Quebrei minha casca
14 Amigos, amigos
O relógio marcava pouca coisa depois das oito da noite, quando Regina retorna para a delegacia e ainda encontra sua equipe à sua espera. Marcus também estava lá, escrevendo algo em seu computador.
— Como está a sua amiga? – pergunta Akinnagbe interessado.
— Deformada. Apanhou muito e está assustada, além de ferida.
— Amiga sua? Quem? – Marcus olha por cima dos óculos.
— Lacey. Foi agredida por um tal Tony Aneglo.
— A prostituta virou sua amiga de infância, agora? – o homenzarrão acha graça da novidade. – Está progredindo, hein?
— Você é um babaca, sabia? Por que não mantém essa privada que você chama de boca, sempre fechada? Já que não consegue ser edificador, então, se finja de morto!
Marcus se surpreende com a reação da parceira. Nunca a tinha vista com tamanha fúria ou num estado de total defensiva.
— Ei, acalme-se! Foi uma brincadeira!
— Brincadeira, o caralho! Há uma pessoa ferida e amedrontada em um hospital e não pude deixar oficialmente um policial na porta do quarto, porque ela não é testemunha protegida! Como pensa que estamos nos sentindo?
O homenzarrão espalma as mãos no ar e confessa rendição.
— Vamos parar por aqui! Não precisamos discutir por causa de pessoas desconhecidas. Eu sou seu amigo!
Massageando as frontes, Regina percebe que estava alterada. A presença de Marcus a estava incomodando e precisava buscar conforto na figura das pessoas que haviam entrado em sua vida, recentemente.
— Vamos dar um tempo. – ela finalmente fala.
— Por que tanta tensão? – Marcus a olha como se não a conhecesse.
— Porque estamos enveredando por um caso que não pode ser desvendado. As pessoas envolvidas pedem ajuda, mas na verdade não querem a verdade. – Regina passa a ponta dos dedos sobre a mesa.
— O que está havendo com você, amor? Não pode envolver-se tanto assim, com um caso. Já trabalhamos em coisas piores e...
— Não posso me envolver? Você chorou quando aquele menino foi morto pelo traficante! Não venha me dizer para ser a durona, quando nem você consegue ser!
Marcus desliga seu computador e fecha suas pastas com suas anotações. Desde que Regina tinha sido nomeada para liderar aquela equipe de novatos, seu comportamento estava se modificando e sua docilidade sendo deixada de lado. Sua criatura assexuada estava se transformando numa belíssima fera feminina, com hormônios aflorados e sangue fervendo nas veias.
— Não está preocupada com alguma nova vítima em potencial. Está com a mente fixa naquele fedelho que se faz de sonso. Cuidado com ele, porque pode ser alguém que você pensa que é, mas que não é o que você pensa ser.
— Filosofando, agora? Estou preocupada com Yose dentro daquele covil e agora estou preocupada com a segurança de Lacey. A menina quase foi morta por uma imbecil que quer controlar uma área nova. Ela está deformada e foi colocada num quarto com outras mulheres e não está recebendo a atenção que precisa.
— Não podemos pedir proteção para a garota, a menos que houvesse denúncias contra o agressor. Sabe disso!
— Yose ficou no hospital. Preciso ir pernoitar lá, porque ele precisa ir para a boate.
Marcus fica pensativo e apenas levanta as sobrancelhas, como reação.
— Vá para casa e tente dormir um pouco. Eu irei para o hospital e substituirei o seu “surdinho sexy”.
Regina sente o forte desejo de enviar aquele desgraçado para os quintos dos infernos, mas não iria iniciar uma discussão. Ela sentia que Marcus estava apenas agindo por mero ciúme de Yose e que em breve iria reconhecer sua imbecilidade.
Pouco depois das dez da noite, Marcus chega ao hospital e encontra Yose sentado em um banco no corredor da enfermaria. O rapaz mexia em seu celular e estava num ponto estratégico para observar Lacey em sua cama, dormindo profundamente.
— A menina está bem machucada, hein?
Yose levanta o rosto e encara o policial. O que aquele ogro estava fazendo fora de seu pântano?
— Combinei com Regina que iria ficar em seu lugar e cuidar da menina. Pode ira embora, colega.
Abaixando os olhos de volta para a tela do celular, Yose continua sua conversa por vídeo, com uma mulher, usando sinais.
— Você precisa ir para a boate hoje?
Impaciente, Yose abaixa o celular e encara o homenzarrão. Acomoda-se para o lado no banco, quando Marcus se senta nele, encarando o policial mais velho.
— Como está sua investigação na boate? Alguém assediou você? Ameaçou você? – Marcus sorri tentando ser simpático. – Sugiro que não desperte inveja nos outros dançarinos ou algum deles irá atacar você, para eliminar competição.
Yose apenas concorda com a cabeça. Termina sua ligação e desliga o aparelho.
— Soube que todos os dançarinos de Manson estão ligados ao sistema prisional. Então, eles têm pavio curto e podem ser agressivos. E caso algum deles ataque você, intimidará o verdadeiro criminoso.
— Obrigado pelo conselho. Não pretendo decepcionar Regina.
— Sente algum suspeito ali dentro?
A pergunta e o interesse de Marcus desperta desconfiança em Yose. O que aquele troglodita que cheirava a tabaco, estava querendo?
— Por que não conversamos? Quem sabe, eu possa ajudá-lo a desvendar alguns comportamentos.
— Por que se recusou a participar deste trabalho? Não quer ser comandado por uma mulher?
Uma risada debochada é a primeira resposta de Marcus.
— Regina não está comandando nada. Ela está perdida correndo atrás do próprio rabo. Ou apenas encantada pelo seu.
— Você destruiu o respeito que os policiais deveriam ter por Regina. Não sei como você fez, mas conseguiu pisotear a autoestima dela e a transformou num “alho”. Por isso, quero você bem longe de todos nós, sobretudo, de Regina. Ela não precisa mais de você.
— Regina está atada a mim, querido. Ela precisa de mim, como um salvador precisa de um pecador. Ela não pode desvincular-se dos meus toques e dos meus comandos. Ela é um bebedor e eu sou a bebida.
O que? Que barbaridade que ele havia falado? O cara estava sem razão!
Uma mulher se aproxima dos dois policiais e os cumprimenta. Depois, dá uma olhada dentro do quarto e em seguida se volta para Yose, entregando uma prancheta com papeis para serem assinados.
— A transferência já pode ser feita, Dimarco.
O policial mais jovem se levanta e segura a prancheta. Assina nos locais indicados e os devolve à desconhecida.
— Em meia hora, poderemos levá-la porque a vaga já foi liberada.
— Muito obrigado, mesmo.
— Foi um prazer ajudar você. – ela sorri e vai embora.
Marcus sente vontade de perguntar, mas não iria cair naquela armadilha. O desgraçadinho estava criando alguma situação para mostrar-se eficiente e impressionar Kane e Regina. O menino não era tão inocente quanto queria mostrar, quando piscava aqueles imensos olhos celestes.
Antes que a noite termine, o policial mais velho acompanha a chegada de médicos e enfermeiros para a transferência de Lacey para outro hospital. Era certo que todo o trâmite tinha sido conseguido por Yose e a pergunta era sobre o motivo de tanta dedicação a uma prostituta de rua, espancada por um cafetão.
Sem se importar com a presença de Marcus, o policial mais jovem agradece alguns profissionais do hospital e segue a ambulância em seu carro, enquanto Marcus assiste a toda movimentação, sem perguntar coisa alguma e fazendo-se invisível às observações.
E que carro era aquele? Uma peça muito cara para o valor do salário de um policial recém-saído da academia! Quem era ele? O que estaria fazendo na equipe chefiada por Kane? Algo precisava ser descoberto.
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