Quebrei minha casca
4 A noite chega
E com ela a solidão. Regina entra em casa e é recebida por um gato, morador de rua, que usava sua casa como abrigo e fonte de alimentos, mas que nunca queria fixar moradia ali.
— Olá, Petit! Como foi seu dia?
O gato mia, pedindo carinho e um pouco mais de ração do que a quantidade deixada pela manhã. Regina o apanha nos braços e o aproxima do corpo. Depois o coloca no chão e vai servir alguma comida fresca.
— Estou tão magoada com o que ouvi hoje cedo. – ela se senta e fica observando o gato comer. – Tive tanta vontade de chorar e isso me fez ver tantas coisas que não reparava. Sei lá! Observei como as outras policiais se vestem, se portam e como algumas delas conseguem ser femininas, mesmo usando calças e empunhando aquelas armas. Fiz comparações comigo.
Ela olha para a janela da casa e fica pensativa, até ter a impressão de ver uma garota olhando pelo lado de fora da casa. Sim, havia uma garota ali.
O som da campainha do telefone interrompe sua observação.
— Pronto!
“Regina, amor, sou eu: Marcus!”
— O que houve? Precisa de algo?
“Preciso saber como você está. Não nos falamos o dia todo! ”
— Estou me sentindo bem. Agora, estava alimentando o gato de rua.
“Posso passar aí? Levarei comida japonesa, alguma bebida, assistiremos ao jogo e depois faremos um sexo gostoso...”
— Não quero. – ela o interrompe. – Tenho coisas para organizar e quero dormir.
“Dormir às sete da noite? Você está depressiva, parceira?”
— Estou irritada e não quero companhia além do gato de rua. Vou fazer umas pesquisas e organizar algumas coisas pessoais. Você e eu, nos veremos amanhã. – ela caminha até a janela e observa com cuidado, para verificar onde estava a menina.
“Beleza! Caso precise de algo, pode me ligar. Bye!”
Ela desliga o telefone e sorri. Marcus nunca se despedia com beijos, apenas com abraços e com aquele maldito “bye”. Ele não a via como mulher e estava intrínseco na alma dele, que sequer percebia sua falta de gentileza.
Depois do banho e do jantar, Regina se senta diante de seu computador. Precisava sanar algumas curiosidades e descobrir casos semelhantes aos que estavam afligindo sua cidade e o coração da única pessoa que se importava com ela: Kane.
Passava das duas da manhã, quando Regina decide deitar-se e descansar. Não estava cansada, apenas triste demais para continuar naquela solidão. Algo precisava acontecer em sua vida, uma guinada total ou morreria de depressão, sentindo-se esquecida pelo mundo e pela alegria.
E ela adormece perdida naqueles pensamentos de auto piedade. Queria esquecer-se daquele dia, mas ele a iria acompanhar por mais algum tempo.
Na manhã seguinte, logo nas primeiras horas do expediente, Regina se anuncia na sala de seu chefe. É recebida por um sorriso largo de seu velho amigo.
— Trouxe chocolate. – ela coloca o copo sobre a mesa de Kane. – E fiz uma pesquisa, também.
— Sobre?
— Mortes ligadas ao mundo de espetáculos.
Kane não se mostra muito interessado, mas gesticula para que ela continue. Estava cansado.
— Final dos anos 90, seis jovens foram mortos com assinatura da criminosa. Eram todos dançarinos de um clube de strip e foram encontrados usando parte de suas fantasias. Descobriu-se que a dona da boate os matava, porque via neles, a imagem de seu amante que a abandonou para casar-se com uma das frequentadoras.
Silêncio de Kane.
— No ano de 2003, mais quatro casos aconteceram envolvendo moças que dançavam em pole dance. O criminoso sujava seus rostos com pó de arroz, batom e depois as violava. Em seguida tirava fotos das jovens ainda vivas e cometia seus assassinatos. O autor era o figurinista delas.
Silêncio.
— Em 2012, outros crimes contra dançarinas. Ele as surrava, as amarrava e depois as matava, para finalizar o crime colocando máscara de raposa nelas. O caso era seu, Kane.
— Este caso foi feroz. O cara se sentia como se fosse um justiceiro e usava o teor de uma lenda japonesa como assinatura. Foi um caso grande e notório...
— Vou estudar esses casos e conseguir aprender algo com ele. – Regina sorri e seu rosto se torna mais infantil. — Por que não transforma este caso em grande e notório para você, em vez de engrandecer o nome da Prefeita?
— Não tenho interesse em tornar-me uma notoriedade. É apenas mais um caso e mesmo que leve muito tempo, precisamos mostrar aos contribuintes, o nosso esforço.
Regina se senta diante da mesa do chefe. Continua sorrindo.
— Você poderia empenhar-se mais, cobrar mais de seus subordinados e com isso criar mais fama em torno de seu nome. Assim, a Prefeita Cora teria um adversário à altura nas próximas eleições.
— Você está louca?
— Conheço muitas pessoas que adorariam apoiar você como enfrentamento à Prefeita.
— Sem chances, minha querida.
Percebendo o desinteresse de Kane naquele caso em especial, Regina decide ir direto ao ponto.
— Nomeie Marcus e eu como membros da força tarefa, nos dê carta branca para trabalharmos no caso. Por favor!
Uma risada debochada é a primeira resposta de Kane.
— Marcus é homofóbico! Acredita mesmo que ele irá se empenhar em descobrir quem está matando os dançarinos, que ele chama de gays? Ele vai atrapalhar o desenvolvimento do trabalho! Ora, Regina!
— Por favor, então me deixe trabalhar neste caso. Mesmo que eu tenha de convidar policiais de outro setor da nossa delegacia. Eu preciso disso ou vou morrer com esta depressão e tristeza.
Depressão? Sua pequenina com depressão? Não. Isso não poderia acontecer com sua garotinha! Ele havia prometido ao pai dela que cuidaria de sua pequena e não iria faltar com sua palavra! Kane se levanta e dá a volta na mesa, estendendo os braços para sua protegida.
— Perdoe-me por não ter sido o amigo de todas as horas, Regina. – ele acaricia os cabelos dela e a abraça como se fosse sua criancinha, ainda. – Perdão por negligenciar minha promessa.
— Cuidar de mim não é sua obrigação, Kane. – ela sai do abraço. – E então? Poderei criar minha equipe para trabalhar neste caso?
A expressão que retorna ao rosto de Kane é de total indiferença com aquela preocupação. Mas ele tinha suas obrigações e deveria respeitar sua função de proteger e cuidar. Espreme os lábios e faz algumas caretas, demorando alguns minutos para concluir sua resposta.
— Certo! Eu vou liberar apenas mais dois policiais para o seu caso. Vocês terão pouco tempo e pouco apoio. Não irei tolerar abusos ou uso de força física para conseguir informações. Lembre-se de que Cora quer pessoas sensíveis para este trabalho.
— Traduzindo: ela quer pessoas bem educadas.
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