— Você comeu bosta ou bateram muito em sua cabeça quando era menina?? Acha mesmo que vou empenhar minha energia física e minha beleza para procurar um assassino que pune criminosos pederastas e drogados? Você leu a ficha criminal daqueles caras? Não são anjinhos que caíram de alguma nuvem, Regina! Eles saíram do sistema carcerário e estavam sob o regime condicional! Estão ilegalmente em uma boate depois das dez da noite, fazer programas sexuais e são protegidos por algum juiz envolvido até a medula!

— Eu gostaria de enfrentar esse caso, mas me sentiria segura se você estivesse comigo.

— Nem morto, Gigia! Acha mesmo que vou entrar numa boate para ver homens tirando a roupa? – Marcus sequer levanta a cabeça para olhar sua parceira. – E muito menos para fortalecer o nome de Kane para uma futura eleição! Caso eu tenha a opção de escolha, não vou desperdiçar minha energia para proteger gente tarada, podre e enfeitiçada por imoralidade sexual!

— E nem em nome de nossa amizade?

— Nem pelo Messi, nem pela Madonna e nem pela Rhianna! Tire isso de sua cabeça porque é desgraça anunciada. Você não terá apoio de ninguém desta Delegacia. Deixe a equipe do Colby cuidar dessa situação. Ele vai fingir que investiga, a imprensa finge que acredita e a população agradece o fato de alguém tirar esses desajustados criminosos de circulação! Além disso, quem irá aceitar fazer parte dessa brincadeira? Você nem tem o respeito dos policiais, Regina! Como pensa que irá comandá-los? Caia na real, menina!

Regina segura a mão do amigo e ele a encara. O rosto de Marcus se suaviza.

— Regina, meu amor, quero que me aponte um ou uma policial aqui dentro que tenha perfil para entrar numa boate como aquela? Os frequentadores transitam pela nossa cidade, por cima de nossas cabeças em seus jatinhos ou helicópteros. Pense comigo: qual juiz emitirá mandatos para que consigamos chamar aquelas pessoas para depor? Pela lógica, todos os frequentadores devem ser ouvidos, mas como conseguiríamos trazê-los para a delegacia?

— Não estamos em competição, Marcus. A Prefeita Cora quer algum resultado e vai facilitar o nosso trabalho, porque a corda está sendo apertada no pescoço dela. Mesmo que Kane seja afastado do cargo por não resolver esse caso, ela terá morte política na próxima eleição, caso não surjam resultados! – ela aperta a mão do parceiro. – Preciso de sua competência, de sua força e amizade nisso. Por favor! Além disso, não iremos abandonar os seus outros casos!

Ele rosna. Faz caras e bocas, rosna mais um pouco e depois abaixa a cabeça, derrubando os ombros em derrota.

— Certo! Vou ficar de fora, mas posso dar dicas e auxiliar em alguma dúvida, quando surgir. Não me envolva com pessoas daquele lugar e nem associe meu nome às suas patuscadas!

Um sorriso de agradecimento é a única reação física de Regina. Ela sabia que seria o maior desafio de sua carreira, porque exigiria profundas modificações em sua postura e em seu estilo. Teria de evocar as orientações que havia recebido das instrutoras naquele colégio horroroso e começar a portar de maneira menos formal. Tudo deveria ser mudado.

E o dia continua seu trajeto...

Regina continua sua pesquisa nos relatórios para obter mais informações sobre aquele caso macabro e meticuloso. Lá pelas tantas, observa uma policial de cabelos escuros chegar acompanhada por uma jovem prostituta, enfeitada e debochada demais para uma tarde. Aquilo chama sua atenção.

A jovem é algemada a uma cadeira, enquanto iria aguardar o seu atendimento e a maneira despreocupada dela, começa a encantar a atenção da investigadora. E ideias começam a surgir em sua cabeça.

— Por que aquela moça está aqui, Ruby?

— Presa por agredir um cliente. Ela fez um show em frente ao escritório dele e os funcionários chamaram ajuda.

— Posso conversar com ela?

— É toda sua. – responde a policial. – Não vou fichá-la, porque é perda de tempo. Mas vou dar uma canseira para ela se acalme um pouco. Depois, mais tarde eu a liberarei.

Regina se aproxima da jovem prostituta e senta-se próximo a ela. Sorri.

— Podemos conversar?

— O que você quer? Eu fui até lá para que ele me pagasse...

— Isso não me interessa, senhorita. Eu quero outra coisa.

A jovem arregala os olhos e depois sorri.

— Lamento, mas não atendo mulheres.

— Mas irá me atender. Preciso de um grande favor e eu troca vou pessoalmente cobrar esse putano que caloteou você.

A jovem sorri e se empertiga. Aquilo estava cheirando a negócios.

— Quem você quer que eu mate?

As duas mulheres sorriem. Regina abre as algemas da garota e a leva para conversarem longe dali. Seria seu primeiro passo.