— Preciso que vocês dois fiquem aqui neste final de semana. Preciso que conversem com o dançarino Dario e descubram a verdadeira história da fotografia e de onde partiu a ordem para que Yose a recebesse. Tenho convicção de que Dario sabe que somos policiais e que está sendo pressionado por alguém mais forte.

Akinnagbe ouve tudo calado e atento.

— Yose e eu iremos criar um pequeno teatro para poder sair da cidade. Tenho certeza de que estamos sendo vigiados e podem nos seguir até Nova Orleans. – Regina toca o braço do policial. – Preciso que mantenha Dario protegido, porque ele deve estar apavorado e vigiado.

O policial concorda com a cabeça.

Do final do corredor, Ruby observa a conversa dos colegas e aguarda o sinal de Regina, que acontece quando ela brinca com os cabelos. Era o momento:

— Regina! Posso confirmar sua presença no churrasco de minha mãe? – ela grita e chama a atenção de quem estava por perto.

Alguns policiais começam a rir.

— Não vai rolar! – Regina grita da outra extremidade do corredor. – Vou para um SPA em São Francisco e a carne que vou comer é crua, com muito músculos e uma tatuagem na altura do traseiro!

Outras policiais gargalham e incentivam a resposta da investigadora. Piadas dúbias são espalhadas com sugestões de temperos para a ingestão da carne preciosa.

Akinnagbe abaixa a cabeça e ri da brincadeira das duas amigas. Elas não poderiam tentar ser mais discretas?

— Precisa encapar a carne para ficar mais saborosa! – grita uma policial ao longe.

— Já testei a qualidade e a carne é muito saudável! – responde Regina em voz alta. – Não precisa encapar! Vai ser comida sem capa mesmo!!

Mais uma vez, as pessoas riem da brincadeira. Retomam suas atividades quando Kane aparece na porta de sua sala e interessa-se pela gritaria.

— Nós iremos para São Francisco e de lá pegaremos um voo noturno para Nova Orleans. – cochicha Regina para o amigo. – No domingo pela noite, estaremos de volta.

— Anadette ainda não se apresentou. Creio que ela fará até a segunda feira ou iremos apresentar a denúncia. A propósito: Yose conseguiu contato com o Chefe de Polícia de Nova Orleans?

— Sim. Iremos ser recebidos pelo homem, na casa dele.

Era noite, quando Regina decide dar mais uma olhada em sua bagagem para a viagem na manhã seguinte. Já havia posto o gato de rua para dormir em sua almofada, apagado as luzes de todos os cômodos do andar de baixo da casa e estava apenas se preparando para acionar o alarme e depois ir desfrutar da companhia de seu amante que a esperava na cama.

Antes de teclar a senha, ouve batidas na porta principal. Aguça sua audição e percebe que as batidas são reais. Seria Marcus? Apanha sua arma e aproxima-se da porta.

— Quem é?

— Sou eu, Chloe!

— Chole? – ela se espanta e trata de abrir imediatamente a porta.

Em pé, diante da policial, uma menina de rostinho triangular e cabelos ensebados. Vestia uma jaqueta surrada e tênis velhos. Não estava com expressão amistosa.

— Você existe mesmo?? – Regina se ajoelha na frente da garota e a abraça com força. – Eu juro que pensei que você fosse um delicioso delírio que eu tive pela perda de sangue!! Eu a vi no hospital, mas você sumiu e acreditei que fosse uma visão febril!!

— Isso é ofensivo, moça! – a menina se desvencilha do abraço. – Não irá me convidar para entrar em sua casa? Pensei que fossemos amigas!

Regina se levanta e gesticula para que ela entre na casa. Fecha a porta atrás das duas e acompanhada a garota na sala. Acende a luz e aponta para um sofá.

— Eu salvei sua vida, tirei a estaca de seu abdômen e dei-lhe um elixir para que sobrevivesse e você me chama de visão febril! — Chole se senta no sofá. Amua e faz beicinho.

— Você é muito importante, menina! – Regina a abraça novamente e beija sua pele fria. – Você está com fome? Quer tomar um banho e vestir roupas limpas e quentes? Aliás, como você me encontrou?

Chole acha graça nas perguntas e acaricia os cabelos de Regina.

— Estamos ligadas, minha querida. Penso que você não faz ideia do que nos une e da força de nosso relacionamento. Não sou uma mera criança que entrou na vida de uma policial, por acaso.

Regina se senta no chão da sala. Ouve a garota falar:

— Eu sinto a sua presença onde quer que você esteja. E sei que em seu coração, você sabe do que eu estou falando. Não percebeu seus sentidos ficarem mais aguçados? Os cheiros mais intensos? Sua audição mais afiada e seu desejo pelo seu jovem amante, mais potente?

— Do que está falando? Como sabe disso? Eu não comentei nem com Ruby!

— Ruby não é como eu. Naquela noite, tirei a estaca de sua barriga, antes que você morresse. Porém, para que tudo fosse regenerado em seu corpo, eu lhe dei o meu elixir e criei um vínculo poderoso entre nós.

— Fizemos um pacto de sangue...

— Pacto de sangue...acordo de hemoglobinas, do que quiser chamar. Você foi aquecida pelo meu sangue, entretanto, por eu não ter sido aquecida pelo seu, você não se transformou em algo com o que sou. – a menina sorri.

— Céus...você é uma...- Regina se arrasta lentamente e vai encostar-se noutro sofá.

— Não me denomine. Não é necessário. Basta que você saiba, reconheça a respeite a minha natureza. – Chloe olha ao redor e cheira o ar. – Eu quero ver o seu jovem amante.

Sem responder, Regina continua observando os traços da garota. Fica em silêncio por muito segundos. Olha a garota como se estivesse vendo alguma criatura fantástica saída de um conto de horror, contado por algum aldeão vindo do oriente.

— Estou magoada depois de tudo o que fiz por você. – Chloe comenta mantendo os olhos fixos num ponto qualquer. – Salvei sua vida, porque eu a escolhi para ser minha nova mãe.

— Como?

— Meu recente pai postiço morreu de overdose. Quando eu cheguei em casa pela noite, eu o encontrei morto. Tudo o que pude fazer foi enterrar o corpo. – a garota sorri. – Ele era um drogado e mesmo assim cuidava de mim. Como estou sozinha, agora, voltei meus olhos para os lados e encontrei você.

— Não posso ser sua mãe, Chloe. Poderei encontrar um lar para você, mas...

— Você não quer esta responsabilidade? Tudo bem! Você se relaciona com pessoas maravilhosas, singulares e eu poderei escolher qualquer uma delas, para que seja um adulto responsável por mim.

Ficando em pé, Regina olha com raiva para a menina.

— Quando eu salvo uma vida, não tenho o direito de cobrar!

— Mas eu cobro! – Chloe também se levanta. – Eu lhe dei o meu sangue e por isso estamos atadas! Temos um vínculo até a morte de uma das duas! Poderá me matar e assim ficar livre de sua responsabilidade!

— Responsabilidade?

— Sou uma menina de doze anos e tudo o que lhe pedi foi um quarto para que possa dormir. Não lhe disse que esse quarto deveria ser dentro de sua casa. Poderia ser nas ruínas de uma fábrica que não será demolida tão já.

O impacto da frase da garota surte o efeito de um soco no estômago da policial. Sua alma se enche de ternura.

— Ruínas? Eu pensei em um abrigo...pensei em uma família substituta...

— Não quero este tipo de vínculo, Regina. Quero apenas um espaço para dormir. – ela aponta para os lados. – Poderia ser em seu porão. Você sequer saberia quando eu estivesse aqui.

Regina toca o rostinho da garota e sorri.

— Quer tomar um banho e dormir um pouco?

Debochada, Chloe ri demoradamente.

— Eu sou uma pessoa notívaga. E no momento, tudo o que quero é lembrar-lhe de sua responsabilidade comigo. Aliás, quero também ver o seu lindo amante.

— Deixe Yose fora disso.

— Eu quero ver o seu amante, Regina. Agora!