Quebrei minha casca
34 Driblando o tempo
Horas depois, naquele mesmo dia..
Regina chega à delegacia e caminha apressada para a sala de sua equipe. Precisava conversar com Akinnagbe, mas antes fala com Ruby ao telefone. Muitas coisas precisavam ser organizadas, depois da reunião com a Prefeita Cora e com membros da Corregedoria naquela tarde, e também, quando descobre que o dançarino Dario tinha fugido também. Muitas atribulações.
— Pedido inusitado, mas você decidiu corretamente, Ruby.
“Estamos na carceragem da Delegacia do Xerife Lobo e Mason ficará numa cela isolada. O advogado dele conseguiu autorização para isso. Agora, você precisa solicitar acertar os trâmites de delação premiada, com o Juiz Norton. Manson quer proteger a irmã dele. ”
— Ele tentará, mas a situação dela não está tão favorável. Solicitei mandatos de prisões para as pessoas que aparecem no vídeo da morte do dançarino. Quando forem expedidos, sairemos em diligência para efetuar as prisões. Até mais tarde!
Quando Regina abre a porta da sala de sua equipe, fica espantada em não ver Akinnagbe em seu posto. Olha em volta e ao entrar no cômodo, encontra-o caído em um canto próximo à uma mesa.
Momentos depois, Regina está caminhando pelo corredor de um hospital, tentando entrar em contato com Yose, mas sem sucesso. O celular dele estava fora de área ou desligado. Estava apavorada, porque sabia que nenhum reforço havia sido solicitado para proteção do policial em campo. A CPU do computador de Akinnagbe tinha recebido água enquanto funcionava, provocando curto circuito. Poderia ser restaurada, mas não naquele momento.
Mais do que qualquer instante em sua vida, Regina se sente sozinha e desamparada. Tinha se acostumado a ser sempre amparada por Marcus ou Kane, mas naquele momento, nenhum dos dois estava ao seu lado para orientá-la. De súbito, ela para bem no centro do corredor do hospital e evoca palavras simples usadas por Kane no dia do enterro do velho Henry Mills, quando ela conheceu o significado da palavra solidão.
“Você é pequena hoje, frágil e precisará de mim. Mas aí dentro de sua alma há uma mulher destemida, audaciosamente corajosa, poderosa e uma valente guerreira. Um dia, serei eu quem pedirá proteção a você.”
Sorrindo, ela faz recomendações sobre os cuidados ao policial ferido e deixa o hospital. Tinha muita coisa para fazer, agora que o caso estava começando a ser desvendado e que estava com um membro a menos na equipe. Prioridade um: encontrar Yose. Prioridade dois: trazer mais membros para sua equipe. Prioridade três: apressar o Juiz Norton e começar as diligências para as prisões.
De volta à delegacia, ela solicita as imagens das câmeras de segurança para saber o que aconteceu com o colega, enquanto um técnico é trazido para tentar recupera a CPU do computador. Envia para todos os setores da delegacia, um recado sobre a necessidade de mais dois membros para fazer parte da equipe, depois do acontecido com Akinnagbe, ainda inconsciente no hospital.
— Como está o estado de saúde dele? – uma policial pergunta.
— A pancada foi forte demais e teve traumatismo craniano, talvez com a queda. Deixei um policial na porta do quarto dele, com a recomendação de não permitir entrada de outras pessoas que não fossem da equipe médica. Nem mesmo policiais estão autorizados a entrar, afinal de contas, ele foi agredido aqui dentro.
Regina agradece a preocupação e afasta-se da colega, quando é abordada por outro policial.
— O que quer, policial Taylor? Vai fazer outra piada sobre meu suposto pênis? – ela grita.
— Não é nada disso. Quero saber se você me aceitaria como parte de sua equipe, enquanto Akin está no hospital. – o homem estava ansioso. – Tenho condições para ser membro dela. Sabe disso!
Os olhos escuros e furiosos de Regina se fixam no rosto do colega. Não o estava censurando, mas estava pensativa e não tinha lugar melhor para olhar. Sequer o estava vendo.
— Certo! Sua primeira missão é localizar o policial Yose! Vá para a boate, busque em bola de cristal, fale com algum feiticeiro, use seus contatos na NASA, fale com Jack Chan, não sei! Encontre-o o mais rápido possível! Ele está sob risco de morte! – ela anota o celular de Yose em um papel e o empurra contra o peito do policial, deixando-o para trás. – Mexa sua bunda branca e faça algo de útil para alguém!
Taylor não hesita e sai correndo. Precisava cumprir aquela missão para redimir-se com Regina, agora que ela havia acatado seu pedido e não se aproveitado de sua posição para vingar-se das humilhações que ele a fazia passar.
A noite estava apenas começando e os convidados da festa já estavam alterados pelo uso de bebidas e drogas. Riam alto, falavam coisa com coisa e ousavam toques atrevidos nos dançarinos.
Sergio e Yose estavam na sala principal e ainda não tinha subido ao palco para sua dança. O policial observava todos os rostos e comportamentos, analisando suas linguagens corporais que exalavam tranquilidade diante do curso de uma investigação sobre mortes. As pessoas não se importavam com o que ocorria do lado de fora daquela casa, desde que conseguissem obter prazer sexual retirado dos corpos dos dançarinos de Manson. Sua certeza de impunidade era tamanha e assustadora.
— Pare de olhar esse maldito celular, Yose. – Sergio se mostra irritado. – Sua agente não virá!
— Há bloqueador de sinal de celular aqui dentro?
— Não sei nada sobre isso! Mas tente ser gentil e deixe os convidados tocarem você ou vão começar a desconfiar!
— Desconfiar do que? – ele dá de ombros.
— Podem pensar que você é um policial infiltrado e isso será uma situação muito ruim para você.
Um som gutural demorado é a resposta risonha de Yose. Ele continua observando em torno, até ser mais uma vez abordado por uma mulher madura, de cabelos grisalhos e bochechas rosadas.
— Está disposto a uma aventura mais ousada, menino?
— O que tem em mente, querida? – ele pergunta sorrindo e tocando aparelho auditivo.
— Pensei em tirar seu aparelho e vendar os seus olhos, para que fique sem comunicação com o mundo, exceto pelo tato de sua pele. – ela sorri e fica na ponta dos pés para tocar a orelha dele, com os lábios.
— Não ficarei sem comunicação, porque escuto alguns sons sem o aparelho.
— Os sons que quero que escute, são os sons de minhas lambidas barulhentas sobre sua pele, meu lindo. Posso oferecer alguns lindos mimos para você, que é a coisa mais linda desta noite. Meu marido tem uma rede de joalherias e posso encher sua cama com diamantes, rubis e safiras das mais diversas cores e valores. Basta que você dê o sinal verde.
— Ainda não fui autorizado a fazer programas, querida.
— Eu lhe darei lindas pedras e muitas lambidas de prazer.
Yose se sobressalta e olha para o outro dançarino.
— Lambidas no traseiro??
Sergio acha graça na confusão auditiva e inclina-se na direção da convidada.
— Para ele, está reservado algo mais especial que as suas pedrinhas, minha cara. Então, precisará esperar o momento certo do lance. – Sergio faz questão de ser desagradável.
A mulher se afasta resmungando.
— Outro leilão?
— Não sabia? O gerente não lhe informou?
Antes que Yose pudesse responder, algo acontece. Saído de algum ponto da casa, surge um rapaz jovem, transtornado, totalmente nu e ensanguentado. O homem estava em puro horror e chorava, exibindo o corpo tomado por feridas de açoites e com pequenos ganchos presos aos seus mamilos, além de um horrendo anel peniano que arroxeava e inchava seu membro.
— S-socorro...ajudem-me... – ele cai ajoelhado diante de Yose e segura o tecido de sua calça. Encosta o rosto sujo na roupa do policial e o mancha de sangue.
Sergio fica estático, enquanto os convidados gargalham, assustadores. Os dançarinos que estavam na sala, também se aterrorizam com a visão daquele corpo torturado.
Sem controlar seus instintos, Yose saca de sua arma e empurra o jovem ferido para cima de Sergio, que não consegue outra reação a não ser abraçá-lo.
Rápido, o policial agarra uma das convidadas pelos cabelos e a usa como escudo, apontando a arma para ela. A mulher grita e todos param com suas risadas podres e debochadas.
— Eu poderei ser alvejado e até morrer, mas ela irá ficar paraplégica, caso isso me ocorra. Estou com a arma apontada para a coluna dela e sei exatamente onde disparar.
— Pare com isso! – ela grita.
— Sergio, tire esse anel peniano do rapaz e cubra-o! Agora! – ele grita vendo Sergio agir como se tivesse levado um chute. Observa o dançarino obedecê-lo, assustado.
— Vamos sair bem devagar desta sala e não seremos seguidos! Sugiro que depois que eu saia daqui, todos vocês façam o mesmo, porque irei atrair a atenção da polícia quando chegar ao hospital!
Mais burburinho e outro grito da refém, quando sente a pressão da arma em sua coluna. Dois seguranças da casa param com seu avanço.
— Seja rápido, Sergio! Apanhe o rapaz e vamos sair daqui em meu carro! – Yose mantém sua refém e percebe que não seria difícil sair dali, porque as pessoas não teriam como conseguir reações rápidas, devido à quantidade de substâncias químicas em seus corpos. – Rapidez, Sergio!!
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