Antes que conseguisse sair para acompanhar Yose à boate, Regina recebe a ordem de que deveria acompanhar a equipe de Marcus em uma diligência. Sem hesitar, ela muda o seu rumo e segue o parceiro.

A equipe chega a uma fábrica abandonada e é recebida pelos criminosos com disparos. Seria mais uma noite tensa e cuidadosa para os policiais e uma chance de aproximação entre os dois parceiros.

Durante algum tempo, os policiais fazem sua perseguição, disparam, lutam, correm e quando finalmente conseguem deter o grupo criminoso, Regina observa a fuga de um deles para outro andar daquele prédio.

Ela ignora os chamados de Marcus e corre na perseguição do homem, subindo os degraus de tijolos e obcecada em conseguir prender aquele desgraçado debochado. E ela o alcança depois de perseguir o cara por mais três andares. Cansados, fatigados, os dois lutam fisicamente.

Regina percebe que não conseguiria ser páreo para o bandido cansado e tendo perdido sua arma, ela usa um pedaço grande de madeira para acertar a lateral do corpo do homem, que se desequilibra e despenca num vão no canto do soalho velho. Iria cair num fosso, caso ela não tivesse voado e agarrado as mãos dele.

— Não me deixe cair!

— Segura firme os meus braços! – lutando contra o peso do homem, Regina faz uma alavanca com as pernas e consegue ajudá-lo a subir para o soalho, mas é surpreendida, quando ele a puxa violentamente a atira no imenso fosso escuro, fazendo com que ela se estabaque nos entulhos lá embaixo.

Ele foge e abandona a mulher que havia acabado de salvar-se a vida. Mas ela era uma policial e estava do lado oposto de suas atividades financeiras.

Regina fica deitada no chão, sentindo o forte gosto de sangue subir à sua boca. Um gosto metálico e salgado, que a obriga a virar o rosto para não se afogar naquele liquido quente. Iria morrer. Estava ferida e uma imensa estaca estava cravada em seu corpo, tendo saído pela frente em sua barriga. Era apenas uma questão de minutos.

Ao longe, ela ouve a voz de Marcus, mas não consegue responder. Queria poder gritar, mas sua voz era apenas um chiado. Sorri ao lembrar-se dos lindos olhos de Yose, de seu sorriso e da noite louca em que havia se entregado a ele e o recebido de volta. Ela se arrepende por não ter aproveitado mais momentos ao lado dele, roubar-lhe beijos, toques, despi-lo, sendo que o máximo que fazia era ficar olhando para ele.

Seu corpo começa a ser tomado pelo frio e ela sente a morte mais perto. Fecha os olhos por alguns segundos, porém, os abre em seguida ao sentir uma mão pequena e fria em sua testa. Era uma menina de rosto triangular e queixo fino, que a olhava com muita ternura.

— Você vai viver.

— Es...estou com t-tanto f-frio...

— Perdeu muito sangue, mas vai sobreviver, querida. – a menina sorri tão lindamente, que Regina consegue sorrir de volta. – Vou ajudar você, criança.

— Regina...meu nome...

— Eu sei. Ouvi os homens chamando seu nome, lá em cima. Eu sou Chloe e moro aqui há muito tempo. – a menina se senta ao lado de Regina. – Vou dar algo para que beba e que fortaleça o seu corpo. Isso irá manter você viva até que seus companheiros consigam descer até aqui.

Algo morno e salgado é derramado sobre os lábios de Regina e tinha quase o mesmo gosto de sangue que ela golfava. Que bebida horrível! Uma menina com bebida? A podre garota deveria ser alguma órfã abandonada pelo sistema, lutando para sobreviver. Que tristeza! E mesmo assim, exibia solidariedade a uma moribunda.

Regina bebe o líquido quente e começa a sentir-se mais aquecida. Seu corpo dói menos e ela se esquece da fome que estava sentindo quando chegara ao prédio. Ri de sua própria situação.

— Você ficará bem, moça. Eu irei visitar você, um dia.

— Obri...obrigada...Chloe. – é tudo o que a policial consegue dizer, quando tudo fica escuro.

Ao abrir os olhos, Regina percebe que está na cama de um hospital. O quarto era amplo e tinha um tom azul celeste, lindo como a cor dos olhos de Yose. Observa os lados e vê vários fios ligados em seus braços e corpo, embora não estivesse respirando com a ajuda de aparelhos.

Não se sentia fraca e sua mente estava nítida. Lembrava-se do tombo naquele fosso e da bebida recebida da garota. Como ela se chamava mesmo? Ah, sim! Chloe! Linda com seu rostinho em formato de morango!

— Você acordou. – a voz baixa de Yose chega com música aos seus ouvidos.

— Acordei.

— Sua recuperação surpreendeu a todos nós, meu amor.

Ela sorri e ergue a mão para tocar aquele rosto bonito.

— Quanto tempo eu dormi?

— Três longos dias. – ele se inclina e beija-lhe os lábios. – Não torne a fazer isso, porque se você se atrever a morrer, eu a ressuscitarei apenas para matá-la de novo.

Regina acha graça na ameaça. Ri e não sente dores, embora se lembrasse da estaca fincada em sua barriga. Deveria estar morta naquele momento.

— Como me tiraram do fosso?

— Você não estava em fosso. Estava ferida e caída no soalho da fábrica, em meio aos entulhos.

Ela estende a mão cheia de conectores e toca o queixo do jovem policial.

— Eu caí no fosso. O desgraçado me empurrou, depois que eu o salvei.

— Tudo bem, não se canse.

— Como estão as investigações? Você foi leiloado?

Yose sorri e exibe seus dentes grandes e brancos.

— Adiamos o leilão. Mas estamos trabalhando bem. Quando você retornar, teremos avançado um pouco mais.

— Estão colhendo os depoimentos?

— Não se preocupe com isso, Regina...

— Quero saber ou irei me levantar daqui! – ela se altera e ele se sobressalta, empertigando-se para olhá-la melhor. – A equipe é minha e eu sou a líder!

Caminhando para longe da cama, Yose a observa calado por alguns segundos. Parecia decepcionado e envergonhado.

— Kane pediu mandatos e todos os clientes perenes estão sendo ouvidos. Eu não posso participar os depoimentos, mas Akin e Ruby estão apostos, além de Kane e da policial Sarah.

— Quem é Sarah?

— Policial designada por Kane para auxiliar nos depoimentos, até a sua volta.

Impaciente com sua situação, Regina gesticula de maneira frenética e ordena que o policial saia do quarto. Ele a estava irritando com sua beleza, seu cheiro e sua voz macia. O queria longe dali, antes que avançasse sobre ele.

Naquela noite, Yose chega à boate sozinho. No camarim, ele fica silencioso, olhando fixamente no espelho, pensativo se deveria continuar aquela loucura ou não. Mas precisava manter-se firme para cumprir sua função naquela situação bizarra e assustadora. O leilão tinha sido adiado e seria realizado naquela noite, depois de seu telefonema para Manson, naquela tarde.

Um dançarino entra no camarim e sorri ao encontrar o Precioso sozinho, alheio ao que estava em volta. Apanha uma das cadeiras e vai sentar-se bem perto de Yose, atraindo a atenção do jovem.

— Você consegue escutar tudo o que falamos?

— Digamos que ouço oito entre dez palavras. O aparelho me ajuda.

— E sem o aparelho?

— Ouço alguns sons, mas consigo ler os lábios da pessoa. – Yose sorri.

— Você nasceu surdo? – ele tenta ser simpático.

— Minha audição foi afetada por uma meningite, quando eu tinha doze anos. Porém, minhas cordas vocais ficaram intactas. Mas por que está me perguntando isso?

— Porque você é tão lindo para ser surdo!

— Além de surdo eu deveria ser feio?

Os dois começam a rir. Quando param com o seu riso, o dançarino apoia sua mão na coxa do policial.

— Sergio me disse que você queria ser policial, mas os babacas o recusaram por causa da audição. Por que ser policial?

Yose dá de ombros. Mas não responde especificamente o que o outro queria ouvir.

— Todo menino tem esse sonho, um dia. Minha mãe tinha um amigo policial e eu queria ser como ele. Por que a pergunta?

— Tenho muita curiosidade sobre você. Vejo como o corvo velho olha em sua direção e sei que ele está interessado. Por isso me atrai a atenção, também. Está nervoso com o leilão?

Acomodando-se na cadeira, de forma que pudesse ver o homem de frente, Yose olha-o com muita atenção.

— É algo incomum em minha vida. Não sei o que posso esperar.

— Será apenas um momento de prazer, Yose. Você será leiloado em uma festa.

Yose toca o braço do dançarino com segurança. Sorri.

— Os dançarinos mortos também foram leiloados?

— Apenas Radu participava de leilões. Ele era preferido dos clientes, porque fazia tudo o que lhe era pedido. O cara seria um topmodel se tivesse juízo e disciplina.

— Onde ele está? – Yose pergunta despretensiosamente.

— Ninguém sabe. Radu estava planejando abrir uma boate noutra cidade e estava animado. Dizia apenas que precisaria de muito dinheiro e que estava providenciando. Então, ele deixou a boate e levou consigo os outros dançarinos que morreram. Ele nos abandonou e irritou alguém.

— E para onde ele foi?

— Não sei exatamente, porque não nos disseram. Um dia, ele me disse que estava protegido por alguém e que iria conseguir o dinheiro para seu empreendimento.

Os olhos grandes de Yose continuam fixos no rosto do dançarino.

— Ele fugiu, certamente. Os amigos dele foram mortos e ele seria o próximo. Falei com ele numa tarde e depois perdemos o contato. Ele não me disse onde estava, mas me enviou uma fotografia interessante. Ele é muito narcisista!

O policial percebe que o dançarino estava tentando abrir caminho para expor alguma informação importante, sem se comprometer. Gesticula para que ele continuasse.

— Era uma fotografia bonita em frente a uma janela e com um prédio antigo ao fundo. Vasculhei minha memória e lembrei-me de que já tinha visto aquele prédio na cidade. Então, quando encontrei o endereço nas pesquisas, fui até o prédio da frente e visitei os apartamentos entre o primeiro e o terceiro andar, pelo meu cálculo.

— Que visão de perito! – Yose sorri desconfiado. Seus instintos de policial gritavam sobre a intenção do dançarino ao divulgar aquela história.

O dançarino desce os olhos à meia visão e fica pensativo, encarando o policial.

— Eu falsifiquei um distintivo e incorporei um policial para visitar os apartamentos. Mas nenhum dos apartamentos tinha o piso de madeira, como o que aparece na foto de Radu. Sei como agem os policiais e não encontrei dificuldades em conseguir informações. Ninguém conhecia o cara e não havia como se esquecer de um rosto como aquele. Então, eu desisti de investigar.

Estreitando os olhos, Yose continua observando o dançarino. Por longos segundos, os dois ficam silenciosos, encarando-se. Por que o homem tinha falado sobre a fotografia? Qual seria o interesse em revelar sua pseudo investigação? E por que não havia exibido a fotografia, já que ela existia?

Durante aquele período de silêncio, dançarino continua olhando o policial com tamanha fixação que poderia ser considerada obsessão. Caso alguém visse a cena, poderia entender como tinha sido a reação de Pigmaleão ao ver sua estátua Galateia, quando foi terminada.

— Você é tão lindo...tem noção do que causa nas pessoas?

— Estou assustado com o leilão.

O homem segura as mãos do policial e as aperta, tentando oferecer força ao companheiro.

— Lá em cima, você estará seguro. E quando for arrematado, há regras que impedem a avaria do produto.

Mais uma vez, os dois começar a rir. Avaria do produto?

O dançarino se levanta e sai do camarim, deixando o policial incomodado com aquele encontro. No corredor, o rapaz apanha seu celular e envia uma mensagem.

“Já falei sobre a existência da fotografia e enfatizei o prédio no cenário. Agora, falta enviar a foto.”