Quebrei minha casca
17 Nebuloso
— Estive estudando a ficha criminal dos outros dançarinos de Mason e ali é um covil, literalmente. Há uma gama muito grande de delitos e crimes. A fauna é diversificada. – Akinnagbe coloca as pastas sobre a mesa. – Sugiro que não os provoque e nem provoque aquela alcateia de famintos.
— O que eles me farão quando descobrirem que somos policiais? – ainda debruçado sobre a mesa e segurando a cabeça, Yose não levanta o rosto.
— Apenas Manson sabe disso e não irá revelar, a menos que queira ser preso por obstrução da justiça. – Regina puxa uma cadeira e senta-se ao lado do jovem parceiro. Acaricia suas costas.
— Vai aceitar o leilão? – Ruby mantém os braços cruzados na frente do peito.
Chegando barulhento na sala, Marcus para no centro da sala e apoia as mãos na cintura, assumindo uma postura desafiadora.
— Regina, foi você quem ordenou a limpeza da zona em torno da universidade, onde ficavam suas amigas prostitutas e os gigolôs? Houve uma operação que não poupou nenhuma das suas primas coloridas e dos bonecos que usam colares de ouro, mais pesados que meus coturnos. Kane me disse que não ordenou isso.
Os olhos de Regina queimam Marcus. Estava farta daquela maneira como ele a tratava, como se estivesse falando com seus parceiros de luta livre. Quem ele estava pensando que era? Nem como amigo tinha se comportado nos últimos anos, então, por que acreditava que poderia falar daquele jeito?
Ela se levanta e salta da direção do homem, como se fosse uma gata. Empurra seu peito e aponta seu dedo indicador na direção do nariz dele.
— Eu me cansei de suas grosserias! Caso não consiga ser decente com quem conviveu com você por anos, então, passe a respeitar sua colega de trabalho! Eu sou uma policial e você irá me respeitar ou acabo com esse cinismo nessa sua cara feia! Você não é mais orientador e eu estou como líder desta equipe! Ou me respeita ou denuncio você!
— Você poderá ser líder desta equipe pelo resto de sua vida funcional, minha querida. Pode ser até a Chefe de Polícia, porque esta equipe não existe mesmo! Estão rodando atrás do próprio rabo e o assassino está rindo do amadorismo de vocês. Acha mesmo que colocando esse efeminado rebolando sobre um palco, irá atrair a atenção do assassino? O assassino sabe quem é quem neste jogo, porque é ele quem está dando as cartas!
Regina o empurra de novo e tem o pulso detido pelo homem.
— Vocês são motivos de piadas no grupo social da delegacia. Tem até uma aposta sobre o dia em que você irá jogar sua toalha e a essa fantasia de mulher sofisticada! – ele a empurra e Regina revida.
Yose salta entre os dois e impede Regina de perder sua razão e a liderança daquele grupo.
— Piada! Você sempre foi uma piada, Regina! Em todos os setores de sua vida, você sempre foi uma piada! Acredita mesmo que vestindo esses paninhos de grife, iria modificar o fato de que você é apenas uma sombra? A minha sombra! Você é e sempre será o meu homenzinho com vagina!
— Não escute o que esse cara está falando, Regina. Ele está incomodado e frustrado porque outros policiais fizeram o serviço limpo na comunidade que ele queria dominar! Ele perdeu!
Num ato de fúria, Marcus agarra Yose e o atira contra a porta da sala, fazendo o outro policial se estabacar contra a madeira e depois contra o chão. Yose se levanta e leva a mão à orelha, percebendo que seu aparelho tinha caído e provavelmente se quebrado com o impacto. Ele massageia o ombro e encara Marcus.
— Você é patético, tio! Isso não muda a sua derrota! Você perdeu! Reconheça que você perdeu!
Avançando na direção do colega, Marcus é impedido por Akinnagbe, que o traz de volta à razão.
— Pare com isso agora, Marcus! Acorde, cara!
O policial mais velho empurra Akinnagbe e quando sai da sala, faz questão de pisar sobre o aparelho auditivo de Yose que estava num canto. Esmigalha o objeto com a sola do coturno.
— Sua brincadeira de líder não irá durar muito, Regina! Mas estarei de braços abertos, porque sei que você precisa de mim, menino meu!
Todos ficam em silêncio dentro da sala, com a saída de Marcus. O silêncio é sepulcral.
— Eu vou aceitar o leilão. – Yose fala sem olhar para os parceiros. – E vou atrair a atenção de quem tiver olhos para ver e coração para sentir. Não vamos jogar nossa toalha, mesmo que estejamos lutando contra uma máfia de doentes sexuais e de tráfico humano, formada por figurões. Vou atrair a atenção do demente que exterminou os dançarinos, seja por qual motivo for. O assassino da noite do leilão, serei eu!
Naquela mesma noite, Regina deixa Yose em frente a sua casa e recebe um convite tímido para entrar. Ele não havia usado palavras, mas usara sinais para chamá-la para dentro e ficar com ele. Parecia muito triste com aquela situação vivida no distrito.
Estava ultrajado.Sem hesitar e mesmo sem entender logo de início, Regina decifra os códigos e aceita o convite. Há muito tempo, queria ficar sozinha com ele e aproveitar-se para ficar mais próxima e mais confidente. Era a sua chance não queria desperdiçar, porque poderia não ter outra.
“Obrigado por ter aceitado o meu convite.”
Regina pede que ele não use sinais, mas que leia os seus lábios. Ela não queria conversar com os poucos sinais que conhecia, mas gostaria que ele se esforçasse e entendesse os movimentos de sua boca. Aproxima-se dele e segura seu rosto entre as mãos espalmadas. Ela sorri.
— Eu quero que você ignore as palavras de Marcus. Não seremos derrotados.
— Eu sei disso, Regina. – ele fala, mesmo sem escutar as próprias palavras. – Quer que eu ponha meu outro aparelho auditivo?
— Não. – ela fala devagar. – Quero conseguir entender você, sem o aparelho. Eu quero sentir você, quero sentir suas palavras e quero me comunicar com você, apenas com o auxílio de nossos sentidos.
Yose sorri e sente-se ainda mais encantado.
“Por favor, deixe-me usar meus sinais, então.”— ele gesticula e move os lábios.Aqueles gestos eram a coisa mais linda de ver e Regina sorri encantada com seu parceiro. Como era rico!
“Você...pode...usar seus sinais.”— ela arrisca alguns sinais e sorri, arrancando um sorriso dele também.
Num ato gentil e carinhoso, Yose a abraça e assim permanece por alguns longos segundos. Regina ergue os braços e o abraça também, acariciando suas costas fortes. Por que relutar em tocar no corpo dele, se tinha essa vontade desde o primeiro momento em que o vira? Ele estava dando sinal verde, mostrando que gostaria de compartilhar daquele contato. Por que não atender ao pedido mudo?
— É tão gostoso sentir seu corpo perto do meu...- ele sussurra ao ouvido dela. Não estava ouvindo as próprias palavras e isso estava dando coragem.
— Seria bem melhor se estivéssemos numa banheira de espuma. – ela ri, por saber que não seria ouvida.
Yose se afasta e a encara. Ele gesticula:
“ Você me disse algo. Seus lábios soltaram ar em meus ouvidos.”
— Eu lhe disse que seria mais interessante se...
Ele se inclina e delicadamente toca os lábios dela com os seus lábios. Um beijo simples e casto, quase respeitoso e pudico.Regina sente muita vontade de dar uma porrada nele, mas se controla. Como era possível que um homem com aquela boca, aquele rosto e aquele corpo, quisesse apenas lhe dar um beijo de irmãos?
— Isso é tudo o que pode fazer?
Não era aquilo que queria para aquela noite. Queria mais...
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