Quebranto.
100 O sétimo pecado é a Ganância.
Notas iniciais
Carol.
Quando Otto deixou o Refeitório, foi mais ou menos como se meu showzinho no Diretório tivesse realmente valido à pena. Senti-me feliz por vê-lo finalmente aceitando que aquele lugar não era o conto de fadas açucarado que tinham nos vendido. A julgar pelo jeito dele, com o rosto vermelho e tudo, a coisa tinha sido feia. Nenhum de nós falou nada quando Cecília o seguiu, e aquilo pareceu colocar uma pedra sobre as vozes ali presentes. Todos simplesmente voltaram a comer em um silêncio educado, e por mais que eu quisesse interromper aquilo pra soltar alguma graça, acabei dando-me por vencida. Não seria bom fazer piada de grávidas, quando só eu e Vicky sabíamos sobre eles. Acredito que minha amiga teve o mesmo tipo de pensamento que eu, pois seu olhar desesperado implorava por discrição. Sorrindo comigo mesma, encarei a bandeja vazia à minha frente. Eu comera com tanta pressa, que mal sentira o gosto da salada de macarrão com legumes frescos da Fazenda. Apesar de contente pela situação de meu amigo, eu ainda estava preocupada com aquelas pessoas ao meu redor. Afinal, eles eram a minha família. E apesar daquela ideia ter soado estranha e corrosiva para mim no passado, eu podia reconhecer que decididamente estava feliz ao lado deles. Era a primeira vez que eu admitia aquilo de forma tão clara. Estava sentindo-me grata por aquela refeição, e pelos motivos certos. Não é o tipo de coisa que me acontece todos os dias.
– Hey, você está bem? — Nanda indagou-me, sorrindo. — A Vicky acabou de perguntar se está tudo bem, pra você.
– Tudo bem o quê?
– Sua parte no plano, Carolina. — Victoria repetiu, franzindo a testa. — Você parece estranha. Eu só estou repassando as atribuições, agora que o Refeitório está quase vazio. Tudo bem se você patrulhar o Pátio Central com o Diogo, e garantir que nenhum Nove decida voltar para o quarto, além de Renée?
– Sim. Pensei que isso já estivesse resolvido. — Ela me lançou um olhar fulminante. — Ah, ok. Estamos só checando.
– Não tem mesmo nada errado com você? — Repetiu Hugo, sorrindo ao final da pergunta.
– Não. Só estou feliz por que estamos juntos. E como em breve todos estarão em risco outra vez, gostaria de deixar isso claro. Amo vocês, pessoal. De verdade, eu não me lembro de ter dito isso assim, para todos. Nunca. — Confessei, mordendo o lábio inferior. Todos foram pegos de surpresa com minha declaração. Fernanda foi a primeira a quebrar o silêncio.
– Demorou, mas parece que adestramos a Carol. — Ela parecia dissimuladamente chocada. — Isso é surpreendente.
– Nanda, esse é o tipo de comentário maldoso que o Otto faria. Cuidado, ou sua imagem de boa moça ficará ameaçada. — Rebati, sorrindo ao fim da frase. Depois, voltei-me na direção de Victoria, tendo uma ideia engraçada. — Tudo bem por mim, se tiver que ser a dupla do Dodogo, aí. Ele não ia conseguir se concentrar em nada do seu lado, mesmo. — Inclinei-me para o ouvido de Arantes, que estava ao meu lado. — Mas eu preferia que minha dupla fosse você, sargento...
Arantes engoliu em seco, quando ouviu minhas palavras. Acho que ele não esperava um flerte daqueles, pois enrijeceu por inteiro. Vicky olhava-me com interesse, vez ou outra. Ela desviava-se da conversa para inquirir-me com seus olhos. Claramente, devia estar surpresa pela minha súbita mudança de postura. Eu nunca dera indícios de que estava atraída por alguém, desde que Jonas morrera. Em parte, por luto. Em parte, porque havia fechado aquele pedaço da minha vida para sempre. Acreditei que talvez nunca pudesse ser capaz de encontrar outra pessoa, ainda que de maneira inconsciente. Finalmente admitir que eu era uma pessoa normal, e não só a vadia, irônica e sarcástica, doía na mesma proporção em que me libertava. E com o tempo, percebi que deixar de lutar com a insegurança é a melhor forma de ser feliz. Não importa quanto seja difícil, e por quanto tempo tenhamos que debater sobre isso, internamente. Acho que se eu encontrasse a menina que eu era dois anos atrás, eu não seria capaz de reconhecê-la em nada. Essa era a minha maior alegria. Ajeitando meus cabelos atrás da orelha, lembrei que eles estavam ficando compridos outra vez, o que era muito bom. Talvez, agora que estávamos num lugar seguro, e prestes a torná-lo melhor, eu pudesse finalmente relaxar um pouco. Só mais um dia, e eu poderia começar a construir uma nova Carolina. E pensar que se não fosse por Luca, eu jamais teria conhecido Victoria. Jamais seríamos amigas, e talvez eu nunca tivesse viajado com ela e os outros, na formatura. Eu poderia estar morta, não fosse um simples acaso do destino. No fundo, eu sabia que devia ser agradecida pela vida, acima de tudo. E ainda que eu fosse naturalmente gananciosa, sabia que esse tipo de compreensão não tem preço.
– A quem possa interessar, vamos encerrar essa reunião. Tem gente estranha de olho. — Opinou Hugo, olhando ao redor de cara feia.
– É só parar de ficar dando bandeira, oras. — Ralhou Vicky, estalando a língua. — Nanda, mantenha os olhos abertos no Hospital. Diogo e Carolina, a missão de vocês é evitar que alguém deixe o Pátio, mas também precisam ficar de olho no Otto. Hugo e Dante vão se misturar na multidão, pra assistir ao pronunciamento. Manuela e Arantes virão comigo até o Corredor dos Nove, à espera do Renée. Cecília vai manter as crianças na Escola com a Francine, e Helena vai deixar a Faye presa no Laboratório, em segurança. Alguma dúvida? — Levantei a mão. — O que é, Carolina?
– O seu pai também deixou alguns sentinelas de prontidão, lembra? Eles vão vigiar qualquer atividade suspeita, e proteger a Silvia. Isso significa que também pode haver sentinelas aliados ao Renée, sabendo do nosso plano. O que garante que não vão atirar em nós durante o pronunciamento? — Perguntei, apenas tentando encaixar aquilo no plano em minha mente. Por mais que eu quisesse resolver aquilo, não estava animada para sair por aí, desviando de balas.
– Se um deles atirar, vai se denunciar. Renée não faz ideia de que temos acesso ao seu quarto. Ele não vai descobrir que roubei a Agnes, porque ela está com medo de divulgar o incêndio que provoquei. — Manuela afirmou, soando confiante. — Ela sabe que vai sobrar pra ela. Então, acho que temos essa vantagem.
– Não dá tempo para pensar demais, agora. Chegou a hora de agir. Pelo meu filho, e pelo Ricardo. — Arantes colocou a mão sobre a minha, com uma expressão amigável no rosto. Ele parecia ansioso por uma conclusão, como eu acho que qualquer pai ficaria. Não havia conhecido o filho dele, mas sabia que era o assistente mais brilhante de Faye. Senti pena do garoto.
– Pela Valentina, também. — Helena lembrou, sorrindo de forma tímida. Hugo estava mais próximo, e pegou na sua mão. Dante também a consolou.
– Está na hora, e todos sabem o que fazer. Sorte para nós. — Vicky encerrou nossa conversa, de maneira bem suave. Ela parecia saber que não devíamos nos abraçar nem nada do tipo. O risco de denunciar nossas intenções era muito grande, e precisávamos evitá-lo a todo custo.
Ao lado de Diogo, andei em silêncio e com as mãos nos meus bolsos, aguardando enquanto ele despedia-se de Victoria com um beijo. Como as coisas ainda estavam sendo organizadas para o pronunciamento de Silvia, agimos todos como se estivéssemos vivendo um dia normal. Alguns passariam um tempo nos quartos, outros voltariam às tarefas, isso até a chamada para ouvirmos quais seriam os próximos quartos revistados. Além disso, certamente Silvia teria alguma balela escrita para nos tranquilizar, enquanto ela mesma não fazia ideia do que estava havendo. Por nossa vez, Diogo e eu decidimos aproveitar o tempo de intervalo para aquecermos na academia dos Muros. Ninguém estaria lá, porque Allan exigira uma circulação máxima do efetivo, enquanto tudo era preparado. Apesar de saber do nosso plano, ele não se envolvera muito. Não conhecia os detalhes. Tanto melhor, porque eu não sabia se Hugo se sentiria confortável, sabendo que tio Allan era um Nove e quase suspeito. Enquanto eu peregrinava até os Muros, comecei a sentir os efeitos do calor terrível que estava fazendo naquele dia. Havia bastante vento, mas o ar estava seco como um deserto. Pensei que se alguém jogasse álcool no asfalto, ele certamente inflamaria em combustão espontânea. Praguejando contra o preto daquele uniforme, quase arranquei a blusa. Isso melhorou quando entrei no alcance do ar-condicionado dos Muros, e rapidamente senti meu humor subir alguns tons.
– Quer treinar com os sacos de areia? Que eu me lembre, a senhorita não é muito boa em usar esses bracinhos... — Debochou Diogo, tentando usar a velha tática de motivar provocando raiva. — Não sei como conseguiu matar a Lívia... Os animais dela fugiram da sua beleza interior?
– Ela não foi a única que matei, se me permite lembrar. — Devolvi a peteca, fitando-o com um quê de deleite. — Garanto que minha força física não me impede em nada. Não com essa garantia aqui... — Tirei o revólver do coldre preso à minha perna, balançando-o lentamente. — Quando se trata dessas coisinhas aqui, sou tão forte quanto você.
Diogo veio pra cima de mim com tanta ferocidade, que travei de susto. Ele segurou meu pulso e o ergueu para cima, girando ao meu redor de modo que apenas observei enquanto meu mundo girava. Bati de costas no chão, e o impacto estremeceu meu corpo inteiro. Bufando de raiva, chutei na direção do rosto dele, mas o miserável segurou meu tornozelo. Ele girou outra vez, praticamente sentando-se sobre mim e puxando minha perna para trás sobre a coxa dele. Virando de bruços para tentar escapar, podia sentir o sangue fluir para a minha cabeça. Mas não emiti qualquer ruído. Se ele achava que podia provar seu ponto me derrubando, eu ia mostrar um movimento clássico da Carolina. Agarrando um dos seus antebraços, mordi com muita força. Diogo soltou um rugido de dor, e me largou imediatamente. Esfregando o local onde eu o mordera, ele levantou-se, revoltado.
– Ficou doida, Carolina? — Ele começou a rir, incrédulo. — Não acredito que fez isso!
– Você não a avisou que estava vindo pra cima de mim, esquisito. Considere-se sortudo. Posso morder bem mais forte. — Zoei, apontando na direção do machucado. — Nas brigas da vida real vale tudo, não é? Pois então. Avisei que eu tinha meus meios. — Vangloriando-me, andei até um dos sacos de areia. Eles tinham cores e alturas diferentes. Escolhi um azul bem ao alcance das minhas mãos. — De todo modo, segura aqui. Acho que podemos passar o tempo, afinal.
– Eu nunca te entendi direito, sabia? Maluca... — Ele resmungou, mas havia algo diferente em sua voz. Reconhecimento, talvez? — Na verdade, assim que te conheci, não gostei de você. Mas era indiferente pra mim, principalmente porque você mantinha aquele palerma do Luca ocupado.
– Desconsiderando que você falou mal do meu amigo morto, posso dizer que também não fui muito com a sua cara. Essa vibe de atração por caras... Rústicos... Nunca foi meu forte. — Dei o primeiro soco. O saco nem se mexeu. Mas minha mão doeu. — Eu te achava meio doido, e violento. Um grosseirão. As coisas foram mudando depois. Você mostrou que tem um coração aí dentro, e foi antes de mim.
– Culpa da Victoria. — Diogo pareceu sorrir como um bobalhão incorrigível. Revirei os olhos, antes de socar mais uma vez. Minha mão gritou em desesperança. — Depois que comecei a me forçar a ser o que ela queria e precisava, percebi que aquele era quem eu realmente era. Com as coisas que acontecem na nossa vida, às vezes é mais fácil bancar o escroto. Como você, antes de encontrarmos a boate.
– Aquela era a minha versão sem rumo, e pronta para enlouquecer a todos. Pensei que um de vocês iria acabar me degolando durante o sono. Mas ainda bem que fiquei viva, não foi? — A coisa ficava um pouco menos chata, conforme minha mão ia acostumando com o impacto. Senti Diogo retesar um pouco mais, para segurá-lo na posição correta.
– Pode-se dizer que sim. — Ele captou minha referência à ocasião em que eu salvara a todos. Seu sorriso em seguida foi um pouco mais descontraído. — Não é tão insuportável conversar com você, Carolina.
– Eu sei. Sou um anjo. — Soquei outra vez, dessa vez imaginando as costelas de um inimigo. Foquei nas laterais. Diogo arcou uma sobrancelha. — Só não te dou um beijo, porque jamais ficaria com o namorado de uma amiga. — Nós dois nos entreolhamos, e por um breve instante hesitamos, antes de cair na gargalhada. — Sabe Diogo, eu era bem maldosa antigamente. Esse traço de personalidade nunca vai mudar, acho. No fundo, eu meio que me identifico com você. Fernanda bem sabe o quanto posso ser um pé no saco.
– E quem disse que precisa mudar, Carol? A gente gosta de você assim. Nós dois somos os vilões reformados. — Ele colocou o indicador sobre os lábios, alarmado. Sua expressão mudou totalmente, enquanto olhava ao redor, de maneira ansiosa. — Sem desespero, mas tem alguém vindo.
Juntos, corremos para perto da porta da academia, local em que ficavam dispostas as prateleiras com os diversos utensílios de treino. Diogo alcançou o interruptor, desligando as luzes do local. Agachando-me ao lado da porta com vidraça, encostei-me à parede de vidro que dava para o saguão principal dos Muros. Podia ouvir os passos de duas pessoas, e fiquei cada vez mais nervosa. Não devia ter nenhum sentinela ali. Na penumbra, distingui os olhos de Diogo, emoldurados pelos seus cabelos. Indicando a porta com a cabeça, chamei por sua ajuda. Nós dois nos preparamos, e agarramos o intruso ao mesmo tempo. Um grito feminino encheu o lugar, enquanto rolamos pelo chão com um homem corpulento. Sem olhar por onde caía, acertei com a cabeça num dos armários, soltando-o rapidamente. O cara acertou o rosto de Diogo com um murro, mas não veio para cima de nós quando nos finalizou. Ao invés disso, ele foi até o interruptor e acendeu a luz. Abel parecia esbaforido e assustado com nossa pequena luta, enquanto Agnes encolhia-se na porta, sem saber se ia embora ou ficava.
– Que merda foi essa? Achei que vocês eram dois daqueles malditos mascarados. — Abel olhou para a porta, e fez um gesto para que Agnes entrasse. — Está tudo bem, amor. Esses dois acharam que éramos outra pessoa, também.
– Está tudo ótimo — concordei, apenas para que Diogo não dissesse nada. Ele devia estar possesso com o soco na cara. Virando-me para ele, estendi a mão, puxando-o até que estivesse de pé. — O que aconteceu com vocês?
– Eu soube pela Vicky que vocês estavam aqui, então resolvi trazer Agnes para vocês. Ela tem algo importante para contar. — Avisou Abel, apreensivo. Eu não sabia que ela era a namorada dele.
– É verdade. — Ela parecia nervosa. — Hoje mais cedo houve uma tentativa de incêndio no saguão dos Organizadores. Eu decidi manter tudo em segredo, porque Renée anda muito nervoso ultimamente. Ele parece bastante aborrecido, e intolerante. Então, deixei tudo quieto. O problema, é que meu cartão de acesso desapareceu. Então, fui assistir aos vídeos das câmeras de segurança. Ninguém sabe que monitoramos todo o lugar, porque só os Nove e seus secretários têm acesso às imagens.
– Isso é mal. — Conclui, olhando para Diogo. — Você sabe que foi a Manuela?
– Sim. Mas Abel já havia me dito sobre seus planos, então não vi problema algum. Só que Renée perguntou o que havia acontecido, e parecia muito irritado. Um dos funcionários me traiu, e disse que ele devia checar as câmeras. Juro que vou matar o Murilo! — Agnes tomou minhas mãos nas suas, angustiada. — Se ele souber de Manuela, vai matá-la. Temos que correr até o saguão e impedir que ele veja as imagens dessa manhã. Posso invadir a sala de segurança com os monitores, porque tenho a senha dele. Abel disse que podia me proteger sozinho, mas fico mais tranquila com a ajuda de vocês. Estou com muito medo, mas não quero que um inocente seja ferido. Só que precisamos ser rápidos, e aproveitar enquanto ele está no quarto. Renée sempre dorme depois do almoço. Só vai voltar depois.
Um breve olhar para Diogo, e sabíamos que estávamos a caminho. Abel fora cuidadoso ao não levar essa questão para nenhum dos outros. Ele sabia que todos tinham tarefas a cumprir, e não podíamos atrapalhar os planos de Victoria. Afora disso, podíamos ter quase certeza de que se Renée não fosse o culpado por aquelas mortes, então Manuela estaria enrascada com aquela situação. Melhor seria apagar aquilo de uma vez, para garantir. Do lado de fora, a correria no Pátio Central prosseguia. Existiam mais formas de se esconder naquela multidão que se formava, do que eu julgara possível. Enquanto alguns dos Nove conversavam ao lado da estrutura de um palanque quase pronto para o início do pronunciamento de Silvia, reconheci Otávio. Ele olhou de mim para Diogo, e desejou boa sorte, em leitura labial. Sorri de volta, agradecendo da mesma forma. Agnes e Abel vinham logo atrás, quando alcançamos o prédio dos Dormitórios. Provavelmente, Vicky e os outros já estavam lá embaixo, invadindo os aposentos de um Nove. Precisávamos mesmo ser rápidos.
– Vamos logo, os funcionários saíram para o pronunciamento... — Avisou Agnes, totalmente nervosa. Ela soltou a mão de Abel quando passamos pela mesa central, e passamos para as instalações da Organização. Lá, Agnes acessou um dos painéis informatizados, para conferir se havia algum funcionário trabalhando. Todos haviam batido o cartão. — Está limpo.
Liberando o caminho, Agnes seguiu reto por um enorme corredor, com diversas salas de arquivos. Abel e Diogo mantiveram a guarda o tempo inteiro, e eu percebi que aquilo era sério. Se alguém aparecesse, a coisa ia ficar feia. Pousei a mão sobre minha arma, andando de forma cautelosa. Nosso trajeto foi dar numa pequena porta, que mais parecia um armário de vassouras caindo aos pedaços. Agnes abriu a porta, e caminhou por entre alguns esfregões e baldes. No fundo do cubículo escuro, havia um monitor oculto pela tralha, que ela destravou usando sua senha de acesso. Diogo foi à frente, provavelmente nervoso por causa das aranhas presentes naquele espaço apertado. Apoiando uma mão nas costas dele para indicar que estava logo atrás, o segui enquanto sentia o ar abafado do local oprimindo meu fôlego. Quando finalmente chegamos aos monitores, percebemos que conhecíamos bem pouco a nossa nova casa. Centenas de pequenas telas revelavam cada canto daquela ilha. Mesmo os campos da Fazenda, os limites da floresta... Dava para ver tudo. Um breve olhar a mais, e reconheci também a Escola, o Hospital, o Memorial... Até o topo dos Muros, o que significava que alguém devia ter assistido à morte de Rico.
– Como fazemos para apagar os vídeos da Manuela? — Diogo perguntou, com seu rosto apático enquanto encarava aquela invasão de privacidade assustadora. — E desde quando estamos na porra de um Big Brother?
– Há muitas coisas que vocês não entendem. E graças à bisbilhotice de vocês, nunca vão descobrir... — O tom de Agnes foi completamente diferente. Ela estava rindo. Já estava pronta para sacar a minha arma, quando senti uma picada forte na minha garganta. A vadia havia me injetado com algum tipo de droga, e parecia ser das fortes. Minha arma caiu no chão quando projetei meu corpo pra frente, e Agnes agarrou meus cabelos. Abel parecia paralisado, e Diogo deteve-se, por algum motivo.
– Boa decisão. Mexam-se, e rasgo a garganta dela! — Agnes sorriu, olhando direto para Abel. — Obrigada pela atualização, amorzinho. Graças a você, pude agir bem a tempo. Espero que esteja começando a sentir meu amor por você... Não é uma coisa especial como a que dei pra Carolina, mas vai fazer o mesmo efeito. Lentamente. Quanto a você, caubói, é bom se acostumar com essas câmeras. Você vai ficar aqui por um bom tempo. Se me seguir, degolo essa piranha.
Diabolicamente tranquila Agnes seguiu na direção da porta, puxando-me consigo. Zonza, eu tinha de controlar cuidadosamente cada um dos meus passos. Não queria desmaiar e cair com todo meu peso contra a lâmina dela. Mas era uma missão quase impossível. As bordas da minha visão estavam embaçadas, como se eu estivesse com algum tipo de teto preto, ou queda de pressão. Um vazio no meu estômago parecia se expandir e transformar-se numa sede tremenda. Como diabos, eu havia sido enganada daquela forma? Pelo visto, nem mesmo Abel sabia que sua namorada era maluca. Talvez isso me desse algum crédito. Mas, se Agnes estava envolvida naquilo, meio que deixava óbvia a posição de Renée naquela história. Eu só lamentava que estivesse com problemas demais para ajudar aos outros, agora. Ainda grogue, mal pude sentir o chão contra o rosto, quando Agnes atirou-me de volta para Diogo. Fugindo, ela nos trancou na sala dos monitores, onde seríamos obrigados a assistir impotentes enquanto nossos amigos caíam em uma armadilha. Ou melhor, Diogo seria obrigado a assistir. Foi só notar a forma como Abel começara a roncar, para saber que logo eu estaria na mesma condição. Com minha cabeça em seu colo, Diogo fez carinho nos meus cabelos, e tentou bater no meu rosto para me despertar. Ele parecia apavorado que eu morresse de uma overdose, de qualquer que fosse aquela maldita droga. Como eu também não sabia o que estava havendo, fechei os olhos e pedi para não morrer ainda. Por estranho que fosse, no fim tudo em que pensei, foi nos meus amigos. E na pequena foto que formei em minha cabeça, eu estava em paz. Este foi meu último pensamento, até que nada além da escuridão tinha algum significado...
Fale com o autor