Quebrei minha casca

43 Outros sóis e outras luas


O trabalho naquele distrito continua a todo vapor. Eram casos diversos que chegavam a todo instante para serem investigados, o que ocupava integralmente o tempo de todos os policiais. O mundo parecia ter virado ao avesso naqueles dias.

Regina termina de comer seu macarrão instantâneo e joga a vasilha no lixo. Apanha um chiclete para modificar o seu hálito, porque teria de continuar seu trabalho e somente poderia escovar seus dentes, mais tarde. Fica completamente absorvida pelo seu trabalho e não percebe que o dia estava chegando ao fim.

A escuridão da noite cobre a cidade.

Mesmo de cabeça baixa, Regina percebe a aproximação de alguém, antes mesmo da pessoa bater à sua porta. Ela levanta o rosto e sorri ao ver Yose fazendo menção de anunciar-se. Vinha com um calhamaço de papéis nas mãos.

— Olá, querido! – ela se levanta e dá a volta na mesa, mas para ao ver que ele se afasta.

“ Pedi que o mensageiro viesse trazer esses documentos, mas ele foi embora e não fez o que eu pedi”— ele gesticula omitindo sua voz. -“São documentos que precisam de sua revisão antes de serem definitivamente arquivados. ”

— Por que não está usando seu aparelho auditivo?

“Estou em tratamento de uma infecção. O médico me disse que provavelmente eu perderei o restante da audição.”

— Eu sinto muito.

Não sinta” – ele coloca os papéis sobre a mesa e esboça um sorriso.

— Quer jantar comigo hoje?

Yose não responde. Estava de costas depositando os papéis sobre a mesa. Quando ele se volta para Regina, é carinhosamente detido por ela.

— Quer jantar comigo? Eu posso cozinhar para nós dois.

Ele emite um som risonho e desdenhoso.

“E eu serei a sua sobremesa e de sua menina vampiro? Não, obrigado!”

Delicadamente, Regina estende as mãos e prende o rosto dele. Fica na ponta dos pés e beija-lhe os lábios. Ah! Como sentia falta daquela boca! Como ela sentia falta daquele corpo e daquela pele! Queria tanto sentir os pelos do corpo dele roçando a sua pele depilada! Mas quando se dá conta, percebe que estava beijando uma estátua com cabelos humanos.

“Quando terminar de revisar os documentos, pode me avisar que virei buscá-los para o arquivamento.”— ele gesticula e caminha para fora da sala.

Ela fica sozinha. Apenas observa Yose se afastar e sair de seu campo de visão. Não poderia perder a única pessoa que sempre a admirou como mulher, mesmo quando ainda estava escondida dentro de seu casmurro, onde Marcus a havia aprisionado.

Naquela noite, Regina reconhece que sua rotina tinha voltado no tempo. O silêncio da casa, o telefone sem mensagens ousadas, o esquecimento de sua presença na vida de seus amigos, a presença da solidão. Chloe não era constante em sua casa e estava cada vez mais rara a sua presença. Sabia que a menina estava por perto, vigiando e protegendo, mas não vinha para ser vista ou tocada.

Depois de alimentar o gato Petit, a policial vai ocupar sua mente com algum filme sem graça e sem nada para edificar. Era aquilo ou ir dormir. O tempo vai passando, o filme se acaba e o sono domina Regina e o gato.

O som estrondoso desperta Regina e ela salta do sofá, levando o gato em seu braço. Precisava fugir de invasores, antes que eles conseguissem alcançá-la. Mas não tem tempo para empreender fuga e em poucos segundos está travando uma luta corporal com seus agressores.

Regina não desiste de sua liberdade. Iria morrer, mas não seria sem lutar. E o que acontece, surpreende a alma da policial: ela luta agilmente como se estivesse dentro de efeitos especiais de um filme de ação.

Quando tudo fica silencioso, a policial se depara com três homens caídos no tapete, muito machucados e desacordados. Para completar o cenário, ela havia lutado contra seus agressores e não soltara o gato. Regina se larga no sofá, o bichano sai em desabalada carreira e desaparece.

Momentos depois, quando uma equipe policial chega à casa de Regina, encontra os agressores amarrados e a policial sentada no sofá, apenas aguardando um desfecho apropriado.

— Você está bem? – pergunta Ruby que viera com a equipe, mesmo não tendo ocorrido mortes.

— Muito assustada, Ruby. – Regina toca o rosto da amiga. – Eu estou com medo de mim mesma.

As duas observam os policiais levarem os agressores, enquanto dois peritos começam a vasculham o ambiente bagunçado para conseguirem informações.

— Estão furiosos conosco, mas como você é a nossa líder, querem a sua cabeça. Chloe ajudou você a fazer este estrago?

— É isso que me assusta! Eu fiz tudo isso apenas com dos braços, porque o gato estava no outro!

Inclinando-se para frente, Ruby cochicha:

— Você bebeu mais dela? Ou ela bebeu de você?

— Não sei. Ela pode ter feito em um momento de inconsciência minha. Será que estou me transformando? Teremos de comprar um castelo e alguns caixões.

As duas começam a rir. A piada tinha sido muito boa, de fato.Regina olha em volta.

— Yose e nem Akin quiseram vir?

— Não havia morte. Eu decidi vir com a equipe que investiga os atentados, porque não suportei a curiosidade. Mas os dois não se manifestaram publicamente. Nem sei se Yose ficou sabendo.

— Ele refutou um beijo meu, Ruby.

— Não deve ser fácil aceitar que a namorada e amada amante mantém um vampiro com mais de setenta anos no porão de sua casa.

Mais uma vez, as duas riem demoradamente.

Noutro canto da cidade, o carro de Yose é estacionado em frente à sua casa. O policial estava sentindo-se cansado, triste e inconformado com sua situação com Regina.

Sentia falta daquela mulher, mas a confusão que estava em sua alma, o impedia de tomá-la novamente como sua amada. Ela era tão assustadora quanto Marcus e todos aqueles maníacos presos pelas orgias sexuais assassinas.

— Gostaria de conversar com você.

Ele continua seu trajeto até a porta de casa, porque não ouve a voz da menina. Mas ela queria se fazer percebida e corre numa velocidade humana até perto dele. Saltita como se fosse uma menina normal e para sorridente, olhando para o homem.

“O que você quer, monstrinho?”— ele não olha para o lado e continua procurando a chave par abrir a porta.

“Eu sei que você não me convidará para entrar, por isso vou ficar aqui do lado de fora, gritando com toda força dos meus pulmões. Vou acordar todos os vizinhos e quando eles vieram saber o que está havendo, vou começar a chorar e dizer que você é meu pai e que não está me deixando entrar, que estou com fome, frio e que você não me ama. Vou gritar chamando o seu nome e...” – ela gesticula rapidamente.

“Pare com isso!”— Yose apoia seu peso em seu quadril e encara a garota. – “Fale.”

“Regina me disse que ama você. Ela me disse que não consegue mais ficar sem sua companhia. O seu amor, os seu corpo, o seu cheiro e o seu... fazem muita falta para ela.” — Chloe aponta para o corpo de Yose.

Estreitando os olhos, o policial a encara sorrindo. A menina merecia levar uma bofetada para perder até a audição.

Antes que ele pudesse começar a gesticular, sente as mãos fortes da menina monstro, empurrá-lo no chão e usar seu corpinho como escudo, para protegê-lo das rajadas de tiros vindas de um carro preto que havia parado em frente à casa.

Sem entender o que havia acontecido, Yose levanta o rosto e vê a menina saltar dentro do carro pelo vidro da frente, estilhaçando-o.

O policial fica em pé, corre e consegue chegar próximo ao veículo, para impedir que a menina destroçasse os homens.

— Não os mate! – ele grita espalmando as mãos no ar.

Os olhinhos redondos de Chloe se voltam suaves para o policial, decepcionados. Ela rosna e amua, fazendo beicinho, como se fosse uma menina normal.

Yose se inclina para olhar os homens dentro do carro.

— Quem mandou vocês? – ele pergunta e depois olha para Chloe, pedindo que ela traduzisse o que os homens assustados iriam falar. Observa-os falar ao mesmo tempo.

“Eles disseram que foram enviados por um dos assessores do Secretário de Segurança. ” – Chloe gesticula.

— Pergunte o nome do cara e diga que se omitirem algo, deixo que virem comida de vampiro!

Chloe se volta para os homens e propositalmente modifica seus traços infantis. Solta um rugido como se fosse uma besta fera. Esmurra e amassa uma parte do veículo.

Os atiradores começam a gritar, sobretudo, porque a menina estava empunhando suas armas e apontando para eles. Ligeira, tinha pego as armas sem ser notada.

— Tire essa menina louca daqui!! – um dos homens grita, quando Chloe aperta o gatilho e dispara no banco traseiro do carro.

— Vou usar as armas de vocês, para matá-los. Assim, a polícia vai pensar que vocês atiraram um no outro. Qual é o nome do mandante? – ela pergunta.

— Petrus Cheval! – brada um dos homens, de maneira tão alta, que quase afeta a potência de sua voz.

Chloe repete o nome para Yose e balança as armas.

“Posso matá-los? Hein, hein, hein!”

Um tempo depois, os carros da polícia e da perícia iluminam a noite com seus giroflex. Vários policiais entravam e saiam do quintal e da casa de Yose, buscando informações para que fossem acrescidas nas investigações. Dois atentados contra membros da equipe de Regina, quase simultaneamente, mostravam que uma ferida purulenta tinha sido mexida com salmoura.

Quando Regina estaciona seu carro, encontra Yose sentado na guia da calçada. Ao seu lado, Chloe brincava com um gravetinho como se riscasse o asfalto. Seus cabelos longos caiam sobre em seu rosto, escondendo-o de quem tentasse ver.

A policial se aproxima do homem e da garota, ajoelha-se para conversar e ter certeza de que os dois estavam bem. Mas seu coraçãozinho temia a rejeição de Yose.

— Vocês estão bem?

Chloe sorri e percebe que Yose olha Regina com ternura disfarçada.

— Eu não deixei nada de ruim acontecer com ele. Vim para conversar e acabei cuidando dele.

— Obrigada por salvar alguém importante para mim. – Regina toca a coxa do policial. Gesticula depois. – “Acabei de sofrer um atentado também. Invadiram a minha casa e tentaram me matar.

Yose abraça Regina com muito carinho e uma quantidade de força suficiente para fazê-la desequilibrar-se. Ela acaba sentando-se no chão. Para completar o abraço, Chloe abre os braços e envolve seus dois amores.

O dia seguinte é muito tumultuado e Regina não consegue encontrar tempo para curtir seu belo amado amante. Apenas algumas mensagens e nenhum toque, o que já era uma punição para uma mulher viciada.

Ruby entra no gabinete de Regina e entrega uma caixa com comida japonesa para a amiga.

— Que roupas são essas? – Regina se espanta ao ver a amiga travestida de garota de programas. – Sua saia deixa pouca coisa para a imaginação!

— Estávamos em um trabalho numa área de prostituição pesada. Inclusive encontrei alguns menores de idade, sendo gerenciados por um desgraçado explorador.

Regina concorda com a cabeça.

— Estive na carceragem e conversei com Manson. Ele queria me ver.

— E o que ele queria? Não estamos mais no caso.- Ruby começa a comer.

— Queria agradecer Yose por ter feito a divisão do dinheiro entre os empregados da boate. Manson me disse que não confia na sobrinha.

— Ele queria agradecer? – Ruby faz uma careta de desconfiança.

— Na verdade, ele queria comunicar uma chantagem que quer fazer com o Governador Thomaz. Manson quer usar as imagens do dia do leilão e exigir alguma atitude do Governador, para diminuir ainda mais a pena. Quer revelar onde estão as imagens.

Um sorriso furioso surge na bocarra vermelha de Ruby.

— Mas eu o alertei para mais um crime: drogar e violar um agente da lei, além de usar as imagens da violação para chantagear o Governador. E Manson também me disse que estipulou um preço pela cabeça de Marcus. — Regina brinca com sua caneta.

— Eu fico feliz por termos saído desse caso. Agora, a briga é entre feras grandes.

— Mesmo estando afastados, todos devem tomar cuidado. Já enviaram um recado a mim e outro para Yose, quando nos atentaram.

Ruby bate a mão sobre a mesa algumas vezes e sorri.

— Nós seremos mais fortes que isso! Viraremos uma equipe de vampiros e cuidaremos da cidade com novas regras!

— Ai, que besteira!