*Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo.
É hoje e sempre o meu amor galante,
Inalterável, em grande excelência;
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença.
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo;
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento;
E em tal mudança está tudo o que primo,
Em um, três temas, de amplo movimento.
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora;
Num mesmo ser vivem juntos agora.

Regina sorri ao beijar pela milésima vez, as costas do homem que preguiçosamente estava deitado em sua cama. Ele era seu novamente e havia cedido aos seus encantos, permitindo que ela o explorasse com paixão e muita intimidade. Yose não tinha pudores com Regina e dava total acesso ao seu corpo, sem criar obstáculos para que os dois realizassem suas fantasias e atingissem o seu prazer. O cara lidava muito bem com sua sexualidade e com seus contornos físicos. Porém, ele exigia a mesma liberdade para conhecer os detalhes do corpo pequeno de Regina e era presenteado com muito prazer por ela.

— Que horas são? – ele geme e abre os olhos para ler os lábios dela.

— Hora de dizer ao homem que amo, que eu comprei uma aliança maravilhosa para pôr no dedo dele.

— Você quer se casar com esse homem?

— Não, mas quero marcar território, antes que alguma policial peituda e siliconada, venha querer aproveitar-se de nosso afastamento.

Saltando da cama, Regina vai buscar uma caixa escura e aveludada. Quando retorna, encontra Yose sentado sobre o colchão aguardando a boa nova. Ele sorri e não demonstra qualquer reação mais exaltada, ao observar a mulher colocando o anel em seu dedo mínimo da mão esquerda.

“Pronto! Agora você já pode se vestir como se fosse um mafioso.”— ela gesticula.

“Ou me vestir como a um homem recém-casado. Mas quando irá pedir minha mão aos meus pais?”

Regina gargalha e rouba mais um beijo dele. Gesticula:

“Assim que eu vender minha casa e comprar um imóvel maior. Não quero que Chloe continue dormindo no porão. Ela salvou as nossas vidas e merece o nosso respeito. Iremos aprender a lidar com a realidade dela.”

“ Eu soube que você esteve com Manson. O que ele queria? ” – ele desconversa.

Regina fica pensativa por alguns segundos. Gesticula:

“Ele me disse que pôs um preço na cabeça pela cabeça de Marcus e que irá ser divulgado na dark web. Em breve, Marcus não terá alternativa senão se entregar para a polícia."

Mais horas são consumidas pela bocarra do tempo. Regina organiza documentos em seu gabinete e não percebe a aproximação da tarde e a ida do Sol.

— Vai mesmo se casar com Yose?

A policial levanta os olhos e sorri ao ver a figura pequena de Chloe em pé sob o batente da porta. Estava limpa, bem penteada e com o frescor de sua meninice.

— Como permitiram a sua entrada no distrito, sem a companhia de um adulto?

— Eu sempre driblo a segurança e entro pelos lugares mais inusitados. Mas não respondeu a minha pergunta.

— Somos adultos livres, Chloe. Nós nos amamos e queremos ficar juntos.

— E se eu lhe disser que também quero ficar com aquele homem?

Regina apoia a mão na cintura e inclina a cabeça para o lado.

— Eu lhe diria para procurar outro homem livre e desimpedido, porque Yose é meu.

— Quem lhe deu essa garantia? Onde está registrado que ele é seu? – a menina mostra uma careta cínica.

— O próprio Yose me deu essa garantia, quando se decidiu ser meu.

— E quem deu a ele a autorização para garantir isso? Eu salvei a vida dele e ainda não tive retribuição. Pelo menos, você me abriga pelo favor que lhe fiz. Mas e ele?

Inclinando-se para encarar a garota, Regina tenta manter a serenidade, mas estava sentindo que seria difícil. Um desafio manter aquela criatura arrogante e cheia de vontades, vivendo dentro de seus dias e desejando o mesmo homem que ela. Afinal, não era uma criança, mas uma senhora com mais de setenta anos de idade.

— Não quero repudiar você, Chloe, mas caso continue imaginando que pode competir comigo pelo amor de Yose, terei de ser cruel. Mato você.

— Então, terá de ser cruel com muitas pessoas, incluindo Manson, porque ele também quer Yose.

Regina fica em silêncio por alguns segundos. Encara a menina e sente uma grande vontade de enforcá-la. Iria tirar aquela expressãozinha cínica daquele rosto.

— Por que não usa sua energia para fazer uma visita a Manson e o ensinar o que é realmente ser degustado?

Estreitando os olhinhos, Chloe sorri maldosamente. Hum! Ótima ideia!

— Você poderia aproveitar-se e descobrir com Manson, onde estão as mídias com as imagens de Yose sendo degustado. – Regina se volta para seus documentos.

— Eu tenho uma ideia mais emocionante: vamos à casa de Manson e você procura pelas imagens. Posso colocar você lá dentro e poderá vasculhar onde os peritos não foram.

Regina estreita os olhos e continua olhando a menina. Jamais saberia quando a criatura estava sendo verdadeira. Aqueles olhinhos lindos eram as mais traiçoeiras pedras preciosas.

Era madrugada e os seres vivos daquela região tinham encontrado um lugar para o descanso de seus corpos. Exceto pelos trabalhadores noturnos que davam alguma vivacidade à noite.

De dentro de seu carro, Regina observa a menina esgueirando-se pelas sombras como se fosse o gato de rua que sempre a visitava. A garota sobe pelo muro com movimentos rápidos. Uma aranha com duas pernas.

Um pequeno espaço de tempo depois, Regina percebe que todas as luzes da casa são apagadas. Ela sai ligeira do carro e vai correndo até o local por onde Chloe havia entrado. Vê a menina surgir no muro e estender a mão.

— Temos poucos minutos, antes que o gerador comece a funcionar. As luzes de emergência já foram acionadas dentro da casa.

Momentos depois, as duas estão no interior de uma biblioteca. Regina se atrapalhara quando passa pela janela, mas consegue invadir o cômodo. Estava ficando fora de forma em trabalho de campo.

— Por que esses ricos mantêm bibliotecas como estas? Eles nem sabem ler?

A policial ri, achando graça na observação da garota.

— E agora? Por onde começar?

— A casa tem cinco quartos no andar de cima; aqui embaixo tem a biblioteca, uma sala de jogos; a sala principal; a cozinha e o escritório. – Chloe fala começando a vasculhar as estantes em busca de fundo falso.

— E como sabe disso?

— Antes de buscar você, fiz um tour. Tinha de conhecer o território. Agora, vamos procurar nichos aqui nas prateleiras.

Uma hora depois, Chloe exibe uma caixa de madeira repleta de diamantes, encontrada um cofre, atrás de vários livros falsos.

— Apostaria minha juventude, que ficaríamos milionárias nesta escavação.

— Nós não iremos levar absolutamente nada, além das mídias com Yose.

Uma risada debochada é a primeira resposta da menina.

— “Nós” é muita gente, querida. Fale por você, porque eu vou levar o que conseguir carregar.

Falar de roubo com uma transgressora? Como convencer uma criança com oitenta e cinco anos, a não se apropriar de produtos de roubo? Falar em dinheiro maldito a alguém com uma lista extensa de assassinatos nas mãos...ou nas presas?

Quando a iluminação é restabelecida em toda a casa, Regina e Chloe já haviam vasculhado todos os cômodos, exceto o quarto de Manson. Estavam lá dentro, quando ouvem vozes no corredor e as pessoas pareciam aproximar-se no lugar.

— Para debaixo da cama! – Regina puxa Chloe pelos cabelos e as duas se enfiam rapidamente sob o móvel.

Observam a porta ser aberta e duas pessoas chegarem ali.

— O blackout desconfigurou tudo e até deixou essas luzes acesas e a porta destrancada. – a voz feminina é ouvida. – Será que alguém entrou na casa?

— Como faria isso? A menos que fosse o The Flash! – o homem tinha um sotaque estranho.

A luz é apagada e a porta é trancada por fora. Por alguns minutos, Regina e a menina permanecem deitadas embaixo da cama.

— Que sotaque era aquele? Alemão?

— Com aquela puxada na pronúncia do R? Aquilo é romeno e eu sei porque já vivi lá.

— A Interpol está procurando Vladimir pelo mundo e ele está aqui? – Regina sai dali e quando se põe em pé, depara-se como a menina vasculhando algumas gavetas. – Não me acostumo com sua rapidez...

A menina para e apoia as mãos nos quadris. Espreme os lábios, faz caretas, bicos e fica pensativa.

— É algo muito valioso para você, Regina. Ali estão imagens maravilhosas de uma pessoa desejada e que podem mudar o rumo de sua liberdade. Onde você guardaria?

— Bom...teria de ser em um espaço que somente eu teria acesso.

As duas ficam em silêncio e depois olham ao mesmo tempo para a direção do banheiro do quarto.

A pouca luminosidade atrapalha Regina naquele momento, mas nada que não fosse de fácil resolução: as cortinas são abertas e a luz das lâmpadas de fora entra no quarto. Não poderiam acender a luz para não chamarem a atenção.

Cerca de duas horas passadas, as duas estão correndo pelas sombras do quintal em direção ao muro. Para saltarem o muro, Chloe usa sua força e praticamente joga Regina para fora, mas ao subir no muro, recebe uma descarga elétrica e acaba se estabacando no chão, zonza.

Ouve latidos de cachorros vindo em sua direção. Sorri e já começa a imaginar quais maldades poderia fazer com seus atacantes. Não. Seria uma boa garota e apenas sairia dali.

Notas finais
*Willian Shakespeare.