Notas iniciais
Boa leitura, morceguinhos!

Hugo.

Tive a impressão de ter visto Carol e Diogo passando apressados, enquanto tentava tirar Dante de perto de mim. Protetoramente, ele mantinha um braço por cima dos meus ombros, olhando ao redor com uma determinação ferrenha. Aquilo estava enervando-me um pouco, mas sabia que nas atuais circunstâncias eu não poderia confiar em ninguém. Ainda assim, desde o começo eu achava a ideia de desperdiçar a força física de Dante ali comigo, um exagero. Por alguma razão inexplicável, os radicais que eram contra as pesquisas de Faye tinham um interesse especial por mim. Eles já haviam matado Ricardo, e eu não estava totalmente recuperado da surra que havia levado. Apesar disso, eu estava no meio de uma maldita multidão. Entendi que isso podia ser tenso para Dante, porque depois que havíamos dormido juntos e tornado a coisa meio oficial, ele estava pior do que nunca.

– Olha, é sério. Acho que todos já entenderam que você é meu dono. Sabia que a maior parte das pessoas aqui já olhou pra nós mais de uma vez? Com o mundo fodido, ninguém tinha tempo de ser preconceituoso, mas aqui é diferente. Além de uns dois tiroteios quando Orlando enlouqueceu, acho essa gente nunca viu nada demais. E a maior parte dessas pessoas não parece gostar de dois caras abraçados em público, no Pátio Central. Reparou? – Cutuquei as costelas dele, mas Dante não me largou.

– É claro que reparei. É por isso que estou te segurando. Quero ver um desses idiotas se aproximar de você, comigo por aqui. – Ele estava rindo. – Não pensei que você fosse um gay envergonhado, Hugo.

– Isso não é nada engraçado, sabia? Eu admito, as coisas mudaram antes disso tudo, mas ainda tinha muita gente raivosa lá fora antes do mundo acabar. E pelo visto, alguns deles acabaram aqui dentro, também. Não podemos provocar. Nossos amigos estão em perigo, lembra? – Ele suspirou, e tirou o braço, me olhando com uma expressão irritada. Parecia perguntar se eu estava satisfeito. – Muito obrigado. – Dante revirou os olhos, cruzando os braços.

– Hey, aquele ali não é o Tássio? – Ele apontou na direção do palanque de Silvia, e meu futuro chefe parecia bastante animado, conversando com Otávio. Nosso amigo sorria para o velho, claramente abismado com o humor excêntrico do Nove. Os dois estavam parados ao lado e abaixo das vigas de madeira, assim como Allan. A estrutura de onde Silvia faria seu discurso já estava totalmente montada, e a presidente preparava-se para dirigir-se a todos. Martha estava bem ao seu lado, mostrando-lhe anotações de seu discurso, provavelmente. – Vamos até lá falar com ele.

Enquanto íamos em direção aos dois, tive de me espremer um pouco entre as pessoas, que não pareciam muito felizes ao serem incomodadas pelos meus tropeços. Eu sabia que Dante estaria logo atrás de mim, então não me preocupei em ser linchado. Mas acredito que alguns cidadãos de bem da Fortaleza adorariam me ver no Hospital de novo. Com um movimento brusco, virei o corpo buscando o apoio de Dante, logo depois de tropeçar nos meus pés. Era o tropeço, ou pisar no pé de uma garota bem esquisita da Organização. Acontece, que assim que Dante me ajudou a recuperar o equilíbrio, meu olhar foi atraído pelo topo da Muralha. Como Allan havia prometido, uma fileira de sentinelas observava a todos nós, em suas fardas negras. O único problema, é que daquela distância eu não podia identificar nenhum deles. Nenhum mesmo. Sei que isso deveria me deixar tranquilo, mas não deixou. Pelo contrário. Se os atiradores não fossem bons, poderiam acabar acertando as vítimas, e não os radicais. Dante foi quem conseguiu passar primeiro pela massa viva. Cumprimentando Otto com um abraço e Tássio com um aperto de mão, ele já estava rindo de uma piada quando o alcancei.

– Estava comentando com seu amigo o quão divertido foi ver os dois espremendo-se até aqui. – contou-me Tássio, apontando para a multidão logo atrás.

– É sempre um prazer ser fonte de entretenimento. Mas Dante é meu namorado, seu Tássio. – Esclareci, dando de ombros. Ok, eu mesmo havia sido contra manifestações de afeto em público. Mas Dante merecia ouvir isso de mim. Queria que ele soubesse que eu o valorizava, o que parece ter dado certo. Ele estava sorrindo.

– Oh, eu bem poderia dizer que existia algo entre vocês dois! Não se preocupem, não tenho o menor problema com isso. Não que eu tivesse o direito de ter algum problema com isso... – Ele pareceu refletir no vazio, por um momento. — Não sou uma dessas toupeiras, em resumo.

– Isso é ótimo, Tássio! – concordou Otto, sorrindo para mim. – Oficializou, hein? Bom.

– Sim, sim. Compromisso. Compromisso é sempre benéfico, nos dias de hoje. Não se sabe quando as coisas podem sair do controle... Basta ver o pobre João Pedro, estava tão feliz... – Tássio pareceu constrangido. – Me desculpe, eu não devia ter dito isso! – Ele cobriu a boca, totalmente embaraçado. Naquele momento, algo deu um clique em minha mente. Então, eu estava certo!

– Não tem problema, Tássio! Pode falar. O que houve com o João Pedro? – Dante colocou uma de suas mãos nos ombros do senhor, e aproximou-se com o seu jeito de gigante gentil que eu já aprendera a detectar. – É sério. Nós compreendemos as coisas ruins que podem acontecer nesse mundo, já vimos bem de perto. Se houver algo que possamos fazer para ajudar o João, faremos. Eu prometo que não o direi que você nos revelou um segredo. É para o bem dele. Somos legais, não somos?

– Acredito que são legais, sim. Mas lamento, não posso falar nada... Foi uma confissão de amigo, e João estava muito fragilizado... – Tássio estava engasgando. Quis socar aquele velho, mas sabia que ele estava apenas sendo leal. Decidi mudar a abordagem, e jogar um verde. Era arriscado, mas ele não estava caindo na lábia de Dante.

– É sobre o meu primo? Ricardo e João estavam apenas se conhecendo, naquela noite. Não é? Os dois pareciam ter se dado muito bem, antes dele morrer. Acredite Tássio, eu sei dessas coisas. – Avisei, de maneira tranquila.

– Oh meu Deus, você sabe então! João tem muito medo que as pessoas descubram sobre sua sexualidade. Ele teme perder o apoio do Hospital como um Nove. Terrível, eu sei, mas não queria prejudicá-lo. As toupeiras cegas de branco e azul realmente virariam o nariz para ele. – Torcendo as mãos, Tássio já sussurrava. – Ele não veio hoje, preferiu ficar no quarto. Ele anda muito arredio e deprimido, desde que Ricardo morreu. Disse coisas horríveis sobre Renée. Coisas que me fizeram ter dúvidas sobre o que pensar.

– Nós já sabemos de tudo isso, Tássio. – O plano já estava em ação, então não havia problema em revelar. – Só não tínhamos certeza sobre João. Obrigado por ajudar. Vou conversar com ele, quando isso acabar. Vai ficar tudo bem.

No fundo, minha dúvida permanecia intacta. Se João estava mesmo se encontrando com Ricardo naquela noite, então talvez pudesse tê-lo atraído de propósito. Sua suposta relação com ele justificaria uma acusação ao Renée, cujos motivos seriam ciúmes. E se João Pedro estava falando de Renée para os outros Nove, então era do seu interesse que ele fosse capturado. Mas, se ele tinha tanta certeza assim do que estava havendo, porque não fazia uma declaração pública e desafiava os rebeldes prendendo seu líder? A resposta só podia ser uma. João Pedro queria que Renée fosse pego, mas queria que nós fizéssemos isso! Deus! Aquilo tudo era uma maldita distração! Não podia acreditar no que tinha ouvido. Eu lembrava claramente do que Manuela me dissera. Agnes comentara sobre um possível caso entre Renée e João. Se a Organizadora estava ajudando a fortalecer essa história, então talvez ela não fosse tão inocente e minha amiga estivesse seguindo uma pista falsa, o tempo todo. Dessa forma, tudo aquilo seria proposital e armado, e não fruto da perspicácia do nosso grupo. O que também significava que aquela noite só podia ser interpretada como uma coisa. Uma armadilha.

– Hugo...– Dante e Otto pareciam preocupados. Otávio segurou meu braço, sacudindo. – Acho que seria melhor se impedíssemos a Victoria. Ela está indo direto pra uma armadilha. É o João, não é? – Concordei. – Merda! Fique aqui com o Dante! Eu vou até ela!

– E a Martha? – Indagou Tássio, um tanto fora do ar.

– Que se foda a Martha! – Bradou Otto, em resposta. Naquele instante, o sinal de um microfone quase ensurdeceu a todos. Silvia estava testando o som.

Ela iniciou seu discurso desejando uma boa noite a todos. Enquanto sua voz ecoava, comecei a entrar em pânico. A conclusão sobre João Pedro estava me deixando em parafuso. Eu não parava de ligar fatos, e temia estar ficando louco. Todo aquele medo e nervosismo estavam provocando uma ruptura, uma espécie de derramamento em meu interior. Eu nunca experimentara tamanho desespero ao tentar me expressar. Carolina havia visto Francine e João Pedro brigando com Renée. João certamente fizera Francine acreditar que Renée era o cara mau. O histórico dele apoiando Orlando já era um ponto contra, óbvio e de peso. Ansioso, apertei a mão de Dante, sentindo meus dedos frios e ávidos praticamente sugando o calor dele. Minha cabeça estava vibrando, enquanto eu torcia desesperadamente para que Otávio chegasse até Victoria a tempo. Agora, Silvia estava falando sobre a revista nos quartos? Ela podia ser tão cega? Determinado, Puxei Dante de leve na direção de Allan. Ele tinha que parar aquela loucura. Esbarrando em todos por quem eu passava, comecei a sentir os maus batimentos cardíacos acelerando. Eu odiava aquela sensação, mas a conhecia bem. Era quase diária em Búzios, mas ali, me fazia perceber que estava um pouco enferrujado. Uma pequena comoção se formou ao nosso redor, enquanto abríamos caminho até Allan, Martha e Silvia. Eu já estava quase na escada do palanque, quando a presidente interrompeu o que estava dizendo e me notou. O que houve a seguir foi rápido. Olhando nos olhos de Allan, comecei a correr na direção dele. Silvia expressou dúvida em sua face, apenas segundos antes de um estouro seco marcar a trajetória de uma bala através de sua testa. Caindo no chão já sem vida, o corpo da presidente emitiu um baque surdo que aquietou até as respirações, por um momento. Então o inferno começou. Dante me puxou para o chão, enquanto no topo dos Muros, alguns sentinelas atiravam em seus próprios companheiros, derrubando-os macabramente. Allan xingava e tentava proteger Martha, levando-a consigo para a escada do palanque.

Era difícil definir o que estava havendo, mas o pânico e a balbúrdia que se seguiram pareciam os cenários do início da epidemia que eu e tia Madeline havíamos assistido na TV. Recuperados do breve confronto com os sentinelas leais à Fortaleza, agora os atiradores restantes miravam nas pessoas. Vi mais de um morador cair com um tiro no peito, enquanto todos buscavam abrigo e segurança naquele caos. No meio do empurra-empurra, Dante teve que socar o rosto de um homem que agarrou a minha blusa como se fosse uma tábua de salvação. Totalmente desnorteado, pensei que seria má ideia correr para o Hospital ou para os Alojamentos, que é o que todos estavam fazendo. Ao invés disso, tentei arrastar Dante para baixo do palanque, onde estaríamos seguros durante a primeira onda de loucura. Se a milícia de João havia decidido assumir a Fortaleza, e ele tivera todo o trabalho de distrair a todos nós, então ele sabia com o quem estava lidando. E mataria a todos nós. Não conseguia ver Allan em parte alguma, e muito menos Martha. Toda aquela gritaria era ensurdecedora. Era insano, como uma hecatombe da Grécia Antiga a céu aberto.

– Era o João Pedro, o tempo todo! Ele conduziu a gente como gado. – Dante não fazia ideia de como era irônico o que estava dizendo, considerando que era a isso que eu estava nos comparando em pensamento. – Hugo, eu vou te manter seguro. Prometo.

– Temos que dar um jeito de sair daqui, Dante. Isso é madeira, não estamos protegidos contra as balas, se decidirem mirar aqui. Nossa única esperança é que não tenham nos visto. Não consigo imaginar o que está acontecendo com os outros. Nem sei onde Tássio foi parar! – Pobre velho. Realmente torci para que estivesse vivo.

– Fique aqui, eu volto logo. – Abri a boca para protestar, quando Dante se levantou. Mas ele não ficou assim por muito tempo. Um estrondo poderoso, acompanhado de um impacto assustador, fez vibrar o chão do Pátio Central. Uma lufada de vento alcançou mesmo a nós dois, escondidos ali. Zonzo, depois de ser atirado ao chão, rastejei na direção de Dante para ter certeza de que ele estava bem. Parecendo melhor do que eu, meu namorado voltou a si rapidamente, checando-me sem dizer nada. – Mas que diabos foi isso?

– Temos que olhar. – Decidi de pronto, já me inclinando para o lado de fora. Não esperei que ele me seguisse, mas fui cuidadoso. Pelo visto, eu não tinha tantos motivos para temer um tiro. Uma nuvem densa de poeira cobria todo o lugar. De onde deveria estar o Memorial, uma coluna de fumaça e fogo se erguia, enquanto o Pátio Central parecia uma zona de guerra. O que não deixava de ser. Havia corpos demais pelo chão, e só quando o primeiro deles se moveu, percebi o que João tinha feito. Desde o início, sua milícia não estava mirando nas cabeças. Desde o início. – Dante, eles estão se reanimando. Tem zumbis aqui dentro!

– O desgraçado do João acha que pode controlar uma contaminação inteira? Ele vai matar todo mundo! – Dante estava ao meu lado, atento. – Vem, temos que aproveitar que os sentinelas dele pararam de atirar nas pessoas, e sair daqui!

– Não acredito que ele explodiu o Memorial. Que tipo de doente faz isso? – Francamente, qual era o ponto? Além disso, o Memorial era perto demais da Escola. Certamente o fogo e alguns escombros deveriam ter afetado a estrutura. Pensei nos gêmeos, e tive de me controlar para não surtar. Eu também estava cercado de mortos. Nem um pouco melhor que eles.

– Sinto muito em dizer isso, Hugo. Mas acho que essa noite nós vamos descobrir exatamente do que o João é capaz. – Nos olhamos por algum tempo, em que eu assenti. Dante segurou minha mão, e a puxou com ele. A sensação terrível de que estávamos pulando de pesadelo em pesadelo, me era opressiva.

Era como se fôssemos mensageiros da morte. E ela nos seguiria, sem se importar com a distância. Contudo, o que era pior neste sentimento, era a consciência de que coisas daquele tipo estariam acontecendo em todos os lugares, também. Era simplesmente devastador demais pensar de verdade nisto, enquanto eu corria no meio daquela poeira, e o lamento dos mortos voltava a encher os meus ouvidos.

Vilma.

Eu não aguentava mais fingir que nada estava acontecendo. Vicky parecera muito estranha naquela manhã, e sinceramente deixara-me ainda mais preocupada ao pedir que eu mantivesse as crianças na Escola, com Dino. É claro que nenhum dos outros parecia ligar muito para aquilo, desde o almoço. Com minha faca nas mãos, fiquei brincando com o reflexo do sol que estava se pondo, olhando enquanto um pequeno feixe de luz dançava sobre a lâmina, liberando pequenos prismas multicoloridos. Helga estava sentada ao lado do quadro negro da sala principal, onde um projetor havia sido preparado e exibia Branca de Neve, para as crianças mais jovens. Não eram muitas, inclusive. Umas oito ou nove, contando comigo e Dino. Havia ainda cerca de mais cinco delas, numa faixa etária de até cinco anos. Eles estavam com Francine na sala dos brinquedos. Cecília estava calada, olhando para o desenho como se aquilo fosse a coisa mais interessante do mundo. Mas ela não estava me enganando. Era chato ter que ficar ali dentro, trancada como uma prisioneira. Preferia estar lá fora no Pátio Central, ou treinando no gramado com os amigos de Carlos. Eles eram o que se podia chamar de bem ruins e desengonçados. Para ser franca, duvidava muito de que teriam sobrevivido no mundo real daquele jeito. Principalmente Melissa. Breno e Rodrik não eram tão chatos, mas muito bobos e despreparados. Aquilo me ressentia. Irritava. Bufando, notei que o sol já tinha ido embora. Eu estava sentada bem ao lado da janela de vidro, de onde dava para ver o Memorial, ao longe. Será que todos ficariam bem?

Mordi meus lábios inferiores, e olhei na direção do filme. A Branca de Neve estava perdida na floresta, vendo rostos sombrios em árvores e demônios nas sombras. Eu me sentira assim durante anos. Mas se havia alguém que sempre estivera comigo, em todos os momentos, era meu gêmeo. Sorrindo, notei que Dino estava olhando na minha direção, por cima do ombro. Helga o pusera mais à frente, do lado de Breno. Ouvi uma risadinha baixa, e tive vontade de vomitar. Melissa e Carlos estavam brincando de luta com os polegares. Eles viviam grudados, e aquilo era tão... Nojento. Não sabia o que se passava ali, mas certamente não me agradava. Aquele garoto estúpido podia ser irmão da Vicky, mas os dois não podiam ser mais diferentes. Enquanto o filme continuava passando, notei que Rodrik estava deitado com o rosto contra sua mesa, dormindo. Ele usava óculos redondos, e tinha cabelos castanhos quase nos ombros. Era bonitinho, mas meio pateta. Breno era mais simpático, mas um pouco convencido. Era o melhor usando uma faca. Sua pele negra tinha o tom de chocolate ao leite, e seu sorriso era lindo. Claro que eu nunca diria isso em voz alta! Mas ele era o único que não me incomodava. Era como se já o conhecesse.

– Vilma, está acontecendo alguma coisa, não é? Não nos manteriam aqui se não estivesse rolando algo de diferente. Meu pai não quis me contar nada, mas eu sei. – Breno estava debruçado na minha direção, aproveitando a distração de Helga para cochichar a respeito do que incomodava a todos nós. Imaginei que Breno acabasse sabendo de algo, afinal ele era filho de Abel. Mas se o preparador físico dos sentinelas não dissera nada ao filho, com certeza Allan ou Vicky haviam pedido.

– Eu ia te perguntar a mesma coisa. Não sei o que está acontecendo, mas a Victoria disse que é importante permanecermos aqui – expliquei, tirando o cabelo do rosto.

– Do que vocês dois estão falando? – Disparou Melissa, fitando-nos com curiosidade. Ela era órfã, mas tinha uma prima trabalhando no Hospital. Chegara ali junto com Carlos. Os dois passaram algum tempo acampados em um shopping de São Paulo. – Certamente essa bagunça toda é por causa das revistas nos Alojamentos. Vocês vão ver.

– Não acho que seja algo tão simples, porque meu pai não parecia muito tranquilo. Minha irmã também não. – Carlos opinou, olhando na minha direção. – Como você e seu irmão estão sempre perto da Victoria, eu pensei que soubessem de alguma coisa. Pelo visto, vocês estão tão por fora, quanto todos nós.

– Você pode dizer isso. Mas a verdade é que Dino e eu não questionamos quando a Victoria pede alguma coisa. Como vocês devem saber um dos nossos morreu, nas mãos dos mesmos mascarados que mataram a Valentina. Então, se sua responsável pede pra você manter sua faca por perto e todos aqui na Escola, você faz isso. – Dando de ombros, resolvi assistir ao filme. Não estava com vontade de lidar com Carlos. Ele era inconveniente ao máximo. Credo.

– Breno, Carlos. Por favor, diminuam o tom da conversa. – Pediu Helga, levantando-se do seu lugar. – Por favor. – Ela caminhou na minha direção, passando direto por mim para olhar pela janela. Fazia algum tempo agora, e a Branca de Neve estava quase sendo salva pelo Príncipe Encantado. As crianças mais jovens estavam cochilando, ou genuinamente interessadas naquilo. Mas a expressão dela me incomodou. Fiz sinal para Dino, e ele levantou-se, vindo em minha direção.

Juntos, fomos até Helga. Parados ao lado dela, tentamos ouvir alguma coisa, quando o primeiro disparo soou. Trocando um olhar de pânico conosco, a Nove tentou aproximar o rosto da janela, para ouvir melhor. Porém, para ouvidos habituados como os nossos, não restavam dúvidas. Eram tiros. Cecília também se levantou rapidamente, chamando os alunos que estavam dormindo. Depois, gritos e mais disparos chegaram até nós, e algumas crianças começaram a chorar. Em desespero, elas queriam correr para fora da sala, amontoando-se na passagem bloqueada por uma Cecília apavorada. Ela não podia correr o risco de perder aqueles três garotos pequenos. Os cinco bebês com Francine precisariam de proteção, também. Se tinha gente morrendo na Fortaleza, então logo teríamos zumbis. De repente, ficou claro porque Victoria precisava de nós.

– Por favor! Calem a boca! – Gritei, irritada. – Temos que ficar quietos, porque tem uma grande chance de essa choradeira atrair os mortos pra cá! – Notei que as crianças estavam de olhos arregalados, assustadas. – É isso mesmo! Se vocês chorarem, os monstros vão vir e vão arrancar pedaços de vocês. E eu não vou poder salvá-los. Ninguém vai!

– Vilma! Não admito que diga tais absurdos a essas crianças! – Helga parecia indignada, mas notei que ela também tinha medo.

– Sei como está se sentindo, Helga. Bem vinda ao meu mundo. Agora, se você quiser, posso ficar quieta e deixar você tomara conta da situação. – Olhei para Cecília, que pareceu concordar comigo. – Não? Ótimo. Então cale a boca também, e me siga.

Sem esperar pelos outros, corri na direção da porta, e Cecília a abriu para mim. Dino estava bem ao meu lado, puxando um garotinho de oito anos chamado Horácio pela mão. O menino era bem gordinho, e tinha os olhos vermelhos de chorar. Não sabia quem eram os pais dele. Helga também entrou no corredor, de mãos dadas com os outros dois garotos que eu não conhecia. Melissa parecia irritada ao ter de acompanhar nosso ritmo, mas Carlos e Breno estavam bem atentos. Até mesmo Rodrik, parecia totalmente desperto, agora. Enquanto nosso pequeno grupo tentava alcançar a Sala de Brinquedos, toda a Escola tremeu com o som de uma explosão. O impacto foi tão forte, que eu senti o chão vibrar debaixo dos meus pés, e acabei caindo. Mais choradeira começou. Dessa vez, com mais medo ainda no ar. O som de vidro se quebrando na sala de onde havíamos acabado de sair me alertou. Tonta e com uma sensação de enjoo no estômago, tropecei até o fim do corredor, tateando as paredes pois a energia elétrica caíra subitamente.

– Deus! O que vamos fazer? O que está acontecendo, Cecília? – Chorou Helga, nervosa.

– Temos que colocar as crianças num lugar seguro, e garantir que elas permaneçam assim, Helga. Depois nos preocupamos em descobrir o que está havendo. Não se preocupe querida, os outros estão lá fora. Tudo ficará bem. – Pelo som da voz de Cecília, soube que ela estava logo atrás de mim. Não me preocupei em olhar, pois estava tudo escuro. Ao invés disso, abri a porta da Sala de Brinquedos, apenas para encontrar Francine encolhida num canto, com as cinco crianças mais jovens.

– É uma invasão? Ou Renée enlouqueceu? – Renée? Então ele tinha a ver com tudo isso?

– Francine! Olhe o que vai dizer! – Repreendeu Helga, fechando a porta para o corredor atrás de si.

– Não é uma invasão. É uma maldita guerra. – Resmungou Dino, puxando uma faca que havia recebido de Vicky, depois que eu fora autorizada a ensinar Carlos, Melissa, Breno e Rodrik. – Não entrem em pânico, pessoal. Vocês precisam ficar aqui nessa sala. – Dino falou com as outras crianças, que pararam de chorar para ouvi-lo. Gostei de como ele parecia forte e centrado, notando pela primeira vez que meu irmão era um menino bem legal. E durão. Certamente os outros garotos deviam se sentir intimidados por ele. – Vilma e eu vamos proteger vocês, e tentar descobrir o que está havendo.

– Não posso permitir! É muito arriscado! – Helga parecia prestes a ter um colapso nervoso. Com certeza, não éramos nem um pouco parecidos com a concepção dela de pré-adolescentes de treze anos.

– Se quer pode vir com a gente, então. – Ofereci. Ela engoliu em seco. – Bem, acho que no fim das contas não é tão ruim que eu esteja com minha faca aqui, não é mesmo? – Ela encarou-me emburrada, sem saber o que dizer. Eu ri. Cecília pareceu preocupada, mas suavizei o olhar ao encará-la. – Não se preocupa com a gente, vamos voltar logo.

– Eu quero ajudar. – Carlos não parecia ter certeza do que estava dizendo. Mas admirei sua coragem. Ele também já sabia do que os mortos eram capazes. Havia perdido a mãe também, afinal. – O que podemos fazer, para sermos úteis?

– Nascer de novo. – Zombou Dino, rindo da cara dele. Carlos ficou nervoso, e fechou as mãos em punhos. – Calma aí, Carlinhos. Você e seus amigos podem encontrar uma sala mais segura para os outros. Ainda estamos no lado que dá para o Memorial. Por isso, o melhor seria que todos tentassem ir para o outro lado da Escola, de preferência no segundo andar.

– Não é melhor sair daqui, do que irmos subindo e ficarmos presos? – Melissa parecia cética, de braços cruzados.

– Nós já estamos presos, queridinha. – Com a mão que segurava a faca, apontei para fora. – O que você acha que são os Muros? Eles agora mantêm a gente aqui dentro, com prováveis assassinos e mortos-vivos. Então, se eu fosse você iria bem rapidinho na direção que o Dino falou.

Ela pareceu engolir o que queria dizer. Eu não estava nem aí. Só o fato de ter que passar por tudo aquilo de novo, num lugar que me disseram ser seguro, já estava irritando o bastante. Depois de combinarmos que Dino e eu iríamos à frente, liderando o caminho com a única lanterna disponível na Sala dos Brinquedos, as crianças se prepararam para sair no corredor. Todos os mais velhos tinham facas agora, embora apenas Carlos e Breno soubessem como usá-las. Antes de sair para a escuridão, respirei fundo e troquei um último olhar com Cecília. Seria bem mais fácil se ela ainda fosse inumana. Acolhendo o medo antigo de volta em meu coração, fiquei surpresa por estar ansiosa. Era como se as coisas fizessem sentido de novo. Eu tinha um propósito bem mais simples, agora. Sobreviver. Aquilo resumia tudo, e me fazia sentir mais viva. Dino estava aquecendo, também. Aceitar que nunca seríamos como aquelas crianças outra vez, pareceu finalmente algo bom. Pois talvez, no final das contas, eles devessem se parecer mais conosco...

Notas finais
Humm, será que alguém esperava por isso? Rs, acho que tenho leitores muito espertos, e alguns já chegaram muito perto das revelações finais deste volume. Mas ninguém acertou em cheio, ainda. O que só me deixa mais feliz, pois amo ver o choque de vocês nas reviews. No próximo capítulo, teremos o momento fatídico de Vicky e Manuela encarando Renée, e uma visitinha ao Hospital com Nanda e Tânia tendo de lidar com essa tragédia. As emoções finais da quarta temporada de Quebranto estão só começando. Ainda tempos longos capítulos pela frente, que contarão em detalhes esta noite obscura. Kisses by DroppingPieces!