Manson entra na sala e não vem algemado. Estava destruído e Regina decide não submetê-lo ainda mais. Havia pagado um preço muito alto por suas atividades ilegais e pela participação nas mortes, então, não seria necessário ter de circular algemado com parte de punição.

Seu rosto pálido e cansado se ilumina, quando Yose se aproxima e assume a sua condução, depois de agradecer aos outros policiais. O empresário não consegue esconder seu encantamento por tudo o que Yose representava em seus dias: um pequeno raio de sol iluminando e aquecendo seu caminho gótico.

— Cuide para que Anadette seja cremada, Yose. – ele segura o antebraço do policial. — Confio essa tarefa a você...e quero que cuide dos funcionários da boate, porque eles não têm culpa de meus crimes. Há dinheiro e diamantes em um cofre em meu quarto na boate e vou passar a senha para que de atender a todos os funcionários, incluindo os dançarinos. Pode fazer isso por mim?

O policial espreme os lábios, olha para os lados e depois concorda com a cabeça.

— Como minha irmã estava? – o empresário pergunta antes de sentar-se.

— Serena. Usaram o mesmo modus operandi e quero acreditar que ela não deva ter sentido dor.

Na sala, além de Manson e seu advogado, estavam Regina e dois dos membros de sua equipe. Do lado de fora da sala, observando pela parede de vidro, estavam o Governador e seus assessores, além do Secretário de Segurança.

— Meu filho é tão lindo! – cochicha o Thomaz para seu secretário particular.

— Tem um olhar que reveza a doçura e a ferocidade. Lembra-me do senhor, quando tinha a idade dele. Vai reconhecê-lo?

— Quando isso acabar, vou reconhece-lo mesmo à revelia.

No cômodo ao lado, Regina começa a conduzir o novo depoimento de Manson. Ela já havia sido notificada sobre sua nova posição, mas sequer se abalara. Sua preocupação estava focada naquela situação assustadora e grandiosa, envolvendo nomes de pessoas até então poderosas naquela sociedade. Ainda não fora tocada com aquela mudança efêmera em sua carreira, mesmo tendo sido anunciada pelo próprio Governador Thomaz.

— Podemos começar? O senhor quer fazer algum pedido em especial? – ela pergunta em tom suave. Sentia respeito pela dor do empresário.

Ele apenas espreme os lábios e fica pensativo por alguns segundos.

— Quero que o policial Yose permaneça o tempo todo do depoimento. A presença dele me conforta e aquece minha alma.

Entreolhando-se, os membros da polícia não falam nada até que Regina se manifesta:

— Quem decidirá isso é Yose.

Cruzando os braços diante do peito, Yose esboça um sorriso lerdo. Pisca pesadamente e concorda, meio à contragosto.

— Vamos começar o depoimento? Eu quero e preciso falar tudo o que sei, porque pelo meu pecado...paguei um preço alto demais. – Mason passa a mão pelos cabelos pintados de preto. Sorri. — Pelo visto, a minha alma não sairá pela minha boca.

Regina e seus policiais se entreolham, sem demonstrar emoção alguma. Em seguida, Ruby vai ligar a câmera para filmar e gravar o depoimento. A situação era muito constrangedora para todos.

— Vamos começar?

Manson olha Yose com intensidade e sorri. Queria muito poder tocar aquela preciosidade, queria sentir novamente aquela confusão de emoções, da noite do leilão. Arriscaria tudo, para conseguir aquela singularidade que viria acompanhada daquela mulher maravilhosa de olhos castanhos. Sorri de si para si e mascara suas intenções perversas. Espera a câmera ser ligada para começar a falar:

— Mesmo sabendo que você não estava em minha boate como um dos meus meninos, confesso que me apeguei a você. Arrisquei permitir que meu coração ficasse apaixonado. – ele enxuga o rosto e fica acariciando a caixa de lenço de papel. Funga algumas vezes. – Adorei a sua arrogância e segurança quando me desafiou quanto ao pagamento do leilão. Fantasiei que poderia incorporar você ao meu elenco e depois em minha vida. Mas...

— Por favor, atenha-se ao depoimento. – Regina é ouvida. Começa a zangar-se.

— Caso Vladimir o tivesse visto, jamais deixaria você sair ileso do nosso convívio. Mas ele irá conhecer você e certamente me dará razão.

Calmamente, Regina apoia as mãos sobre a mesa e inclina-se na direção do empresário. Arreganha os dentes e rosna:

— Mantenha as suas garras longe de meu policial. Fique feliz por eu não acrescentar o crime de sevícia, à sua ficha criminal. Portanto, comece a falar sem mais exigências.

Todos ficam em silêncio na sala por alguns segundos. Manson debocha, leva seus olhos na direção da câmera e faz de conta que está olhando para cada um de seus sócios naquela quadrilha que havia lhe dado fama, muito dinheiro, e que havia roubado a única família que ainda tinha.

Regina se senta e começa a orientação do depoimento:

— Diga-nos primeiro o seu nome verdadeiro.

— Sou Nicolas Saradon e tenho cinquenta e cinco anos. Tornei-me Frank Mason com documentos falsos para começar minha vida empresarial e fugir de meus crimes quando era Nicolas.

— Qual era o seu relacionamento com a juíza Anadette Saradon?

— Ela é minha irmã e ajudou-me a iniciar uma nova vida, como um homem novo, com novo nome e com passado limpo.

— Qual era o envolvimento de Anadette Saradon nas mortes dos dançarinos?

— Nenhuma participação direta. Ela apenas liberava os prisioneiros para fazerem parte de meu elenco de dançarinos e das festas sexuais. E também liberava pessoas para outros empresários.

— E quem indicava ou escolhia os prisioneiros para serem libertados?

— O diretor do presídio estadual situado na capital, Henrico Enos. Ele selecionava os prisioneiros sem famílias e com crimes que poderiam ser considerados mais leves. Enviava seus nomes para Anadette e ela conduzia a liberação dos prisioneiros.

— Por que não se contratava pessoas de fora da cadeia? Por que necessariamente os dançarinos tinham de ser prisioneiros e sem família?

Manson funga mais algumas vezes, bebe um gole de água e estreita os olhos na direção de Yose. Morde a mandíbula e engole toda a saliva que enche sua boca. Tanto Regina quanto Yose, produziam muita ativação em suas glândulas salivares.

— Porque deveriam participar de festas sexuais. Caso fossem mortos, ninguém os reivindicaria ou exigiria indenização do Estado. Os Vips pagavam bem a todo aquele que aceitasse fazer parte dessas festas sadomasoquistas e violentas. Soube de festas espalhadas pelo Estado, que perdiam matéria prima devido à ferocidade dos atores. Anadette não liberava presidiários apenas para minha boate, mas para mais quatro boates do Estado e de outras unidades da Federação.

— Dançarinos morriam devido à violência das orgias?

— Sim, senhora. Por isso era preciso a reposição de matéria prima. Mas em minha boate, houve apenas uma morte durante as festas. E foi isso que desenrolou toda essa confusão.

Regina faz algumas anotações para seus relatórios, que seriam encaminhados para o início do processo judicial.

— E como aconteceu essa morte em sua festa?

— O cara seria açoitado para produzir prazer nos convidados. Ocorre que ele teve uma parada cardíaca e morreu. Devolvemos o corpo para o presídio.

— Quem devolveu o corpo?

— Vladimir e eu.

— E onde Radu e os outros dançarinos entram nisso?

Manson inspira profundamente e não desvia o olhar do rosto de Yose. Cheira o ar, como se buscasse o perfume de seus objetos de desejo.

Incomodada com aquela tentativa de intimidação, Regina esmurra a mesa, levanta-se e ordena a saída do policial daquela sala. Algo estava sendo avisado e a policial percebe alguma mensagem subliminar no olhar do empresário. Não estava apreciando o cheiro que Mason estava exalando.

Silencioso, Yose obedece a ordem recebida.

Sem apreciar a saída do Precioso, o empresário leva vários minutos para retomar sua serenidade e continuar sua fala. Havia sido contrariado e pensa muito para decidir se iria continuar. Mas por que não? Esconder suas informações e morrer depois? Ou morrer sem entregar os outros pilantras?

— O cinegrafista vendeu o vídeo para Radu por uma quantia que pudesse ajudá-lo a fugir do Estado ou do país. Então, Radu e os outros dançarinos passaram a nos chantagear.

— E deveriam ser mortos por isso?

— Quando o montante é muito alto, vidas não têm valor algum., sobretudo, de presidiários. Então, todos decidiram que era a única maneira de livrar-nos das chantagens. Mas não poderiam ser simples mortes e precisávamos confundir a opinião pública e as investigações. Então, entrou em cena o trabalho de um policial pago pela nossa Família.

Regina sente seu coração bater mais forte em seu peito.

— Preciso perguntar quem é esse policial?

— O maldito Marcus Khahan. Ele trabalhava conosco a cerca de três anos, porque precisávamos de apoio logístico em caso de termos de enfrentar problemas na área ou precisássemos de proteção. Marcus apresentou a ideia e providenciou todo o cenário e os passos a serem seguidos. Os dois cirurgiões Jorge e Lenny participaram com as suturas perfeitas, para comporem a falsa assinatura do assassino. Marcus se aproximou dos dançarinos e os convenceu de que os protegeria. Depois os drogava, transportando-os para suas casas e ali era provocada uma embolia, injetando ar nas veias.

O coração de Regina saltitava em seu peito e todas as suas emoções brigavam entre si. Ela chora por dentro, rasga seu espírito e trava uma luta contra algum descontrole. Seu parceiro, seu amigo e mentor, nada mais era do que um traficante e assassino. Havia confiado sua vida a ele, virado suas costas sem medo, caminhado e feito vigílias ao lado dele, sem temer absolutamente nada. E na verdade estava vivendo ao lado de um criminoso.

— Onde o policial Elijah Kane participa?

— Que eu saiba...em absolutamente nada. Marcus forjou um furto na casa de Kane e apropriou-se de objetos e das chaves do apartamento para direcionar a atenção para o policial Kane. Usou informações sobre cultura oriental e hindu, que conseguiu com a convivência com Kane e criou essa pantomima.

— Fomos informados por um dos dançarinos, que o senhor ordenou que ele falasse sobre a existência de uma fotografia de Radu, tirada na tarde da fuga dele.

— Sim, senhora. – Manson enxuga os olhos mais uma vez. – O policial me orientou a direcionarmos uma conversa sobre a fotografia, o que certamente faria com que vocês chegassem ao apartamento e associassem a Kane. Além disso, tínhamos a esperança de que vocês pudessem encontrar pistas sobre o paradeiro de Radu.