Quebrei minha casca

22 Loucuras, loucuras...


Manson entra no camarim e encontra seus dançarinos prontos para as apresentações daquela noite. Num canto, deitado sobre o sofá e usando um leque colorido para abanar-se, Yose observava o celular, alheio à movimentação em volta. Havia acabado de receber a fotografia de Radu, enviado por algum celular desconhecido. Tudo estava assustador demais, porque ele sentia que o outro dançarino sabia que ele era um policial infiltrado.

— Preciso de uma conta bancária para a transferência do que devo pagar a você. – o empresário se inclina sobre o policial, para ser visto.

— Não quero transação bancária. Quero dinheiro vivo, em cédulas altas vigentes. – Yose apenas move os olhos para o rosto do empresário e depois volta a olhar seu celular.

— Nossos leilões movimentam milhões e você quer o pagamento em espécie? – o tom de voz de Manson atrai a atenção dos outros dançarinos. – Tem noção do que está exigindo?

Yose se senta no sofá e olha o empresário como se não entendesse a gravidade de seu pedido.

— Será isso ou vou embora sem fazer a dança.

Sérgio observa Manson sair do camarim e não aprova o comportamento de Yose. Aproxima-se dele e atrai a atenção do policial.

— Você é um menino piolhento, Yose. Não brinque com um homem como Mason. – o dançarino fala em tom alto e atrai a atenção de alguém. — Por que você não desiste de enfrentar Mason? O que você está querendo com esta postura de provocação? Está desafiando o corvo velho, por quê?

Uma expressão desdenhosa surge desenhada no rosto bonito de Yose. Ele dá de ombros.

— Eu não quero transação bancária, porque terei de justificar o dinheiro e não estou provocando pessoa alguma. Quero dinheiro vivo e não abro mão desta forma de pagamento. Vou ser drogado, morto e costurado por isso?

Sergio ia agarrar o braço de Yose, mas sua mão é empurrada pela mão de Yose.

— Tire suas mãos de mim. Eu não pertenço a você.

— Eu adoro você e fico preocupado com sua segurança.

— Não precisa me tocar para provar isso. – Yose ergue as mãos na altura das orelhas.

E a noite começa para a boate. Era um momento especial apenas para o grupo seleto, embora o salão estivesse lotado para as apresentações dos dançarinos. O leilão aconteceria num horário avançado e somente para oito pessoas muito especiais e abastadas, fixas da lista dos escolhidos, numa sala afastada.

— Está pronto para o leilão? – Manson entrega um copo com suco para Yose.

O policial apanha o copo e sente a temperatura da bebida. Observa o copo suando e não consegue esconder seu receio em beber o que estava lá dentro. Todas as fotografias dos corpos dos dançarinos mortos, o teor dos relatórios e a presença de droga nas veias das vítimas, surgem como telas expostas em um corredor de um museu, em sua mente.

— Não tem mais opção, Yose. – Manson estende a mão, oferecendo ajuda.

Yose não aceita a oferta da mão para levantar-se. Apenas fica encarando o copo, como se estivesse esperando que o objeto lhe desse alguma informação. Tendo ficado sozinho no camarim, ele esvazia o conteúdo do copo e protege o objeto com um plástico, enrolando-o em uma toalha de rosto e depois guardando em um dos compartimentos de sua mochila.

Momentos depois, o policial termina sua apresentação para toda a plateia que estava no salão. Havia dançado bem, mas seu coração estava apertado com a ausência de Regina em sua vida e em sua empreitada naquela boate. Estava totalmente desprotegido, porém, iria manter-se firme porque não iria decepcionar Regina. Era algo que sempre latejava em sua mente.

Depois de banhado, Yose se veste com uma sunga sumária, protegida apenas por uma jaqueta de couro escuro como complemento. Perfuma-se e aguarda ser conduzido por Sergio para a sala onde aconteceria o leilão. E aguarda ali por longos e arrastados minutos assustadores.

— Está pronto? – Sergio sorri e entrega-lhe uma garrafa com limonada.

Yose apanha a garrafa e observa que a tampa ainda estava lacrada. Muito suada, a garrafa é usada como objeto para refrescar o rosto. Ele encosta a garrafa na pela e fecha os olhos, esperando que sua temperatura ficasse um pouco mais baixa. Depois, quebra o lacre e bebe um gole generoso da bebida.

— Vamos para o leilão?

Momentos depois, Yose é levado para um palco e acomodado ali, sobre um imenso puff conforto. Observa o pequeno grupo seleto e percebe que Manson estava entre as pessoas. Sobre o palco, Sergio estava à frente de um púlpito e começa com profissionalismo e segurança, a realização dos lances.

Durante a disputa, Yose percebe que seu corpo estava começando a ficar superaquecido. Sua nuca parecia ser pressionada para frente por mãos invisíveis, enquanto que seus braços e pernas sofrem um leve formigamento. Malditos! Eles o havia drogado! Mas como?

Vasculhando com dificuldade e sua mente, Yose se lembra da garrafa com a tampa lacrada e extremamente suada. Eles deveriam ter injetado a droga na garrafa com uma seringa e pelo fato da garrafa estar molhada, ele não perceberia se a limonada vazasse pelo furo feito pela agulha. Muito amador, mas um método eficiente demais!

Ele tenta retirar a jaqueta, porém, seus movimentos ficam lentos e morosos. Abaixa a cabeça e ofega para ventilar seu corpo. Precisava manter-se desperto para conseguir cobrar Manson sobre sua trapaça.

Uma disputa acirrada entre Manson e a empresária Sandra Durre é iniciada. Os dois quase terminam sua competição em uma briga física, numa competição para saber quem levaria o Precioso para a sessão de degustação. Seria a orgia da noite!

Quando o leilão termina, tudo o que Yose consegue entender é que Manson havia vencido a disputa e que tudo aconteceria noutro ambiente. É delicadamente conduzido por mãos fortes de outros dançarinos e mesmo com dificuldade em manter-se desperto, Yose luta para deixar seus olhos abertos. Estava muito irritado e certamente seu estado emocional impedia que a droga dominasse seu organismo.

Deitado numa cama grande no centro de um cômodo com entulhos em volta, o policial percebe que os convidados tinham se acomodando em cadeiras estofadas e decoradas como se fossem tronos vermelhos e dourados. Não sabia quanto tempo estava naquele lugar, mas sabia que tinha sido o período suficiente para que Manson se travestisse em uma criatura bizarra de olhos bicolores, meia calça arrastão, uma saia de bailarina e peito nu. O que mais assustava era aquele estranho gorro com fones de ouvidos, como se estivesse numa performance de rock. Era a coisa mais horrenda e medonha para que um homem dopado pudesse ver.

Embriagado, Yose acha graça quando sua visão exibe-se como se ele estivesse vendo as imagens de dentro da água. Tudo se movia caracteristicamente do ângulo de um mergulhador, inclusive aquela coisa horrenda em que se transformara Manson. E para completar a insanidade, o empresário cantava Sweet Dreams em um tom agudo e rouco, usando seus dentes travados. Yose gargalha porque sente que está flutuando.

Algum tempo depois de sua flutuação, Yose apenas consegue enxergar o teto daquele lugar horrível, que se parecia com o interior de uma chaminé de uma fábrica. Longo, alto e com uma abertura redonda lá em cima. A mesma chaminé onde os vampiros haviam aprisionado Claudia, para que fosse consumida pelos raios do sol, ao amanhecer, na história do livro Entrevista com o Vampiro.

Olhando em volta, Yose tenta guardar traços dos rostos para futuras identificações ou reconhecimentos, mas sua visão estava começando a ficar turva e as fisionomias não eram estáticas. Os traços humanos começavam a dar espaço para coisas que se pareciam com máscaras e pouco a pouco as cabeças sofrem uma transformação: os pescoços se alongam, os olhos desaparecem e dão lugar para o terrível aspecto do asqueroso peixe-vampiro, com sua boca circular e apavorante.

— Regina...- é tudo o que ele consegue sussurrar, antes que tudo se escureça e perca qualquer contato com o mundo externo.

Estava desligando-se para tudo.