Na manhã seguinte...

Akinnagbe é recebido pela juíza Anadette, durante algum período de folga. Os dois decidem conversar na lanchonete do prédio e a simpatia da mulher provoca surpresa no policial.

— Eu agradeço o tempo que a senhora...

— Sente-se, colega! Temos pouco tempo de conversa e não devemos gastá-lo com formalidades, bajulações e perguntas indiretas. – ela sorri quando recebe dois copos com café, trazidos por uma atendente.

— Sou o policial Akinnagbe e estou na força tarefa para desvendar os crimes da boate Falcões Noturnos.

— Aquilo foi horrendo!

— A Prefeita Cora quer agilidade nas investigações. – o homem sorri e estende uma pasta com as fotos e ficha das vítimas. – Todos eles pertenciam ao sistema prisional e foram libertados por sua assinatura. Fora empregados por Manson, depois disso.

— Sim. Eram criminosos de baixo escalão e o presídio estava com superlotação. Tive de fazer uma limpeza ou teríamos um caos em breve. Decidi aceitar o programa de recuperação que Manson me ofereceu, em troca de um pagamento de impostos que estava sonegando. Ele me ajudava e eu o ajudava a pagar a dívida com a sociedade. – ela devolve as pastas.

— Um deles era aliciador de menores e outro facilitador de tráfico humano. Isso é atividade menor?

— Dentro do que havia naquele presídio, sim. Os advogados deles e de Manson fizeram um acordo e eu aceitei. Tudo foi feito dentro da lei.

Akinnagbe abaixa os cantos da boca guarda a pasta dentro de uma valise.

— A senhora frequenta a boate? – ele pergunta sem olhar para a mulher.

— Recebi um convite uma vez, mas não seria prudente uma juíza estar numa boate de strippers. – ela se inclina para frente. – Quando eu preciso de um belo jovem, eu sou discreta e o levo para minha casa de campo. Mas esta informação será negada, caso você queira escrever em seu relatório.

O policial sorri e nega com a cabeça.

— Apenas se eu fosse um tolo. De onde a senhora conhece Manson, além das audiências sobre sonegação de impostos?

— Ele é um empresário do ramo de entretenimento e sempre está na mídia. Com aquele visual, não há como passar incólume. – ela sorri e bebe um gole de café. – Quando eu recebi o processo sobre a sonegação, o conheci pessoalmente e confesso que fiquei chocada.

Os dois riem e concordam com a observação.

— Confesso o mesmo. Mais uma pergunta direta: o presídio perdeu o status de superlotado, com a liberação de apenas três homens?

A mulher empertiga seu corpo e fica pensativa por alguns segundos. Depois se tranquiliza e sorri.

— Todos os dançarinos de Manson, saíram do presídio e...

— São apenas doze homens. Esvaziou um presídio tirando apenas doze homens do cárcere?

Ela não responde de imediato.

— Com Manson sim. Mas eu estendi o programa de reabilitação para outros setores empresariais.

— Condenados em condicional, trabalhando após às dez da noite em uma boate com shows de strip-tease e com direito a saídas para programas sexuais? Isso é reabilitação?

Um misto de emoções e expressões passa pelo rosto da juíza. Ela mantém os olhos presos no copo com café e depois de algum tempo, levanta o rosto e espreme os lábios num sorriso forçado.

— Eu simpatizei muito com você, policial Akinnagbe. Mas acredito que quanto mais perguntas fizer, mais respostas terá. Quero que investigue o caso, mas eu adoraria vê-lo outra vez em um jantar mais intimista.

O policial levanta as sobrancelhas e entende perfeitamente o recado dado pela juíza. Concorda com a cabeça e a vê levantar-se e sair da mesa, despedindo-se com um sorriso constrangido e temeroso. Ele percebe que ela estava sob vigilância, pela maneira como havia olhado ao redor.

Algum tempo depois, o policial entra na sala de sua equipe e encontra Ruby conversando ao telefone, enquanto Regina organizava as fotografias das vítimas para criar um organograma.

— Como foi seu encontro com a juíza?

— Ela é parte da engrenagem. Tive a certeza de que ela apenas libera matéria prima para os tarados de plantão que frequentam a boate. Todos os dançarinos de Manson vieram do sistema prisional e penso que são liberados porque o prazo de validade deles é curto. Dentro e fora da cadeia.

Regina olha-o com curiosidade. Diz:

— Yose havia me contado sobre a discussão entre os dançarinos. Um deles afirmou que a chegada de Yose desviou a atenção que estava sobre os demais. Acredito que os clientes pagam pela diversão e a máfia de tráfico humano busca matéria prima nas cadeias.

Os policiais não dizem nada. Apenas esperam que a líder continue sua fala:

— As vítimas também lidavam com crimes semelhantes. São escolhidos de acordo com os artigos de condenação. – Regina cruza os braços na frente do peito. – Então, queridos, deduzo que não estamos lidando com um justiceiro que quer punir pessoas devassas. Estamos lidando com mercado de carne humana.

— E mantido por pessoas muito ricas e por pessoas poderosas ligadas a setores importantes da sociedade. – Akinnagbe sorri ao ver Yose chegar à sala. – E pelo que percebi, Anadette não pode mais sair desse esquema.

— E segundo os peritos, ritual com os corpos é feito por profissionais da medicina. A sutura, a manipulação dos corpos, a injeção de ar nas veias, a dose de droga utilizada. Algum médico maquiando os corpos para parecer crime ritualesco. — diz Regina, mordendo o lábio inferior.

Yose se aproxima de Regina e entrega um bilhete.

— Pediram para que você entrasse em contato com esse médico. Ligaram do hospital porque há uma amiga sua que foi levada com ferimentos de espancamento. É urgente!

Ao chegar ao hospital, Regina é orientada para encontrar onde estava Lacey. A jovem dormia numa maca em um quarto com mais duas mulheres. Marcada pelos hematomas, a jovem estava deformada e inchada, em nada fazendo lembrar aquela pessoa vaidosa com traços delicados.

Ao deparar-se com a situação da moça, Yose começa a passar mal. Ofega e praticamente se arrasta para fora do quarto, preocupando Regina que não sabe a quem dá atenção, em primeiro lugar. Bom, a jovem estava medicada e segura, facilitando sua decisão.

— Você está bem? – Regina toca as costas de Yose, que estava apoiado contra a parede do corredor.

— Eu...me vi naquela cama...tudo retornou tão nítido...

— Fique sentado aqui fora, porque vou conversar com Lacey e saber quem foi o imbecil que fez isso com ela.

Retornando ao quarto, Regina já encontra Lacey acordada, tendo conseguido abrir um dos olhos.

— Ei, menina! Você acordou!

Emocionada, Lacey chora e sente dores.

— Fique calma, minha querida. Eu vou cuidar de você.

— O cara que cuida das ruas, exigiu que eu pagasse uma porcentagem. Nem esperou minha resposta e começou a bater em mim.

Regina acaricia os cabelos da jovem.

— E esse cara tem nome?

— Tony Aneglo...ele controla as garotas das ruas...surgiu faz pouco tempo... – Lacey vira o rosto rapidamente quando vê Yose entrar no quarto.

— Não se preocupe, minha querida. Yose é policial e nosso amigo.

— Não quero que ele me veja assim...

— Tony Aneglo, hein? – o jovem policial repete e sai outra vez do quarto outra vez, sob o olhar atento e apaixonado de Regina.