Quebranto.
103 Herói.
Notas iniciais
Tânia.
Apolo parecia tranquilo enquanto cochilava em seu berço. Com pouco mais de um mês de vida, ele e seus irmãos eram tão saudáveis quanto se poderia esperar. Surpreendentemente, não haviam manifestado qualquer mutação aparente, devido a contaminação pelo GM. Mesmo com toda a circunstância de seu nascimento, e tendo ingerido o leite transgênico de Nanda, eles pareciam completamente normais. Inocentes em repouso. Pequenos pedacinhos de esperança, deixados naquele mundo para que os protegêssemos. Ainda que o futuro da infância deles fosse uma incógnita, eu não estava com medo. Cheia de ternura, flexionei a coluna (sempre ela), e senti o nervo ciático repuxar um pouco. Eu estava de pé desde cedo, e meus cinquenta e três anos não me tornavam uma das melhores candidatas para tanto esforço. Deixando o berçário do Hospital, verifiquei brevemente Luca e Artémis, que dormiam bem como o irmão. Quando cheguei ao corredor da recepção, notei com espanto que o local estava deserto. O que os enfermeiros, médicos e outros funcionários tinham de tão importante para resolver? Fui até o posto de emergência do primeiro andar, e estava vazio. Curioso. A sala de descanso dos médicos (não tínhamos muitos, então eles costumavam dormir por ali, segundo Renée) ficava no segundo, e subi o lance de escadas com corrimão de alumínio sem pestanejar. Quando alcancei meu objetivo, o latejar em minha coluna protestou, ainda que eu o tivesse rebatido com ouvidos moucos.
– Dr. Alencar, com licença. – Chamei o jovem médico que passava com a ficha de uma de nossas poucas pacientes. Felipe era um rapaz inteligente, ainda que fosse absolutamente comum aos olhos. Cabelos curtos, negros. Barba por fazer, olhos de ônix e uma pele parda o tornavam esquecível. Ainda assim, sua gentileza com as equipes de qualquer plantão o conferiam fama positiva entre as enfermeiras. – O que houve com todos? Entendo que um comunicado de Silvia é importante, mas isso já é demais – comentei, sorrindo.
– As pessoas adoram uma desculpa para se livrar da rotina. Trabalhar aqui pode ser bem monótono, como você vai descobrir conosco. – Felipe colocou a ficha da paciente sob o braço, e começou a caminhar lentamente ao meu lado, na direção do posto de emergência do segundo andar. Ele se deteve em um dos quartos, olhando pela janela um zelador com problemas de pressão arterial, que dormia profundamente. Então prosseguiu comigo. – Pessoalmente, fiquei feliz por não ter sido obrigado a comparecer. Não vejo sentido nessas revistas aleatórias. Ainda que o esforço para mostrar serviço seja reconfortante, não vai realmente solucionar o problema.
– E qual é esse problema? – Minha indagação era retórica, mas ele concordou em um aceno.
– Exatamente. É isso que não consigo entender. Antes, quando as coisas ficaram tensas, Orlando tinha um motivo claro. Ele queria fechar os laboratórios e prender Faye. Agora, com esses mascarados atacando pessoas, e o povo hostilizando os sobreviventes transgênicos do seu grupo.... Não sei o que está acontecendo. E isso nunca é bom sinal. – Refletindo, Felipe não podia perceber o pequeno vinco que se formava em sua testa. Ele era um jovem encantador.
– Tânia! Aí está você! Fui ver os bebês no quarto andar, mas não te encontrei em parte alguma. Aí vim descendo as escadas. – Nanda estava esbaforida, mas parecia nervosa. – Vicky me enviou para ficar com você. Só para manter tudo em ordem.
– É sempre bom ter alguém que faça parte dos sentinelas por perto. Prazer, meu nome é Felipe. – O jovem doutor ofereceu a mão para Nanda, que a apertou com delicadeza e uma indiferença involuntária. Apesar de sua simpatia natural. – Aceitam um café? Estava pensando em tirar esse tempo para reler a ficha de alguns pacientes, mas já que tenho companhia...
Felipe nos guiou até a sala de descanso dos médicos, e o local parecia-se em muito com uma sala de estar, combinada com cafeteira, mesa de pebolim, e um frigobar. Poltronas e até mesmo um beliche também estavam por lá, enquanto uma janela enorme cobria quase toda a parede do fundo, dando direto para o Pátio Central. Cortinas em tecido creme moviam-se preguiçosas enquanto o vento do ar condicionado as atingia, e o ambiente gelado e esterilizado parecia cada vez mais acolhedor. Sorrindo, notei Beatriz deitada em uma poltrona cor de vinho, próxima. A irmã mais nova de Renée tinha o hábito de passar ali pelo Hospital todos os dias, desde que eu fora ferida. Ela era uma jovem doce, e me lembrava Nanda quando a conheci. Por este motivo, acabei desenvolvendo uma preocupação natural por ela e seu irmão. Todos aqueles boatos de que Renée seria o mandante por trás das mortes na Fortaleza, simplesmente não combinavam com a realidade que eu conhecia. Recebendo treinamento em enfermagem com João Pedro, no trato das crianças com Helga e na química com Faye, Bia ainda não havia decidido o que iria fazer quando deixasse de ser considerada uma criança, e tivesse que vestir um uniforme. Todo aquele protocolo das cores e profissões me pareciam exagerados, mas eram úteis para uma comunidade como aquela. Levando em conta todos os problemas enfrentados até ali, mesmo com um sistema forte, imaginei que a ausência dele apenas traria mais caos ao recinto.
Nanda estava sentada à mesa com Felipe, uma xícara gorda de café entre suas mãos. Suas unhas pareciam completamente normais. A única diferença, é que permaneciam grandes e afiadas, ainda que com aparência humana. Nunca mais a tinha visto roendo-as, por ansiedade. Sentei-me ao seu lado, entregando-a um olhar carinhoso, antes de tomar sua mão na minha. Em silêncio, nós três contemplamos o ambiente ao redor. Felipe finalmente colocou seus arquivos de lado, e relaxou em seu assento. Notei que ele olhava para Fernanda com um interesse quase infantil, explícito. Mas não era cobiçoso. Parecia um artista, realmente admirado com a obra de outro escultor.
– Sabe, gostaria que vocês soubessem que não sou como os outros. Não tenho medo de vocês, nem acredito que sejam selvagens porque tiveram que lutar pra sobreviver. Não tem nada de errado com os transgênicos, na minha opinião. Pelo contrário. Eles são afortunados, porque conseguiram sobreviver à uma infecção por GM. É só olhar pra você, Fernanda. Assim, você é linda... E... – Ele ruborizou, sentindo-se completamente perdido. – Desculpa. Eu não quis dizer isso. Nem te conheço. Céus, sou um desastre nessas coisas. O que eu quis dizer, é que pessoas boas não são uma ameaça. Ainda que sejam diferentes de tudo o que já vimos.
– Eu acredito que você está certíssimo – afirmei, gesticulando na direção da imensa janela à nossa frente. – Pense só sobre quantas pessoas morreram nos últimos dois anos... Milhões. Quantas milhares não devem ter se surpreendido, após descobrirem que o GM não os matou? Sabe, Felipe, acredito que todos nós tenhamos tolerância ao vírus. Porque todos somos portadores. Ele está em nosso sistema. Se morrermos, não importa como, voltaremos. No entanto, as mordidas ativam um nível de infecção que destrói nossos corpos, abrindo caminho para o que espera dentro de nós. É por isso que os inumanos, ou transgênicos, são tão especiais. Eles avançaram para o próximo estágio.
– Victoria me salvou. – Nanda interrompeu-me, olhando para Felipe. Ele pareceu hesitar ao encará-la, mas seu olhar suavizou-se. – Não se preocupe, não te acho estranho. Pelo contrário. Você é gentil. – Ela passou a mão pelos cabelos, colocando-os de um lado de seu pescoço. – Quando tive meus bebês, perdi muito sangue e meu corpo começou a deteriorar por causa do parto. Vicky infectou-me com o sangue dela, enfiando na minha boca. Poderia ter dado errado, mas não deu. De alguma forma, tudo ficou escuro e quando voltei eu só... Estava diferente. Não me sinto eu mesma, em alguns momentos. Porque, se você tivesse me conhecido antes, jamais pensaria em mim como uma sentinela. Ou do tipo que defende a si mesma.
– Aposto que você era tão amável quanto agora. – O jovem médico disparou, todo galanteador. Quis rir daquele ar típico de casal jovem. Será que eu estava atrapalhando? Embora a nova e melhorada Nanda pudesse disfarçar seus movimentos, ela não conseguiu impedir-se de corar. Sorri, discretamente.
– Ela continua sendo um amor. – Respondi. – Felipe, poderia nos contar como foi viver aqui durante o primeiro conflito? Faye nos contou o que houve, mas desde que cheguei percebi que todos são muito vagos sobre Orlando.
– Não é complicado. – Felipe pegou sua própria xícara, esta contendo chá, e bebericou levemente. – Orlando acusou Faye de entrar num beco sem saída com sua pesquisa. Ele achava que ela queria roubar o crédito pelos experimentos e pelos avanços que ele conquistou. A descoberta de uma vacina capaz de desativar os zumbis, foi o estopim para isso. Ele dizia que ela estava fazendo experiências ilegais, testando em sua equipe e planejando usar o GM como arma. É claro que os Nove investigaram, mas os Laboratórios estavam totalmente dentro dos padrões. Silvia, que na época era Conselheira da Justiça, encerrou o caso com Allan. Então Orlando começou a palestrar no Pátio Central, assustando a todos com suas versões macabras do que acontecia por lá. Ele chegou a alegar que Faye mantinha monstros na floresta, explorando o medo que todos já tinham do lugar. Foi uma bagunça. Se eu fosse ela, teria fugido também.
– A equipe dela, eles tinham alguma coisa no sangue? Algo de diferente? – Nanda perguntou, inquieta.
– Vocês conhecem Helena, e conheceram Rhuan. Eles são normais. O GM está no sangue de todos nós, e não foram encontradas variações nos exames deles. Mas até que conseguimos provar isso, Orlando e seu pequeno grupo já haviam começado a dar problemas. Graças a Deus, Allan os impediu. O resto da história, vocês já sabem. – Ele também parecia desconfortável em reviver tudo aquilo. Decidi respeitar seu momento, tentando ao máximo não ser invasiva. – Perdi minha prima, minha única parente, da última vez. Ela era obcecada por Orlando. Acreditava que o cara era um grande líder ou algo assim. Katia não podia estar mais errada. E agora a história está para se repetir...
– Parece que sim. Infelizmente. – Nanda balbuciou. Ela olhou para Beatriz, e pareceu triste. – Eu gostaria de saber que Renée não tem nada com isso. Bia parece uma menina boa.
Foi quando ouvimos o primeiro tiro. De repente, foi como se uma gigantesca panela de ferro inox houvesse envolvido a Fortaleza. E nós, éramos o milho de pipoca. Estouros consecutivos cortaram a noite, enquanto eu olhava em desespero para Felipe. Ele também pareceu assustado, agachando-se conosco enquanto três disparos atingiam a janela, marcando as paredes. Beatriz acordou gritando, mas havia desaparecido atrás da poltrona. Seu corpo magro e pequeno era um bom aliado naquele momento. O completo oposto do meu. Nunca odiei tanto meu sobrepeso generoso, quanto no momento em que tive de correr para o corredor do Hospital. Liderando o caminho, cruzei o espaço o mais rápido que pude, enquanto os gritos e o choro ainda soavam altos. Bia, Nanda e Felipe vinham logo atrás, e não demorou muito até que chegássemos ao terceiro andar, na maternidade. Naquele momento, os trigêmeos de Nanda eram os únicos bebês na Fortaleza. Numa ala cuja acústica era completamente isolada, não haviam acordado com todo o barulho. Verificamos os três, trancando o acesso à maternidade logo depois. Eu não queria que nada nem ninguém além de nós tivesse a chance de chegar até eles.
– O que nós vamos fazer? Isso é um pesadelo! – Beatriz cobria o rosto, chorando. Seus cabelos castanhos estavam totalmente desalinhados, os fios finos voando para todo lado. – Meu irmão! Ele está nos dormitórios! Tenho que ir atrás dele.
– Nem pensar. Isso é pedir para ser morta. Estão atirando nas pessoas, Bia. Aleatoriamente! Esse povo não tá brincando. Eles vão atirar no primeiro que colocar a cara pra fora do Hospital! – Contestou Felipe, nervoso. – Não. Nós temos que trancar e bloquear a recepção. Logo os mortos vão se levantar. Os feridos que conseguiram escapar vão precisar da nossa ajuda.
– Eu vou ajuda-lo. – Concordei. – Mas Nanda, você precisa ir lá fora. Os sentinelas podem tentar executar os feridos. Você é a única que pode resgatar essa gente. Lamento filha, mas vou ter de pedir esse sacrifício a você. Não por eles, mas pelo futuro dos seus filhos.
– São as mesmas pessoas que atiraram uma pedra em mim. – Ela rebateu, ferida. Felipe e Beatriz trocaram um olhar angustiado.
– Eu sei. Mas uma pedra não pode destruir uma comunidade inteira. Não se você não permitir. – Nanda abraçou-me, e seu perfume lembrava muito o dos meus filhos. Ou talvez fosse apenas minha imaginação, sendo velha.
– Cuide dos meus bebês como se fossem seus. – Ela pediu, e o “se algo acontecer comigo” ficou implícito. Mas eu sabia o que aquilo significava. E nunca a desapontaria.
– Sempre. Mas é você quem criará os seus filhos. – Ela sorriu, pouco antes de correr na direção da recepção nos andares inferiores, de onde poderia acessar o exterior, e os arredores do Hospital. – E quanto a nós três?
– Também temos trabalho a fazer. – Felipe era rápido. Gostava do ritmo dele quando trabalhávamos juntos. – Bia, espero que já tenha decidido sua carreira, porque essa noite, você vai ser uma enfermeira.
– Vou trocar de roupa. – Ela avisou, correndo na direção do posto de enfermagem do terceiro andar. – Encontro vocês lá embaixo!
Numa concordância muda, corremos para os andares inferiores. Teríamos de mover algumas pessoas em estado menos grave para cima, deixando a emergência e a enfermaria totalmente livres para os feridos que viriam. Sabia que poderiam atacar o Hospital, mas considerava algo muito improvável. Parte do movimento ou não, os assassinos precisavam dele. Ainda que vencessem, não matariam todos os médicos e enfermeiras. Era uma verdadeira pena que mais deles não tivessem ficado para trás. Mais uma vez, era fácil reconhecer a presença do ardor em minhas veias. Aquela sensação de zumbido nos ouvidos, e de que tudo se move mais depressa. Mesmo pensar se torna exaustivo. Pânico e urgência. Sentimentos que eu jurara nunca esquecer, para não ter o mesmo fim da minha família. Naquela noite, entretanto, era com uma estranha surpresa que eu percebia o quão fácil era desacostumar-se com eles.
Vilma.
Dino e eu estávamos quase do lado de fora da Escola. O cheiro de fumaça e a densidade do ar eram, no entanto, como uma gigantesca nuvem viva. Nuvem esta que nos perseguia e instigava como se nos repelisse para longe de sua presença. Aflita, sabia que aquilo devia ser tão ruim quanto eu pensava. Ter expectativas ruins se tornava um hábito frequente, quando elas estavam sempre certas. De forma que não foi nada surpreende que, quando finalmente conseguimos sair para o gramado da frente e avistamos o Memorial, não havia nada além de escombros, fogo, e zumbis caminhando na nossa direção. Vindos do Pátio Central, não eram muitos. Contudo, aqueles rostos ainda tão desconhecidos pareciam frescos o suficiente para conservarem a força que tinham em vida. O que simplesmente significava que se fôssemos agarrados, não importava o quão bem usássemos uma faca. Eu e Dino estaríamos ferrados.
– Não vai dar pra passar por eles. Os outros vão ter que se virar sem a gente. – Avisei, já agarrando seu braço e puxando de volta para a Escola. – As crianças precisam mais da gente. Vem, Dino! – Ele parecia irritado e distraído, encarando o segundo andar.
– Está pegando fogo, também. Alguns estilhaços atingiram bem no local onde mandamos o Carlos levar os outros. – Ele apontou. De fato, havia fogo e fumaça. Obviamente, sentia-me tão culpada quanto ele. Mas muitíssimo aborrecida, também. Porque no fim, eu teria que dar razão à irritante da Melissa. – Corre, Vilma. Vamos alcançar eles.
E alcançamos. Mas a esta altura, já estávamos esbaforidos e bem distantes da imagem heroica que queríamos passar de nós mesmos. Naquele instante os gêmeos heróis eram só dois pré-adolescentes assustados e extremamente arrependidos. Sim, eu tinha certeza que Dino pensava como eu. Porque ao subestimar aquelas pessoas, estávamos entregando-as à própria sorte, como se não merecessem viver tanto quanto nós, porque deram sorte. Ninguém é culpado de nascer rico. Eram todos filhos de pessoas importantes para a Fortaleza. Nenhum zelador tinha criança. A criadagem com filhos não fora escolhida para ser levada até a ilha. Mesmo assim, aquelas pessoas haviam aberto o portão para nós. Não importava de quem a Vicky fosse filha. Se a população não tivesse permitido, teríamos ficado no mar à deriva ou destruídos e abandonados na costa, junto com os cadáveres reanimados de tripulações zumbis, para sempre confinadas em suas embarcações. Subindo as escadas para o segundo andar, tentei ignorar a fumaça que começava a se espalhar pelos corredores. Se todos estivessem trancados em algum lugar, só perceberiam o perigo quando o fogo estivesse poderoso o bastante para prendê-los. De lá de baixo, o ruído de zumbis forçando as portas vinha em ondulações, perigosíssimas se não agíssemos rapidamente.
– Vilma, acho que estou ouvindo os mais novos choramingando. – Dino passou na minha frente, caminhando de forma decidida. Não havia notado que ele mudara tanto. Estava um pouco mais alto que eu, e naquele momento senti confiança e determinação vindo dele. Como alguém que sabia o que deveria ser feito. Meu irmão tinha isso. Infelizmente, quando viramos no corredor seguinte, nos deparamos com pedras imensas espalhadas à nossa frente. Ao nosso lado, parte da parede havia ruído e as vigas de madeira do teto já estavam envergando.
– Eles devem ter subido pelo outro lado! Não dá pra gente atravessar. Temos que dar a volta! – Gemi, aflita. – Ou então corremos o risco de alguma coisa cair em cima de nós. Simplesmente não acredito que nenhum deles viu isso aqui, bem do lado!
– Se entraram pelo outro lado, então provavelmente não abriram a porta dos fundos para vigiarem o corredor. Devem estar encolhidos lá dentro, achando que estão bem. Com a droga de um foco de incêndio bem do lado deles... – Dino flexionou os braços, enfiando sua faca na cintura. – Vamos, a gente consegue. Só desviar do fogo.
Eu o segui. Mas confesso que não estava nem um pouco propensa a isto. Próxima dele, consegui desviar das toras de madeira em brasas e logo já não havia muito espaço entre nós e a porta. Escorreguei um pouco numa pedra, quase caindo de joelhos no chão. Mas Dino agarrou meu braço e continuou indo em frente. Meu cabelo estava molhado de suor, e já grudava em meu pescoço. Os fios revoltosos espalhavam-se por toda a parte, escapando do rabo de cavalo mal executado. Batendo de frente na porta da sala de aula, tentei girar a maçaneta. Estava trancada. Gritei por Cecília, e logo ouvimos o choro das crianças cessar. Elas pareceram aguardar um pouco, até que algumas ficaram nervosas outra vez. Por fim, minha amiga aproximou-se, e pude ouvi-la pedindo delicadamente que uma menininha se acalmasse.
– Cecília, está tudo bem aí? – Chamei, aflita.
– Sim, Vilma. Vocês nos mandaram para o lugar certo. O que houve? Já checaram lá fora? – Ela também soava preocupada, embora tentasse disfarçar seu estado. O tremor em sua voz a traía.
– Olha, temos que sair daqui, ok? Não estamos seguros na Escola. Melhor tentarmos os Muros. Tem zumbis forçando a entrada, e focos de incêndio no prédio. Por favor, diga-nos que conseguem abrir essa porta e vir conosco – implorei, meio que inclinando o corpo para falar na direção da fechadura.
– Não temos a chave, já estava trancado. O que faremos? – Não sei! Foi isso o que pensei de cara, mas então respirei fundo e segurei o palavrão frustrado na minha garganta. – Não tem como vocês contornarem a Escola? Descerem até o primeiro andar e depois encontrarem com a gente na quadra interna de basquete?
– Alguns zumbis entraram na Escola, Cecília. Deve haver alguma porta aberta no primeiro andar. Não podemos passar sem limpar o caminho. Eles vão ter que fazer isso por nós, ou dar um jeito de abrir essa porta! – Exclamou Helga, toda mandona. – Não vou levar minhas crianças para aquela loucura!
– Ouviu isso? – Desistiu Cecília, constrangida. – Francine precisa de ajuda, também. Ela se trancou na sala de vídeo depois que viemos para cá. Ela distraiu os zumbis. Tentem acha-la, se possível. Ela está com Carlos e Melissa.
– O que esses dois têm na cabeça? – Chispou Dino, emburrado.
– Sério? Eu não consigo imaginar uma razão para o Carlos querer provar que consegue se proteger. – Revirei os olhos, já puxando Dino comigo. Sempre que eu o admirava demais, meu gêmeo lindo e valente fazia com que eu me lembrasse dos seus defeitos. Brilhantemente, diga-se.
Descemos as escadas outra vez, e alcançamos o saguão da parte de trás da Escola. Desta vez, deparamo-nos com as portas de madeira que levavam ao gramado totalmente abarrotadas de zumbis. Elas tremiam e vibravam, enquanto mais de quinze corpos reanimados com as roupas da Fortaleza forçavam a entrada. Forçavam caminho para devorarem suas crianças. Com um arrepio, troquei um olhar com Dino. Eles eram muitos, e não estavam fracos e decompostos. Ainda assim, seriam lentos. Se matássemos alguns, talvez conseguíssemos nos esgueirar para fora. Ou talvez.... Pudéssemos apenas contorná-los por cima.
– O buraco.... No andar de cima. Podemos ir por fora do buraco. – Guinchei, mas a ideia não me trazia boas expectativas.
– Eu vou e tiro eles da porta. Você sai, tranca de novo, e passa correndo. E não, eles não vão conseguir me pegar, antes que você discorde. – Bem, eu ia discordar mesmo. A verdade, é que eu não conseguiria escalar pelas telhas da parte externa, muito menos descer e correr o suficiente para acompanha-lo. Atrasando-o, provocaria a morte dele e a minha. Dino estava certo.
Os minutos de espera foram uma tortura. Meu irmão estava arriscando-se nas alturas, e iria sozinho distrair uma dúzia de mortos-vivos para que eu pudesse escapar. Além de me sentir uma inútil, estava um pouco nervosa e culpada por não ser mais gentil com ele. Irmãos têm essa coisa inata, que nos impele a competir uns com os outros, mesmo quando viemos ao mundo juntos. Em analogia, Dino era como uma banana do mesmo cacho. Éramos duas partes de um todo. A pessoa mais importante da minha vida, em outros termos, era ele. Por isso, estava quase chorando e indo socorrê-lo, quando os zumbis se afastaram das portas. Rindo em meio ao pranto preso na garganta, abri a passagem, fechando-a às minhas costas logo em seguida. Tensa, alcancei o gramado e continuei correndo apressada, enquanto via os mortos indo para longe, novamente na direção do Pátio Central. Dino não continuou correndo. Enquanto eu olhava abismada, ele inverteu trajetória e correu através da pequena horda. Desviando-se rapidamente das criaturas, foi hábil o bastante para escapar de todos os braços que intentavam agarrá-lo. Parando à minha frente com o rosto vermelho e os cabelos para o alto, quase caiu quando o abracei apertado. Ele apertou-me de volta, mas não disse nada.
– Vem. – Puxei sua mão, e entramos novamente na Escola. Aquela parte parecia completamente normal, mas segundo Helga, algum dos acessos laterais devia estar aberto, pois haviam mortos ali dentro. Cautelosos, caminhamos de volta por onde havíamos vindo. Tudo parecia inalterado, com exceção das janelas quebradas por todo o saguão, e os zumbis agarrados às barras de ferro das mesmas.
– Eu tinha esquecido de quão nojentos eles eram. – Balbuciou Dino. – Principalmente quando ainda parecem tão humanos.
– Eu também. – Admiti. – Preferia quando só sabíamos nos esconder, como eles.
Subimos as escadas para os corredores com as salas de aula, quando senti uma mão em meus cabelos. Um homem alto, com cerca de quarenta anos, parecia ter morrido há poucos minutos. Ainda firme, agarrou-me com força, derrubando-me junto com ele quando veio por cima de mim. Sua boca aberta mirava minha jugular, mas consegui afastá-lo com o braço esquerdo, e cravar minha faca em seu olho com o direito. Era como furar uma melancia, e a sensação viscosa embrulhou meu estômago. Dino parecia ter sido pego de surpresa, mas ajudou a remover o grandalhão de cima de mim. Passei a mão no meu pescoço onde o sangue do morto havia pingado, e limpei a mão da faca na calça.
– Vocês estão bem, meninos? – Distingui Francine atrás de uma porta do corredor. Escondida ali, apenas parte de seu rosto podia ser vista. – Eu distraí essa coisa para que os outros pudessem passar. Melissa e Carlos me ajudaram.
– A Mel passou mal. – Carlos juntou-se a ela, saindo para nos encontrar. – Qual é o plano? A coisa tá feia lá fora?
– O plano era irmos até os Muros. Tem zumbis querendo entrar, e o outro lado da Escola foi comprometido por causa dos escombros do Memorial. Só que lá fora também não é seguro. Então, vamos para a quadra de basquete no subsolo. Aí trancamos as portas, e esperamos pelos outros. O que acha? – Perguntei, virando-me para Francine. Parecendo assustada, ou nervosa, ela hesitou mais do que um pouco. Então assentiu, com olhar fugidio.
Ignorando-a, andei em direção ao final do corredor, onde Helga e Cecília esperavam com as crianças. De cara feia e com a mão sobre o estômago, Melissa parecia muito irritada e constrangida. Eu sabia que ela havia vomitado, e perdera toda a pose prepotente que enfeitara seu rosto desde que havíamos conhecido uma à outra. Como todas as outras crianças ali, ela era indefesa ainda que tivesse uma péssima atitude. E embora eu não gostasse dela, devia admitir que precisava ter muita coragem para se colocar em perigo. Mesmo que fosse para impressionar Carlos. Tinha sido uma boa tentativa, coitada. Quando abri a porta e Cecília saiu com algumas crianças, nos abraçamos brevemente. Helga vinha logo atrás, os olhos vermelhos de chorar e as crianças menores agarradas às suas saias. Um dos pequenos do maternal estava em seu colo. Ela o segurava valentemente, demonstrando outro tipo de coragem, que eu não tinha percebido. Acho que tudo aquilo estava abrindo os meus olhos. Helga era legal, também. Talvez eu tivesse pegado pesado com ela.
– Obrigada, Vilma. De agora em diante, mantenha sua faca sempre por perto. – Com uma piscadela, Helga confirmou meus pensamentos, passando por mim com o pequenino no colo. Francine e Dino lideravam nosso caminho, quando descemos outra vez as escadas. Toda aquela movimentação estava começando a me cansar, e eu podia sentir a garganta arder com a sede eminente.
Já estávamos prestes a descer para o ginásio, quando ouvimos a voz. Num discurso apavorante, João Pedro dizia claramente que se não entregássemos Faye em uma hora, ele destruiria o Hospital e mataria seus reféns. Não precisei ir longe para perceber que reféns seriam esses. Vicky e os outros deviam estar em perigo, mais do que nunca. O que faríamos? Em silêncio, todos nos entreolhamos. Até que notei o pequeno brilho nas mãos de Francine. Com um revólver de tamanho pequeno, ela avançou na direção de Cecília, mantendo-a sobre a mira. Minha amiga ergueu os braços sem que uma palavra fosse dita, e todas as crianças começaram a correr para baixo, na direção da quadra. Parados, ficamos ali sete de nós. Eu e Dino, que tentávamos descobrir uma forma de livrar Cecília daquela situação, Helga com Carlos e Melissa, totalmente pasmos por Francine estar no meio daquilo tudo. E ela, que mantinha Cecília presa, sob a mira do cano de sua arma.
– Você? Sério? – Melissa fez cara de nojo, e dessa vez parecia ter razão.
– Exatamente. Quem imaginaria, não é? A “inútil da Francine”, a “Nove de enfeite”... Eu sei de tudo o que falam sobre mim. TUDO! – O aperto de sua mão nos cabelos de Cecília aumentou, e a coitada gemeu de dor. – Vocês sempre viram as coisas de forma errada, mas passaram da conta quando deixaram esses selvagens entrarem. Como se não bastassem terem feito a loucura de acreditar naquela maldita da primeira vez! Você, mamãe. Sempre acreditando em qualquer coisa que te fizesse sentir segura, sempre aceitando o que Silvia dizia. Burra como os outros!
– Não fale comigo nesse tom, menina! A única garota estúpida aqui é você. Afinal, quem está segurando uma maldita arma? – Helga protegia os ouvidos da criança em seu colo, enquanto falava. – Sempre me orgulhei de você. Da sua inteligência, da sua bondade. Mas nunca de sua capacidade para distinguir boas e más influências. Primeiro Orlando, e agora João Pedro?
– Orlando estava certo! – Esganiçando-se, Francine parecia à beira de um ataque de nervos. – E vocês o mataram! MATARAM! Destruíram a minha vida quando mataram o homem que eu amava. Agora chega. Isso só vai terminar quando aquela asiática dos infernos estiver morta! – Ela puxou a cabeça de Cecília para trás com força, e o pescoço dela inclinou-se para trás. Meu impulso mais básico foi o de voar na garganta dela, mas eu não tinha o que fazer. Como poderia proteger Cecília de levar um tiro? – Vocês todos vão descer as escadas agora! Vou trancá-los no ginásio, então não se preocupem com os mortos. Cecília e eu vamos dar um passeio até os Laboratórios. Tenho algo a resolver. Então, podem ir descendo e... – Ela parou de falar quando olhou ao redor. Seguindo seu olhar, também fui pega de surpresa. Dino havia sumido. Meu gêmeo não estava em lugar nenhum, provavelmente antecipando que Francine tentaria prender a todos. Esperto. Ele seguiria as duas e ajudaria Cecília, é claro. Eu só queria ter pensado nisso antes, para fugir também. Então olhei para a frente, e a arma de Francine estava virada para o meu rosto. – Aparece, Dino! Ou mato sua irmã.
– Não se atreva a encostar nessa menina, Francine! Ou juro por Deus que sendo sua mãe ou não, farei com que seja expulsa dessa ilha! Não existe a menor chance de sua loucura dar certo. De uma vez por todas, desista disso e faça o que eu mando. Nenhum de nós vai contar que estava envolvida, apenas ouça a razão e desista desse plano! – Francine destravou a arma. Helga era o alvo, agora.
– Desde que você perdeu meu irmão, vive para cuidar dos filhos dos outros. Você sempre preferiu essas pestinhas a mim. Não te devo lealdade nenhuma, Helga. – Ela levou a arma de volta para o peito de Cecília. – Mas não me importo que o Dino esteja escondido ouvindo isso tudo. Ouviu, garoto? Chegue perto de mim, e mato a Cecília. Depois atiro em você e te arrasto comigo como refém. Não estou brincando. – Ela olhou para nós. – Desçam. Já.
Fizemos exatamente o que Francine havia mandado, e me odiei por ter sido tão ingênua. Ainda não entendia bem o que estava acontecendo. Mas aquilo era algo inesperado. Pelo visto, só mãe e filha sabiam do caso dela com Orlando. Uma ligação que ninguém esperava, ou talvez tivessem banido Francine com ele. Vingança por amor. Mas ela não estava sozinha, e eu não entendi os motivos dos outros. Se tinha gente se matando, devia ser por algo sério. O problema de uma guerra é que os dois lados acham que estão certos. Ninguém mata e morre por algo que considera mentira. Só consegui, contudo, rezar para que meu irmão ficasse bem. Estava aflita, e não era a única. Pálido, Carlos parecia ansioso ao sentar-se no chão da quadra, ao meu lado. Helga permanecia quieta à um canto, com o olhar marejado. Rodrick e Breno também estavam por ali, conversando baixinho com Melissa. Todos pareciam compreender que aquilo era mais grave do que imaginávamos. Distraída em minha angústia pessoal, levei um susto quando senti a mão de Carlos em meu ombro. Olhei para ele, e o garoto estava com aquele sorriso imbecil na cara, embora seu brilho natural fosse um pouco mais fraco.
– Seu irmão vai ficar bem. Tente acreditar nisso e não pensar no resto. – Ele cochichou. – Quando eu estava longe da Vicky, costumava conversar com ela à noite, antes de dormir. Sempre dizia pra mim mesmo que ela ia ficar bem, onde estivesse. No fundo eu não acreditava muito nisso, mas ela estava. Agora que nos encontramos, bem... É esquisito. Acho que nenhum de nós é mais do jeito que o outro esperava.
– Sempre dá tempo de consertar as coisas. – Respondi. – Mesmo que não pareça. Sabe, uma das razões para amarmos tanto a sua irmã, é que ela nos protegeu e amou também. Não só ela, mas todo o nosso grupo. Por isso somos uma família. Todos perdemos pessoas e nos aproximamos. Conhecemos os defeitos de cada um, e ainda assim ficamos juntos. Você pode fazer parte disso. Aliás, você é parte disso.
– Mesmo? Sempre achei que estava atrapalhando, porque Vicky está sempre cercada por vocês... – Carlos riu, e ambos percebemos ao mesmo tempo que ele estava com ciúmes. O mesmo ciúme que senti quando os bebês de Nanda nasceram. Ele olhou para mim, encabulado. – Como isso acabou sendo sobre mim? Eu é quem estava consolando você. – Ele soou honesto, e totalmente desprovida do meu preconceito inicial, assumi que ele era outra pessoa boa que vivia ali. E era muito gentil, também. Insegura, toquei em seu ombro, sorrindo.
– Prometo que quando contarmos essa história, você vai ser o herói. – Carlos sorriu, e foi como se nada de ruim estivesse acontecendo do lado de fora daquela quadra.
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