Notas iniciais
Linguagem vulgar em partes do capítulo.

Regina estava completamente embasbacada com as cenas exibidas em sua televisão. Ao seu lado, Ruby e Akinnagbe também sofriam do mesmo mal.

— Irá mostrar isso ao Yose?

— Ele precisa saber o que aconteceu naquela noite, caso queira processar Manson. – opina Ruby.

— Irão expor Yose ainda mais, do que já foi exposto aqui. Ele não precisa passar por isso. A ignorância ainda é a melhor solução.

— Ele foi violado, Akin. O combinado é que o leilão deveria ser feito sob a supervisão de Regina e isso não foi respeitado. Manson drogou Yose e o expôs a essa situação. Isso é estupro sim!

O policial nega com a cabeça.

— Não estou negando o fato, Ruby, mas abrir essas imagens aos olhos do mundo! Ele já é um farol no mar, pelo fato de ser filho ilegítimo do Governador Thomaz...e ser colocado como vítima de um assalto sexual durante uma investigação...não sei se seria uma boa.

Regina interrompe as imagens e vai resgatar a mídia do aparelho. Coloca-a dentro deu seu invólucro e vai sentar-se ao lado dos companheiros.

— Vou entregar isso para que Yose decida o que fazer e como agir. Caso ele queira levar adiante, deverá saber o que irá enfrentar durante e depois do processo. Somente Yose saberá se irá valer a pena. É uma decisão dele.

— E deixar Manson livre deste crime? – Ruby estava irredutível. – Yose é um excelente profissional com uma formação tremenda. Ele pode arriscar-se, expor-se e depois mudar de área, de Estado e de país caso queira. Para onde ele for, terá sempre ótima colocação profissional e em breve as pessoas nem se lembrarão. O jornal de hoje, embrulhará o peixe de amanhã.

A porta da casa é aberta e Yose surge sorridente, trazendo comida japonesa. Ele sorri ainda mais quando vê seus outros amigos na sala principal.

“Não sabia que vocês estavam aqui! Senão teria trazido mais comida para todos! Mas posso ir buscar mais!”— ele gesticula. Havia dias que não usava seu aparelho.

“Não se preocupe conosco. Ruby e eu temos muitos relatórios para fazer e já estamos protelando demais.”— Akinnagbe agarra a mão da parceira e a obriga a levantar-se. Praticamente a arrasta dali.

— Temos relatórios?

Alguns minutos de silêncio total, o casal deixado na sala mantém os olhos fixos na porta largada aberta. Yose vai até lá, fecha-a e depois se senta ao lado de sua noiva.

“O que aconteceu com aqueles dois?”

“Yose, amor meu. Invadimos a casa de Manson e encontramos um cofre no banheiro da suíte dele, com mídias importantes. Chloe e eu conseguimos as imagens da noite do seu leilão na boate e da sua degustação. Está nítido que você foi drogado e Manson produziu provas contra ele. Agora, cabe a você decidir o que fazer com o material.”

“Serão no mínimo mais nove anos acrescidos na pena. – ele fala sem entonação. — Podemos comer nossa comida japonesa, agora?”

Regina gargalha e salta sobre o companheiro. Quem queria comida japonesa, com tamanha fartura de carne à sua disposição? E a boca da mulher fica imediatamente cheia de água.

Momentos depois...

Roupas a menos e desejos a mais, o local é enchido com os sons típicos produzidos quando corpos se unem com a vontade de criar um encontro fugaz e poderoso. Entre os dois não havia como conter o desejo e a atração sexual que explodia quando aconteciam os encontros.

Yose estava extasiado. Com os olhos vendados, ele estava confiando sua vida às mãos e aos lábios de Regina. E pelos Céus, ela exatamente como levá-lo até às nuvens e depois trazê-lo de volta com suavidade e agressividade tremendas.

Não existiam motivos para ter qualquer desconfiança ou suspeita de que seria maltratado, mesmo sendo privado de sua visão, já que a audição estava mais debilitada. Era delicioso demais apreciar aquelas sensações; sentir aqueles lábios explorando os locais onde a carne era mais quente; curtir os toques daquelas quatro mãos em toda a extensão de seu corpo, produzindo e recebendo prazer. Ops! Quatro mãos??

Ele arranca a venda dos olhos e surpreende-se ao ver Chloe participando das carícias em seu peito, pescoço e braços, enquanto Regina se incumbia em explorar seu baixo ventre.

— Mas que porra é essa?? – ele grita alto e retira a noiva de seu devaneio.

Assustada com o grito do rapaz e sua movimentação brusca, Regina procura o motivo daquela fuga.

— O que está havendo? – ele continua gritando.

Os olhos de Regina se arregalam ao ver o cinismo de Chloe, totalmente nua como se exibisse o mais belo corpo feminino, torneado pela ação da maturidade.

— Que merda está fazendo??

— Participando do prazer do nosso amado. O que mais eu estaria fazendo?

—Yose é meu! Trate de vestir-se!! Quem quer ver uma menina de doze anos, pelada??

Menina de doze anos? Chloe abaixa os olhos e observa o próprio corpo. E não era que Regina tinha razão! Ela estava aprisionada ainda naquele corpo de menina, com seios pequeninos e poucos pelos.

Por que Yose se sentiria atraído por um corpo como o dela, quando tinha acesso ao belo corpo de Regina? Constrangida, a menina se envolve nas sombras da sala, enquanto Yose procurava suas roupas que estavam espalhadas pelo chão.

Ainda em um clima bélico, os três já devidamente vestidos aguardavam um final mais honroso para a aquela situação.

“Terei de ceder aos desejos sexuais de uma menina de doze anos? Essa é a condição para casarmos?”

“Não, Yose.— Regina começa a gesticular. – “Isso foi apenas um incidente não combinado.”

Chloe gargalha.

“Vai ter de ceder sim! É o mínimo que exigirei por ter salvado a sua vida, naquele atentado! Vai abaixar as calças e abrir as pernas para mim, também!”

Yose abre e fecha a boca, mas não diz nada. Indignado, ele encara Regina.

— Isso não acontecerá mais, menina! – a policial altera o tom de voz.

— Regina, minha querida, somando a sua idade e do nosso menino bonito, não resulta no total de anos que eu tenho nas costas. Eu estou morando aqui, vivendo aqui porque a escolhi como a minha adulta responsável. – Chloe aponta para Yose. – Salvei a vida dele e é hora da retribuição. Ora, Regina, o que são horas de sexo a três, quando ele já experimentou de tudo?

Yose se levanta da poltrona.

— Não falem como se eu não estivesse aqui! Eu ainda consigo ouvir alguma coisa e ler seus lábios! Eu exijo respeito! – ele fala alto e aponta o dedo para Regina. – É isso o que quer me oferecer em um casamento?

— Yose...

Ele ergue a mão e pede silêncio.

— Relevei o fato de que você abrigou uma criança vampiro em seu porão! Mas não vou dividir minha cama e minha esposa com essa...essa...essa... coisa! Não sei lidar com isso!

— Yose...

— Você deve decidir quem fará parte de sua vida, Regina. Essa menina ou eu.

O silêncio se torna sepulcral. Os cemitérios seriam mais barulhentos durante a noite. Por longos minutos arrastados, os três não se movem, mas Regina se manifesta primeiro.

— Sinto muito, Yose. Mas você tem seus pais, tem Thomaz, seus meios irmãos, Akin e Ruby. – Regina aponta para a menina. – Ela não tem nada e nem ninguém. E eu sei o que é estar sozinha na vida. Lamento, amor meu, mas terá de aceitar a presença dela conosco, caso queira casar-se comigo, porque eu vou ficar do lado dela.

Yose não responde mais. Abaixa a cabeça e olha o anel de noivado. Retira-o do dedo mínimo e o deposita sobre um móvel. Ainda calado, caminha para a porta e sai da casa.

— Eu sinto muito, Regina...- sussurra Chloe.

— Cale a boca, rascunho de gente!

Passava das oito horas da manhã, quando Yose chega ao distrito. Recebe um abraço de Akinnagbe e os dois vão procurar a máquina para apanhar um copo de café. Por alguns minutos, os dois conversam sobre assuntos diversos.

— A Interpol procurando Vladimir na Romênia e fora do país, enquanto o cara esteve o tempo todo aqui, escondido na casa do Corvo Velho.

— Quem o descobriu lá?

— Uma denúncia anônima. – Akinnagbe observa Ruby passar lá longe, conversando com Sarah. – Estou com ciúmes! Viu o novo namorado de Ruby? É baixinho, gordinho, barrigudo e peludo!

— Ela está namorando um urso de pelúcia? – Yose acha graça na ponta de ciúmes do amigo. – Deve ser gostoso de abraçar.

— É sério! Ela está saindo com o dono da agência de motos do outro lado da rua.

Yose sorri e não dá tanta importância.

Uma policial se aproxima para apanhar um copo com café. Sorri para os rapazes e diz:

— Yose, uma dica de moda: quando você usar calça social em tecido fino, use uma cueca boxer por baixo, para não deixar marcas. Ah! As meninas fizeram uma aposta para saber como você consegue entrar nessa cuequinha.

Os dois policiais se entreolham e nenhuma resposta vem de imediato.

— Pode vir aqui, Yose? – a voz imperativa de Regina atrai a atenção dos subordinados. Ela não estava sorridente e a expressão não era amistosa.

Lá dentro do gabinete, Yose permanece em pé junto à mesa. Observa Regina apanhar um envelope e estendê-lo em sua direção. Apanha o envelope e o abre para conhecer o conteúdo.

— Esta é a notificação de sua transferência de volta para sua antiga unidade. Recebi um pedido de seu superior e ele o quer de volta à equipe.

Yose permanece de cabeça baixa, lendo o conteúdo da carta.

— Não precisa começar seu dia aqui. Já pode apresentar-se ao seu novo cargo. – ela tenta sorrir. – Soube que sua atuação em nossa equipe, poderá render-lhe uma promoção. Parabéns!

Finalmente, quando ele ergue os olhos, estão maiores do que eram. Lindos, brilhantes, mas furiosos. Guarda a carta no envelope e retira-se da sala, tão silencioso quanto havia entrado.

Regina se contém e não mostra a verdadeira situação de sua alma. Estava expulsando de sua vida, a única pessoa que conseguira ver sua essência delicada, sua carência e toda sua feminilidade.

O único que a tocara sem interesses sujos, demonstrando muita suavidade e preocupação em proporcionar-lhe prazer. O único que a fazia sentir-se verdadeiramente amada, sem ser um fardo.