Quebranto.

56 Season Três - Cinco semanas depois.


Notas iniciais
Oii gente! Quebranto tá de volta! (Gritos de viva) No dia 25, como tinha prometido! :3 Nem acredito que tô postando no dia certinho, rsrs. Bem, hoje é aniversário da minha mãe, então em homenagem à ela, fui bonzinho com vocês. Espero que gostem! :D Boa leitura, povo! *Capítulo dedicado à Vicky, que recomendou a fic! Me emocionei com seu gesto, minha linda! Realmente, me deu muito incentivo pra escrever ainda mais! Thanks!

Topázio.

Meu estômago revirou-se. Eu não podia mais suportar. As últimas semanas haviam sido intensas, de muitas maneiras pouco agradáveis. Havia certo limite para aquilo que eu poderia fazer para me manter viva. Comer a carne de seres humanos, certamente ultrapassava tudo o que eu ainda via como um limite moral. Se é que esse tipo de coisa poderia existir, para alguém como eu. Não que eu fosse de me depreciar. Mas eu não era tola, e sabia que não me encaixava nos padrões de bondade e moralidade estabelecidos pela sociedade. Nem antes, nem depois de tudo o que ocorrera. Cansada de me referir o tempo todo à diferença entre o antes e o depois, bufei impaciente. Agachada na minha frente, remexendo nos bolsos da mulher morta, Samantha riu em escárnio. Ela se ergueu, e caminhou na minha direção, seus cabelos parecendo o véu de uma noiva fantasma. Sua língua estalou num silvo provocativo, cheia de veneno, quando ela passou por mim. Lívia, a Princesa, caminhava ao redor do casal que Chefe havia assassinado. Os dois não pareciam sobreviventes, como os que encontrávamos normalmente. Estavam uniformizados, com macacões isolantes de cor cinza, sobre as roupas. A marca dos tiros que haviam roubado suas vidas, brilhavam com o vermelho do sangue, nas testas de ambos. O cara era ruivo, e algum dia já devia ter sido bonito. A mulher, apesar das expressões marcadas, tinha cabelos negros ondulados e aparência corajosa. Morrera como uma guerreira, defendendo a própria vida, e bem depois do parceiro. Para mim, seria impossível imaginá-los como animais de outra espécie, como caça. O que era exatamente o que Chefe parecia disposto a me forçar a compreender.

– Hey, Madame. — sussurrou Ninja, aproximando-se de mim. Eu nunca vira alguém tão capaz de se contorcer e esquivar, quanto aquele branquelo com cara de doente. — Uma hora você vai ter que comer carne. Quase não tem vegetais por aí, e você tá comendo muito pouco, sem se alimentar das caças. — ele parecia... Preocupado? — Depois que você experimenta, fica melhor. Vai por mim. Veja isso como... uma doação de órgãos? — enojei-me, o embrulho no estômago revolvendo-se. — Melhor não. Ok, pense que eles não são mais racionais. São bichos, como uma vaca. E nós somos superiores, então podemos comê-los. Melhor? — nem fodendo aquilo estava melhor. Mas assenti, carinhosa. O prendi com meu olhar por alguns segundos, antes de liberá-lo. Era exaustivo usar meu dom em momentos como aquele, e aquilo parecia ter o potencial para me matar, mas eu não tinha escolha.

Quando Gárgula começou a despir o casal de mortos, e Chefe aproximou-se para limpá-los(os olhos eram retirados, bem como os pelos, as unhas, os dentes, as vísceras e a pele), recusei-me a olhar. Corri para o jipe e fechei meus olhos com força. Eu não podia me mexer. E não faço ideia de quanto tempo demorei, antes que minhas lágrimas de asco e raiva secassem. Eu odiava ainda mais Victoria por me fazer passar por aquilo. Ela e Carolina haviam destruído toda a segurança que eu criara para mim mesma, transformando-me numa aprendiz de canibal sem qualquer expectativa de vida, com aqueles monstros horrendos. O cheiro de fogo encheu o ar noturno. Chefe nunca mantinha o fogo baixo. Para ele, não importava atrair a atenção dos mortos vivos. Geralmente, ele deixava para trás os restos de sua caça, e os mortos distraíam-se com as sobras enquanto o jipe ia para longe, para a próxima vítima. Era como estar num maldito filme de terror, e haviam sido as cinco semanas mais longas de minha vida. Não poderia viver daquele modo para sempre. Precisava dominar alguém, nem que fosse o Gárgula, para livrar-me de Samantha, e do Chefe. Só assim, eu poderia obrigar os outros a seguirem-me, para que enfim pudesse tomar de volta tudo o que me fora roubado. Precisava agir logo. Não suportaria devorar seres humanos, não era uma maldita zumbi. Mas, eu precisava comer e tinha de manter-me submissa ao Chefe, até que pudesse dar um fim nele. Não me surpreendeu que o homem viesse me procurar, pouco depois. Abri meus olhos apenas o bastante para ver o prato negro que ele erguia, diante do meu rosto. Haviam fatias de carne assada sobre o mesmo, e se eu não soubesse de onde, e de quem vinha aquele cheiro no ar, talvez meu estômago roncasse em excitação. No entanto, tive que cobrir a boca com as mãos, para não vomitar.

– Se você vomitar, vai engolir de volta. — avisou o Chefe, sentando-se ao meu lado, enquanto os outros comiam ao redor do fogo. Havia sangue e restos do casal por toda a parte, de maneira discreta, mas mórbida. Era irreal demais conceber que aquilo de fato, estava acontecendo comigo. Talvez fosse melhor morrer naquela noite, cinco semanas atrás... — Olhe, eu lhe dei abrigo, proteção, comida, água e curativos. Suturamos e costuramos a facada que você levou. Deve pelo menos tentar se adaptar a nós. Seria uma pena vê-la morrendo de inanição. Até agora, te deixei beber água e comer frutas, verduras. A partir de amanhã, você só vai comer outro tipo de alimento, se aceitar também a minha carne. Esqueça dos humanos. Eles são comida. Não pessoas. — para enfatizar o que dizia, Chefe mastigava os pedaços em seu prato com ardor. Senti minhas extremidades ficando geladas, e achei que eu fosse morrer. — Ok, vamos fazer um acordo. Você dá uma mordida em um dos pedaços, e te dou uns dias de trégua. Ok? — assenti. Ele esticou um bife humano na minha direção. Era nauseante. Mas estava cheiroso. Carne queimada, vida e morte. Eu não comia há tanto tempo...

Mordi, e o gosto não era tão mal. Não se parecia muito com nada do que eu havia experimentado, e o sabor estava mais para carneiro que para boi, mas eu entendia que o pedaço de gente descendo pela minha garganta, era o que me separava de minha própria morte. Reprimindo todos os impulsos que me ordenavam que cuspisse aquilo tudo para fora, sorri. Engoli minha porção, e vi o rosto de Chefe inundar-se de satisfação. Ele parecia um adestrador de cães. Não me importei. Logo, seria ele a usar uma coleira...

– Bem melhor. Agora, aproveite sua folga. Ganhou mais uns dias, Madame. — rindo, ele franziu a testa. — Mas, nada de comer outro tipo de carne, ok? — confirmei, louca para que ele saísse de perto de mim. — Ok. Muito bom.

Esfregando minha língua no céu da boca, percebi que as coisas poderiam estar bem piores, para mim. Eu poderia ter me tornado comida para eles, e assim seria se eu não fosse inumana. Ao menos, haviam me deixado decidir. Eu sabia que não haveria volta no momento em que eu não os pedi para que me deixassem morrer. Mas eu amava a vida! E só iria deixá-la quando alguém macho o bastante para o serviço de me matar, nascesse. E eu podia jurar, estava pra nascer quem pudesse me esfaquear, destruir minha vida, e sair ileso. Era tudo uma questão de tempo, e paciência. Sofrer, para se reerguer. Faziam apenas cinco semanas desde minha última desilusão, não?

Otávio.

Eles estavam nos meus calcanhares. Latindo, rosnando. Era assustador. Mas já havia acontecido antes. Pra minha sorte, a rua estava vazia, com exceção dos cães que me perseguiam e perto. Merda. A quem eu estava enganando. Eu sabia que não estava pronto para aquilo. Eu definitivamente, não estava pronto para aquilo. A loja de ferramentas estava mais vazia do que havíamos esperado, antes de invadi-la. Mas o antigo dono, havia fugido e deixado seus cães para trás, amarrados nas correntes. É claro que sendo parcialmente devorados e transformados em monstros, eles haviam conseguido se soltar. E eu, é lógico, não os tinha visto até que estava saltando sobre o balcão da loja, bem em cima do meu peito. Malditos. Era a primeira vez que eu usava minha blusa de mangas compridas nova.

– Otávio, abaixa! — Dimitri gritou, bem na hora em que um dos bichos saltou na direção das minhas costas. Me joguei no chão e a barra de ferro do meu amigo o acertou em cheio, derrubando-o numa confusão de sangue e pele caída. Eca. — Levanta, levanta! — me lembrou Dimi, acenando com as mãos enquanto corria. Para me salvar, ele acabara ficando desarmado, o que nunca era bom quando se estava nas ruas.

Continuamos correndo pela rua deserta, ignorando os carros abandonados, as lojas saqueadas e as casas incendiadas ao redor. Era possível ouvir alguns gemidos e murmúrios dos mortos, mas eles não podiam correr como os animais que ainda nos perseguiam. Nem de perto, eram tão velozes. Arfando, senti os músculos da minha perna repuxarem-se numa câimbra infernal, e acabei caindo de joelhos no exato momento em que Dimitri virou a esquina. O carro que nos aguardava estava estacionado a menos de cinco metros dali, e eu não podia acreditar que seria morto por tão pouco. Bufando e mordendo o lábio inferior para conter minha dor, encolhi-me quando os dois cães de raça indefinida pararam, espreitando. Eles sabiam que eu não tinha nada além da faca em minhas mãos, e que já estava morto. Ouvi Dimitri gritando o meu nome, mas aquilo já parecia fazer parte de outra vida, de outra dimensão. Minha visão focou-se apenas naquelas criaturas, quando a primeira delas avançou. Tenso, senti a adrenalina rugir nos meus ouvidos, como se minha cabeça fosse estourar com todo aquele sangue. Agarrei o cão pelo pescoço, e virei-me sobre ele, enrolando-me com a criatura no chão. Ele mordeu meu antebraço, mas apenas rasgou o tecido de minha blusa, o que permitiu que eu o esfaqueasse no olho esquerdo. O outro animal latiu de maneira deficiente, devido às suas cordas vocais parcialmente devoradas, e pulou na minha direção. Com um ganido estrangulado, ele caiu soltando fumaça quando uma bala de espingarda acertou-o na cabeça. Estacionada no meio da rua, a van azul de transporte parecia um elefante em meio à ovelhas. Com uma mão no volante e outra segurando a arma, Diogo parecia mais que concentrado. Ao seu lado, Victoria parecia em pânico ao ver o rasgo em minha roupa, e Dimitri ainda respirava com dificuldade, com a cabeça no meio dos dois, debruçando-se do banco de trás.

– Está tudo bem? — ela me perguntou, aterrorizada.

– É claro. Treinamento, lembra? Daqui a pouco já vou estar matando essas coisas sem pensar duas vezes. — zombei, e todos relaxaram.

– Traz logo essa bunda desastrada pra cá, senão te mato antes de você pensar uma vez. — reclamou Diogo. — E a propósito, esse som no ar foi uma bala a menos disperdiçada porque você não consegue matar dois vira-latas.

– Foi mal, pai. — rebati, e Victoria riu. — Já falei, da próxima vez vou conseguir usar a faca do jeito certo.

– É bom mesmo. Você demorou muito pra esfaquear o bicho. Deu tempo do outro te analisar e atacar. Era pra ter surpreendido aos dois, mas pelo que vi, você quase foi infectado. — observou Dimitri. Suspirei. A única coisa em que ele e Diogo concordavam, além do fato de que eram apaixonados por Victoria, era que eu precisava aprender a me virar melhor. Inclusive, os dois estavam me ensinando a usar meu corpo, ao invés de bastões e armas. O que estava sendo um inferno, inclusive.

A pousada não estava distante da loja que fôramos investigar, mas ao vê-la, senti um alívio enorme. E não só porque a pequena proteção de Cecília havia nos mantido à salvo por ali, nas últimas semanas. Mas também por que em minutos, eu poderia vê-la. Descemos do veículo assim que estacionamos em frente à casa grande, onde antes ficavam os quartos de hóspedes especiais, o restaurante e a recepção do lugar. Ao redor, formando uma espécie de retângulo, haviam outros prédios menores com mais quartos, mas nós ainda não havíamos feito nada além de limpá-los. Depois de Topázio, nenhum de nós se sentia muito confortável, estando afastado dos outros. O excesso de plantas que haviam crescido por ali, também fora removido e aparado por nós, para evitar a ocorrência de insetos infectados. Nenhum de nós sabia sobre quais espécies animais ainda eram seguras. E também, ninguém estava afim de se arriscar. Com a bolsa de lona preta levemente mais pesada do que antes, desci do veículo ao lado de Vicky, que me ajudava a carregá-la. Dimitri e Diogo estavam verificando a van, pra ter certeza de que nada fora danificado. Eu e minha irmã postiça caminhamos toda a distância até a pousada sem dizer nada, mas eu sabia que ela estava pensando no que eu tinha visto, no dia anterior. Depois do jantar, Dimitri havia seguido Victoria, e a beijado longe de todos. Por sorte, ou azar, eu estava saindo do banheiro naquele exato momento, e os peguei no corredor. Desde então, ela estava estranha, provavelmente culpada. Eu, por minha vez, achava melhor que ela melhorasse aquele humor, porque estava dando a maior bandeira. Quase dera um treco quando Ricardo pediu que trouxéssemos Dimi conosco, e se continuasse assim, logo Diogo iria desconfiar. Um ex-tira com péssimo temperamento não parece a pessoa ideal para se enganar, se alguém me perguntar. Simplesmente, ela precisava dar um jeito naquilo.

– Otto! — levei um susto quando Cecília me abraçou. Ela praticamente afundou nos meus braços, e sentir o cheiro dela depois de quase ser devorado, foi especialmente recompensador. A abracei com força, cheirando seus cabelos. Ela era tão linda, e tão independente. Ninguém seria capaz de dizer que possuía alguma deficiência visual, se não visse a cor cinzenta de seus olhos. Suas mãos passearam pelo meu rosto, sentindo-o. Era o modo dela saber se eu estava bem. Logo, seu toque espalhou-se pelo meu peito, estômago, e braços. Então ela agarrou o pano lacerado do meu casaco, e sua expressão tornou-se fria. Estática. — Oh, meu Deus...

– Não! Tá tudo bem! Não fui mordido. — tranquilizei-a, reprimindo um sorriso. Ela ergueu o olhar na minha direção, e parecia bem mais corada do que antes. Mais viva. Ainda haviam sinais de maus tratos em sua expressão, e no modo cansado de seus movimentos. Seus terrores noturnos também não a deixavam esquecer das drogas a que fora submetida. Mas ela estava se recuperando. Quase engasguei quando Cecília me deu um soco. E depois outro.

– Seu cínico! Eu morrendo de preocupação, e você ri de mim! — ela exclamou, ultrajada. Isso me fez rir mais ainda. — Ok. Estou calma. Não me assuste desse jeito. — ela avisou. Então se aproximou de mim, e nos beijamos. Isso com certeza tirou o sorriso do meu rosto. Não sei o que ficou no lugar.

Era engraçado como as coisas podiam ser simples, e fantásticas ao mesmo tempo. Aquelas cinco semanas, vivendo com dificuldades e obstáculos, haviam sido mais felizes e seguras do que todos os meses que havíamos passado na boate. Não que o conforto fosse mau. Ele fazia falta. Mas já havíamos tido experiências semelhantes no Trocado, antes de sermos tratados à pão-de-ló na Privilège. Refletindo sobre tudo o que havia acontecido, talvez nós devêssemos ter percebido bem antes, onde estávamos nos metendo. Mas então, talvez eu não tivesse conhecido Cecília. E nossos amigos que antes viviam sob o domínio daquela maluca, talvez nunca tivessem sido libertos.

Carolina.

Quando os outros chegaram, senti aliviar toda a tensão nos meus ombros. Com o suor acumulando na testa, parei de esfregar uma das mesas de madeira da cozinha, e corri para a varanda da pousada. De lá, podíamos ver bem enquanto eles desciam e arrumavam as coisas. Comprimi os olhos para tentar ver melhor, e a cicatriz que Alexandre deixara em meu rosto, repuxou. Eu não era mais tão perfeita quanto antes. Mas de uma certa forma, aquilo não tinha mais a mesma importância pra mim. Não mais. Rindo, senti Jonas me abraçando, enquanto Ana e Lavínia se aproximavam. Estávamos lutando para tirar toda a poeira e sujeira acumulada do restaurante da pousada, para que não tivéssemos mais que improvisar as refeições no hall de entrada, como vínhamos fazendo. Logo divisei os contornos de Cecília, enquanto ela saía da pousada ao lado de Ricardo e Tânia, que iam ajudar a carregar as tralhas novas. Otto logo a abraçou, e os dois pareceram discutir uma série de piadas pessoas. Eu sei que parece piegas, mas fiquei feliz pelo bobalhão. Ele havia ganhado corpo nos últimos meses, e não se parecia mais um nerd, como antes. Otávio havia desabrochado como um cara muito bonito, além de legal. E eu não era a única a perceber isso. Pelo canto dos olhos, notei a expressão rasa e arrasada de Lavínia. A queda de penhasco que ela tinha por Otto, só não era visível por Cecília, porque ela era cega. Mas eu não duvidava que ela soubesse bem o que estava acontecendo. A garota era vidente, afinal. Ana procurou meu olhar, e eu resmunguei. Era óbvio que ela ia querer consolar a outra. E eu podia ter mudado muito, Deus sabe que mudei, mas algumas coisas ainda me tiravam do sério.

– Sabe Lavínia, o Dimitri é bem legal. — sugeriu minha amiga, fazendo-me revirar os olhos. Dimitri era todo da Victoria, e essa imbecil empurrando a garota pra ele. Querem saber? Fazia muito tempo desde que eu não via alguma animação naquele lugar. Resolvi mudar isso.

–Todo mundo sabe que o Dimitri tá afim de outra. — cortei.

– Bem meninas, eu vou ver se o Hugo precisa de alguma ajuda com o quarto dos gêmeos. Eles quebraram a cama brincando, de novo... — Jonas sumiu de vista antes que eu dissesse algo à respeito. Revirei os olhos.

– O negócio é o seguinte, Lavínia. Sua maior inimiga, é você mesma. Você se importa demais com o que os outros vão pensar se você der em cima do namorado de uma cega. Você fica preocupada com o que vão achar de você. Meu bem, sou especialista em ser mal vista. E acredite, se você basear sua vida em evitar isso, nunca vai viver de verdade. — despejei, sem dó. A professorinha ficou me olhando, como a mosca morta que era. Seus cabelos eram mesmo avermelhados, pelo que pude perceber, mas num tom mais escuro do que ela havia pintado em nossa época da boate. Agora, suas raízes estavam aparecendo. Mas mesmo assim ela não parecia feia.

– Mas Otávio e Cecília se gostam. — objetou Ana. — E interferir no relacionamento de outras pessoas, não é legal. Você lembra que isso nunca termina bem, né Carol?

– Bem, então que ela procure outro. — resolvi. Olhei para Lavínia, sorrindo. — Você é bonita. Vai achar outro cara. O importante, é que lute por ele. — reafirmei. — Não espere que as coisas aconteçam, faça você mesma. Viva. Nosso mundo já é ruim e hostil demais pra sermos vítimas de nós mesmos. Você não tem nada a perder, só a ganhar...

– Eu entendo. — ela disse, rindo. — Sou mesmo uma boba. Obrigada pela ajuda.

– Garota, veio ao lugar certo. Sou a melhor conselheira que você poderia arrumar. — pisquei pra Ana, que revirou os olhos. Rindo, nós três acabamos nos surpreendendo quando Sabrina entrou na cozinha. Ela não parecia ter percebido nossa presença ali, até que nos viu. A loira corou como camarão na brasa, e ficou toda sem jeito enquanto pegava uma das goiabas que Dante havia colhido.

Talvez Lavínia não fosse a única ali com problemas. Ana fitou sua ex, enquanto ela se retirava com a fruta nas mãos, e senti-me mal pelas duas. Havia muita merda mal resolvida naquilo ali, e nas últimas cinco semanas, eu estivera ocupada demais me recuperando de ferimentos, sentindo pena de mim mesma, e limpando aquele mausoléu para me aperceber de todos aqueles detalhes sórdidos. Estava na hora da velha Carolina voltar ao jogo. Mas dessa vez, agindo de acordo com as regras...

Notas finais
Bem, o que acharam da introdução? Ainda tem muita coisa pra acontecer, mas acho que já deu pra matar um pouco da saudade, né? Bem, o próximo deve sair logo, mas não prometo nada. Comentem, e me deixem matar a saudade de vocês também! Bjãããão! Kisses by DroppingPieces!