Naquela mesma tarde, Regina se apresenta na portaria da boate, mas é impedida de entrar, antes de ser anunciada. Ela imediatamente percebe que sua vestimenta e sua postura simples havia provocado aquela situação, mas iria relevar por enquanto.

— Desculpe-me por fazê-la esperar, policial. – um homem alto, com cabelos lisos mantidos apenas no alto da cabeça, se apresenta e apressar-se em recebê-la bem. – Meus funcionários são zelosos demais.

— O interesse de estar aqui não é meu. Estou sob as ordens do Capitão Kane e da Prefeita Cora.

— Peço desculpas mais uma vez. – o homem encara o funcionário com adagas afiadas e congeladas no olhar. – Vamos ao meu escritório, por favor!

Enquanto caminhava ao lado do homem, Regina observa e é observada. Eram olhares curiosos e de reprovação vindo de pessoas que inocentemente acreditavam pertencer, de fato, ao mundo do glamour. Não eram as frequentadoras que a condenavam com seus olhares ferinos, mas os funcionários incorporados ao estilo de total frescura daquele estabelecimento.

Mas o local era lindo! Decoração em preto e vermelho, spots coloridos no teto, dois palcos e poles dances, além de uma gaiola dourada numa das extremidades do salão, também com um pole dance lá dentro. Regina começa a imaginar o que aconteceria naquele espaço, quando a noite caía e a iluminação colorida era ativada.

— Fique à vontade, policial. – ele abre a porta e indica um lugar no sofá. – Mais uma vez peço desculpas...

— Não me interessam as suas desculpas. Quero apenas conversar com o senhor sobre esses casos escabrosos e macabros contra seus funcionários. Preciso de informações sobre as vítimas, seus hábitos, seus contatos e gostaria de adiantar sobre a possibilidade de intimarmos seus clientes para depoimentos.

O homem derruba os ombros e relaxa. Encanta-se com a figura pequena da mulher, mal vestida e sem qualquer vestígio de feminilidade. Era um homenzinho saboroso e degustável.

— A senhorita quer um suco?

— Quero conversar com você, senhor...

— Manson. Eu sou Frank Manson. – ele ajeita os óculos de lentes em degradeé. – Meu sócio está viajando e eu poderei atendê-la em tudo, policial...

— Regina. – ela sorri. – Vamos ser diretos porque nós dois temos muitas coisas a fazer ainda hoje. Bem, preciso de informações mais precisas sobre seus dançarinos que foram mortos e sobre os que estão vivos. Preciso encontrar algum denominador e traçar um perfil da pessoa que cometeu os crimes. Depois, vou precisar da lista de nomes de pessoas vips, que têm contato direto com os dançarinos.

— Isso será complicado, policial. Não posso dizer os nomes...

— Então, será bem complicado chegar ao fim da investigação e os seus meninos continuarão a morrer. Sabemos que o assassino ou assassina está livre e frequentando a boate. Podemos fazer isso com colaboração ou pedirei um mandato. A escolha é sua! – ela se levanta e esboça os movimentos para sair dali.

— Isso seria um escândalo...

— Não maior do que as mortes de seus dançarinos. Vamos esperar pela próxima morte de algum dançarino ou mesmo a mudança de foco da pessoa criminosa. Talvez, a escolha seja um dos frequentadores. – Regina não sorri.

Manson se levanta e caminha até sua mesa. Mexe em seu computador e alguns minutos depois, imprime uma lista com os nomes das pessoas autorizadas a terem contatos próximos com os dançarinos. Caminha até Regina e entrega-lhe a lista.

— Peço que seja discreta, policial.

— Eu não quero expor mais ninguém, Sr. Manson. Apenas gostaria de impedir que outras vidas sejam ceifadas e temos a certeza de que o assassino ou a assassina está neste elenco. Recebemos a ordem direta de Prefeita Cora para criar uma força tarefa para o caso...

Regina passa o dedo pelos lábios e faz uma careta rápida.

— E eu gostaria de sugerir algo...

O homem gesticula e pede que ela continue.

— Uma parceira direta com o senhor. Preciso pôr alguém infiltrado aqui, com a sua permissão. Mas apenas o senhor deverá ter acesso essa informação.

Mason perde o controle na boca e deixa o queixo cair. Ele arregala os olhos e sorri sem graça.

— Um policial de sua delegacia, aqui dentro? Como o que? Segurança? Garçom? Manobrista? Tem algum policial que saiba dançar, seja bonito e sexy?

Os dois ficam em silêncio por longos segundos, olhando-se como se competissem para ver quem se mexia primeiro.

Regina explode numa gargalhada gostosa e contagiante. Em segundos, Manson está rindo também. Ele havia feito a pergunta mais absurda que alguém teve a ideia de fazer e não havia como evitar o riso.

— Desculpe-me...- ele tenta parar o riso, mas não consegue.

— Eu...q-quero a sua permissão...para trazer alguém de minha confiança...- Regina continua rindo e enxuga as lágrimas. Que absurdo! – Preciso de um contato aqui dentro, alguém com conhecimento em observação em linguagem corporal. Alguém que possa ter acesso aos clientes, sem despertar suspeitas.

Ufa! Finalmente tinha conseguido falar!

Manson apanha uma caixa com lenços de papel e a entrega para Regina, depois de pegar alguns para ele. Assoa o nariz e enxuga os olhos. Ri ao ver a mulher fazer o mesmo.

— Muito bem, Regina. Vamos fazer o teste. Quando eu poderei ir à Delegacia para selecionar os candidatos?

— Peço ao senhor mais dois dias. Solicito que o senhor converse com seus dançarinos e os oriente a não receberem visitantes em suas casas. Lembre-os de que tendo testemunhas, dificultará o trabalho do assassino.

Na manhã seguinte, a notícia de que Regina iria precisar de voluntários para trabalho infiltrado na boate, causa comoção, cria motivos de piadas e escárnio entre os policiais e investigadores. As mulheres reprovam de imediato uma possível seleção, mas não contêm a curiosidade para verem os policiais dançando e tentando tirar as roupas sem cair e quebrar o pescoço.

— Você é doente, Regina. – Ruby entrega um copo com chocolate para a colega. – Isso vai ser a visão do inferno! A tela viva do Guernica!

— Eu preciso trabalhar com as nossas armas, querida. Não terei recursos em abundância, então, vou jogar com minhas pedrinhas velhas e desgastadas, mesmo.

— Pedrinhas velhas e desgastadas? São ogros, querida! Monstros sanguinários das lendas japonesas! São criaturas saídas do livro dos vampiros, da enciclopédia dos mortos vivos!

— Isso é tão animador! Você me deixa ainda mais inspirada! – Regina coloca o desenho da montanha japonesas, colado no painel. – O que há por trás de uma montanha japonesa? Força? Imponência? Superioridade? Frieza? Qual é o significado, já que você citou lendas japonesas?

A morena mais jovem dá de ombros e aproxima-se para ver melhor o desenho. Levanta o queixo e sorri, mostrando-se desafiadora.

— Eu não faço ideia, mas se você quiser me colocar na equipe, faço as pesquisas.

Regina fica em silêncio por alguns segundos, olhando o desenho no painel. Depois olha a colega por cima do ombro e franze a testa, mostrando alguma surpresa.

— Você ainda está aí? O que está esperando para começar seu trabalho?

Ruby grita e dá alguns pulos. Sai correndo da sala e desaparece do campo de visão da outra policial. Regina acha graça na atitude da moça.

— O que houve com Ruby? Vai ganhar um vibrador novo? – Marcus chega naquele momento. Entra na sala e coloca um pacote com rosquinhas sobre a mesa.

— Ela vai trabalhar conosco.

— É bom sentir um perfume feminino de vez em quando. – ele se aproxima do painel. Aponta para as fotografias dos mortos. – O assassino ou a assassina gosta de homens morenos.

Regina ignora a provocação sobre o perfume.

— O senhor Manson e os clientes apreciam homens com cabelos escuros. Eu soube que os louros devem tingir seus cabelos, caso queiram participar das seleções.

— O cara é gay?

— Como vou saber? Não fui para a cama com ele! – Regina não se altera. – Mas por que suturar o ânus?

— Para que os “meninos” não façam sexo anal na outra vida.

— Caso o assassino fosse você, essa teoria poderia ser levada em consideração. Mas o autor ou a autora está brincando e teve a inteligência de criar uma historinha como assinatura. É um conhecedor de lendas e de rituais. Ele não criou isso...copiou de algum lugar. É algo que está latente em minha cabeça, porque tenho vagas lembranças de ter lido algo semelhante. Mas onde?

— No livro Colecionador de Ossos?

— Você sabe ler? Só falou dele porque o filme tem a Angelina Jolie.

— Obrigado por me chamar de estúpido.

Um leve tremor risonho é a primeira resposta de Regina.

— Não preciso humilhar sua inteligência, porque ela não existe. Como posso atacar algo que não existe, como objeto de estudo?

— Uau! – ele cruza os braços na frente do corpo. Assume a postura de um lutador de Wrestling em um cartaz de luta. – E que papo é esse de selecionar policiais para a boate? O palhaço Krusty seria mais sexy dançando, do que seus colegas fardados.

Regina acha graça na pergunta e concorda com um movimento de cabeça.

— Eu sou uma mulher com muita fé, meu irmão. Consegui convencer você a me ajudar, então, vou tirar alguma sensibilidade de dentro daqueles ogros.

— Vou ser seu empregado e limpar toda a sua casa por uma semana, se você conseguir um feito como esse. Caso você não consiga, irá até cortar a grama do meu quintal. Aposta comigo?- Fechado!