Quebrei minha casca
51 Reta final
Os agentes da lei já haviam saído da boate.
Era tarde da noite.Regina observa os últimos carros saindo do local e os peritos cercando o prédio, interditando toda a região para evitar entrada de estranhos à cena do crime.
— Há repórteres esperando um pronunciamento seu. – informa um dos agentes do Governador.
— Eu vou ficar aqui um pouco mais.
— O que digo a eles, Capitã?
— Amanhã eu falarei numa coletiva, no Departamento de Polícia. Peça aos seus homens que retirem todos daqui, porque não vão obter exclusiva alguma. Caso eles não saiam, ordenarei aos meus soldados para que os tirem à força.
— Sim, senhora! – o homem toca o ombro de Regina. – Receba os agradecimentos do Governador. Tenha certeza de que ele está radiante e será eterno devedor. Tenha ótimo dia e até mais tarde!
Regina não mostra reação alguma. Apenas se concentra em seu coração dividido entre Yose e Marcus.
Era quase manhã, quando Chloe surge de algum ponto da boate. Havia se escondido para evitar problemas para Regina, como algum questionamento sobre sua presença com a policial.
— O sol já vai nascer, Regina. Preciso me esconder e encontrei um lugar bom, na adega no prédio. Os seus homens já vasculharam e não encontraram Marcus, ali. Preciso ir dormir ou o sol irá me incinerar.
— Vá! Eu vou ficar mais um pouco com os peritos.
— Cuide-se. Estarei em sua casa, quando decidir aparecer por lá.
E o dia chega.
As câmeras que filmaram Yose tinham sido desligadas pelos peritos, que recolhem todo o material para análise e obtenção de provas, incluindo os computadores e materiais usados na tortura.
— Já terminamos o nosso trabalho, Srta. Mills. A boate ficará interditada por mais alguns dias. Quer algo mais?
— Eu pedi para que um carro fique a postos do lado de fora, para evitar que alguém venha invadir o local para conseguir fotos ou souvenires. Mas eu os dispensarei depois do meio dia.
— Recolhemos todo o material que precisaremos para a análise, mas como se trata de um policial como vítima e outro policial como agressor, certamente iremos retornar ao longo do dia, para não deixarmos vestígio algum para trás. Tenha um bom dia, Srta. Mills.
Pouco mais de uma hora depois, Regina caminha pelo salão onde aconteciam as festas, os shows e todo o trânsito de convidados ávidos pela beleza do dançarinos. Tudo estava silencioso.
— Pensei que estas ratazanas não iriam embora, jamais.
Regina acha graça. Volta-se e vê Marcus.
— Onde você estava escondido? Como está sua ferida? – ela aponta para a própria orelha.
— Sou paramédico e sei me cuidar. Com o tempo, eu mandarei pôr uma prótese. – Marcus passa a mãp pela testa. – Eu estava no quarto do pânico, porque não tive tempo de fugir, quando fui avisado.
Regina vai se sentar e é acompanhada pelo amigo.
— Consegue ficar neste quarto do pânico por quanto tempo?
— Está preparado para hospedar alguém por um mês. – Marcus se mostra exaurido. – Enquanto eles me procuram, ficarei organizando minha fuga. Por que não vem comigo?
— Eu deveria matar você, pelo que fez ao meu amado.
O policial acha graça e ri.
— Yose não é o seu amor. Ele representa o homem perfeito para fantasias sexuais femininas. É jovem, bonito e fogoso. Você ama o que ele pode lhe proporcionar na cama, mas o seu amor é sentido por mim. Olhe nos meus olhos e diga que estou mentindo.
Regina amua. Encara o policial e depois posiciona-se para beijar-lhe os lábios.
— O que vamos fazer com você? – ela pergunta. Mantém a testa colada à testa do homem.
— O que tem de ser feito: facilitar minha fuga.
Levantando-se, Regina começa a andar de um lado ao outro, pensativa. Depois para e diz:
— Fique mais dois dias aqui. Às dez horas da noite do final do período, esteja pronto para sair daqui. Vou levá-lo em um veículo que não seja o meu, para a casa que era de meu pai. Nesse ínterim, abastecerei a casa para que fique por algumas semanas. Eu vou providenciar sua saída do país, cobrando alguns favores de pessoas que me devem.
— Tenho dinheiro suficiente para mantermos uma vida muito boa, Regina. Venha comigo!
Ela acaricia o rosto forte dele, com cuidado para não magoar a ferida.
— Não posso, Marcus. Sempre vivi à sombra de alguém, mas agora quem está tomando todo o sol da manhã, sou eu. Eu estou ocupando o cargo de Kane e mesmo que ele retorne, terei construído a minha história.
O homem se levanta e fecha a jaqueta.
— Vou me banhar, fazer um curativo e tomar algumas drogas. Vá ver seu menino bonito.
— Comece a contar as horas. Às dez da noite da quinta-feira. Esteja pronto!
Durante toda aquela tarde, Regina se mantém ocupada atendendo pessoas para responder perguntas sobre o resgate de Yose e o começo do desmantelamento da quadrilha conhecida como Família.
Muitas confusão e trabalho na organização dos materiais para futura elaboração dos relatórios a serem entregues aos policiais federais, que já estavam à frente das investigações.
No hospital, muita segurança, imprensa de todas as mídias formavam o cenário para aquele dia. Esperavam relatório médico sobre o estado de saúde do filho do Governador e um pronunciamento do político.
O pronunciamento do Governador somente acontece, depois que Yose é transferido para um quarto e isolado de qualquer contato com o mundo externo. Muitas perguntas são feitas ao Governador e posteriormente à equipe médica que atendera o policial resgatado.
Em sua sala no Departamento, Regina acompanhava todos os informes e organizava a parte burocrática sobre a participação de suas equipes naquele ocorrido. Depois de agradecer a todos seus colaboradores, ela retoma outros casos que também mereciam sua atenção. Não tinha recebido autorização de seus superiores para dar entrevista coletiva.
— Você está bem?
— Hã? Oh, Akin, entre!
O policial sorri e continua sua rota. Deposita na mesa, um pacote com comida chinesa para sua chefe.
— Como Yose estava?
— Ferido, drogado, debilitado e com aqueles peixes-vampiros colados em seu corpo, sugando se sangue. Ele estava inchado e com muitos hematomas. Mas Marcus tomou o cuidado de tratar as feridas que causava.
— Devemos bater palmas para ele, então? – Akinnagbe se senta.
— Não seja chato e nem cínico.
— Você defende seu amigo, Regina. Eu defenderei o meu. Marcus odiou Yose desde o primeiro momento e não sossegou enquanto não o feriu. Marcus é possessivo e não queria admitir perder você.
A mulher começa a comer. Lembra-se de que não comera nada desde a noite anterior.
— Com ou sem seu consentimento, eu vou caçar Marcus
.- Acha mesmo que ele ainda está no país? Pensa mesmo que ele não estava com todo o esquema montado? Ele deve ter saído bem embaixo dos nossos narizes e depois voado sobre nossas cabeças. Os policiais vasculharam cada centímetro daquela boate e...
Akkinagbe fica em pé e apoia as mãos sobre a mesa. Inclina-se para frente.
— Sabemos que aquela boate era um labirinto. Ninguém descobriu onde filmaram as cenas da degustação de Yose. E foi lá dentro! Aquilo deve ter cômodos escondidos, para que não precisassem de rota de fuga, em caso de invasão policial. Ruby e eu temos a certeza de que Marcus está lá dentro, ainda.
— Está insinuando que eu...
— Uma vez você acusou Kane de obstruir nosso trabalho. Agora, sou eu quem está insinuando que você sabe mais do que está dizendo.
— Fique à vontade para entrar na boate e vasculhar tudo com Ruby. Eu lhe entregarei as chaves, caso queira ir. Agora, fique calmo e comemore o resgate de Yose.
Antes de seguir para sua casa, Regina faz uma visita para Jared e sua mãe. Agradece a participação deles e os informa de que serão homenageados pelo Governador em pessoa. Depois, segue para a casa de Mason e encontra-se com Severina. Ambas conversam por muito tempo e a policial deixa aberta a possibilidade de proteção e ajuda da jovem.
— Eu vou ficar na casa de meu pai. Ele mora na Costa Rica com a família dele e já nos falamos por telefone, para combinar uma temporada. Deixarei o advogado de meu tio Mason cuidando da nossa casa e da casa de minha tia Anadette.
— Quero lhe agradecer mais uma vez por nos ajudar a salvar Yose.
A garota de rosto inamistoso, esboça um sorriso debochado.
— Fiz isso porque meu tio está interessado em Yose. Não fiz por você. – ela se inclina e aproxima-se de Regina. – Sugiro que cuide bem do menino de ouro, porque quando meu tio quer algo ou alguém, ele consegue.
— Está sugerindo...
— Estou sugerindo que meu tio pode dar vida ao Colecionador e fazer valer um preço pelo peso de Yose. Apenas sugiro que cuide de seu amante. Não! Amante é nome feio. Vamos chamá-lo de namorado. – a garota abre a porta e indica a saída para a policial. – Cuidem-se todos, porque a Família tem tentáculos longos e venenosos. Em cada andar da pirâmide social, há membros dela, presentes.
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