Naquele final de tarde...

— E quando aconteceu isso? – Marcus é pego de surpresa por Kane, quando retorna para a delegacia no final de seu expediente.

— A cerca de uma hora. O governador exigiu uma retaliação aos traficantes. Equipes do setor de narcótico e soldados de elite invadiram a comunidade e efetuaram prisões de traficantes. Houve troca de tiros e muitos traficantes foram mortos, mas o líder que havia ordenado a morte do menino, foi apenas preso.

— E o que você tem a ver com isso, Kane? Seus contatos? – Marcus não controla sua raiva.

— Não fiz pedido algum, Marcus. Eu estava seguindo os trâmites da lei. Fiz um relatório e enviei ao Secretário de Segurança, mas não esperava uma resposta rápida.

Marcus olha de um lado a outro e fica pensativo, tentando encontrar resposta para aquela retaliação tão rápida e fulminante. O governador tinha acionado forças maiores para efetuar aquela invasão devastadora.

— Há policiais na comunidade?

— Sim. Os apartamentos e outros espaços dos prédios foram vasculhados com mandatos, em busca de drogas e armas. Muita coisa foi apreendida e muitas prisões efetuadas. Houve uma limpeza geral e o local está sendo vigiado para evitar que outros traficantes queiram tomar posse do conjunto habitacional.

— Isso é impressionante! – Marcus massageia as frontes e decide sair daquela sala porque tudo estava abafado demais.

Não era homem que sabia ser contrariado ou ter sua força questionada ou desafiada. Não conseguia degustar a informação de que Kane receberia os méritos por aquela atuação, mostrando o quanto o Governador o apreciava.

O tempo vai escoando, até a noite se apresentar para o dominar o cenário...

Mesmo contrariado, Marcus decide visitar a equipe de Regina para organizar seus pensamentos e controlar sua frustração. Observa os policiais mais jovens envolvidos em suas tarefas e decide decifrar o novo colega, protegido de Regina. Ou mesmo aproximar-se dele.

O cara tinha um magnetismo impressionante que poderia provocar insanidade. Insanidade? Por que pensar aquilo de outro homem? Tenta iniciar alguma conversa, mas é totalmente ignorado pelos outros policiais, concentrados em suas tarefas.

Nenhum dos policiais mais jovens, presta atenção na figura do policial mais velho. Marcus decide sair sem ser notado.

Naquela noite, Yose chega sozinho à boate e é recepcionado por um Manson sorridente e guloso. Mesmo sabendo que o homem era apenas um falso dançarino, ele não conseguia esconder seu entusiasmo com aquela singularidade. A sensação prazerosa era maior que sua sanidade.

— Onde está sua amiga Regina? Ela enfeita minha boate e recebeu muitos elogios.

— Ela está envolvida com algumas visitas. – Yose entra no camarim e coloca sua bolsa sobre a mesa, sendo seguido por Mason.

— Eu lhe agradeço por ter aceitado vir dançar hoje. Meus planos eram para manter somente uma apresentação semanal, mas o seu sucesso foi tão grande que me fizeram muitos pedidos para uma nova apresentação. Você tem autorização para receber cachê?

Yose levanta os imensos olhos celestes e sorri com eles.

— Por que não teria?

— Eu recebi uma sugestão para realizar um leilão. – Manson estende a mão e a apoia no ombro do policial. – Depois do show, você seria leiloado para ser degustado pela pessoa que o arrematar.

Outros dançarinos entram no camarim para o início da preparação das apresentações extraordinárias daquela noite e passam discretos pelos dois homens que conversavam. Um dos dançarinos se senta próximo a Yose e finge estar ocupado na limpeza do rosto, apenas para conseguir ouvir o teor da conversa.

— O que você entende por ser degustado?

Manson sorri e exibe seus dentes tortos, naquela boca pintada de vermelho.

— Faremos um leilão, você será servido em uma bandeja e o arrematador irá besuntar você com algo de gosto pessoal. Depois...apenas lamber você inteiro. Mas inteiro mesmo. É muito excitante para quem lambe, para quem é lambido e para quem vê as lambidas.

Os olhos de Yose ficam ainda maiores, depois ele estreita as sobrancelhas e faz uma careta de espanto. Novamente mexe com as sobrancelhas grossas, sem acreditar no que ouvira.

— Do montante arrecadado no leilão, eu lhe darei trinta por cento como cachê. O que me diz? – a mão de Manson descansa no cotovelo de Yose.

O policial faz uma careta infantil e cínica. Fica pensativo por alguns segundos. Depois, apoia com força a mão no ombro do empresário, sorri com seus dentes clarinhos e nega com a cabeça.

— Equívoco seu, Manson. Do montante arrecadado, serei “eu” que lhe darei trinta por cento. A dança é minha, a habilidade é minha e a beleza também é minha. Portanto, a maior parte do dinheiro será minha. O cachê será seu.

O empresário começa a rir. Bate palmas e sai do camarim.

O dançarino que estava sentado ao lado, levanta-se e chama a atenção para si. Invade o espaço pessoal de Yose, permitindo que seu hálito de fumante fosse nitidamente sentido.

— Não faça isso, cara. Não tente um enfrentamento com Manson, porque você somente sairá perdendo. Os dançarinos que morreram também decidiram bater de frente com o monstro. – ele fala baixo.

Sem responder de imediato, Yose estreita os olhos e presta atenção.

— Eles eram queridos aqui dentro. Cada qual com seu estilo e sua beleza, mas sonharam em voar mais alto do que Manson iria permitir. Veja como eles acabaram!

— Isso é grave. Está acusando Manson de ser o responsável pelas mortes? – pergunta o policial.

O dançarino segura o bíceps de Yose com muita força.

— Não! Estou dizendo que a ganância deles chamou a desgraça para dentro desta boate. Eles receberam a punição pela ganância.

Yose se desvencilha do toque do colega de dança.

— Não sou ganancioso e nem serei punido por querer valorizar o meu trabalho!

— Vi como você dançou na noite de ontem. É mais devasso do que todos os três que morreram. Estou apenas avisando, para que não atraia tanto a atenção dos clientes, porque o criminoso está lá fora e vigia os nossos passos. – o homem estava totalmente alterado por algum tipo de droga.

Com movimentos rápidos, Yose se desvencilha mais uma vez da mão do outro dançarino. Empurra-o para longe e atrai os olhares dos outros rapazes, que se aproximam para que uma briga fosse evitada.

— Parem com isso, vocês dois! – um dos homens fala alto. – Não precisamos de mais confusões aqui dentro! Precisávamos ficar unidos ou cair fora daqui, mas já que decidimos ficar ou entrar neste covil, deveremos manter nossa união ou seremos massacrados por algum demente que está lá na arena apenas aguardando a chance!

— Ele está atraindo os olhos assassinos para a nossa direção! – grita o primeiro dançarino.

— Ninguém está fazendo nada disso! – o segundo homem mantém o tom alto na voz. – O carinha veio apenas dançar e devemos agradecer a mudança de foco! Qual de nós seria o próximo da lista negra? Pelos menos, ele desviou os olhares apenas para ele! Deixe-o dançar, ser leiloado, negociar com o corvo velho e somente assim teremos mais tempo no anonimato!

Yose percebe a gravidade da situação. Todos eram completamente patológicos em seus pensamentos, desarrazoados e não conseguiam ver perspectiva em suas vidas, a não ser tornarem-se vítimas na lista cruel de mortes ritualizadas. Estavam conformados por não verem futuro em suas vidas ou estavam totalmente drogados.