Quebrei minha casca
15 Organograma
Uma reunião na sala de Kane.
— O sigilo telefônico das vítimas foi quebrado e acreditem: há muitas ligações com os nomes da lista perene da boate, mas há ligações especificas com alguns números. – Akinnagbe fala e aguarda complementos.
— Segundo os peritos, as casas das vítimas não apresentaram vestígios algum da presença de outras pessoas na noite do crime. O que nos leva a crer que foram mortos em outros lugares e lavados para o condomínio onde moravam. Condomínio que pertence ao Manson. – Ruby informa. – As câmeras de segurança mostram os carros entrando na garagem e saindo cerca de três horas depois, sendo abandonados em locais sem filmagens.
— Caso as vítimas tenham sido transportadas mortas ou drogadas, o peso do corpo aumentou duplamente. Então, temos um homem muito forte ou mulheres fortes. – Akinnagbe sugere.
— Depende das mulheres. – Regina intervém. – Ruby e eu não conseguiríamos carregar Yose desmaiado. Ou conseguiríamos?
— Minha vez! – erguendo o dedo indicador, Ruby altera o tom de voz. – Foquei-me no código de conduta e fiz muitas perguntas para esotéricos, estudiosos e curiosos, e fiquei sabendo de uma peculiaridade que pode nos ajudar a encontra o fio da meada: numa das crendices indianas, fala-se de um ser que visita os moribundos para julgar sua conduta e levar sua alma. Se o cara tem vida regrada com retidão, quando morre, a alma sai pela boca. Mas se o cara tem vida suja, a alma é expulsa pelo ânus.
Surge um silêncio sepulcral na sala. Depois, todos começam a rir, inclusive Ruby que para sua narrativa.
— O cara peida a própria alma. – Akinnagbe enxuga os olhos.
— Daí a necessidade de suturar o ânus: para obrigar a alma a sair pela boca e enganar o julgamento pelo comportamento. – Regina sorri. – A pessoa acredita que pode evitar a danação eterna, enganando o juiz das almas? Seria insanidade total, caso o motivo dos rituais seja este! Pelo menos é o que a pessoa assassina quer que a polícia pense como verdade.
— Os dançarinos vivem em constante tensão. Eles me acusam e me agradecem ao mesmo tempo, por atrair a atenção do criminoso ou da criminosa. Um deles falou que eu desviei o foco de atenção e que o prazo de vida deles, aumentou. Outro me acusou de atrair atenção de quem mata.
Todos os olhares estão em Yose, principalmente a atenção de Regina. Estava muito encantada com aquele homem e sua gana em desvendar aquele mistério. Mas o que a apaixonava mesmo era sua aura doce e clean, sempre exibida em seu sorriso constante e grande. Era tão gostoso olhar para ele e muitas vezes as pessoas se esqueciam de que ele tinha vida e sensações.
— Vocês tiveram o cuidado de visitar as casas das vítimas? – Kane pergunta, mantendo os braços cruzados em frente ao seu barrigão.
— Fomos ao condomínio, mas depois da liberação pela polícia científica, os objetos pessoais foram levados para um depósito. Os móveis pertencem à casa. – Regina fala em tom de lamento. – Verifiquei as caixas, mas nada em especial chamou a minha atenção. Quem levou o material para lá, deve ter tratado de tirar alguma coisa que fosse relevante.
— A Prefeita ordenou que retomássemos o caso, mas sinceramente eu acredito que não há interesse em descobrir quem está fazendo isso. Quer apenas mostrar aos adversários que há uma equipe trabalhando no caso. – Kane fala e levanta-se para sair. – Não se envolvam muito com isso e não provoquem as pessoas durante os depoimentos.
Regina observa seu chefe se afastando. Ela se vira, estende a mão e toca o ombro de Yose, fazendo com quem ele a olhe com atenção.
— Você e eu precisamos conversar com o dançarino que o alertou. Quero que o convide para um happy hours. Pode ser?
Yose concorda com a cabeça, derretendo quem olhava para ele e naquele mesmo momento já apanha o celular para enviar um convite ao dançarino. Ele não entendia o motivo, mas não estava confiante em criar uma proximidade com aquele cara.
Momentos depois...
O bar estava movimentado naquele horário. Muitas pessoas procurando um momento de relax, depois de um dia quente e estressante. Algumas pessoas até buscavam companhia para que a noite começasse e terminasse bem e interessante.
Yose se acomoda em uma mesa previamente reservada e fica vasculhando o ambiente na procura do seu convidado. Não acreditava que o homem fosse aceitar o convite e na verdade torcia para que ele não viesse mesmo.
— Quer companhia, amor? – uma mulher se inclina sobre a mesa e exibe um sorriso predador.
— Estou esperando um amigo.
— E o seu amigo não aceitaria um threesome?
— Vamos fechar um negócio financeiro...declino ao seu convite.
Ela se debruça sobre a mesa e estende a mão atrevidamente, tocando o aparelho auditivo de Yose. Ele refuta suavemente o toque. Que invasão era aquela?
— Você me ensinaria alguns sinais e eu lhe ensino alguns movimentos. — desta vez o alvo das carícias são os cabelos espessos do policial.
A mão da mulher é detida por outra mão feminina. Regina não havia conseguido apenas assistir aquele avanço e não fazer nada. Aquela invasão não seria admitida.
— Ele é meu. – a voz da policial é firme e imperativa. – Não gosto de dividir nada. Caia fora!
A desconhecida sorri e olha Regina de cima até embaixo. Lambe lascivamente os lábios.
— Você também é um homenzinho lindo! Para um homem, você está em perfeita transformação. Como você esconde a sua joia do Nilo, a ponto de poder usar uma calça justa como esta? – ela provoca Regina, acreditando que o amigo em questão, fosse a policial.
— Deixe o meu menino trabalhar e não estrague o meu negócio. Sugiro que caia fora antes que eu me zangue. Não quero perder dinheiro e quando isso acontece eu fico furiosa.
Um sorriso debochado surge como resposta da desconhecida. Ela se desvencilha com dificuldade do aperto de Regina e caminha para longe da mesa, ainda olhando Yose por cima do ombro.
— Você precisa aprender a ser menos chamativo! O que pensa que está fazendo?
— O que? Eu não fiz nada de errado!
— Feche a sua camisa! Você não está fazendo programas!
Ele abre e fecha a boca, levanta as sobrancelhas e não responde. Espalma a mão sobre o decote e olha Regina sem entender aquela reação.
— Não me obrigue a ser rude com você, Yose. Caso alguém se aproxime com intenção de aquecer sua cama, quero que seja assertivo e negue. Vou voltar para minha mesa e observar de lá.
Regina estava com ciúmes? Que delícia! Ela finalmente havia percebido que ele existia! E aquela possessividade era a demonstração mais gostosa que alguém havia feito. Ela o queria e seria muito interessante provocá-la um pouco. Ele arreganha a boca num sorriso vitorioso.
— Gostosa...- ele resmunga quando ela começa a afastar-se.
Recebe um olhar de viés, como se ela não tivesse entendido a provocação.
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