Quebrei minha casca

52 Poucos metros da chegada


O carro escuro para num espaço da lateral do prédio da boate. Uma mulher pequena, vestindo roupas escuras sai do veículo e mistura-se às sombras da noite para conseguir entrar sem ser percebida por algum transeunte na região.

Lá dentro do prédio, Regina se encontra com Marcus e troca um longo abraço.

— Como você está?

— Bem. Cuidei de mim nesses dois dias. Poderemos ir?

— Já organizei a casa que era de meu pai e poderá ficar lá, sem ser percebido. Jamais alguém imaginará que eu o estou hospedando. Ficará por lá por algumas semanas e depois o levarei pela fronteira terrestre.

— Obrigado, amor.

Regina gesticula e o convida para saírem dali.

— Deixei uma agenda com as instruções que deve seguir neste tempo. Há um celular habilitado em meu nome, com o qual irá se comunicar comigo. – ela para e volta-se para abraçar o amigo, de novo. – Vamos jantar e conversar algumas coisas. Apenas não posso dormir e sair pela manhã, porque não quero que os vizinhos me vejam por ali.

— Eu sei lidar com essa situação, amor.

— Vedei as janelas com tecido escuro, para que não vejam as luzes acesas. – ela agarra a gola do casaco do amigo. – Prometa-me que irá colaborar comigo!

— Não vou pôr tudo a perder, porque tenho muito dinheiro fora do país e quero usufruir. Com o tempo, mandarei buscar meus pais.

— Fui conversar com eles e não quiseram falar sobre o assunto. Sequer me deixaram citar o seu nome.

Marcus sorri de forma assustadora.

— Eles sempre foram bem instruídos sobre a maneira de agir.

— Vamos embora! – Regina agarra a manga do casaco do amigo e o conduz para fora do prédio. – Você ficará deitado no banco de trás do meu carro.

Lá fora, os dois se esguiam pelas sombras e correm até o carro, para agilizar a fuga e a iniciação do plano. Tudo parecia dar certo, mas acaba por dar errado.

Um foco de luz forte ilumina o casal em fuga.

Imediatamente, as mãos voam diante dos olhos para proteção contra a luminosidade.

— Pensou mesmo que isso daria certo? – Akkinagbe aponta sua espingarda calibre doze na direção do casal.

Ao seu lado, Ruby apontava sua pistola e segurava a lanterna.

— Sugiro que você coloque sua arma no chão, Regina. Não quero ter de disparar em Marcus. — diz a outra policial.

— Pare com isso, Akin! Pare agora, Ruby!Depois eu explicarei tudo! – a Capitã faz menção em continuar sua fuga.

— Nem tente, Regina. Não tenha dúvida de que dispararei em você. E desta vez, não terá a menina Chloe para resgatar sua sanidade. Por favor, solte a arma.

Marcus toca o ombro de Regina. Sabe que Akkinagbe e Ruby estariam mesmo dispostos a atirar neles. Ambos eram gratos a Regina pela oportunidade de ingressarem na equipe, mas a amizade por Yose estava falando mais alto.

— Pela última vez, Regina. Entregue a arma e vocês dois ajoelhem-se.

O policial careca ergue as mãos e ajoelha-se, cruzando os dedos atrás da cabeça.

— Por que isso, Akin? Por que, Ruby?

— Estou cumprindo a minha missão. Isso não é vingança, mas é justiça. – Akkinagbe se aproxima de Marcus apontando sua espingarda. – Ruby, pode algemá-lo. E se você reagir, cara, atiro em suas pernas.

— Estou colaborando. Não vou reagir para não me complicar mais.

— Akin...não...- choraminga Regina.

Era manhã, quando Regina termina de preencher a papelada, para transferir Marcus para o domínio federal. Os policiais viriam no final da tarde, e enquanto isso, Marcus ficaria protegido no Departamento de Regina. Um esquema de proteção é montado para evitar que algo de ruim acontecesse ao policial bandido.

— Por que isso, Akin? — ela se aproxima da mesa do policial e mostra-se muito triste.

— Sinto muito por você, Chefe. Mas ele é um traficante, torturador, assassino e ocultador de cadáveres. Vamos ver mais quantos crimes vão surgir quando ele for interrogado pelos federais.

— Marcus será morto na prisão...

— Iriam mata-lo se não soubessem do currículo dele. Com todo esse histórico, os presos vão idolatrá-lo, sobretudo, sabendo que tem gente graúda, inclusive assessores do Governador, como parte da Família. – o policial levanta os olhos. – Isso é tão perigoso que nem mesmo o Governador Thomaz estará livre de represálias. Não são somente pessoas ricas, mas há pessoas com poder político e militar dentro desta podridão.

— Por isso mesmo que não é justa a prisão de Marcus.

— Quem vai decidir isso será algum magistrado. Quem sabe a juíza Anadette tenha deixado um ou vários discípulos, para eventual ausência dela. Marcus não vai entregar seus comparsas, e ainda vai tirar vantagem disso. – ele inspira profundamente. – Já foi visitar Yose?

Regina nega com a cabeça.

— Tenho de focar minha atenção aqui.

— Gigia, embora eu sinta vontade de bater com uma picareta na careca de Marcus, não quero o mal dele. Além disso, tanto você quanto eu sabemos que o destino dará um jeito de surgir uma fuga, antes que ele chegue ao presídio. Estou certo?

Os olhos de Regina brilham. O medo e a angústia tinham coberto seus olhos com um tecido grosso e fosco. Estava nítido que Akkinagbe estava cumprindo a justiça legal e cidadã, mas também estava deixando a dica de como ela deveria agir dali para frente, para concretizar sua justiça particular.

— Somos todos corporativistas, minha chefe. E dentro do nosso corporativismo, ainda existem os favoritismos.

Ruby entra na sala trazendo um copo com chocolate, entregando-o ao amigo.

— Marcus não quis conversar comigo, porque ele sabe que não é preso de nossa jurisdição.

Akkinagbe apanha o copo:

— Conseguiu que ele falasse alguma...coisinha?

— Ah, sim! Ele falou: Banana, banana, banana. Banana? Banana!

— Cínico. – rosna o policial.

Ruby observa Regina sem qualquer expressão. As duas se encaram.

— Não me olhe desse jeito, Regina. Fiz o que minha consciência me mandou e o que aprendi com Kane. Você me nomeou chefe dessa equipe, lembra-se? Seu amigo Marcus deveria saber que quem anda com porcos, farelo irá comer.

— Vocês me vigiaram?

A outra policial ri, achando graça na pergunta.

— Você ficou tranquila demais quando os policiais não encontraram Marcus na boate. E por que demorou tanto a sair de lá, sendo que todos os outros policiais e peritos já haviam saído? Era obvio que estava com Marcus e ele estava escondido lá. – Ruby levanta e abaixa os ombros. – Era apenas observar você, porque seu comportamento estava como um livro aberto. Quando vamos fazer algo errado, temos de ser bons intérpretes. Além disso, Akin e eu éramos pessoas caídas que foram resgatadas. Sabemos das artimanhas.

Com movimentos lentos, Regina se levanta e caminha para sair dali. Mas para ao ouvir seu nome ser chamado pela outra policial.

— Quero que saiba que vou jogar limpo com você.

— Do que está falando?

— De quem estou falando, Regina. Você transferiu Yose daqui e o dispensou de sua vida. Então, vou invadir o terreno e não vou sossegar enquanto não tiver um anel de brilhante neste dedo e o sobrenome Dimarco. Eu não tenho esses pudores que algumas mulheres têm, ao não “pegarem” o ex da amiga. Eu vou avançar e se Yose der mole, vai ser meu.

— Boa sorte! Caso precisem de mim, estarei em minha casa.

E o restante do dia se passa arrastado. Nenhum som dentro de casa, a não ser os raros miados manhosos do gato adotado, que se mexia apenas para mudar de posição em cima de uma das poltronas da sala.

Regina estava exausta, mas o que a massacrava por dentro, era a distância de seu jovem amante de olhos imensos. A dor pela prisão de seu amigo, comparsa, companheiro e algoz, também oprimia seu coração.

E o que lhe restava a fazer, era encher a cara de sorvete e beber vinho.Um porre de vez em quando é bom para pôr o sono em dia. E muitos males são curados com sono.

Era noite e a casa estava na semi-escuridão, quando Regina desperta e sente um cobertor sobre seu corpo. Num canto, junto à janela e olhando a movimentação lá fora, Chloe mantinha o gato em seus braços e acariciava-o com extrema ternura.

— Obrigada por cuidar de mim.

— Você está deprimente, Regina. – a menina velha coloca o gato no chão. Vai para junto de sua humana. – Olhe para você! Quanta decadência!

— Vá à merda, menina! – Regina se senta no sofá.

— Babando na almofada, bêbada, entupida com um pote de dois litros de sorvete...faltou mijar nas calças ou vomitar no próprio rosto. E tudo isso por que prenderam seu homem das cavernas? Ora, Regina, seja razoável! Sofrer por Marcus é o cúmulo da decadência!

Inspirando como se estivesse muito cansada, a policial passa a mão pelo rosto e decide não se irritar com aquela velha rabugenta e camuflada.

— Que baixo nível! A mulher é linda, toda sarada e elegante, tem um amante poderoso, fenomenal e ainda rico. Mas prefere sentar e chorar pelo Sulley. – Chloe fala de si para si.

— Está assistindo muita televisão. – Regina se levanta e olha no relógio. – Os federais vão chegar às dez da noite para a transferência de Marcus para uma carceragem mais segura. Vou tomar banho, ficar linda para recebê-los e você irá comigo.

As sobrancelhas de Chloe se levantam e ela espera o término da fala. Sim. Regina ainda tinha algo mais para falar.

— Será divertido para você.

Notas finais
* Personagem de Monstros S.A.