Quebranto.
13 O segundo Cavaleiro é a Fome.
Notas iniciais
Dropping.
OBS: A ordem dos meus cavaleiros é diferente da Bíblia, seu moço. u.u Coloquei na ordem que combina com os capítulos, kkk...
A fogueira ardia e enchia o ar com seu calor e seus estalidos enquanto comíamos a nossa única e parca refeição do dia. Em meu prato, uma torrada murcha e uma lata de pêssego em conserva pela metade atestavam o quanto precisávamos de suprimentos. Após o ataque dos insetos, as coisas haviam estado um pouco melhores, pois com a infeliz diminuição de membros, os recursos dos quais nosso grupo dispunha passaram a ser distribuídos em porções maiores. Grande erro. Ficamos todos acomodados com a abundância de nosso estoque, que esquecemos de que nada é infinito. Eu mesma, que antes era responsável por checar tudo, não pensei que nosso líder deixaria algo tão importante passar em branco. Pelo visto, ele também pensou que eu verificaria o estoque. No fim, fomos ambos responsabilizados pelo que houve, e Diogo não perdeu a oportunidade de questionar a liderança de Ricardo.
Naquela noite, todos estavam se preparando para o dia seguinte, quando alguns dos nossos tentariam encontrar suprimentos no bairro, na parte da favela que Armando ainda não tinha vasculhado. Nos últimos dias, Diogo parecia haver se afastado do grupo, estando sempre à parte. Minhas tentativas de incluí-lo haviam sido mal interpretadas por Luca, que não percebia o quanto precisávamos dele. Nanda também insistia para que eu me afastasse de Diogo, bem como Ana. Aquilo me dava nos nervos, mas eu entendia a preocupação dos meus amigos. Eles me consideravam frágil demais para me defender de alguém tão bruto e primitivo. É claro que eu discordava, mas não faria alarde. O lado bom de viver em um mundo que já acabou, é que você aprende que certas coisas não precisam ser ditas. Devem ser ratificadas. Aos poucos, o pessoal foi se recolhendo, geralmente em duplas ou trios. Ninguém gostava de caminhar sozinho à noite, depois do ataque. Em poucos minutos, me vi sozinha com Luca, Nanda e Ricardo. Nosso novo líder estava calado e meramente sorria com as brincadeiras da ruiva sobre a qualidade de nossa refeição. Abraçada com Luca, senti que naquele momento Ricardo estava se sentindo culpado e solitário, e como coautora de sua falha, senti-me na obrigação de apoiá-lo.
— Hey, está tudo bem? – perguntei, sorrindo. Ele sorriu de volta, e fez que sim com a cabeça. – Todo mundo erra, Ricardo. Não se martirize por isso. Todos sabiam que uma hora um grupo teria de sair outra vez. Não é a primeira vez, nem será a última.
— Fique tranquilo, querido. O pessoal está calejado de lidar com os zumbis. – disse Nanda, vindo em auxílio.
— Obrigado, meninas. Vocês são muito gentis. Infelizmente, nossos suprimentos não são meu único problema. Hoje é um dia particularmente melancólico, sabem. – nos contou, deixando uma lágrima escapar de seus olhos.
— O que tem de tão especial, hoje? – Luca se interessou, colocando os cabelos crescidos atrás da orelha.
— É o aniversário da minha mãe. Eu cresci aqui em Cabo Frio, e quando passei para uma faculdade no centro do Rio de Janeiro, me mudei. Mesmo assim, sempre vim pra cá nas minhas férias, e depois de formado, passei a fazer o mesmo que meu pai, antes de mim. Tratar dos pobres gratuitamente. Nesse verão, eu tinha vindo pra visitar minha mãe com um amigo. No dia em que tudo começou, eu estava aqui no Trocado, atendendo os moradores. Desde então, estou separado deles. Nem sei se estão vivos. E agora que outros precisam de mim, não posso simplesmente me dar ao luxo de sair totalmente despreparado para procura-los. – desabafou o dentista, virando uma garrafa de conhaque.
— Sinto muito. – eu disse, sem saber o que fazer. Levantei-me de onde estava sentada, e apertei a mão de Ricardo, sentando-me ao seu lado. – Tenha fé de que aqueles que você ama estão bem. Se for pra ser assim, você vai encontra-los de novo. – palpitei, temendo estar pisando num campo minado.
Não demorou muito até que Ricardo estivesse bêbado. Luca o ajudou a caminhar até a Associação de Moradores, enquanto eu e Nanda voltamos para casa. Subi para o meu quarto, e me despedi de minha amiga. Peguei um vestido longo que Lucíola havia separado para mim, e que era lindo. Todo em cetim prateado, com lufadas em tons de verde-esmeralda. Liguei o chuveiro e notei que a força da água estava muitíssimo fraca. Algo devia ter acontecido com o encanamento urbano, ou mesmo as estações de tratamento e distribuição de água deviam ter ido por água abaixo, o que só tornava mais evidente que banhos diários eram um artigo em extinção. Receosa, quase temerosa, tomei um banho bem rápido, evitando lavar os cabelos. Sequei-me e coloquei o confortável vestido, que fluía sobre o meu corpo como um véu de água. Pensei em abrir a janela, mas me lembrei dos insetos e mantive-a fechada. Tentei esperar por Luca acordada, mas acabei cochilando.
O modo como acordei foi, no mínimo, indiscreto. Sem conseguir pensar em nada melhor, direi apenas que foi a ereção de Luca que me despertou. Ele cheirava a sabonete, e sua pele estava fria do banho. Estava beijando minha clavícula, e comprimindo seu corpo contra o meu. De conchinha, era como se fôssemos feitos para encaixar um no outro. Senti seus braços fortes me abraçando por trás, e suas mãos firmes fechando-se sobre meus seios. O suspiro que escapou de minha garganta em seguida foi absolutamente involuntário. Desde o ataque dos insetos, não havíamos feito sexo, pois eu não conseguia me sentir suficientemente confortável, e minhas crises de TOC estavam começando a se tornarem um problema novamente. Naquele momento, porém, decidi viver cada segundo da maneira mais confortável possível, e me virei para ele. Habilmente, Luca subiu meu vestido até a cintura e tocou meu sexo, com verdadeira fome. Eu nunca o vira fazer amor de uma forma tão intensa. Ele sempre era pacífico e delicado. Agora, parecia querer marcar seu território, e estava conseguindo. Amoleci em suas mãos, ficando totalmente à sua mercê, submissa e soberana. Ele chupou o bico de meu seio esquerdo, acelerando ainda mais os movimentos de seu dedo médio, contra minha vagina. Senti que poderia chegar ao orgasmo a qualquer momento, e quando ele tomou meu sexo entre os lábios, foi inevitável render-me à plenitude. Afrodite devia estar excitada onde quer que esteja tamanho era o meu prazer. Chegar ao ápice era fácil com Luca, que sempre se mostrava muito dedicado, mas três vezes de uma única vez, era novidade. Eu nunca soubera como devia ser um orgasmo múltiplo, até aquela noite. A descoberta foi maravilhosa, e inspiradora.
Puxando a cabeça de Luca de encontro à minha, o beijei avidamente. Em seguida, o joguei sobre a cama, me posicionando sobre ele. Seu peito nu brilhava de suor na penumbra, e sua ereção marcava o moletom cinza preso em sua cintura por um cadarço. Desatando o laço, tomei seu membro entre minhas mãos, massageando-o com a maestria da prática. Ao som de seu primeiro gemido, abaixei a cabeça e o tomei entre meus lábios, uma experiência pouco explorada por mim, que o surpreendeu tanto quanto a mim mesma. Delicadamente, ele introduzia e retirava seu membro, sem forçar minha garganta ou coisa do tipo. Era gentil, e mesmo que com firmeza, evitava me machucar.
— Vicky, eu não vou aguentar se você não parar... – pediu, rindo. No escuro, ouvi o som do meu próprio riso. Fazia tempo desde a última vez que me sentira daquele modo. Era estranho ser feliz.
— Você tá muito fraco. Temos que praticar mais. – provoquei, jogando-me ao seu lado. Ele tomou a dianteira, e se posicionou sobre mim, segurando meus pulsos ao lado do rosto.
— Fraco, é? Acho que vou ficar feliz em mudar sua opinião. – murmurou Luca, segurando minhas duas mãos com apenas uma das suas, e subindo meu vestido com a outra. Sem cerimônias, ele me penetrou. Uma urgência que cada vez mais, eu compreendia. Nem conseguia acreditar que a menos de três meses, eu era virgem.
Tenho certeza de que gemi mais alto do que o necessário. Na manhã seguinte, quando acordei cansada e satisfeita, deitada nua sobre o peito de Luca, entendi o motivo principal para sua urgência. Ele havia se oferecido para acompanhar Eloá, Rafael e Diogo no grupo de busca aos suprimentos, e não tinha me avisado nada. Era uma despedida não declarada. Enquanto ele me contava sobre sua decisão, sobre a ideia machista de querer me proteger, só pude deixar cair minhas lágrimas sobre o seu peito. O que ele não sabia, era que eu não estava chorando de tristeza. Era de raiva. Eu também havia pedido a Diogo que me deixasse ir com eles, e ele me dissera não. Mas não dissera o mesmo a Luca. Era outro querendo me proteger, como se eu fosse incapaz de dar um passo, sem cair de cara no chão, como se eu fosse uma estúpida boneca de porcelana, prestes a se quebrar com o mais sutil movimento. Inferno, eu não era nenhuma pantera, mas havia me virado bem durante o ataque dos insetos. Eu salvara a vida de Fernanda, e a de Carolina. Será que ninguém reconheceria que eu era capaz de me defender, e aos outros? Sem dizer mais nada, comecei a me vestir. Luca ficou me olhando, analisando meu corpo contra a luz do sol. Sua expressão de fascínio me fez sentir lisonjeada, mas eu não diria isso em voz alta. Não mesmo.
Descemos juntos para o café da manhã. Ele vestira um jeans negro, com coturnos emprestados por Rafael, uma blusa cinza e uma jaqueta de couro, que o deixava parecido com um roqueiro sexy e gótico. Seus cabelos estavam começando a ficar muito grandes, o que me fez desejar ter tempo de cortá-los eu mesma. Mordendo os lábios, encarei o All-Star vermelho que estava usando, com uma saia longa e esvoaçante verde-musgo, e uma camiseta branca, um pouco apertada demais nos seios. Lucíola era a responsável pela divisão das roupas, e como passatempo, parecia estar buscando um estilo pós-apocalíptico para cada um de nós. O meu oscilava entre Barbie do fim do mundo, hippie apocalíptica, e gótica vadia. Se eu não soubesse que ela fazia isso com todos, teria reclamado. Luca e eu alcançamos o exterior da casa, chegando logo em seguida ao nosso refeitório a céu aberto. Naquela manhã, o café se resumiria a uma porção de grão-de-bico para cada um, já que com a saída do grupo de busca, teríamos que mandar alguns suprimentos para o caso deles não conseguirem voltar no mesmo dia. Além disso, teríamos que aguentar enquanto eles não retornassem, o que poderia demorar mais do que o esperado.
— Espero que ainda não esteja brava comigo. – pediu Luca, sorrindo. – Prometo que vou voltar. Não é como se fôssemos caminhar entre os zumbis, afinal. Fique tranquila. Nós já passamos por umas boas até chegar aqui.
— Eu sei. Meu medo é exatamente que você confie demais nisso. – deixei escapar. – Volte logo, tá? Me promete? – exigi, fazendo com que ele risse.
— O mais rápido possível. – ele garantiu, e me beijou.
— Hey cara, tome cuidado. – pediu Otto, abraçando Luca. Ana e Carol também o abraçaram, enquanto eu me despedia dos outros. Ricardo também se despediu de todos, recomendando cautela.
— Se uma horda se aproximar, saiam do caminho. Se as coisas ficarem complicadas, voltem imediatamente. Nada de missões suicidas. É melhor passar fome do que ser devorado. Sempre há outro lugar para se procurar. Entendido? – indagou. Todos acederam incluindo Diogo.
Eles partiram no começo da manhã, e todos nos sentimos ainda mais inseguros. Todos temiam o que nossos amigos poderiam encontrar do lado de fora das barricadas. As coisas não eram as mesmas sem Armando. Sem reforços para cuidar da proteção do acampamento, Ricardo havia pedido que Tiago e Otto o acompanhassem nas rondas pelo perímetro, praticamente me ignorando quando me ofereci. Ana estava terminando de lacrar as casas que não usaríamos mais até termos quem as ocupasse. Ela e Carolina ocupavam a maior parte de seu tempo naquela tarefa. Retirar os suprimentos e roupas das casas sem utilidade, fechando-as em seguida. Eu e Nanda ficávamos entre a Associação de Moradores e o Terreiro, mantendo os dois locais limpos e organizados. Lucíola distribuía e consertava as roupas, além de ensinar às crianças. Estranhamente, ela ainda não aparecera naquela manhã, o que não era de seu feitio. Daniela, sua neta de seis anos, também não. Fiquei curiosa com o fato. Os irmãos de Tiago brincando dentro de um dos carros do acampamento. Aproximei-me e os chamei. Vilma e Dino eram crianças encantadoras. A menina tinha cabelos cacheados e castanhos, com profundos olhos azuis. Dino tinha cabelos lisos, e olhos verdes. Afora isso eram idênticos. Com nove anos, eram ambos muito espertos, e haviam sido os primeiros a se esconder durante o ataque que havíamos sofrido pelo que eu ficara sabendo. Essa era a especialidade dos gêmeos. Se esconder e se camuflarem ao panorama.
— Dino, Vilma, podem vir aqui um instante? – chamei, sorrindo.
— Oi, Vicky! – acenou Dino, correndo na minha direção em seguida.
— Esses meninos... Não podem ver garotas... – observou Vilma, virando os olhos.
— Escute, eu preciso saber se viram a Lucíola, ou a Daniela em algum lugar. Elas ainda não apareceram hoje. – contei.
— Vocês sabem se ela já saiu de casa? – acrescentou Fernanda, simpática.
— Olha a gente não viu ninguém sair da casa delas. Elas ainda estão lá, até agora. – disse Vilma, cruzando os braços.
— É verdade. A dona Lucíola nunca se atrasa, mas hoje não saiu de casa ainda. – complementou Dino, inocentemente.
— Sei que parece loucura, mas eu quero ver como elas estão. – cochichei para Nanda.
— Ok. A gente se despede e vai. – concordou ela.
— Nós vamos ver a Lucíola? – indagou Vilma, curiosa.
— Não querida, só os adultos. – corrigi nervosa. – Mais tarde nos vemos. Agora eu e Nanda vamos lá chamar a tia Lucíola.
Ao lado de Nanda, desci um pouco o morro, em direção à casa que Lucíola dividia com sua pequena neta. Logo na porta, sentimos que algo estranho devia estar acontecendo. O sofá da sala estava caído, como se alguém houvesse se jogado contra ele. Havia um copo de vidro quebrado ao lado do móvel, com uma quantidade grande de sangue sobre ele, como se alguém o tivesse estourado com o próprio peso. Imediatamente, meu cérebro se ligou na alta voltagem, e comecei a ver as coisas de um modo diferente. Ao meu lado, Nanda estava ficando branca feito papel. Continuamos a vasculhar a casa, sem notar nada nos cômodos do primeiro andar. A cozinha estaria intacta não fosse uma garrafa d’água caída no chão, totalmente virada. Lucíola jamais desperdiçaria água daquela forma. As luzes do banheiro também estavam acesas, e o espelho estava quebrado. Infelizmente, ainda havia o segundo andar a ser examinado.
Subimos de modo assustado, receosas de que uma surpresa pudesse nos atingir como um turbilhão. Devagar, chegamos ao corredor que liga os dois quartos da casa, e a varanda que dá para o lado de fora. A porta de vidro da varanda estava fechada e intacta, então passamos direto. Ambos os quartos tinham as portas abertas, e entramos primeiro no de Daniela. O que vi foi perturbador. O tapete branco do quarto tinha uma mancha enorme de sangue, e a roupa de cama estava totalmente rasgada. As cortinas haviam sido arrancadas, e na parede de tom creme, a marca de uma mão feita em sangue, evidenciava o que poderia estar acontecendo ali.
— Nanda, corre até lá embaixo e chama os meninos. Acho que sei o que aconteceu aqui. – eu estava de costas para Fernanda, assim como ela estava de costas para a porta. Quando minha amiga virou-se para fazer exatamente o que eu tinha mandado, deu de cara com Lucíola. Mas não com a Lucíola que havíamos conhecido. Uma Lucíola zumbificada, totalmente dominada por um instinto assassino, e por uma fome eterna e avassaladora.
Agarrando Fernanda pelos ombros, ela se lançou contra minha amiga, tentando cravar seus dentes na carne dela. Nanda gritou, e num impulso, me joguei contra Lucíola, empurrando-a para fora do quarto. A zumbi se desequilibrou e bateu contra o vidro da porta da varanda, espatifando tudo. Meus braços doíam com o esforço feito para afastá-la. Corri na direção da porta para fechá-la, enquanto Zumbi-Lucíola já se levantava. Meu foco na porta era tão grande, que me esqueci do tapete e acabei escorregando, deslizando sobre ele. Zumbi-Lucíola agarrou minhas pernas e começou a me arrastar para fora do chão. Eu não conseguia gritar por socorro, embora quisesse. Nanda por sua vez, era o próprio Banshee. Em desespero, ela jogou um porta-retratos contra o zumbi, que subitamente a notou, mostrando os dentes. Zumbi-Lucíola então me surpreendeu. Largou-me e partiu para cima de Fernanda, provavelmente por acha-la uma presa mais fácil. Eu a agarrei pela roupa, derrubando-a no chão. Àquela altura, minhas unhas estavam todas quebradas, e meus braços não aguentavam mais segurar peso. Zumbi-Lucíola se debateu contra mim, e tentou me morder enquanto eu a puxava para longe de Fernanda, embolando-me no chão com um cadáver reanimado. Senti minha mão arder quando me apoiei no chão, e vi os cacos da porta de vidro. Minha mão sangrava, e o cheiro parecia provocar ainda mais o zumbi. Fernanda gritava por ajuda pela janela, enquanto eu apertava um caco de vidro entre os dedos. Quando Zumbi-Lucíola estava sobre mim, enfiei o caco em seu olho com toda a minha força, o que a derrubou em seguida sobre mim. Não importa o que digam à respeito. Enfiar algo no olho de um zumbi, não é fácil. Mesmo sendo através do olho, que é viscoso, é algo muito difícil e duro de realizar. Primeiro, pela força que precisa ser empregada até que o objeto atinja o cérebro. Segundo, por você meramente ter que esfaquear alguém que conheceu e gosta no olho, e por último, por você estar morrendo de medo de morrer. Além disso, ter setenta quilos de peso morto sobre você, também não é legal. Principalmente quando uma amiga sua está olhando, só que está tão abobada que não consegue mover um músculo para te ajudar.
— Victoria! Meu Deus! – exclamou Otto, quando me viu sob o corpo definitivamente sem vida de Lucíola.
— Vicky! Está tudo bem? Foi mordida? – Ricardo começou a me examinar, vasculhando minha pele.
— Estou bem, por sorte. A Nanda também. – contei, nervosa. – Só não conseguimos achar Daniela, e minha mão está com um talho do tamanho da Baía de Guanabara. Onde a menina está?
— Está aqui. – disse Tiago, entrando no quarto com a menina nos braços. Os cabelos loiros da garotinha caiam como uma cascata dourada sobre o braço de Tiago. Quase senti alívio por vê-la, até notar o ferimento em seu ombro. Uma mordida. Da própria avó. Segurei o soluço em minha garganta, enquanto Nanda começava a chorar. Não conseguia entender o que estava acontecendo. Era tudo cruel demais. – A pobrezinha foi mordida pela avó no quarto dela, e depois correu para se esconder no guarda-roupa. Lucíola estava tentando abrir a mobília quando vocês duas chegaram, e ela mudou de alvo.
— Como ela se transformou? – Otávio estava perplexo.
— Diabetes. – respondeu Ricardo. – Ela era diabética. Ficar sem comer por tanto tempo pode ter causado uma crise, que acabou matando Lucíola durante a noite. Ela era, afinal, muito idosa. – comentou Ricardo.
— O que fazemos com a Dany? – murmurou Nanda, em meio à sua torrente de lágrimas.
— Vamos impedi-la de se transformar. É só o que podemos oferecer a ela. – encontrei-me dizendo, decidida. – Só não sei se eu teria coragem de fazer algo do tipo.
— Não dá mesmo pra fazer mais nada por ela. A coitadinha já desmaiou de febre. O vírus tomou conta. – disse Tiago, lacrimejando. – Não vai dar nem tempo de leva-la ao terreiro. – sobrepôs, assim que notou o desejo de Ricardo. Passo apressados foram ouvidos na escada, quando Ana e Carolina chegaram ao quarto. As duas ficaram chocadas com o que viram, recebendo uma rápida explicação.
— E ninguém quer fazer, né? – indagou Carol, tristonha. – É cruel demais matar uma menininha antes de vê-la completamente morta.
— Os gêmeos já notaram o que está acontecendo. Estão preocupados com a Dany. Posso dar a notícia se você quiser Tiago. – ofereceu-se Ana. O rapaz aceitou com um aceno, abalado, e baixou a cabeça. Daniela estava agora deitada em sua cama, gemendo de dor.
— Vamos deixar ela virar, e depois matamos. – supôs Otto. – É melhor do que mata-la agora, né?
— Na verdade, não. Há algo de limpo em livrá-la desse mundo sem ter que ver o seu corpo caminhando contra a vontade dela, comendo carne de gente, e matando quem ela amava. Eu vou fazer. – foi Carol quem se ofereceu. Para minha surpresa, que nunca havia considerado a hipótese de ela também ter interesse em colaborar com o grupo de maneira efetiva.
Todos nos retiramos do quarto, enquanto Ricardo entregava sua pistola para Carol. Ensinou-a o básico para dar um disparo à queima roupa em qualquer um. Em seguida, ficamos do lado de fora, chorando duas mortes tristes e estúpidas. O que os outros sentiriam quando retornassem? Ninguém sabia. A única certeza que encheu o ar naquele início de tarde, era que uma jovem menininha encontrara seu fim nas mãos de um mundo cruel e desleal. Quando o som do tiro ecoou, eu tinha certeza que a dor seria sempre a mesma. Tão vívida quanto a anterior. Tudo o que nos restava era seguir em frente. Carolina saiu do quarto da garota, e debulhou-se em lágrimas. Cobrimos os corpos com um lençol, e os levamos para fora da casa. Enquanto eu me preparava para suportar a tarde que seria a despedida de Lucíola e Daniela, tive a sensação intensa de que tudo estava apenas começando. Ainda havia muito a se vencer, e muito a se encontrar.
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