Quebranto.

112 Chamas e Cinzas.


Notas iniciais
Mais um capítulo no ritmo acelerado do Carnaval! XD Boa leitura.

Fernanda.

As lápides eram como pedaços da lua, num mar de grama. Num tom claro de granito, brilhavam com nomes que eu não conhecia, mas que podiam muito bem ser o nome dos meus pais, ou dos meus irmãos. Eu mal lembrava dos rostos deles. Como se as memórias, tivessem sido consumidas pelas chamas que arderam em mim, uma vez após a outra. Quanto daquela garota ainda existia, depois do que Arlindo fizera? Sem Gabriel, eu havia me feito aquela pergunta muitas vezes e encontrado uma forma de convencer a mim mesma que ela ainda estava aqui. Apertando seu crucifixo numa hesitação bondosa, sorrindo com um ar esperançoso... Abraçando Tânia. Beijando o topo da cabeça de Dino e Vilma, tentando ao máximo ser alguém em quem eles pudessem se espelhar. E para quê? Aquela garota era cinzas, um pedaço desafinado de uma melodia que já tocava fora de hora. Suspirando, arranquei o cordão de prata, surpresa por não sentir nada. Não era como se eu não precisasse mais de Deus. É que finalmente havia percebido que ele nunca precisara de mim, ou de qualquer outro filho abandonado à própria sorte naquele mundo sem lei, sem perdão. A cruz deitou-se sobre o nome de Dino. Ele, Tânia e Manuela estavam bem ao lado de Ricardo. De alguma forma aquilo parecia certo. Agora que não existia mais um Memorial, as placas nas terras fora das Muralhas eram tudo o que nos restava para lembrar, homenagear. Por sugestão de Felipe, novo Conselheiro da Saúde, agora queimávamos nossos mortos. Talvez por isso eu tivesse me sentido tão morta nas últimas semanas. Uma parte de mim fora queimada com eles, indo embora para sempre.

— Sabe, não precisa vir todos os dias. Embora eu ache que Dino teria gostado de nos ver aqui. Ele sempre gostou de ser paparicado. — Suspirou Vilma, sorrindo de braços cruzados. Ela usava uma blusa de mangas compridas, completamente negra. Como suas saias colegiais até os joelhos e os coturnos até os tornozelos. Ela fora recrutada por Allan, e agora era uma aprendiz dos sentinelas. — Mal consigo me olhar no espelho, sabia? Éramos tão parecidos...

— Vou descobrir quem fez isso, meu anjo. Eu te prometo. — Senti a aproximação dela, e Vilma pousou a mão sobre meu ombro, os cabelos castanhos brilhando com o sol. Ela olhou para mim com um amor inerente em sua expressão, deslizando seu toque até meus pulsos, e apertando minhas mãos frias. As garras negras completamente expostas, diante do meu estado emocional.

— Não procure vingança, Nanda. Você tem estado tão afastada nos últimos dias. Estamos preocupados. Você é muito importante para mim, e com essa pessoa perigosa ainda entre nós, não é bom agir de um jeito impensado. Pode acabar dando errado. Não quero te perder também. — Vilma beijou minha bochecha, e senti minhas unhas retesarem, retornando sob a pele. — Se a gente não tiver tempo para viver de verdade, qual a razão em permanecermos vivos? Dino é meu irmão e eu vou amá-lo além desta vida, mas sei que ele não ia querer que eu morresse também. Estou lutando com isso todos os dias. Sei que você também pode.

— Quando você cresceu tanto? — Vilma riu quando a abracei apertado, beijando seu queixo. — Se tornou uma mulher forte, incrível. Estou muito orgulhosa, Vilma.

— Bem, eu fiz aniversário semana passada. O bom de se ter um calendário na Fortaleza, é que essas coisas voltam a fazer sentido, né? Tenho oficialmente catorze anos, agora. Sou uma adolescente. — Dando de ombros, Vilma ergueu-se. — Mas já me sinto assim há muito tempo. A idade funciona diferente agora. — Ela pareceu ruborizar um pouco, e me peguei imaginando o que mais se passava ali. Rindo, sentei-me de vez na grama, ao lado da placa de Dino, deslizando uma das mãos sobre ela, pensativa. — O que foi? — Vilma insistiu, notando meu leve sorriso.

— Nada. É só que... Sempre pensei que teria de me preocupar com vocês dois quando chegasse a hora do namoro... Acho que para o Dino ia demorar um pouco mais. Ele sempre foi mais focado em outras coisas. Diferente da senhorita, né? — Vilma riu, totalmente pega de surpresa.

— É errado falarmos disso aqui? Falta de respeito? — Refleti. Poderia ser. Mas não. Era uma gota de orvalho, recheada de alegria, caindo naquela grama verde impessoal. Dino teria gostado de saber que podia nos unir daquela forma.

— Seu irmão pode nos ouvir, segundo o que Cecília acreditava. Acredita — corrigindo a mim mesma, recusei-me a pensar que ela podia estar morta. Otávio não deixara ninguém depositar uma placa com o nome dela. — Então, não. Ele ficaria com ciúmes, mas ia gostar de te ver feliz. É o Carlos, né? Você e o irmão da Vicky passam muito tempo juntos.

— Ele não é idiota, como pensei. — Vilma confessou, ainda vermelha.

— Só isso já é metade do caminho, hoje em dia, não é? — Concordei.

Rimos juntas, e o som do riso encheu a clareira como cinzas de uma fogueira, que se erguem inutilmente tentando alcançar o sol. Antes que aquele momento se desfizesse como todos os outros, agarrei-me à ele como se minha vida dependesse daquilo. Queria aquela imagem de Vilma rindo em minha mente. Sombria, refleti que eu a amava como nunca conseguira amar meus próprios filhos. O que isso dizia à meu respeito, enquanto ser humano? Eu não sabia, e não queria saber. Havia sido consumida demais para me importar...


Victoria.

Diogo fazia uma expressão engraçada quando estava concentrado em massagear as minhas pernas. Desde o tiro que eu levara no confronto com João Pedro, ele passava um óleo para hidratar minha pele e acelerar a cicatrização, que Beatriz desenvolvera com babosa e beijo das sombras. A ferida da bala que atravessara totalmente meu membro, já exibia apenas uma mancha vermelha, e a pele estava extremamente sensível. Por isso, eu ainda usava uma tala de tecido anatômico abaixo do joelho, para proteger os machucados internos que ainda não deviam estar totalmente recuperados. Com um toque gentil, que sempre me surpreendia, ele manteve a circulação do sangue, até que as duas pernas estavam brilhantes e totalmente besuntadas. O cheiro de ervas encheu o nosso quarto, enquanto ele me fitava de um modo intenso.

— Não vejo a hora de poder te agarrar. Essa perna delicada meio que atrapalha. — Ele refletiu, com a mão no queixo como um vilão de filme antigo.

— Só se você tem uma ideia completamente diferente de sexo de recuperação, da que eu tenho, Bom Gigante Amigo... — Provoquei, cutucando-o com o dedão do pé. Ele o segurou, levando-o até a boca e beijando-o antes de dar uma leve mordida. — Ai! Maluco! Não sabia que era podólatra.

— Eu não sou. Mas você tem um pé bonito, é claro. — Diogo estava rindo, o que me fez bufar. — Mudando de assunto — continuou, com uma expressão mais carregada. — O que seu pai disse sobre os Conselheiros? Ele aceitou sua sugestão?

— Eu tentei fazer ele enxergar que essa coisa restrita de posições, cores, Conselhos, só complica as coisas. Nossa população se reduziu demais. Temos bem menos de cem pessoas agora. Não precisamos de nada disso. Mas ele insiste em escutar a Faye, que quer uma eleição para garantir o funcionamento social da Fortaleza. Sinceramente, acho que ela só não quer encarar que o sonho de reconstruir tudo acabou. — Admiti, tomada pela franqueza que me invadia na companhia de Diogo. — Ainda não engoli o que ela fez com Hugo, sem autorização ou conhecimento dele. A Carol, menos ainda. Ela sabe que se não estivesse apoiando meu pai como presidente, eu nunca votaria nela.

— Foi bem cabuloso, o que aconteceu. Mas ela salvou a vida dele. E aposto que ele não matou a Tânia. É o mesmo que dizer que a Cecília se escondeu por que quis, e que vai voltar logo. — Chocada com a comparação, o encarei impassível. — Muito cedo pra ser sincero? Qual é Vicky, todos sabemos que o Otto precisa lidar com o luto.

— Ele está lidando. Tem sido difícil pra ele. Lutou tanto pra manter a Cecília segura, com a história do bebê. Ele quase se tornou outra pessoa. Tudo pra ter essa decepção... Não quero que você faça essas brincadeiras perto dele, ouviu? — Disparei, levantando-me. Senti a perna ferida, mas não cheguei a mancar. Era apenas um incômodo no nervo que fora atingido, considerando minha regeneração acelerada. — E então, vamos ou não vamos no sarau do Pátio Central?

Diogo percebeu que eu não havia gostado nada da forma como falara de Cecília, porque não tentou puxar assunto até que eu deitei a cabeça em seu ombro, no pátio. Todos estavam reunidos do lado de fora dos prédios. Até mesmo Hugo, que estava sob custódia nos andares superiores da Cadeia, fora levado para participar. Ele tinha uma expressão solene, enquanto observava Dante tocar violão no centro de uma pequena plataforma, cercada por cadeiras e mantas estendidas no chão. Otávio não estava em parte alguma, o que me incomodou. Carol e Arantes estavam juntos, o que era uma novidade nos últimos tempos, mas não algo negativo. Ele fazia bem para o temperamento dela. Fernanda e Vilma estavam falando baixinho com Beatriz e Reneé, enquanto o doutor Felipe observava a apresentação do meu amigo com admiração. Ele parecia encantado, assim como a maioria dos moradores. Notei que Nanda não usava mais o seu colar, mas não parei para pensar no assunto. Observamos e sentimos a música fluir como um encanto fugaz, um escape da tensão constante. Não podia ver meu pai em parte alguma, nem Faye. Os dois andavam concentrados nos próprios afazeres, preocupados demais para respirar outra coisa que não fosse trabalho.

Quando tudo acabou e todos começaram a retornar aos dormitórios, enquanto uns poucos haviam decidido dormir à céu aberto, retirei-me com Diogo na direção de onde Hugo ficara sentado, com Abel e um sentinela que eu só conhecia de vista, ao seu lado. Todo mundo sabia que eles dois não teriam chance se fosse intenção de Hugo se soltar, o que só contribuía para que o tivessem em alta conta, apesar das suspeitas. Ninguém na Fortaleza encarava o rapaz com medo. Todos lembravam que fora ele quem virara o jogo a favor de todos, depois dos atentados. Todos sabiam que ele amava Tânia e Dino. Tássio também estava ali, parado ao lado dele e parecendo rir de algo espirituoso que ele mesmo dissera. Dante observava o velho homem responsável pelas fazendas com bom humor. Ele pareceu sorrir ainda mais quando me viu chegar. Adiantando-se para um abraço.

— Hey Vicky! Que bom que vocês vieram. — Ele apertou a mão de Diogo, emitindo uma leve expressão de desconforto. — É esse ombro. — Moveu o ombro preso por uma tala, enquanto falava. — Tocar com ele assim foi difícil e nada recomendável, mas estou bem melhor. Só é uma pena que Otávio não tenha aparecido. Estamos preocupados...

— Ele não quis olhar na minha cara porque acha que fui eu quem matei nossos amigos. Aposto que ele acredita que tenho algo a ver com o sumiço de Cecília, já que matei a única pessoa que viu o que aconteceu a ela. — Hugo tinha um tom monótono, mas não estava carregado de lamento. Ele parecia conformado. — Sei que não fui eu. — Ele me fitou intensamente. — No dia em que tudo aconteceu, eu estava mal pela Manuela. Tudo meio que me sufocou, caiu de uma vez só. Aceitei que era um monstro. Mas sei quando uso meus poderes. Eu sinto fisicamente. E isso não aconteceu naquela noite. Dante me ajudou a ver isso, e a Vilma também.

— Fico feliz que ela entenda que você não tem envolvimento nisso. — Sorri, consolando-o com um beijo na bochecha e alisando seus cabelos. — Por mim você não deveria sequer estar algemado, Hugo. Mas meu pai insiste, e Faye também.

— Ela é quem devia ser responsabilizada, por fazer experimentos sem autorização. — Reclamou Dante, com uma raiva que não era nada típica dele. Só mesmo a infelicidade de Hugo para deixá-lo assim. Naquele momento notei o quanto ele o amava. Aquilo me encheu de ternura. — Desculpa, Vicky. Ela é namorada do seu pai.

— Ela sabe que fez algo muito errado. Quando curou Cecília, foi autorizada por ela. Não digo que ela devia ter deixado Hugo morrer com a overdose de Beijo das Sombras, mas podia ter avisado que ele se tornaria um inumano diferente, para que nenhum de nós fosse surpreendido. — Admiti, chateada por ter confiado tanto na ética de uma pessoa que se mostrara egoísta. — Vai quase de encontro ao que a gangue de João Pedro dizia dela.

— É a primeira coisa inteligente que ouvi essa noite. Sem ofensa, Dante. Suas músicas são... bonitinhas. — Provocou Carol, apoiando o braço no meu ombro. — Sinto muito Hugo, hora de voltar com a gente para dentro. Mas é o que a Vicky disse: Estamos com você.

— Obrigado, gente. — Hugo se levantou. Dante o segurou nos dois lados do rosto, beijando-o. Sorri involuntariamente, como uma idiota. — Dante, aproveita para falar com o Diogo. Não precisa vir comigo. Até mais, gente.

Dante assentiu, enquanto os sentinelas levavam Hugo de volta à sua cela de contenção. Curiosa sobre o que ele queria falar com Diogo, fui ficando perto deles enquanto todos se dispersavam. Sabia que Diogo me expulsaria de perto se percebesse que Dante estava envergonhado ou querendo falar a sós, mas isso não aconteceu. Ele levava o violão numa mão, e passou meu braço ao redor do outro, preso pela tala. Juntos, nós três nos afastamos do local onde algumas pessoas conversavam ou observavam as estrelas, tão claras e nítidas ali na ilha. A noite estava fria, mas não insuportável. Nos sentamos em um dos banquinhos mais afastados, e meu olhar foi atraído pelos buracos causados pelo último tiroteio, ainda espalhados por toda a parte.

— O que você queria falar comigo, Dante? Aconteceu alguma coisa? — Diogo perguntou, enquanto nos aconchegávamos.

— Não, por Deus... Chega de coisas acontecendo. — Ri junto com ele. — Eu só queria que você me ensinasse a lutar, Diogo. Vicky, você pode me ajudar, também? Quando meu braço melhorar. Quero aprender a ser útil.

— Você sempre foi corajoso, cara. Lutou com os inumanos na pousada com um pedaço de madeira. — Lembrei do caos que fora aquele dia. — Você nunca deixou de sujar as mãos.

— Mas eu era surfista e músico, não lutador. Faço o que posso, mas os nossos inimigos eram sentinelas treinados, e eu não tive chance. Não quero que isso aconteça outra vez. Nunca mais quero me sentir impotente, ou ver o Hugo abrir mão dele mesmo pra me defender. Eu quero protegê-lo, não o contrário. — Sorri, entendendo tudo. Com um gesto de amizade, soquei de leve o ombro bom de Dante, que riu.

— Não seja idiota, Dante. Hugo não é uma mocinha indefesa. Não viu o que ele fez naquela noite? Além do mais, entendo que você queira lutar. E acho que podemos ensinar. Até a Carol aprendeu a se defender. Deus sabe que qualquer um consegue, depois dela. Fica tranquilo. Só não vai por esse caminho, porque quando a gente ama alguém, sempre vamos acabar ficando impotentes. Faz parte. — Bati de leve na minha perna ruim. Ele entendeu, sorrindo.

— Obrigado, gente. Acho que os últimos acontecimentos têm me deixado nervoso... Não aguento ver o Hugo preso sem motivo. Até com raiva da Faye eu fiquei. — Eu não iria alimentar uma situação de conflito, mas eu também estava com raiva por ela não se manifestar à favor de Hugo, mesmo depois de ter coletado sangue dele várias vezes, para avaliar sua condição. A falta de informação estava me irritando, bem como a ausência dela.

— Amanhã às oito começamos o seu treino. — Avisou Diogo, cortando o assunto. — Esteja pronto, boneco Ken. Agora eu e a Vicky vamos indo. Quero ver se consigo me dar bem essa noite. — Ele piscou para Dante, que ficou rindo sentado no banco enquanto eu me levantava lentamente, com uma expressão clara de ceticismo que o fez rir ainda mais.

— Você nem consegue imaginar o quanto "não" vai se dar bem hoje, gatinho. — Cutuquei Diogo com meu cotovelo, e ele ficou rindo.

Quando ele tentou passar a mão na minha bunda em frente ao prédio dos Dormitórios, pisei no pé dele com força o bastante para fazê-lo morder o lábio inferior e xingar. Ainda assim ele riu, correndo atrás de mim numa imitação tosca de uma perseguição de filme de terror. Apenas a dor leve em minha perna e as lembranças reprimidas daqueles que haviam partido há apenas um mês, enchiam minha mente com um ruído que eu insistia em não ouvir, em não deixar me enlouquecer. Sabia apenas que, mais cedo ou mais tarde, eu precisaria conversar com Otávio. Ele precisava de mim, e eu não sabia sequer como me aproximar. Mas precisava descobrir como, e rápido.

Notas finais
Vem mais coisa em breve! Obrigado a todos que ainda estiverem acompanhando. Kisses by DroppingPieces