Quebranto.
57 Cubo Mágico.
Notas iniciais
Hugo.
Já era a quarta vez só nas duas últimas semanas. Bati com o martelo enferrujado fortemente contra a tábua de madeira que se soltara do prego, e ela retornou ao lugar. As brincadeiras de Vilma e Dino tinham um sério desvio de comportamento, e com todos ocupados, sempre sobrava pra mim bancar a Mary Poppins. Deus. Eu tinha certeza que eles não faziam ideia de quem era a Mary Poppins. Apesar de tudo pelo que haviam passado, eu realmente torcia para que aquelas crianças pudessem ser exatamente isto. Crianças. Não era justo que tivessem pensar na sobrevivência em todos os momentos, mesmo enquanto brincavam. Dali, seria simples que em breve estivessem considerando totalmente normal tirar a vida de alguém, ou nem sequer se abalassem com os horrores do novo mundo. Eles haviam visto de perto a loucura de Topázio, assim como eu. Conviver com alguém tão insano, tão quebrado, pode mudar você. Eu não queria que eles mudassem, ou se quebrassem como ela. Graças a Deus, aquela pobre mulher (sim, eu poderia sentir pena dela, agora que tudo passara), estava morta, e não podia nos tocar. Mesmo assim, era difícil admitir pra mim mesmo que os gêmeos talvez não fossem mais crianças normais. Inclusive, talvez não fossem sequer crianças, mas sim pré-adolescentes prestes a passarem pelas mudanças mais bizarras das nossas vidas. Eles já deviam ter feito doze anos, embora ninguém tivesse um calendário no qual pudesse se basear. Saber as datas era quase inútil, agora. Virando o colchão de Vilma e colocando a cama em sua posição original (ela a erguera e usara como barricada, contra Dino), sentei-me sobre o lençol surrado pra testá-la. Na cama do garoto, o casal de irmãos me olhava com uma curiosidade humorada. Remexendo-me, afofei o colchão. Crac. Afundei no meio da coisa, sobre a madeira finalmente e irremediavelmente rompida. Bufei, enquanto ambos caíam na gargalhada. Pestinhas.
– Ok. Agora que já riram da minha cara, podem me levantar? — pedi, rendendo-me ao riso. Os dois me levantaram, e o capuz de moletom preto que eu usava caiu, escorregando para longe da minha cabeça, sobre as costas.
– Desculpa por rir. Mas foi muito engraçado. — observou Dino, mordendo o lábio. Vilma acenou em concordância. Eu estava prestes a dizer algo, quando notei a faca de Vilma enfiada no batente de madeira da janela. Eu não podia acreditar que ela havia lançado aquilo no irmão. Puxei a arma de lá, e percebi o olhar culpado que os dois trocaram. Que diabos..?
– Hey, tudo bem galera? — indagou Jonas, com um sorriso que só ele podia dar. Realmente, influências boas podiam mudar as pessoas, como ele fizera com Carol. — Carolina começou a dar conselhos amorosos na cozinha, então resolvi vir ajudar.
– Ela vai bagunçar a vida de quem agora? — perguntei, rindo. Jonas semicerrou os olhos. Dei de ombros. — Você sabe que é verdade.
– Lavínia. — sacudi a cabeça, enquanto Jonas ria e se aproximava da cama quebrada. — Tentou martelar, né? Bem, você rachou a coisa toda. Vou ter que arrancar tudo, e pregar de novo? Se importa? — ele disse, mirando o martelo na minha mão.
– Nem um pouco. À vontade. — eu estava aliviado, na verdade. Já ia mesmo pedir ajuda de Ricardo. Eu era péssimo com marcenaria. — Meninos, vamos deixar o Jhonny trabalhar. Vamos comigo lá embaixo? Acho que o Otto trouxe algo pra vocês...
Eles sabiam que não era um pedido. Se olharam de novo, antes de rumarem na direção do corredor, na minha frente. De costas, era possível ver o contraste entre eles. Os cabelos de Vilma estavam enormes, e levemente avermelhados, apesar de castanhos. Já Dino, tinha a pele bem mais pálida, e os cabelos negros. Ainda assim, eu sabia que se eles virassem na minha direção, eu poderia ver as semelhanças em seus rostos. Eu não conhecera o irmão deles, mas certamente devia ser parecido também. Nanda me contara que Tiago fora seu primeiro namorado, e praticamente deixara as crianças por sua conta, quando foi infectado. Na ocasião, os próprios gêmeos haviam atirado em sua cabeça, segurando a arma ao mesmo tempo. Deve ter sido horrível. Ninguém sabia sobre os inumanos, então não esperaram para ver o que aconteceria. Aquilo já havia sido há muito tempo, mas eu pude refletir sobre como coisas tão antigas, poderiam definir o futuro. Uma única escolha, um único momento, pode mudar pra sempre o futuro. Quem sabe o que somos capazes de provocar a nós mesmos, somente errando no presente? Eu não queria errar com aquelas crianças. Não como haviam errado com Topázio. Encontrei Otávio sentado num dos bancos do jardim, com Cecília. Se me perguntarem, não era estranho vê-los juntos. Tudo o que eu pensara sentir por Otto, se tornou uma amizade muito forte. E ele sabia disso. Ambos sabiam. Ele riu quando me avistou, ele sempre fazia isso. Eu ri de volta. Por alguma razão, os gêmeos deram risinhos. Cecília sentiu o movimento, e sorriu também.
– Eu já ia procurar por vocês. — Otto garantiu. — Consegui o que Hugo pediu.
– O que foi? — Dino pareceu confuso. Eles não sabiam de nada.
– Aqui. — Cecília remexeu na mochila que Otávio levara para o lado de fora, e tirou um cubo mágico da bolsa. Eu ri. Não era bem isso que eu imaginara quando pedira uma distração pras crianças, mas era eficiente. Não como um dominó, ou um baralho, mas eficiente. — Otto disse que provavelmente o dono da loja de ferramentas estava tentando resolver. Ainda estava sobre o balcão quando ele chegou.
– Eu limpei o sangue, claro. — ele brincou. Os dois riram. Peguei o brinquedo na mão de Cecília.
– Sabem resolver isso? — eu nunca conseguira solucionar aquela coisa. Rico sim.
– Podemos tentar. Juntos. — sugeriu Vilma, apertando a mão do irmão e tomando o brinquedo da minha mão. — Valeu, gente! — eles riram, e foram correndo na direção da pousada. Meu coração amoleceu observando-os.
– Já chega de destruir o quarto toda vez em que se divertem... Que alívio... — comentei.
– Você os ama. — observou Cecília. Ela nunca fazia perguntas. Simplesmente sabia das coisas.
– Você não? — brinquei. — Acho que não amá-los é meio impossível.
– Verdade. E olha que eu odiava crianças, antes do mundo acabar. — Otávio colocou. Eu e Cecília reviramos os olhos, ao mesmo tempo.
– É bom que eles sejam amados por todos. Vão precisar de nós. Fernanda não poderá olhar por eles por muito mais tempo. — ela sentenciou. Meu coração gelou. Nanda... Segundo Cecília, ela morreria logo.
– Sabe, meu anjo, eu realmente não gosto quando você fala assim... É meio assustador. — reparou Otávio. Eu não sabia o que dizer, então fiquei calado.
– É verdade. Não sei o que me deu... — ela parecia mesmo confusa. — Não quis dizer que Nanda vai morrer imediatamente, nem nada. Só senti que ela e os gêmeos não vão estar juntos, em breve. Faz sentido?
– Não sei. Na verdade, nem sei se quero. — Otto admitiu. — Hey, Hugo, tá tudo ok?
– Melhor a gente entrar. Tá anoitecendo. — balbuciei, apontando pro céu. — A comida tá quase pronta.
Subitamente com frio, esfreguei os braços sentindo o moletom acariciar meus dedos. Era um tipo deficiente de conforto, mas estava ali. O vento balançava as árvores enquanto nos afastávamos, e enquanto caminhava, eu esperava deixar minhas suspeitas e fantasmas ali fora, nos jardins.
Victoria.
Quando a água fria escorreu pelo meu rosto, pude sentir o gosto do mar na boca. Diferente da mordomia que havíamos tido na Privílege, ali na pousada o esgoto havia sido comprometido pela ausência total de água nas tubulações. Então, Diogo e Rico se revezavam constantemente para buscar água na praia, enchendo uns galões enormes que eram usados para guardar estoque, antes do lugar ser abandonado. Não era muito legal tomar banho com água salgada, principalmente para os cabelos, mas era melhor que ficar suja. Com um rabo de cavalo mal feito, evitei molhar o fios, daquela vez. A esponja espalhava espuma ao redor de onde eu esfregava, enquanto eu sentia o alívio de sentir a fragrância do sabonete. Eu nem acreditava que Ana tinha encontrado uma porção deles, alguns dias atrás. Reativando uma das regras que seguíamos no Trocado, Ricardo sugeriu que ninguém ficasse sozinho, nunca. Então, eu também não estava só naquele vestiário sem luz. Se movendo ao meu lado, Manuela tinha um pouco de dificuldades para tomar banho, sem molhar seu curativo. A tala que envolvia toda a sua mão, que fora parcialmente mutilada (ela perdera o dedo mindinho), estava ficando cada vez menor, conforme sua recuperação progredia. Ela era linda, com os cabelos negros escorrendo ao redor do corpo, meio ondulados. Tomei a iniciativa de ajudá-la. Nenhuma de nós parecia desconfortável em estar nua na frente da outra, também.
– Hey, ajuda? — ofereci, tirando a esponja de sua mão. Lavínia ou Tânia geralmente ajudavam Manu com o banho desde que estávamos ali, mas dessa vez nenhuma delas estava disponível. — Ainda está doendo, sua mão?
– Bem menos que antes. Paracetamol fora da validade é bem efetivo. — ela brincou. Acabei sorrindo. — Eu nunca te agradeci por ter me salvado. Obrigada.
– Não tem de quê. Eu gostaria que alguém tivesse feito algo por mim. Já estive na mesma situação que você. — contei, mas sem me aprofundar muito. Ela apenas sacudiu a cabeça, com um sorriso tímido. Ela nunca fora muito próxima a mim, nem de nenhum dos meus amigos, mas parecia bem mais feliz quando Mirla era viva.
– Sei que ninguém mais voltaria por mim. Talvez a Lavínia se ela fosse forte como você, mas só porque somos amigas. Eu não acrescento em nada. — ela parecia muito triste, embora humorada.
– Todo mundo pode ajudar. Cada um da sua própria maneira. — rebati, sorrindo. Continuei a esfregá-la por mais algum tempo, passando-lhe a esponja para que ela mesma tocasse suas partes íntimas. Quando acabei, comecei a enxaguá-la, e as duas trememos de frio, com a água gélida.
– Muito obrigada, Vicky. Você é uma garota legal. — ela riu, apertando minha bochecha. — Dá pra ver porque o Dimi tá afim de você... Quer uma dica? Eu revezaria entre os dois. — piscando, ela puxou a toalha cinza que estava pendurada entre o lavabo e a parte externa do banheiro. — Vou indo... Tudo bem pra você terminar sozinha? Não que você precise de proteção... É que eu fico um pouco claustrofóbica em lugares apertados, ainda mais com esse banheiro tão escuro, e com um buraco em cima da gente...
Manuela apontou para o buraco no tubo de ventilação, no teto. Era como se alguém já tivesse utilizado aqueles tubos para fugir do banheiro, por algum motivo. Talvez uma horda tivesse entrada antes, e ido embora antes de chegarmos. Ainda podia acontecer de novo. E aconteceria, segundo Cecília. Com um aceno, me despedi de Manu enquanto ela começava a se secar, e a vestir seu sutiã e calcinha. Ela era mesmo frágil. Ajudei-a a fechar a peça de roupa na parte superior do corpo. Enrolei a toalha em seus cabelos molhados, e ela beijou minha bochecha agradecendo. Uma fofa. Ainda fiquei olhando para o tubo de ventilação aberto, e comecei a me sentir menos confortável com o clima daquele banheiro. Me molhei e esfreguei mais rápido, enquanto a ouvi indo para a porta. O grito de Manuela me fez escorregar no sabão, mas me mantive de pé antes de correr totalmente nua para socorrê-la. Certamente algum bicho caíra do teto, naquela escuridão. Minha expressão deve ter sido chocada e hilariante ao ver Dimitri de olhos arregalados diante de uma Manuela em roupas íntimas, e de uma Victoria nua. Ele deixara cair sua própria toalha no chão, junto com suas roupas. Provavelmente, ele tentara abrir a porta junto com Manuela, achando que o banheiro estaria vazio com a saída dela.
– Uau... — ele esboçou um sorriso, embora estivesse corado de vergonha. Me cobri como pude, e corri de volta pro lado de dentro do vestiário, apenas com a cabeça de fora. — Foi mal, meninas.
– Não que você nunca tenha me visto pelada, Dimi... A vontade de ver a Vicky deve ser grande também...- respondeu Manu, sorrindo. — Mas isso já é demais. Seu perseguidor! — ela jogou a toalha molhada na cara dele, rindo. — Vou deixar vocês aí, boa sorte não sendo morto...
– Eu juro que não foi de propósito. — ele se defendeu, erguendo as mãos. — Mas você demorou bastante pra se cobrir, devo supor que estava me seduzindo?
– Seu... — eu estava louca de ódio, e sem nada na cabeça que pudesse expressar minha indignação. — Sabe que posso contar pro Diogo, né?
– Sei. Isso devia me deixar com medo? — ele riu. — Vai mesmo me deixar apanhar, Vicky?
– Você invadiu! — chiei, notando que o sabão estava secando na minha pele. Cada um de nós podia usar apenas um balde de água por dia, e o meu estava acabando. — Vou usar a sua água pra terminar meu banho, seu assediador! — ergui meu dedo indicador na direção de Dimitri, como se pudesse fulminá-lo com o gesto.
– Tudo bem. — ele concordou. — É justo. Só não use tudo, eu realmente preferiria não estar cheirando a cachorro hoje à noite. Mas, valeria à pena pra pagar pelo que eu vi... — ele piscou, me fazendo abrir a boca pra mandá-lo ao inferno. — Qualquer coisa grite, vou estar aqui fora...
Gritei de frustração quando fiquei sozinha. Era muito errado que de algum modo aquilo tivesse me deixado nervosa? Não por simplesmente ele ter me visto nua. Mas por ter medo disso. E eu sei que pode parecer errado, mas eu tinha medo da opinião de Dimitri sobre mim. Desde que Nora surgira, meu corpo se tornara muito mais torneado que antes, e eu não era feia de rosto, tinha consciência disso. Mas eu não era uma Carol, ou Manuela. Estava cheia de cicatrizes, de mordidas de zumbis à cortes à faca. E mesmo assim, Diogo não parecia ter problema algum comigo. Mas Dimitri não era Diogo. Em toda sua vida, ele deve ter sido o tipo de homem que saía com modelos, e pagava drinques pra interesseiras gostosas e fúteis. Exatamente o oposto de Diogo. Me senti entre o Drácula requintado e cruel, e o lobisomem mais feroz, selvagem e surpreendentemente leal que se poderia encontrar. Uma droga de triângulo. De novo. Será que Carolina não estaria afim de participar, com Jonas de quebra? Isso sim seria inovador. Totalmente angustiada e tensa, me sequei e vesti automaticamente. O vestido amarelo longo, estampado com flores azuis claras e verdes escorreu pelo meu corpo, brilhando como só coisas novas faziam. Por cima, vesti a jaqueta de couro preto, que eu roubara de uns motoqueiros meses atrás. Uma das poucas coisas que eu salvara da boate. Calcei minhas botas de cano alto sem saltos (que já estavam surradas pelo uso constante), e abri a porta do banheiro. Eu não tinha usado a água que pertencia ao Dimitri. Mas passei direto, sem informá-lo disso. Ele ficou olhando, enquanto me via saindo na direção do hall de entrada. Levei um susto ao tropeçar em Diogo, mas disfarcei bem. Nossas mãos se entrelaçaram enquanto seguíamos para junto dos outros.
Carolina.
– Definitivamente não! — Lavínia gemeu, enquanto eu insistia no meu ponto. Com certeza, Dante era gay. Ele não tinha demonstrado interesse por ninguém, desde que eu o conhecia. Gay. Mas minha amiga ingênua e tapada, se recusava a concordar comigo, e estava ameaçando dar em cima dele. — Ele tinha um caso com a Mirla, antes de vocês aparecerem na boate. Depois que vocês chegaram, ele nunca mais ficou com ela.
– Então, meu bem, ou ele está afim de uma garota que não pode ter, ou ele gostou de algo que viu no nosso grupo... — virei meu olhar para Ricardo, que aparecia na sala com Tânia, Fernanda e Gabriel. Nanda estava linda, ruiva, e enorme. Parecia que sua barriga estouraria, se alguém desse uma agulhada.
– Rico? Náh! — desprezou Lavínia, com um gesto. Então Otto entrou, com Cecília e Hugo, e ela notou a olhada que Dante deu neles. — Ah, merda! — ela guinchou, e sussurrou no meu ouvido. — O Hugo?!
– Há, eu sabia! — concordei, fazendo uma dancinha no sofá, implicando com ela. Haviam outros sofás no hall de entrada, e geralmente era ali onde comíamos, já que a cozinha ainda não estava totalmente limpa e habitável. Jonas veio do segundo andar, fazendo um barulho enorme enquanto descia as escadas de madeira, e se jogou do meu lado. — Jonas, fala pra Lavínia que o Dante é inacessível?
– Ele é? — ele perguntou, todo idiota. Revirei os olhos, e Lavínia riu.
Então o assunto de nossa conversa pegou o violão que havíamos trazido da boate, e começou a afiná-lo enquanto Ana servia o purê de batatas com cenouras insosso que Lavínia improvisara. Tínhamos encontrado muitos vegetais nas regiões ao redor, e frutas também. Isso era um alívio, considerando que não dava pra comer nenhum bicho que pudéssemos caçar. A maioria estava infectada, e os que eram imunes, eram mortos e caçados pelos outros antes que pudéssemos pegá-los. Enquanto todos começavam a comer, Dante começou a cantar. Ele tinha mesmo um dom, e quando sua voz entoava, era de um jeito puro, benevolente. Nada parecido com a voz de Thaís, embora ela tivesse mais talento, e um poder sobrenatural bem sinistro. Dante era natural, tranquilo. Um cara legal até a última gota. Eu adorava provocar gente assim, antigamente. Achava que eram todos fingidos, forçados. Mas com o tempo, percebi que algumas pessoas simplesmente eram boas. Como Fernanda, Madeline, Diana... Nenhuma delas combinava com aquele mundo.
– Que música é essa? — perguntou Lavínia, impressionada. O som era mesmo bom. Apesar de eu não ser fluente em inglês, podia entender a letra melancólica e harmoniosa. — O Dante tem uma pronúncia perfeita. — ela acrescentou, toda caidinha. Coitada.
– É Born to Die, da Lana del Rey. Bem antiga. Vocês não devem conhecer. — respondeu Jonas, então lembrei que ele era bem mais velho que eu. Isso não parecia importar, agora.
– Bem, eu não conheço muito nada que tenha sido lançado antes de dois mil e dezessete, mas gostei. É uma música com nome bem apropriado, inclusive. — brinquei.
Logo a música terminou, e Dante começou a tocar sem cantar, deixando que apenas as notas músicas se fizessem presentes, naquela noite particularmente agradável. Ele disfarçava bem, mas eu podia notar as nuances de desconforto sob sua pele, quando ele via Rico e Hugo juntos. Pobrezinho. Cecília riu quando Otto colocou uma colher de purê em sua boca, e percebi que ela nunca havia estado tão bem, embora meu amigo nos contasse sobre seus pesadelos e crises de abstinência, durante a noite. Era cruel que ela tivesse sido viciada em heroína contra a própria vontade, mas ela não parecia alguém prestes a surtar. Dimitri entrou no hall recém-saído do banho, e deu um sorriso pra Victoria que me fez anotar mentalmente que algo tinha rolado ali. Ela tinha que me contar! Com a expectativa de uma fofoca nova, quase não prestei atenção em Sabrina, que limpava um revólver no seu isolamento. Ela era tão dramática. Parecia uma freira em penitência, desde que Ana lhe dera um pé na bunda. Acho que no fundo, ela esperava que com Topázio fora da jogada, ela tivesse alguma chance de novo. A vadia podia ter hipnotizado Ana a ponto de ir pra cama com ela, mas não tinha feito as duas terminarem. Isso deve ter arrasado com a coitada. Victoria sentou ao meu lado logo depois, e colocou minhas pernas em cima de suas coxas. Deste modo, acabei deitada entre ela e Jonas, enquanto Diogo comia como um porco, ao lado de Dimitri. Ela parecia nervosa, olhando pros dois tão próximos um do outro. Escondi meu divertimento. Eu também estaria.
– Oi... Precisamos conversar... — ela murmurou, com medo do Jonas ouvir. Ele estava prestando atenção só em Dante, e se normalmente não perceberia nada, daquele jeito nos dava privacidade total.
– Precisamos mesmo. Vai me contar o que houve com Dimitri? — perguntei, e juro que a cara dela escureceu dois tons.
– O quê?! Com sabe que..? Deixa pra lá! Não é disso que quero falar, ainda não... — ela olhou pra Jonas e Lavínia, que estavam por perto. — Depois. — acrescentou. Concordei, ficando curiosa sobre o real motivo. — Eu achei algo no meu bolso da jaqueta. Olha... — ela tirou uma chave do bolso da jaqueta, com um chaveiro emborrachado vermelho. Estava escrito "Princesa Sônia" ao lado do nome do Porto da Barra, de Búzios. — Lembra dessa chave? Diana queria que fôssemos procurar esse porto...
– Isso se o barco estiver mesmo ancorado por lá, né? Além disso, deve estar cheio de bichos até chegarmos lá, e pra procurar um barco no meio do cais, com um monte de outros, vamos acabar sendo mortos. — objetei. — Não estou desprezando a ideia, mas acho que temos que pensar nisso muito devagar, e com minúcia. Melhor voltar com esse assunto depois que o povo acabar de comer o clima feliz passar. Não acho legal estragar isso agora... — falei, olhando sonhadora pro Dante.
– Você mudou mesmo. — Vicky riu pra mim, e segurou minha mão, com carinho. Eu também tinha sentido falta dela. E sabia que ela estava pensando o mesmo. — Obrigada por ser quem eu sempre soube que você era. — realmente, ela devia ter visto algo em mim, pra nos tornarmos amigas mesmo com o Luca no meio. Aquela última parte, Jonas tinha ouvido, e estava trocando um olhar caloroso com Victoria, quando percebi. Se eu soubesse que todo mundo ia me tratar desse jeito quando eu me tornasse heroína, teria enganado uma psicopata e levado uma surra antes. Se bem que a surra, Ana tinha me dado...
Jonas beijou o topo da minha cabeça, e de repente nada disso importou. Fazia algum tempo que eu não estava tão próxima dele. Era curioso que tudo entre nós tivesse começado por pura atração física, mas eu podia dizer que estava me afeiçoando gradativamente a ele. Não era uma paixão estilo Vicky e Diogo, mas eu sabia que havia algo importante ali. Eu não era boa em viver grandes amores, mas também, nunca havia sido de ignorar meus sentimentos. Fora isso inclusive que me fizera aceitar Luca de volta, mesmo depois de ele ter me trocado por Victoria. Mas, Jonas era diferente. A bondade e o carinho que ele tinha por todos me deixavam constantemente curiosa, e um pouco embaraçada. Porque eu sabia que não era como ele, pelo menos não até recentemente. Agora eu entendia, e isso me fizera compreender que nem todas as uniões eram feitas no céu, ou perfeitas. Nem sempre a gente vivia apaixonado. Mas fazer dar certo, vai além disso. Ri quando ele começou a fazer carinho nos meus cabelos curtos, e tive certeza de que pra ele, a cicatriz no meu olho não importava. Pela primeira, pensei que eu não me importaria, se nunca mais pudesse me olhar no espelho...
Fale com o autor