Quebranto.

111 Season Cinco - Quem é você?


Notas iniciais
Bem... Depois de séculos (quase literais) estou de volta. Não sei ao certo se ainda tenho alguém acompanhando, mas esse retorno é em agradecimento e talvez pelos pedidos insistentes de uma leitora que se tornou amiga na vida, uma pessoa especial e mais doce que doce de batata doce (alô Xuxa). Faby, é pra você meu amor. Só porque seu amor por Quebranto me fez voltar à vida... Boa leitura, aos morceguinhos depenados restantes...

Flashback: Arantes.

A forma como ela abraçava o pequeno cão era desoladora. Com a face comprimida contra o pescoço peludo do animal, ela parecia lutar para mantê-lo ainda mais perto, conforme nossa proximidade parecia incomodá-la de forma cada vez menos suportável. Alice era uma criança, afinal. Por pior que os últimos meses tivessem sido, nada poderia afastar dela o senso de inocência. As lembranças coloridas de um mundo que ela não conseguia esquecer, em seus onze anos de vida. Ela possuía memórias demais, e enquanto seus cabelos lisos e desgrenhados escorriam sobre os ombros e braços, percebi que talvez parte de seu mundo mudasse para sempre com o que estava perto de acontecer. Porque já fazia uma semana desde que o Zangão atracara no Porto da Fortaleza. Os Conselheiros da ilha agora nos matavam de fome, fazendo com que esperássemos por um tempo que não possuíamos. Tempo este que agora forçava a mão de nossa pequena, ferida e frágil tripulação.

— Querida, se tivéssemos qualquer alternativa, jamais faríamos isso. De verdade. – A voz fraca de minha esposa tentava consolá-la, mas meu filho não parecia especialmente inclinado à compaixão. Ele lia um dos livros recomendados pelos chefes de seu laboratório nas Indústrias Keiko, olhando com ceticismo enquanto sua mãe falava gentilmente com a menina. Os mesmos chefes que tornaram possível que um militar de baixa patente e sua família fossem extraídos, junto com figuras importantes como a daquela garota. A filha do Governador do Rio de Janeiro. Esse, tinha morrido há pouco tempo quando a primeira ogiva elétrica foi lançada contra a capital do estado. Seu avião caíra na Baía de Guanabara.

— Comer o Furby não significa que não gostamos dele. Mas sem esse sacrifício, todos nós vamos morrer. – Tentei amenizar a situação, mas Rhuan bufou.

— Não deve demorar muito, agora. Os Nove vão nos levar para dentro em breve. Disse a vocês que consegui contato com a Faye quando embarcamos. Ela me quer na equipe dela desde antes desse surto. Pediu por mim pessoalmente. Tudo vai dar certo, quando for a hora certa. – A concordância muda de nosso grupo irritou-me, pois eu não confiava naquela cientista. Ela poderia mudar de ideia e nos deixar para morrer. O que não parecia nada incomum, considerando todos os navios fantasmas do lado de fora.

Assenti com um sorriso, surpreso que meu filho confiasse tanto no trabalho dele, quanto parecia confiar no meu, que era protegê-lo. No entanto, percebi que nosso pequeno grupo ainda não esquecera o tópico inicial daquela discussão. Todos estavam famintos, e sem opções, pareciam prontos a tomar de Alice o seu cachorro. Não havia espaço para o respeito de uma hierarquia que não significava mais nada, agora que o pai da criança já estava morto. Suspirando, esfreguei as têmporas, antes de decidir o que fazer. Com gentileza, pra não assustar a menina, chamei ela para dar uma volta no convés da nossa embarcação. O Zangão não era tão grande, mas tinha proporções mais volumosas que a de um iate, enquanto mantinha leveza o bastante para navegar de modo veloz. O horizonte inteiro estava nublado. Uma miríade intensa de cores cinzentas e nuvens carregadas. Seria bom que chovesse. Nossa água estava quase acabando. Pus um dos braços ao redor dos ombros de Alice. Ela encostou-se contra a minha cintura, apertando Furby entre os braços. Seu silêncio era aterrador, mas ela chorava lágrimas brilhantes, que rolavam pela face ainda que sua expressão fosse conformada.

— Por favor, não deixa ele sofrer. Não quero que ninguém morra de fome. — Um soluço se desprendeu, na última sentença. Assentindo, acariciei seus cabelos.

— Você não precisa ver nada disso. Vá lá para baixo. — Pedi. Ela me entregou o pequeno yorkshire, que lambeu meu antebraço. Furby latiu uma vez enquanto sua dona se afastava, mas calou-se. Quando Alice correu para baixo, encarei o mar na companhia inocente do animal. Com um aperto contundente ao redor de sua garganta, senti seus ossos estalarem e o corpo desvanecer. Não percebi até aquele momento que eu também estava emocionado. Uma lágrima desceu, e esfreguei bem rápido. Então quase levei um susto, com a mão em meu ombro.

— Hey. Eu sabia que isso ia mexer com você. Lembrando do Joe? — Meu pastor alemão ficara para trás. Eu nem tivera tempo de voltar para casa, quando fomos pegos no trânsito por uma horda, à caminho da casa da minha irmã. Parentes, cão de estimação... A morte do pequeno Furby trouxera lembranças difíceis, para acompanhar a própria situação desagradável.

— Sim. Mas principalmente, tentando criar coragem pra alimentar uma menina com o seu próprio cachorro. Acha que nos tornamos monstros, Eloísa? — Minha esposa tinha um semblante carregado, enquanto acariciava meu braço onde tocara, ignorando claramente o animal morto em minhas mãos.

— Estamos com fome, amor. Nosso filho está em risco. Não é nem um pouco complicado para mim, nem monstruoso. — Ela tinha razão. Mas talvez tivesse um posicionamento diferente se tivesse esganado o bicho ela mesma. Não falei alto o que pensei, com medo de estabelecer uma mágoa desnecessária.

Furby mal fora o suficiente para um ensopado ensosso, depois de esfolado e limpo. Mas as doze pessoas à bordo ficaram mais que contentes em receberem sua porção. Incluindo eu mesmo, que não resisti à dor em meu estômago. Mal se podia sentir algum gosto além do sal no caldo ralo, mas a fome aliviou e soube que poderia aguentar mais uns dois dias antes de ter que me preocupar outra vez. Reunidos no andar inferior, toda a tripulação despediu-se antes de voltarmos às cabines. Haviam duas suítes, divididas entre homens e mulheres. Eloísa beijou o rosto de Rhuan e desejou-lhe boa noite, prometendo consolar Alice até que dormisse, já que a menina não comera nada, horrorizada em silêncio. Em silêncio, todos deitaram-se para dormir, eu dividindo um colchão fino com Rhuan. Ele era um dos poucos que parecia totalmente satisfeito, como se a sua última refeição tivesse sido um frango assado comprado na padaria. Meu filho tinha sangue frio, de um tipo diferente daquele que eu precisava ter. Eu sabia ligar e desligar. Por vezes, tinha a impressão de que aquele era apenas o estado natural de Rhuan.

O que eu ouvi primeiro foram os gritos. As mulheres estavam assustadas, e o som de coisas reviradas ou quebrando encheu o ar com um clamor infernal. Corri, levantando-me apressado, e logo todos estavam em meu encalço. As mulheres corriam para fora da cabine em que estavam hospedadas, e quanto mais delas saíam, mais aflito eu ficava por não ver Eloísa. Uma das colegas do laboratório de Rhuan passou por mim em seguida, segurando com força uma ferida em seu braço, chorando. Entrei logo depois, como um louco. Eloísa estava agachada junto à parede, a mão mantendo protegido o ombro de onde escorria sangue. De pé, a figura singela de Alice parecia quase intocada, não fosse o sangue em sua boca e o aspecto amarelado de sua pele. Ela morrera incólume, embora os frascos sobre uma das camas denunciasse o que acontecera.

— Ela tomou quase todas as drogas que o Rhuan trouxe do laborátorio. Tinha tranquilizantes no meio, Arantes... Como não percebemos? — Eloísa estava chorando, mas não por si mesma. Por Alice. Naqueles dias, dormir desarmado não era uma opção para mim. Então atirei logo em seguida, sentindo meu coração pulsar tão forte no peito, que eu quase podia ouvi-lo nos tímpanos.

O presidente Orlando ordenou que os portões fossem abertos para nós no dia seguinte. Aqueles rostos estranhos tão familiares, logo passaram por mim em direção à segurança da Fortaleza. Pessoas que haviam dividido a viagem desde o Rio, mas com as quais eu mal trocara uma palavra. Na entrada, Faye pediu que Eloísa e a outra menina infectada fossem com ela. Eu sabia que não veria minha esposa outra vez. Nos beijamos, e enquanto Rhuan encarava fixamente todo o caminho que sua mãe fizera na direção dos Laboratórios, eu me vira admirando a grandeza das Muralhas, com o sabor agridoce de uma tarefa cumprida às custas do meu próprio coração. Uma missão vazia, já que Alice e seu pai estavam mortos. Mas a equipe do governador e os funcionários da Keiko Enterprises estavam a salvo. Assim como meu filho. Tinha de ser o bastante, não tinha? Afinal, eu sou um soldado. Era, um soldado...


Cecília.

Os olhos branco e preto de Eloísa entregavam muito sobre sua personalidade. Cansaço, bondade, e uma expressão maternal capaz de aquecer mesmo através do vidro grosso de sua cela, do outro lado do corredor. Encarando-a com um sorriso mórbido, eu mesma parecia numa nuvem de aceitação, enquanto a dormência em meu corpo massageava toda terminação nervosa, todo nervo. Era familiar a sensação que as drogas pesadas provocavam, mas de uma maneira totalmente diferente. Notei com certo estranhamento que Eloísa parou de sorrir, demonstrando preocupação e até tristeza, como se em câmera lenta. Seus olhos percorreram meu corpo, e seu olhar encheu-se de pesar. Logo segui seus olhos com as mãos, até que senti meu ventre com os dedos. Meu ventre. Liso. Vazio. Onde estava meu bebê? Uma torrente de memórias invadiu a névoa da anestesia, e o procedimento ocorrido ficou claro. Chorei com a testa suada colada ao vidro blindado da cela branca e estéril. Tão estéril quanto eu seria, dali por diante. Francine me levara até Faye. Faye era um monstro. Eu era seu tesouro. E agora, ela tirara o meu filho. Como se eu fosse sua cadela, com uma ninhada indesejada no ventre. Otto. O que ele faria quando soubesse? Como se sentiria? Se perderia de uma vez por todas, depois de tão perdido? Ou já estaria ele desesperado, com meu desaparecimento? Quanto tempo fazia desde que eu estivera sumida?

— Nós perdemos a conta, em algum momento. — Eloísa sorriu diante da minha surpresa, tocando a têmpora com uma unha longa. — Peculiar, não? Posso ouvir pensamentos se fizer força o bastante, mas ainda assim não consigo descobrir uma forma de enganar Faye e sair daqui. Lamento muito pelo que ela te fez. Ela feriu a todos nós, aqui embaixo, de alguma forma.

— Por que ela faz isso? Digo, por que manter inumanos vivos aqui embaixo? — Indaguei, confusa.

— Experimentos. Matéria-prima. Ela faz o que quiser, quando quer. É uma deusa, lembra? — Eloísa era uma mulher firme. Havia temor real em suas palavras, mas ainda assim um toque de ironia típico de quem não consegue se deixar abater. — Meu filho idolatrava essa mulher. Você disse que ele morreu à serviço dela. Acha que ele sabia do que ela havia me feito?

— Não conheci Rhuan. Nenhum de nós. Mas acho que se ele soubesse de tudo e não se importasse, Faye teria dito para feri-la. Ela se acha superior, mas é tão mesquinha quanto qualquer humana. — Garanti, sorrindo. — Eu só queria ter mantido a minha habilidade. Quando tomei a cura para o GM, voltei à capacidade que eu tinha antes de ser contaminada. Sempre fui psíquica, mas minhas intuições são confusas sem o vírus.

— Eu nunca pensei que psíquicos, médiuns, ou o que seja, existissem entre nós antes de tudo isso. Sempre achei mentira. Mas depois do que vi, e do que fiz, acredito que nosso mundo sempre foi mais misterioso do que julgávamos. Nunca pensei em ver os mortos caminharem, também. — Ela abraçava os joelhos, cabelos loiros envelhecidos com a prisão, pálidos e quase prateados, pendendo até os ombros.

Nos encaramos em silêncio durante algum tempo, enquanto ouvíamos os murmúrios e lamentações quase silenciosas dos demais prisioneiros. Outros deles conversavam, mas cada um de nós só podia ver a pessoa imediatamente à frente de si, de modo que motins e diálogos com outros prisioneiros eram extremamente limitados e difíceis de se combinar. Havia isolamento acústico entre os cubículos, mas as passagens de ar em pequenos furos no vidro automático permitiam que Eloísa me ouvisse. Tudo que eu sabia era que todos éramos inumanos, ou tínhamos potencial para sermos, estando curados no momento ou não. Ainda queria gritar e soluçar pela dor que Faye me infligira, mas Topázio me ensinara a aceitar a resiliência. A me afastar. Como se eu fosse uma mera espectadora do terror que circulava a minha vida, recostei-me, revirando os olhos nas órbitas atrás das pálpebras. Suspirei, abraçando a mim mesma, desejando que aquele pesadelo sem fim terminasse. De qualquer forma. Para o bem, ou para o mal abstrato de um descanso sem fim, longe do terror das mãos hábeis e cruéis de Faye Keiko...

Notas finais
Essa semana ainda tem mais! Beijos!