Quebrei minha casca
28 Novidades assustam
De volta à delegacia, Akinnagbe procura Regina e a encontra acompanhando a entrevista de Ruby com um dos membros da lista vip da boate. Olhava-os pela parede de vidro. O homem estava acompanhado por seu advogado e já estava na fase de assinatura de seu depoimento, exibindo uma tranquilidade falsa. O policial se aproxima da líder e também passa a assistir ao depoimento do homem.
— Onde você estava? Ruby teve de entrevistar quatro pessoas desde a manhã de hoje.
— Yose e eu estávamos tirando a família do garoto morto pelo traficante naquela comunidade. Depois fomos ao banco para abrir uma conta e depositar uma grana para eles.
— Grana?
— Yose usou parte da grana do cachê do leilão e doou para uma mulher recomeçar a vida,ao lado do neto que vive.
— Isso é maravilhoso. – Regina volta sua atenção para as pessoas atrás da parede de vidro.
Akinnagbe entrega a pequena caixa para Regina.
— O que é isso?
— Algo que cabe a você decidir o que fazer com a carta que está aí dentro. Sabia que o traficante Rocco foi morto na cadeia?
A policial nega com a cabeça.
— É um caso de Marcus e ele não compartilhou comigo.
— Ele sabia que iria ser morto e resolveu enviar esta carta para a avó do menino morto. Você precisa saber o conteúdo da carta, Regina, mas somente você poderá decidir o que fazer com a informação.
Naquele mesmo dia, Kane entrega a denúncia contra Anadette Saradon, enviando aos superiores responsáveis todas as informações obre os favores e benefícios que ela oferecia ao irmão Frank Mason. Ela seria notificada após as informações serem analisadas por quem caberia julgar seu comportamento profissional.
— Eu soube que a juíza Anadette foi denunciada por facilitação ilícita nas sentenças de condicional. – Marcus entra na sala, como se fosse um leão saltando sobre sua presa. Todos os olhares se voltam para ele. – Isso vai ser o show do ano! Todas as sentenças dela serão questionadas! Até mesmo revogadas!
— Isso não me preocupa, Marcus. Deveria preocupar aos comparsas dela, porque todos irão cair, assim que a mulher for chamada a depor. Acha que ela irá assumir tudo sozinha?
— Tudo o que, Ruby? Libertar libertinos? Isso não é tão grave, assim!
— Mas colocar ex-detentos em liberdade condicional para trabalho de stripper e de prostituição após às dez da noite, além de beneficiar um irmão criminoso e esconder sua falsidade ideológica, deve garantir pelo menos a exoneração do cargo.
— Irmão?
— Seu informante não lhe disse que Anadette e Mason são irmãos?
O policial fica em silêncio e seu rosto não esboça reação alguma.
— Essa informação não foi compartilhada.
Chegando à sala, Regina e Akinnagbe não conseguem esconder seu choque com a presença de Marcus naquele espaço. O desconforto é logo percebido pelo homem e isso o irrita.
— Vai mesmo continuar mexendo em vespeiro, Regina? Acredita mesmo que sua equipe ficará protegida quando todos os depoimentos desses ricaços, chegarem ao fim? Eles irão pedir a sua cabeça e a cabeça de Kane, em espetos! Caia fora disso, enquanto pode!
— Não há como voltar, amigo.– Regina se aproxima do homem grande. Olha-o na alma. – Você deve ficar longe de nossa sala e de nossas investigações, porque não faz parte delas. Caso insista em procurar informantes, eu mando prender você. Entendeu?
— Pensei que eu fosse seu conselheiro e consultor.
— Meu consultor é Kane. Meus conselheiros são meus companheiros da equipe.
Os dois permanecem silenciosos, encarando-se, mas se dispersam quando Yose chega barulhento e agitado demais para o momento.
— Fiz um depósito bancário para Lacey e ela surtou! Eu estou tremendo até agora...- ele para quando vê os olhos poderosos de Marcus em sua direção.
— Um policial que usa um Range Rover Evoque e que faz depósitos bancários para uma prostituta? – ele olha para Regina e sorri debochado. – Seu menino de ouro está sustentando sua amiga prostituta? O que há entre a vadia e você, Regina? É um triângulo amoroso?
— Saia, Marcus, por favor.
O policial grande concorda com um movimento de cabeça. Caminha para a saída da sala. Para e encara Yose. Rosna:
— Não bastou corromper a sua alma e quis corromper a alma de minha amiga, seu amontoado de merda! Quer que ela queime na danação eterna ao seu lado, vagabundo desgraçado? Você precisa aprender muita coisa antes de ser um policial de verdade, viciado maldito! Vou fazer questão de ser seu professor, verme podre!
— Você é doente? – Yose sorri debochado e incrédulo. Ele caminha para junto de Akinnagbe e senta-se em um lugar qualquer.
— Esse cachorro raivoso precisa ser vacinado ou irá contaminar a todos por aqui! Faça algo com essa monstruosidade, Regina! Ele ainda vai me machucar! — Yose aponta o dedo indicador para Marcos.
— Não. Marcus não é nenhuma monstruosidade e ele irá controlar-se. É um bom homem!
Marcus bate a mão espalmada sobre a madeira do batente superior da porta. Depois sai dali.
— Ele sabe de algo que não sabemos. – Ruby comenta. – Ou está tentando nos alertar...ou quer obstruir a justiça.
— O fato de ser o cara que controlava o tráfico naquela comunidade, não o associa às mortes dos dançarinos. – Regina defende o amigo. Ela aponta para sua equipe. – Ruby e Akinnagbe irão realizar todas as entrevistas amanhã, sob minha supervisão; Yose conversará com Manson e com todos os dançarinos que encontrar na boate. Precisamos saber mais sobre o interesse de Radu em conseguir investimento para sua boate. Façam tudo e ainda consigam tempo para organizarem suas coisas porque iremos passar o fim de semana em Nova Orleans.
Ela estende a mão e segura o queixo de Yose.
— Você tem muitos contatos...conseguiria facilitar uma visita ao chefe de polícia de lá?
— Considere feito, amor.
Naquela noite, Regina se recusa a ir para sua casa. Queria uma noite diferente com seu jovem amante. Algo menos intimista e mais ousado e sabia que ele estava disposto a oferecer, bastando pedir.
Regina deposita as chaves sobre um móvel e retira os sapatos para ficar mais à vontade. Aproxima-se do amante e envolve-lhe a cintura com um abraço.
— E para você? Não vai guardar nenhum dinheiro para si?
— Não. Eu preciso me livrar dele. – ele se vira dentro do abraço de Regina. – Você quer um pouco?
O rosto de Regina se tranca e ela se afasta dele.
— Não. Eu tenho o suficiente guardado e meu salário basta para meu sustento e do gato de rua. Tenho minha casa, meu carro e o bastante para viajar quando desejo.
— Dinheiro nunca é demais.
— Mas eu sei como você o conseguiu. E nós ainda temos de conversar sobre o que houve naquele leilão, sobre a droga que usaram em você e sobre o Manson lhe fez. Vou denunciá-lo por ter seviciado você.
Yose fica em silêncio. Concorda com um movimento de cabeça.
— Mas agora a noite é nossa. – Regina segura o rosto do amante e o beija. Poderia arrancar o cérebro do homem com aquele beijo guloso.
Ao se afastar do rapaz, o deixa sorrindo e com o olhar nebuloso. O desejo começava a correr pelas suas veias junto com o sangue que se esquentava.
— Quero que dance para mim, Yose. Faça de conta que sou uma das Vips e que pagou por toda a sua atenção e dedicação. Faça com que eu fique alucinada sem me tocar.
Na manhã seguinte...
Quando Marcus chega à sala de Kane, encontra o Capitão ao lado de Regina, aguardando sua chegada. Percebe que algo estava para ser cobrado e exposto. Ele se empertiga e prepara-se para algum ataque.
— Sente-se, Marcus. Precisamos conversar. – Kane fala suavemente como sempre.
— O que aconteceu? O que eu fiz de errado? – ele sorri.
Regina entrega uma carta para o amigo.
Ele apanha o papel e começa a ler, mantendo a expressão inerte em seu rosto feroz. Depois, ele devolve o papel para a policial e não demonstra alteração alguma.
— Vão acreditar nas palavras de um traficante? Eu sou o mocinho, aqui!
— Marcus...- Kane fala sem alterar a voz.
— O cara tenta dominar uma comunidade pacífica, mata uma criança e a pendura num alambrado como forma de intimidação; expulsa a família da criança e usa o apartamento como QG do tráfico; troca tiros com as tropas enviadas pelo governo e acaba num presídio. É morto por adversários na cadeia e ainda tem coragem de escrever uma carta me incriminando!
— Marcus...
— Sou um policial ilibado...quase decente e não vou aceitar...
— Marcus, eu já estava investigando você. – Kane o interrompe. Vê o policial arregalar os olhos. – Eu sou corporativista e protegi você, mesmo sabendo o que você estava fazendo. Não é somente a carta de Rocco contra você, mas os resultados de minha investigação depois de muitas denúncias.
O policial grande busca apoio nos olhos frios de Regina e não encontra.
— Quando eu o responsabilizei pelo trabalho de proteção de minha comunidade, não autorizei você a ser o chefe do tráfico local e tampouco nomear algum irresponsável ganancioso para fazer as suas tarefas. Aquele é meu povo e merece respeito.
— Kane, eu...
— Marcus, você precisa de descanso ou serei obrigado a fazer a denúncia contra seus atos. Mas como sou protetor dos meus pupilos, vou levar todos os relatórios contra você e a carta para algum lugar onde sopre muito vento. Pode ser que uma rajada de vento abra minha valise e leve embora os papéis, para que eu os perca. Porém, vou exigir o seu afastamento.
— Afastamento?
— Ou quer explicar-se para a Corregedoria?
Marcus inspira profundamente e abaixa os olhos.
— Ficará afastado por três meses, em licença remunerada. Vou preencher os papéis para que isso ocorra rapidamente e você fique fora de circulação. Não quero que os abutres da corregedoria ponham as mãos em você.
Concordando com um movimento de cabeça, Marcus levanta o queixo e continua mostrando-se altivo.
— Obrigado, Kane.
— Agradeça a sua amiga Regina que me convenceu a não acabar com sua raça. Mas saiba que sua alma carregará a responsabilidade pela morte do garoto.
— Como conseguiu esta carta? – Marcus aponta para o papel sobre a mesa.
Kane e Regina se entreolham.
— Rocco enviou para a avó do menino morto.
—Sim! E como a carta chegou até vocês? – Marcus altera um tom em sua voz.
Tranquila, Regina esconde as mãos nos bolsos da calça e mostra sua serenidade.
— Yose recebeu a carta quando foi levar dinheiro para a mulher. Ele está dividindo o pagamento recebido pelo leilão. – Regina fala sem entonação.
Sem conter a gargalhada, Marcus explode num divertimento. Aquilo era hilário!
— Seu michê está dividindo a grana da prostituição? Está sendo tão lucrativo assim? Mas isso é trágico demais! Você precisa ser purificada deste contato com essa podridão humana!
— Deveria agradecer por ele ter entregado a carta para mim. Poderia ter feito a denúncia contra você e até sua pensão seria retirada. Sabe como os abutres da Corregedoria, agem.
— Eu devo agradecer a ele? Eu tenho a obrigação de limpar você e ele! – Marcus se vira e sai da sala, furioso como sempre.
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