Quebranto.

12 O primeiro Cavaleiro é a Guerra.


Notas iniciais
Beemm, depois do último capítulo, espero que gostem desse. É bem forte, então preparem seus corações! Dedico à minha amiga carol, que recomendou a fic! Capítulo feiot pra você migs! Valeu por insistir que eu devia voltar a postar logo! Boa leitura a todos!

Aquela noite foi a primeira na qual eu realmente senti a possibilidade de uma morte cruel e sádica. Embora pareça absurdo que a esta altura eu ainda não tivesse noção do quanto estava ferrada, ver aquela nuvem de monstros voadores acendeu uma placa de néon em minha mente, na qual vinha escrita a palavra Apocalipse. Sem saber explicar ao certo, senti que naquela hora toda a minha apatia e depressão haviam sido rejeitadas. Eu queria viver, mais do que tudo. Queria ter Luca ao meu lado, queria meus amigos, queria encontrar meus pais outra vez, queria abraçar meu pequeno Carlos. Eu queria viver, e essa vontade me fez compreender que, se eu quisesse ficar viva, não poderia agir como antes. Nunca mais. É claro que tudo isso se passou em minha mente em menos de um minuto. Vi-me em um cenário de guerra. Tudo parecia desacelerado. As pessoas gritavam, choravam e corriam, e o vozerio me envolvia num turbilhão de pânico. Todos lutavam por refúgio, e testemunhar o quanto aqueles insetos eram implacáveis, fez meu sangue gelar.
Ralando os cotovelos no asfalto sujo, arrastei-me para baixo de um dos carros, puxando Nanda comigo. Otto e Ricardo haviam sumido em meio à multidão, mas pude ouvir gritos do meu amigo no ar. Fernanda chorava baixinho, com certeza pensando em quem ainda estaria vivo quando saíssemos dali. Eu, sinceramente, pensava apenas em não ser morta. Comprimindo meu corpo contra o dela, tentei protegê-la o máximo possível, e comecei a espiar a confusão ao lado. Colocando fogo em pedaços de madeira, Eloá, Rafael, Diogo e Armando estavam lutando para afastar os insetos. Minha impressão inicial de que tinham centenas de insetos se modificou, ao notar o tamanho dos bichos. Devia haver dezenas, sim, mas eles eram grandes o suficiente para levar uma bala na cabeça. Deviam ter o tamanho de corujas, maiores do que qualquer inseto que eu já vira antes. Meu pavor só aumentou quando o corpo de um dos parentes de Kamila foi lançado ao lado do carro em que eu estava. Fernanda abafou um grito, enquanto os bichos comiam um rapaz que não aparentava ter mais de dezoito anos. Tremendo da cabeça aos pés, fiz sinal para que Nanda saísse debaixo do carro. Ela negou apavorada. O choque a mataria, se eu não fizesse algo.

— Nanda, me escute! Precisamos entrar no carro. Temos que aproveitar que estão comendo esse garoto, e entrar no carro. É mais seguro com o vidro nos protegendo. Ok? ela fez que sim. Ótimo. Vai devagar, e abre a porta de trás. Depois eu vou entrar pelo carona.

Se arrastando lentamente, ela esticou o braço esquerdo para fora e destravou a porta, destravando-a. Lentamente, ela empurrou-a para trás, abrindo-a totalmente. Os bichos ao nosso lado estavam nos ignorando, e o resto voava em busca de vítimas, ainda sem nos notar ali embaixo. Horrorizada, Fernanda rolou para o lado, e se levantou, agachando ao lado do carro. Ela entrou no veículo, e fechou a porta. O barulho do pino travando foi o que bastou para que o pequeno grupo ao nosso lado levantasse voo, furioso. Eles se atiravam contra as janelas do carro, e Nanda gritava em desespero. Amedrontada, senti a adrenalina a mil nas minhas veias. Olhando sobre o corpo do garoto devorado, vi a camionete na qual havia viajado até o acampamento. Segurei a vontade de vomitar, e enquanto os insetos atacavam o carro tentando devorar Fernanda, me arrastei sobre o corpo do garoto, sujando-me inteira de sangue. Comecei a rastejar em direção à camionete, quando senti a mão dele em meu calcanhar. Ele havia sido zumbificado. Sem pensar duas vezes, chutei seu rosto com toda a minha força, o que o fez me largar. Então levantei e corri na direção do carro abertamente. Estava abrindo a porta do motorista, quando uma vespa gigante parou bem na minha frente. Ela se aproximou do meu pescoço, que estava coberto de sangue de zumbi, e se afastou em seguida, ignorando-me. Minhas pernas estavam bambas quando fechei a porta do motorista, e colei o rosto contra o vidro, olhando para Nanda, que fazia o mesmo no veículo ao lado. Aparentemente, aqueles bichos não eram capazes de quebrar as janelas de um carro, então devíamos estar seguras por enquanto. Contudo, podíamos ter uma visão panorâmica do ataque, de onde estávamos.
O momento mais marcante daquela noite foi quando vi Carolina sendo perseguida por aqueles bichos, totalmente encurralada. Em meu coração, tudo o que senti foi medo. Medo de perdê-la, antes que eu pudesse dizer que a perdoava. Ela sempre fora uma ótima corredora, mas estava presa entre o carro em que eu estava e os bichos. O zumbi que havia me atacado, agora tentava comê-la. Quando o olhar dela encontrou o meu, vi o ponto mais crucial da loucura humana. Ela estava antevendo uma morte dolorosa e terrível. Naquele momento, a vida dela estava em minhas mãos. E, Deus! Eu jamais mataria alguém por beijar meu namorado! Abri a porta do carona e ela se sentou ao meu lado, um corte na testa sangrando abundantemente. Entreolhamo-nos e ela tentou dizer algo, sendo interrompida por mim, que a pedi silêncio com um dedo na boca. Não queria atrair mais bichos. Abaixadas dentro da camionete, espiamos o desenrolar do massacre, sentindo a cada perda, uma parte de nós que ia embora. Perdemos oito vidas naquela noite. Toda a família de Kamila havia se recusado a se esconder com os outros, na Associação de Moradores. Foram devorados enquanto tentavam deixar o acampamento. Kamila havia sido morta tentando convencê-los a voltar, transpassada no peito por um inseto e devorada por um de seus irmãos. Utilizando o fogo e as poucas armas que tínhamos como defesa, Diogo, Eloá e Rafael haviam conseguido controlar a situação. Armando, contudo, havia sido mordido após salvar Luca no terreiro de Jeanette. Meu namorado havia levado Ricardo e Otto em segurança até lá, mas havia tropeçado no caminho, e certamente teria sido morto, não fosse o sacrifício do nosso líder.
Foi cruel, observar enquanto Diogo e Rafael atiravam ou perfuravam a cabeça de nossos colegas mortos, quando o dia amanheceu. Como ceifadores itinerantes, os insetos haviam partido com a última sombra noturna, em direção ao horizonte. Deviam considerar seu trabalho terminado, ali em nosso morro. Em meio a tanto desespero, acabei não notando que Carolina adormecera com a cabeça deitada em meu colo. Meu vestido amarelo estava repleto de sangue, e francamente, cheirava muito mal. A acordei gentilmente, e saímos da camionete. Ao nos ver do lado de fora, Nanda tomou coragem e abriu seu veículo também, descendo do uno onde passara a noite. Juntas, fizemos o máximo para evitar os corpos e os insetos mortos. Tudo o que víamos, aonde quer que olhássemos, eram cinzas, fumaça e sangue. Diogo caminhava entre os caídos, com uma faca de açougueiro na mão. Quando ele me viu, seu rosto assumiu uma expressão feroz e assustadora. Cheguei a pensar que ele estava me culpando de algum modo, pelo ocorrido. Ele caminhou em minha direção, sua camiseta branca enegrecida pela fuligem e sangue, e seu corpo coberto de suor e poeira. A faca em sua mão era o que me preocupava mais. Carolina e Fernanda se entreolharam atrás de mim, e quando ele me puxou para um abraço, me senti a garota mais burra do mundo. Deus, eu não sabia nada da vida de Diogo! Pra mim, ele era apenas um motoqueiro problemático, bruto e cheio de testosterona, que encarava o Apocalipse como um passeio no parque. Porém... Havia algo ali, sob aquela capa. Ele estava feliz por me ver viva. Desde que eu chegara, vinha tentando me constranger, e eu encarara aquilo de modo coloquial, até então. Tão rápido quanto me tomara em seus braços, ele me soltou, e se afastou. Minhas amigas estavam me olhando pasmas, do mesmo jeito que eu devia estar olhando pra elas.

— Ninguém comenta com o Luca, ok? falei, mais para Carol do que para Nanda. Juntas, caminhamos pelo acampamento desolado, deixando Diogo para trás. Todos aqueles de nós, que ainda estavam vivos, acabaram reunindo-se no terreiro, onde Ricardo tentava cuidar do ferimento de Armando. Mesmo que todos soubessem a resolução que se tomaria, ainda tínhamos esperança.

O lugar estava cheio de poeira, e com algumas manchas de sangue na salinha de entrada. A imagem de uma pomba-gira jazia caída em pedaços ao lado da porta, enquanto vasos com trabalhos de proteção lhe faziam companhia, igualmente espatifados. Somente Iemanjá permanecia intacta, em seu pedestal sobre o arco da porta. Notei que Nanda ficou um pouco desconfortável ao ver as imagens, como sempre, e a afaguei. Era difícil para ela lembrar-se de Jeanette, que embora tivesse uma visão de mundo e de religião totalmente diferentes das suas, era como uma mãe para ela. Tomamos o rumo da enfermaria, e engolimos em seco quando vimos o corpo de um zumbi morto no corredor. Mais um dos parentes de Kamila. Ao chegarmos à salinha, encontramos nosso pessoal. Armando estava deitado sobre uma das camas, no centro do cenário. Luca correu assim que me viu, e me abraçou. Otto e Ana também vieram para perto, e cumprimentaram Carolina e a mim, rapidamente.

— Eu ia lá para fora. Não queria que você visse isso... sussurrou Luca, em meu ouvido.

— Eu precisava ver. respondi não tão baixo.

Contei os quinze sobreviventes apertados ao redor de Armando. Sei que parece cruel, mas eu não o contava mais como um de nós. Como eu disse, o enxame mudara meu modo de ver as coisas, e para mim, ele estava condenado. A ferroada em seu peito espalhava um tipo de secreção pelo seu tórax, que Ricardo limpava com determinação. Fiquei feliz por ver que nossas três crianças estavam bem. Dino, Vilma e Daniela pareciam assustados, mas ainda assim saudáveis. A febre era visível nas feições do nosso líder, e ele parecia estar bem distante de sua consciência total. Desde que ele me salvara no Canal, eu conversara pouquíssimas vezes com Armando, e conhecia ainda menos de sua história, antes de chegar até ali. Agora, eu a via terminando, e me senti um pouco culpada por estar viva. Em termos realistas, eu era uma inútil para o grupo, e ele era um combatente, nosso ponto de união. O que seria de nós agora?

— Ricardo, eu e Ana lemos que se a região infectada for arrancada, a pessoa tem chances de continuar viva. disse Otto, ansioso. O Profeta disse que já testou isso.

— Infelizmente, Armando foi ferroado no peito, Otávio. respondeu Ricardo. O veneno já se espalhou para a corrente sanguínea, e mesmo uma raspagem não surtirá efeito. Não sei mais o que fazer... rendeu-se o dentista, desconsolado.

— Não faça mais nada... pediu Armando, num fio de voz. Suspeitando de que aqueles fossem os momentos finais do homem, Lucíola se retirou com Daniela, Vilma e Dino. Eloá estava abraçada com Rafael, e chorou ao ver o estado do amigo. Eu posso ouvir a Denise me chamando, com as crianças. Deixe que eu me junte a eles. pediu, chorando. Rafael, me promete que não vai me deixar voltar como aquelas coisas?

— Prometo, Armando. Pode deixar. disse Rafael, emocionado.

— Fernanda, tome muito cuidado. Cuide dos seus amigos. recomendou, apontando para nós. Você é especial, menina. Não perca isso. ele apontava para Ana, sorrindo fraco. Quero que todos vocês me prometam que, assim que eu morrer vão ouvir o que Ricardo disser. Ele é o mais recomendado para liderar, o mais sensato. Não precisamos de força bruta, precisamos de caráter para lidar com esse mundo. Lembrem-se. Lembrem-se... como uma vela que se apaga, vi a luz dos olhos de Armando morrer. Se um dia antes me dissessem que eu estaria presenciando aquele momento, eu não teria acreditado.

Saímos do terreiro, deixando apenas Ricardo e Rafael com o corpo. Depois do último ataque, economizar as poucas balas que ainda tínhamos era a prioridade, então Rafael usaria uma faca para impedir que Armando ressuscitasse. Contemplando a manhã estranhamente fria e enevoada, encontramos uma pilha com os corpos de nossos amigos, no centro do acampamento. Próxima à barricada, havia uma pilha com os insetos mortos, que Diogo organizara sozinho. Ele não falara com ninguém desde o ataque, e parecia extremamente abalado. Aos poucos, notei que todos estavam parados no refeitório, como almas perdidas. Quase como os zumbis que tanto temíamos. Lucíola havia retornado, e nos dito que as crianças estavam dormindo. Fora isso, ninguém falou mais nada. Carol, Ana e Eloá estavam sentadas à mesa com Otto, Tiago e Nanda. Eu estava de pé apoiada sobre a madeira, com Lucíola apoiada em mim pela cintura. Logo Ricardo e Rafael saíram do terreiro, e ao notar que o grupo todo estava reunido, Diogo se aproximou. O olhar que ele me lançou foi tão intenso, que Luca fechou a cara.

— E então? indagou Diogo, quase num grunhido.

— Morto. volveu Ricardo, apático. Rafael já resolveu tudo. acrescentou.

— Ótimo. E quem é o líder agora? resmungou.

— Armando escolheu o Ricardo. falou Nanda.

— É sério, isso? Vão seguir ordens de um presunto?! revoltou-se Diogo. Eu quero saber quem vocês escolheram como líder. Não quem o Armando escolheu antes de bater as botas. Com todo respeito, pra ele isso não vai fazer a menor diferença. Nós é que vamos morrer se o protético ali não for o cara certo.

— E deixe-me adivinhar: Você é voluntário pra ser esse cara? desafiou Fernanda.

— Sou sim, ruiva. Não sei se você reparou nisso enquanto gritava dentro do carro onde se escondeu, mas fui eu quem matou mais bichos. Eu tenho mais chance de manter todos seguros! alegou, irritado.

— Armando disse que não precisamos apenas de força física. Temos que escolher alguém sensato. Se Ricardo quiser, meu voto já é dele. disse Lucíola, olhando fixamente para o dentista.

— Eu não pedi pro Armando me escolher. Mas se ele fez isso, era porque tinha confiança em mim, mais até do que eu mesmo. Se vocês quiserem que eu assuma essa posição, aceito os votos de todos. Se Diogo for escolhido, espero poder ajuda-lo da mesma forma que ajudo desde o início de tudo. declarou-se Ricardo. Diogo emburrou a cara, e logo Lucíola levantou a mão, ao meu lado.

— Quem for a favor do Ricardo. pediu. Eloá, Ana, Fernanda, Luca e o próprio Ricardo levantaram a mão.

— Quem for ao meu favor. pediu Diogo, de mão erguida. Carol, Tiago, Otto, Rafael e eu erguemos as mãos. Diogo me olhou diretamente quando votei, e vi que Luca não havia gostado nada da minha decisão.

— Empate. observou Otto, impressionado. Alguém quer mudar o voto?

— Eu, eu quero. respondi nervosa. Sinto muito, Diogo. Acredito que você realmente seja capaz de nos manter seguros, e sei que ao votar em você, fiz a escolha certa. O problema, é que a verdade tem muitos lados. Com você, ficaríamos seguros, mas a que preço? O que nos tornaríamos para continuarmos vivos? Sinto que seguindo o bom-senso de Ricardo, temos mais chances de conservar nossas mentes, tanto quanto os corpos. Espero que não fique chateado. pedi, sentindo-me péssima.

— Dane-se, por mim tanto faz. Só não esperem que eu me sinta preso a esse grupo. A hora que eu quiser, caio fora. rezingou Diogo, se afastando de nós.

— O que fazemos agora? indagou Tiago, fitando Ricardo.

— Um funeral. Depois, vamos dar um jeito de nos prevenir de possíveis ataques. Só o que nos resta é continuar. Precisamos ficar juntos. disse o dentista, se levantando. Luca e Rafael o seguiram para dentro do terreiro, para buscar o corpo de Armando. Mais um funeral nos aguardava. Em menos de três meses, dez membros de nosso grupo haviam sido mortos. Nesse ritmo, não teríamos nem mais um semestre de vida. Contudo, de alguma forma eu sentia que as coisas iriam começar a mudar. De um jeito, ou de outro.

Notas finais
Bem, até quinta posto o próximo, pessoal! Ansiosíssimo para saber o que acharam. Abraços todos, e nos vemos em breve!

Dropping.