Quebrei minha casca
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Momentos depois, o dançarino chega ao bar e acena ao longe. O cara parecia menos zen do que costumava ficar dentro da boate e estava elegante para o encontro.
— Eu me demorei porque não encontrava vaga para meu carro.
— Sente-se! O importante é que você veio. – Yose sorri e encolhe rapidamente um dos ombros, mostrando-se receptivo à presença do homem. Aproveita e olha por cima do ombro do homem, para Regina que os observava lá do balcão.
— Achei interessante ser convidado para uma bebida. – o homem se senta bem perto do policial e invade seu espaço pessoal.
— O que vamos beber e sobre o que vamos falar?
Depois de um tempo de conversa fiada e risos, Yose percebe que era momento de investir nas perguntas apropriadas.
— Soube que os dançarinos atacados queriam alçar voos bem altos...
Sérgio sorri e interessa-se pela curiosidade de seu novo amigo. Poderia aproximá-lo de sua vida, caso sanasse todas as curiosidades dele. Seria bom com Yose e certamente obteria vantagens.
— Eles eram protegidos de um dançarino em especial. Chama-se Radu e está desaparecido desde a última morte. O cara simplesmente evaporou e ninguém sabe se está vivo ou morto.
— Protegidos?
— Radu era nosso líder e tinha uma ganância que nunca tinha visto. Ganhava muito dinheiro e sempre queria mais. Envolvia-se com qualquer um que lhe oferece qualquer vantagem, inclusive aquela empresária que está sempre lá na boate: a Sandra Durre.
— Por que inclusive? O que ela tem de especial?
— É um transexual. – Sergio bebe mais gole do suco. – Eles tinham um romance e Radu queria mais e mais dinheiro. Estava disposto a inaugurar uma boate e convenceu seus protegidos de que valeria a pena. Foram embora da boate e as mortes começaram.
Yose levanta uma das sobrancelhas. Não diz nada.
— Radu era lindíssimo e abusado. Ele usava toda a sedução que possuía, para conseguir toda forma de lucro. Na cadeia, o cara se aliou a um eremita conhecido como Pastor e viveu como se estivesse numa colônia de férias.
— Esperto.
— Cruel. Radu conquistou a confiança do cara e depois cravou uma faca caseira na jugular dele, colocando a culpa no líder de uma das facções. Radu era cruel mesmo.
— Não sabia que ele esteve na cadeia. – Yose bebe um gole no coquetel de frutas e percebe os olhos do outro homem, fixados em seus lábios.
Sergio ri e desvia sua atenção daquela boca. Não iria cair na mesma tentação que caíra quando convivia com Radu.
— Radu conseguia sempre o que queria, inclusive a liberdade condicional sem ter direito a ela. Quando veio para a boate, causou um alvoroço, porque ele abusava de sua sensualidade e trouxe todos os olhares e dólares para ele.
Yose sorri amável. Pisca pesadamente os olhos como se estivesse com sono.
— Ele era tão miserável que conseguia excitar alguém, mesmo completamente vestido. Quando subia ao palco, roubava todos os desejos para si. Ele era apaixonante, mas ainda cruel, porque zombava das súplicas para atenção.
— Acha que ele está morto? Usa os verbos no passado.
Negando com a cabeça, Sergio bebe um gole de sua bebida e depois finge não perceber quando apoia sua mão na coxa de Yose.
— Ele tinha muitos fãs e muitas inimizades. Radu roubava sem pudores, os clientes dos outros dançarinos, fazia programas sexuais, pedia altas quantias para danças particulares e vendia comprimidos aos clientes da boate. Tudo o que fosse necessário fazer para ter dinheiro, Radu fazia.
— Ele era rico, então.
— Que nada! Estava sempre na merda! O dinheiro entrava com facilidade e saía com mais facilidade ainda. O cara não usava uma camisa por duas vezes. Tudo tinha de ser o melhor e isso exige grana. Sempre queria muito e ultimamente estava desejando ter um Masserati. Era o sonho de consumo e iria ganhar, caso não tenha sido morto.
Yose apoia o cotovelo sobre a mesa e usa uma das mãos para segurar o queixo.
— Radu não tinha escrúpulos e pelo dinheiro e luxo, não tinha pudores e fazia o que lhe pedissem. Como eu lhe disse, até matou o cara que o protegeu, porque havia conseguido a senha de uma conta milionária do bandido, fez a transferência da grana e apagou o cara depois. Radu foi condenado porque participava de uma quadrilha que traficava pessoas para o mercado negro do sexo.
— E Manson? Permitia que Radu vendesse droga em sua boate?
— Quando o corvo velho descobriu, teve uma discussão horrível com Radu e o ameaçou mandá-lo de volta para a cadeia. Então, Radu continuou enfrentando o corvo e conseguiu a proteção de uma empresária, que ameaçou boicotar a boate, caso o amante fosse punido. Ele fazia alianças...- a mão de Sergio começa a passear pela coxa de Yose.
— Tem algum palpite sobre o autor do crime?
Sergio inclina a cabeça para o lado e estreita os olhos escuros.
— Por que tantas perguntas? Você é policial, por acaso?
— Gabaritei na prova, tirei ótimas notas na academia, mas fui reprovado no exame médico. Não queriam um policial surdo na corporação. Então, fui em busca da outra coisa e acabei conhecendo minha agente, que me levou para Manson.
Sergio acha graça e sente-se confiante para continuar.
— Inimigos, Radu tinha às pencas. Ele era desejado sexualmente, mas na verdade era odiado. Ele rejeitava as pessoas sem pudores e deixava bem claro que queria apenas dinheiro e luxo. O que você provocou em sua primeira apresentação, Radu provocava em todas as apresentações dele.
Atento com aqueles olhos grandes e brilhantes, Yose concorda e encoraja o homem a continuar.
— Mas não foi inimigo dele que matou os rapazes. Radu chegou ao limite e atraiu a atenção de alguém que quis puni-lo pelo comportamento arrojado demais.
— Um justiceiro que pode matar quem tem comportamento inadequado?
Sergio se move no banco e encara Yose. Apoia seu braço no encosto do banco e com isso parece abraçar o outro homem.
— Comportamento inadequado? Não. Morreram apenas gananciosos a extremo. Eles fariam qualquer coisa por dinheiro e não tinham pudores ou limites. E eram cruéis, também. Morreram porque provocaram alguém mais perigoso.
— Será que eles conheciam o ou os assassinos?
A mão de Sergio começa a deslizar pelo tecido do blazer do policial, indo descansar seus dedos na pele de seu pescoço.
— Conheciam sim. Saíram com ele, foram mortos ou drogados e depois trazidos para o condomínio. – Sergio se aproxima mais de Yose e olha indiscretamente os lábios dele. – O que me apavora é saber que estamos sendo observados pelo criminoso. Por isso, eu lhe alertei: não cometa o mesmo erro que eles e não desafie os mais poderosos. Confesso que penso que Radu está morto e que em breve irão encontrar o corpo dele ou os restos mortais em algum prédio abandonado.
— Por que um prédio? É um palpite muito específico.
Yose se ajeita no banco e com isso se afasta do convidado. Diz:
— Eu soube que todos os dançarinos foram tirados do sistema prisional. E sabe o que me ocorreu? Não sei quase nada sobre você, Sergio. Qual foi o seu crime?
— Estupro. – o homem fala com naturalidade.
O coração de Yose vai até o topo de sua cabeça e começa a gritar lá de cima. Não era um coração, mas uma bateria em um show de heavy metal.
— Sério?
— Ou crime sexual masculino, como queira.
— Sério?
— Muito. Eu não resistia aos encantos de belos efebos, jovenzinhos e inexperientes. Foram dezoito ao todo e acabei preso, mas fui beneficiado por alguém que quis me dar uma nova chance.
— Dezoito estupros e você está livre? Como conseguiu um benefício como este?
— Alguém no topo da pirâmide social deve gostar muito de mim. – Sergio acaricia a nuca do policial.
— Mas agora você... é um novo homem?
Uma risada maldosa movimenta os lábios de Sergio.
— Depende de suas provocações, Yose. Você está caminhando na mesma direção que os outros dançarinos foram. Sugiro que não faça isso, porque se não atrair a atenção do criminoso, irá atrair a minha atenção.
Gargalhando, Yose empurra a mão do convidado. Finge que acha graça nas palavras do cara.
— Não sou um belo efebo, jovenzinho e inexperiente. Saberei me defender.
— Não saberá se estiver drogado. E homens como eu, sabem como imobilizar um corpo que desejamos. Sugiro que saiba como deve comportar-se, querido.
O rosto de Yose se desbarranca e um véu de surpresa desce sobre ele.
— Está me ameaçando?
— Jamais faria isso. Eu quero proporcionar momentos maravilhosos ao seu corpo, mas quero que você participe de maneira consensual. Aprendi que assim é mais excitante e delicioso. Fazer sexo é maravilhoso, mas fazer com romance é muito melhor.
Yose se afasta um pouco mais.
— Os outros caras mortos eram todos tão devassos, assim? – ele tenta desconversar e esconder seu incômodo. Um policial conversando com um estuprador confesso.
— Como Radu não há ninguém, exceto você, caso se esforce um pouco mais. – Sergio bebe todo o coquetel. – Mas eu torço para que você não incorra nesse erro, Yose. Faça seus shows, exiba-se, ganhe seu dinheiro e não tente ser o centro do universo na boate. Não tente usar sua beleza para conseguir o mesmo padrão de vida que os clientes, porque eles não curtem concorrência na sujeira deles.
— Eles tinham amigos, família ou alguém?
Sergio cerra o rosto e agarra o rosto de Yose com ambas as mãos. Beija-o sem pedir permissão e quando o liberta, percebe que sua violência havia cortado o lábio do policial.
— Perdoe-me...eu feri você...
— Não seria necessário isso. Eu teria lhe dado o beijo, caso tivesse me pedido. – Yose se levanta e despede-se, saindo dali sem ser impedido. Seu coração estava batendo na testa.
Passando por Regina, ele sequer a olha, mas sabe que iria ser seguido pela chefe. E é o que acontece.
Quando entram no carro, ele ofega e não consegue conversar a princípio. Regina liga o veículo e o tira dali o mais rápido possível, porque percebe que seu parceiro não se sente bem.
Algum tempo depois, os dois estão parados no ponto mais alto da cidade, observado a movimentação lá embaixo. Regina entrega um copo de suco para o rapaz.
— Você está melhor?
— Eu me senti preso em um aquário gigante, cheio de água e tampado.
— Pelo fato do cara ter beijado sua boca?
— Pelo fato de um estuprador de dezoito rapazes ter me beijado à força. O ato tem agravantes, Regina. Por que não posso ser beijado daquela forma, por você? Leve-me daqui!
Regina sorri e levanta rapidamente as sobrancelhas.
— Não me provoque.
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