A exibe ao prisioneiro.

— A sugestão de hoje causará a dor da queimadura, mas assim que desligarmos as câmeras, receberá seu curativo para amenizar seu novo sofrimento.

Com as mãos contidas, Yose arregala os olhos e sabe o que iria sentir quando Marcus liberasse as gotas sobre sua pele. E mais uma vez, ele não grita quando as gotas do ácido caem sobre a carne de sua coxa.

Do outro lado da tela, Regina presencia a cena e chora por Yose. Sabia que ele não iria gritar ou chorar, mas ela poderia fazer isso por ele.