Quebrei minha casca
48 Invasões
Vários endereços, nomes e detalhes sobre os visitantes da página da web são entregues aos policiais da guarda do Governador e muitas invasões em casas são feitas para apreensão de materiais cibernéticos. Muitos adolescentes e seus pais são conduzidos aos distritos policiais para prestarem depoimento sobre a participação nas sessões de tortura do filho do Governador Thomaz. Problemas na certa!
Noutro ponto da cidade, Regina sai do banho e encontra Chloe sentada em sua cama. As duas se encaram.
— Você não consegue sentir a presença de Yose? O quanto vocês eram íntimos? – a menina pergunta.
— Com a intimidade de um casal de adultos.
— Você teve contato com os fluídos do corpo dele? Todos eles? Suor, saliva, sêmen e sangue?
— Sangue? Sangue não! — Regina se espanta.
— Ele nunca furou o dedinho e você lambeu o sangue, para depois dar beijinhos?
— Não!
Chloe ergue os braços e começa a andar pelo quarto. Precisava encontrar um meio de criar uma conexão de Regina com Yose, antes que Marcus o findasse.
— Não o localizarei pelo cheiro...não dei meu elixir a ele...- a menina aponta Regina – Eu a encontraria em qualquer parte do mundo, porque você bebeu do elixir. Mas Yose...
Regina se veste porque teria de retornar para o distrito. O caso de Yose não era o único que merecia atenção e sabia que estava amparada pela guarda do Governador, embora os achasse incompetentes.
A noite era o pior momento para quem conhecia Yose. Era o momento em que as câmeras dos computadores eram abertas e as cenas de sadismo de Marcus começavam a ser exibidas. Naquela noite, o número de visitantes havia sofrido uma queda, com a disseminação das notícias sobre prisões no Estado e por outras partes do país. Aquilo demonstrava o poder político deo governador Thomaz Landero Scalia.
A irritação toma conta da alma de Marcus. Ele queria audiência, queria ferir Regina, Manson e todos os responsáveis pela destruição de sua reputação como policial. Aquela pequena pulga que era a equipe de Regina havia entrado por uma vereda perigosa e desmantelado de maneira amadora, a Família que o acolhera e valorizara o seu potencial. Ele era importante naquele esquema e durante anos colheu riquezas justas de seu trabalho, ao contrário da falta de reconhecimento do sistema judiciário daquele país.
Ainda era cedo demais para matar o menino de ouro. Tinha de provocar mais confusão entre os policiais e os capangas do Governador. Além disso, era delicioso demais ouvir seu nome sempre na imprensa. Em toda sua carreira, nunca havia sido tão odiado e amado ao mesmo tempo. Nem mesmo quando praticava Wrestling
As câmeras são mais uma vez acionadas. As amarras de Yose são verificadas. O dia tinha sido de total jejum para o cativo, mantido amarrado naquela cadeira, sendo submetido à falta de privacidade para ir ao banheiro. Todas as poucas excreções sendo liberadas ali mesmo.
— Olhe para mim. Hoje é a terceira sessão e até o momento é a mais áspera e criativa. Vamos ver se daqui para frente, os visitantes tomam coragem e inventam algo mais interessante e menos infantil. – ele fala rosnando, olhando diretamente para as câmeras. – Esta sessão é para o meu amado homenzinho que virou mulher. Será em sua homenagem, minha querida Regina!
Marcus prende a cabeça de Yose contra o espaldar da cadeira. Em seguida, apanha uma tesoura de jardinagem e a retira de um embrulho esterilizado. Era chegado o momento de aumentar o grau da dor.
Aproxima-se novamente de Yose e sorri. Rápido como todo torturador frio e bem treinado, o policial agarra a carne do peito de seu cativo e corta fora o mamilo, conseguindo roubar um grito agonizante dele.
— Regina!!
Marcus exibe para os espectadores, o pedaço de carne e pele mutilados, pingando sangue. — Isso chegará até você, Regina, como souvenir do seu amante. – ele apanha um pequeno pote de plástico e recolhe o sangue que escorri do corpo de Yose, usando como proteção para o mamilo decepado.
Depois, cuidadosamente, coloca um liquido anticoagulante dentro do sangue e lacra o pote.
— Isso será entregue em suas mãos, Regina. O que fará com ele, não me importa. Estará conservado!
Noutro ponto da cidade, Regina explode em raiva e dor. Seus companheiros estavam consternados demais para emitir alguma opinião. Ver as cenas nas mídias encontradas durante as investigações, com rapazes desconhecidos produzia indignação e repulsa, mas ver um companheiro sendo massacrado era uma sensação de invalidez e puro ódio. Já Chloe não sente as mesmas emoções. Ela percebe possibilidade.
Eram seis horas da manhã e a equipe de Regina, além de seus colaboradores atendiam os telefonemas com informações fornecidas por pessoas interessadas em ajudar ou mesmo atrapalhar as investigações. Mesmo cansada demais, Chloe também atendia aos telefonemas e conseguia reconhecer quem tentava mentir para divertir-se com a situação. Lançava suas ameaças e identificava alguns incautos para servirem de exemplo a quem quisesse continuar com gracejos numa situação horrível.
A policial Sarah invade intempestivamente a sala e encontra Regina conversando com um dos policiais da guarda do Governador, enviado para monitorar qualquer tentativa de aproximação de Marcus à antiga parceira. A policial abre a boca e encara a sua chefe, depois encara o visitante. Teria de inventar algo para falar.
— Srta. Mills...o rapaz da farmácia acabou de trazer seu creme ginecológico. Mas eu verifiquei e não tem aplicador...você precisa conferir para que eu devolva à farmácia, quando terminar meu plantão. Não quer vir ao banheiro para verificar comigo?
— Meu creme ginecológico? – Regina percebe um código naquela frase maluca.
O policial visitante abaixa a cabeça, constrangido. Era uma situação bizarra e feminina demais para que ele demonstrasse algum interesse.
Momentos depois, no toalete, as duas policiais abrem a caixa de isopor. Lá dentro, o pote de plástico enviado por Marcus.
Sarah diz:
— Ele sabia que ninguém estaria vigiando a minha casa e então deixou isso em minha porta. Recebi um telefonema avisando sobre a entrega e depois encontrei o aparelho telefônico usado, em meu quintal. Disse-me que eu teria duas horas para pôr isso em suas mãos.
Regina mantém os olhos presos naquele pedaço de carne, protegida por sangue.
— Peça para que Ruby consiga mandatos urgentes com o juiz Northon. Quero as imagens de todas as câmeras de segurança vizinhas à sua casa. Marcus não foi a pé para deixar isso em sua casa. Precisamos saber do veículo que está usando e assim rastreá-lo. Quando conseguir as imagens, faça a maior divulgação que conseguir. Alguém deve ter visto o carro. Ele está por perto.
Sarah sai correndo do banheiro, deixando Regina sozinha. Mas logo, a porta do banheiro é aberta e Chloe entra para encarar Regina.
— O que houve?
— Marcus levou o pote com o mamilo decepado e o sangue de Yose para a casa de Sarah.
— E o que está esperando? Você beberá o liquido ou eu o terei de fazê-lo? – a menina estende a mão. — Pode me dar?
Regina nega com a cabeça.
— Não pode fazer nada agora, Chloe. Quero que corra para meu carro e esconda-se no porta malas. Não há tempo para chegarmos em casa, porque o dia já está alto. Há uma lona lá dentro e pode proteger-se contra qualquer vestígio do sol. Durma e depois ao entardecer, vá alimentar-se e iremos desenvolver essa habilidade em mim. Enquanto isso, seguiremos a logística policial.
A menina concorda.
Pouco depois das dez da manhã, um homem trabalha na instalação de um aquário gigante na sala do porão onde estava Marcus. Enquanto o homem trabalhava, o policial permanecia sentado numa poltrona e lendo um livro. Não havia trocado as palavras mais do que necessárias com o vidraceiro.
— O que vai criar aqui dentro? Cabe um homem aqui dentro!
— Um casal de peixes-vampiros. – Marcus não levanta a cabeça. Apenas aponta para um aquário menor, onde dois horrendos bichos nadavam. – Quando terminar as instalações, apanhe o aquário com cuidado e despeje os bichos aí dentro.
Cerca de três horas depois, o vidraceiro termina o trabalho. Marcus se levanta, ajeita os óculos diante do nariz e vai apanhar uma pequena valise, retornando para entregar ao homem.
— Aqui dentro tem o quádruplo do valor que combinamos. Você vai se esquecer de que esteve aqui. Sugiro que aproveite o que tem aqui dentro e vá fazer uma viagem com sua bela esposa. Feche a loja e afaste-se dessa cidade por alguns dias.
O vidraceiro fica estático.
— Sei que você sabe quem sou e eu sei quem você é. Sejamos inteligentes e urbanos. Eu ficarei feliz e sua família permanece viva. – Marcus sorri.
— Sim, senhor...
— Acompanhe-me até a saída para a sua liberdade. Ou prefere deixar a valise e permanecer aqui comigo?
— Não, senhor.
Naquele mesmo momento, noutro ponto da cidade, Ruby entrega um documento para Regina.
— Conseguimos um trabalho bastante ágil com nossos peritos e o carro de Yose foi localizado. Mas Sarah e Taylor o encontraram depenado em uma fábrica abandonada.Marcus não foi à casa de Sarah com o carro de Yose e quero que veja as imagens.
— Que carro horrível é esse?
— Um Suzuki Sidekick, 1996, roxo e com detalhes pretos. Não pode ser rastreado e Marcus usou as placas do carro de Yose, neste veículo.
— Srta. Mills, conseguimos mais endereços dos visitantes e houve uma diminuição drástica nos acessos...- a voz cansada de Severina interrompe a conversa das policiais. Ela para e olha as imagens na tela do computador e estende o dedo indicador. – Ei! Este é o carro de minha tia Anadette! Foi roubado quando ela foi morta e a polícia não se importou com isso.
— Como sabe que este é o carro dela?
— Como sei? Meu tio Manson personalizou o carro antes de dar a ela. É blindado, tem maior capacidade do motor e não pode ser rastreado. Por que pensam que uma juíza manteria um carro de 1996, sendo que poderia ter o carro que quisesse? Isso é carro de quem está atolado até o pescoço com corrupção. É o carro dela. Onde o viram?
— Está com Marcus. – Regina informa.
— É um grandíssimo filho de uma ... — Severina deixa os papéis sobre a mesa e sai dali.
A tarde vem indiferente aos acontecimentos. Era um período de angústia, exceto para Jared e sua mãe, agitados e envolvidos até a medula na perseguição dos visitantes.
Marcus entrega um prato com sopa para Yose, depois de medicá-lo. Observa o rapaz comendo como se aquela fosse sua última refeição. Sua mente viaja em lembranças e a cena de filme antigo retorna em evocação.“Nem a fome e nem a guerra foram capazes de roubar a beleza do menino”, havia dito Cyrano de Bergerac, num determinado momento do filme em que observava seu adversário pelo amor de uma donzela.
— A nossa audiência está caindo, Yose. Vamos ter de apimentar a nossa encenação. Nossa plateia merece.
Fale com o autor