Quebranto.
104 Fogo Cruzado.
Notas iniciais
Nanda.
Se não fosse Tânia a me pedir que ajudasse aquela gente, tinha quase certeza de que eu não faria nada que não fosse cuidar dos meus filhos. Desde quando eu era assim? Como chegara a tal ponto? As coisas que tinham me acontecido desde o princípio eram agora como longínquas feridas. Ainda que as cicatrizes pudessem contar a minha história, não me permitiam sentir aquela dor outra vez. Sabendo ou não de onde vinha, permanecia extremamente difícil definir para onde eu estava indo. Desci o último lance de escadas para a recepção, e caminhei na direção do lado de fora. No caminho, amarrei o cabelo num coque desajeitado bem firme, para que nenhum dos mortos pudesse agarrá-lo. Passei por diversos feridos e pessoas chorosas, que haviam buscado refúgio durante o tiroteio. O local estava lotado. Processar que os alguns dos homens que deveriam proteger a população haviam deliberadamente atirado contra o povo, era extremamente difícil para mim. Por um segundo, toquei no meu crucifixo. Por que ele não me trazia paz? Um homem passou por mim carregando uma garota morta no colo, e senti minhas pernas tremerem. Minha própria unha provocou um fino arranhão em meu colo, e foi quase agradável a sensação contra a minha pele. Até que o ardor da agressão involuntária veio logo depois. De onde eu estava, na porta do Hospital, podia observar os Dormitórios à direita, os Muros circundando tudo, o Pátio Central à frente, a Escola começando a pegar fogo ao fundo, e ao longe o Memorial, em ruínas que levantavam fumaça e poeira. Em meio a este cenário de guerra, os corpos espalhados pelo chão. Muitos baleados na cabeça, sendo devorados por zumbis. O palanque erguido para Silvia não impedia que alguns deles devorassem o corpo da presidente.
Corri em meio aos corpos, atraindo a atenção de alguns dos zumbis enquanto aproximava-me do palanque. Os sentinelas traidores deviam ter retornado para o interior dos Muros, pois ninguém tentou atirar em mim do alto. Provavelmente, eles não esperavam que alguém tivesse coragem de sair no meio daquele inferno. Um morador vestido com as cores da Fazenda tentou agarrar meu tornozelo, mas chutei-o no rosto em resposta. Abaixando-me, espalmei minha mão contra sua testa e ele caiu novamente, inerte. A comichão entre meus dedos era a melhor parte de usar os meus dons. Sentia-se quase como quando eu e Gabriel estávamos juntos. Prazer. E poder. Fazia com que eu quisesse repetir aquilo outras vezes. Uma. Duas. Três. Um toque, um arranhão. Eles iam caindo antes que tentassem me agarrar, e quando consegui desligar aqueles que devoravam o corpo de Silvia, entendi a razão para que tantos tivessem aglomerado naquele lugar. Presos sob a estrutura e evitando ao máximo serem notados, Hugo e Dante pareciam assustados e nervosos quando os achei.
– Nanda? – Hugo respirou fundo. – Deus, que sorte a nossa! Pensei que era um daqueles malucos! O que nós faremos?
– Tenho que levar vocês para o Hospital. Venham. Vamos checar se tem mais alguém pra tirar daqui, antes que eles saiam dos Muros e venham procurar por eles mesmos! – Puxei Hugo para o lado de fora, e Dante me deu a mão dele, saindo também. Os dois olharam ao redor, com a mesma expressão de choque que eu tinha certeza, havia sido esculpida no meu rosto. – Eu sei como se sentem. Lembrem-se do continente. Ignorem o cenário.
– Acho que isso parece bem pra mim. – Concordou Dante, rindo de nervoso. Ele colocou a mão no ombro de Hugo, quando este vacilou. Ele parecia pálido, olhando ao redor. – Hey! Tudo bem?
– Os mortos estão comendo os mortos. Acho que os corpos que não voltaram ainda estão quentes... Esqueci de como isso é nojento. – Hugo parecia lutar para engolir um vegetal de gosto péssimo. – Ok. Vamos sair do fogo cruzado.
Os guiei na direção do Hospital, lidando com os zumbis enquanto os rapazes iam checando os corpos caídos. Muitos dos mortos já estavam espalhados pela Fortaleza. Dezenas rumaram na direção da Escola, outros na direção dos portões que levavam às Fazendas e ao Depósito, agora abertos. Mas uma quantidade razoável ainda estava ali, e enquanto eu os abatia podia sentir uma vontade irresistível crescer dentro de mim. Como a sensação de plenitude que sentimos quando mastigamos algo gostoso, e estamos com muita fome. Minhas mãos estavam pingando sangue, e eu mal podia distinguir os rostos à minha frente. Naquele momento eles não eram nada. Poderia ser um dos meus amigos zumbificado, e eu só o reconheceria depois. Tese que não se provou correta, quando Martha surgiu à minha frente. Ela tinha os olhos negros manchados de vermelho, e pareceria bem não fosse a marca da bala que lhe perfurara o peito. Agarrei-a pelo pescoço, descarregando eletricidade enquanto girava e a empurrava contra um dos organizadores reanimados. Devo ter exagerado na carga, pois senti certa tontura logo depois. Arfando, senti meus cabelos caírem sobre as costas antes de virar na direção de Hugo. Ele e Dante haviam encontrado um sobrevivente. Baleado no braço, este cara parecia extremamente apavorado. Ele havia se escondido sob o corpo de uma mulher do Refeitório, atingida na cabeça. Sua aparência era esquisita, com um nariz adunco a formar algo semelhante à um bico de papagaio. Possuía cabelos longos e negros, além de uma barba espessa e algumas rugas. Além de estar claramente perturbado com o que acabara de vivenciar.
– Finalmente! Obrigado por me salvarem! Os demônios já estavam chegando em cima de mim! – Ele agarrou os pulsos de Hugo. – Deus revelou seu rosto para mim! Ele está entre nós! Ele me salvou, usando vocês! Oh, sim!
– Se acalme. Qual o seu nome? – Pedi, nervosa. Ainda estava olhando ao redor, vigiando os zumbis que nos notavam aos poucos. Ainda não haviam muitos interessados em nós, com tanta comida disponível.
– Sou Átila. Zelador. Tem alguém ajudando os feridos no Hospital? – Confirmei com um aceno. – Graças ao bom Jesus. Tem alguém vivo aí? – Ele gritou, apressado. Com o susto que levei, tentei tampar a sua boca, mas Dante chegou primeiro. Sorte, pois eu não havia lembrado de “desligar” minhas mãos.
– Silêncio! Não importa o quanto eles estejam comendo. Se ouvirem a gente, vão nos matar! – Ele exclamou, enquanto Hugo corria na direção de um braço que se erguia abaixo de uma pequena pilha de corpos. Puxamos juntos a mulher, que ajoelhou no chão logo depois. Ela tinha cabelos loiros bem curtos e lisos, e um rosto firme e bonito. Usava as cores dos enfermeiros.
– Calma, estamos aqui. Quem é você? – Falei, apoiando a mão em seu ombro. Dante já havia nos alcançado com Átila, e os dois pareciam nervosos enquanto notavam que mais mortos vinham em nossa direção.
– Viviana. – Ela não estava hesitando. – Preciso achar minha filha. Melissa está na Escola, sozinha! Ela não sabe se defender! – Eu entendia. Havia puro pânico em seu olhar. Não preocupação pelo próprio destino, mas pelo de sua criança.
– Não se preocupe, eles vão ficar bem. Temos amigos capacitados por lá. Além disso, a Escola tem muitos lugares difíceis de entrar, e todos podem se trancar nos ginásios até tudo passar e irmos busca-los. Agora, precisamos de sua ajuda no Hospital. Tem muita gente machucada que precisa de você. E não é seguro aqui fora.
Ouvi um breve som metálico, e levei alguns segundos para lembrar do que era. Armas sendo destravadas. O primeiro tiro atravessou o ombro de Viviana e rasgou o meu braço como de uma espada gigante tivesse atingido o meu corpo. Fui lançada pra trás, e rolei pelo chão enquanto ouvia Hugo e Dante puxando Átila para baixo. Gemendo de dor, ergui a cabeça a tempo de ver a pequena procissão que vinha para fora, dos Dormitórios. João Pedro liderava o grupo, com Victoria pela mão. Manuela, Arantes e Otávio também eram reféns, e para minha surpresa até mesmo Agnes parecia parte daquela armação toda. Renée estava em péssimo estado, mas fiquei feliz por Beatriz ao vê-lo vivo. E um pouco chateada por não ter confiado em Tânia quando ela disse que ele era inocente. Se eu tivesse dito alguma coisa, talvez nada daquilo tivesse acontecido. Não teríamos feito um plano para pegar o cara errado. Tinham sentinelas com João, incluindo Hélio, o cara de pele amarelada e cabelo ensebado que havia feito todo um teatro sobre não querer Victoria como secretária de Defesa.
– Não acredito... – Murmurou Hugo, olhando para Manuela. Quem a trazia pelo braço era Guilherme. Compreendi rapidamente a razão de tanto choque. Uma traição daquelas era absurda demais para passar despercebida. Absurdamente, foi a última coisa que eu notei. – Filho da puta.
– Podem ficar parados aí. Lamento Viviana, eu não queria atingi-la. Você sempre foi uma funcionária tão querida, do Hospital. Mas sei que não mirei para matar. Então levante-se, pare de fingir que morreu. Leve Átila para receber os cuidados que merecem. Vocês já foram testados por hoje. Ganharão um lugar ao lado dos mais fortes, aqueles que permanecerem. – Viviana moveu-se, e trocou um olhar desesperado comigo. Acenei positivamente, de maneira quase imperceptível, e ela levantou-se. Caminhou lentamente na direção de Átila, chorando baixinho enquanto sua roupa azul era manchada de sangue. O tecido parecia cada vez mais roxo. – Bom, bom. Avisem aos outros que não pretendo violar o Hospital. Respeito o meu local de trabalho, e a necessidade daquelas instalações. Quem sobreviver até o amanhecer, estará realmente seguro. Vai viver num lugar sem inumanos. E sem Faye.
– Largue a minha filha, agora! – Allan estava com um revólver calibre quarenta e cinco apontado para a cabeça de João Pedro. Ao lado dele, um tímido e encolhido Tássio parecia prestes a ter uma síncope. Apoiando uma mão no ombro do Nove, Matias também não parecia em seu melhor estado. Tinha um imenso hematoma no rosto, e os lábios cortados. – Não estou brincando, João. Não me importo de morrer. Minha bala vai acertar sua cabeça primeiro.
– O herói da Fortaleza... – João puxou os cabelos de Vicky, olhando nos olhos dela. – Acho que sei de onde vem esse seu sangue ruim. Tássio! Rapaz, eu não achei que você fosse estar vivo! Isso é surpreendente! Faça-me um enorme favor e acompanhe Viviana, Átila e este jovem a caminho do Hospital. Vai ser bom que um Nove ajude o povo a manter a cabeça no lugar. Ah! E não deixe mais ninguém sair. Tem zumbis aqui fora. – Perturbado. O olhar no rosto de João me lembrava Topázio e Arlindo, e aquelas não eram referências muito consoladoras. Quis mata-lo com minhas mãos, destruir o rosto dele com minhas unhas, apenas para sentir a pele dele queimar com minha energia. Meus próprios pensamentos não pareciam meus. Quase como se as coisas estivessem mudando de cor à minha frente. Ao notar que as pessoas hesitavam em obedecê-lo, João fechou a expressão em seu rosto. – Quem ficar aqui e não pertencer ao grupo de parasitas da Faye, vai ser morto com eles. – Foi o que bastou para que todos se retirassem, com uma expressão mista de pavor e alívio. – Ótimo. Muito bom. Muito bom. Agora. Vocês três, levantem-se do chão. Acreditem, se eu quisesse mata-los, já estariam mortos. Allan, se você pensar em atirar, meu pessoal vai matar os amigos da sua filha. Depois, vou deixar eles se divertirem com ela na sua frente. Sugiro que você não pague pra ver. Solte a porra da arma!
– Faça como ele diz, Allan. Carlos precisa do pai vivo... Obrigado por salvar minha vida. — Pediu Tássio, de longe. Haviam lágrimas em seu rosto. Ele virou-se novamente, e caminhou arrastando os pés na direção do Hospital.
Levantei-me, fazendo força para ficar firme enquanto agarrava o ferimento no meu braço. Já estava parando de sangrar, mas era quase como fazer flexões usando uma só mão. O esforço era sobrenatural. Olhei para Allan, e ele estava entregando seu revólver. Hugo e Dante não pareciam tão feridos, apenas arranhados e sujos, mas estavam tão assustados quanto eu. Para ser sincera, eu sabia que não seria de grande ajuda contra seres humanos. Eu não era boa lutadora. E talvez, nem forças para lidar com aqueles mortos eu teria, ali fora. Sem dizer nada, João apontou com a cabeça na direção dos zumbis que já largavam os corpos parcialmente devorados dos moradores da Fortaleza, e vinham em nossa direção. Os capangas que o acompanhavam começaram a lidar com as criaturas, enquanto ele, Guilherme e Agnes levavam meus amigos para o alto do palanque de Silvia. Chamando-nos com um gesto e com o cano de suas armas ao lado das cabeças de meus amigos, os três pareciam estar divertindo-se com toda aquela sanguinolência. Parei ao lado de Victoria, e João ajoelhou-me ao lado dela. Hugo ficou ao lado de Manuela, na outra ponta. Dante estava ao meu lado direito.
– Agora sim, podemos conversar. Liguem os alto falantes dessa coisa de novo. Quero que Faye escute o que vou dizer em qualquer buraco onde esteja se escondendo. Ela e qualquer um que esteja pensando em ajudar esses aqui... – Respirou João, animado e assustador ao mesmo tempo. – Sei que vocês podem estar pensando que sou louco. Mas estou tentando salvar esse lugar. Não vou fazer nenhum discurso, porque vocês já conhecem a história. Uma certa ratinha andou vasculhando nos arquivos... – Ele riu olhando para Manuela. – Enfim, é opção de vocês acreditarem ou não. Mas para aqueles que acreditam na ameaça que cientistas como Faye representam, fiquem tranquilos. Se em menos de uma hora a boa doutora se entregar, pouparemos vocês. Desde que nos ajudem a matar suas coleguinhas inumanas, é claro...
– Não! João, será que você não percebe o quanto isso é ridículo? Faye não pretende fazer nada de errado. Ela é a única que já chegou perto de salvar as nossas vidas! – Pediu Allan, desesperado.
– EU salvo vidas! EU! Todo dia, no Hospital! Desde que essa merda toda começou! Sua prostituta asiática só pensa nela mesma, seu otário! E por ser estúpido demais pra perceber isso, vai acabar morrendo. – João tirou a arma de perto da cabeça de Vicky e virou-a para Allan. Ele riu, depois desistiu e a manteve no lugar. – Uma hora, e estouro os seus miolos. Depois de fazer exatamente o que te prometi que faria. São vocês quem estão do lado errado, não eu.
– Tem razão. Você está no lado dos malucos e doentes. – Resmungou Vicky. Claramente, ela estava se segurando para não arrebentar aquelas correntes. Eu sabia tão bem quanto ela que talvez nenhum de nós saísse daquela vivo, se ela agisse cedo demais. Se bem que, eu não tinha certeza se algum de nós ficaria bem, agindo quando fosse.
– Eu não seria tão engraçadinha, se fosse você. – Agnes abaixou-se entre mim e Vicky, saindo de perto de Arantes e deixando-o sob a mira de Guilherme. Ela enfiou um objeto que parecia um celular entre nossas cabeças, mas era um pequeno monitor com acesso às câmeras de segurança. – Sabe, o ar na sala de controle não vai durar para sempre... Carolina e Diogo têm exatamente uma hora e dez minutos de oxigênio. Depois disso, morte cerebral e em seguida, o sono eterno. Acho bom que você reze, loirinha. Reze para que a doutora se entregue, ou que Francine consiga pegá-la a tempo. Ou seu namoradinho não vai viver pra ver o nascer do sol...
– Você sabe que eu vou te matar, não sabe? – Victoria murmurou, como se finalmente estivesse desistindo de lutar. Mas eu sabia que ela não estava deixando de combate-los. Ela não combateria mais a si mesma.
Eu sabia que tínhamos pouco tempo, e que as chances eram mínimas, mas não pude evitar de abraçar a determinação que alcançou-me como uma certeza absoluta. Se somente Carolina e Diogo estivessem vivos no dia seguinte, com Tânia, os gêmeos e meus bebês, então teríamos cumprido a nossa missão. Apenas a coragem de tornar aquele lugar seguro para eles valia à pena. Não o medo de morrer. Minhas unhas romperam a pele mais uma vez, cada vez mais rápidas do que antes. Ajoelhada e sentindo-me extremamente humilhada e explorada por aqueles homens insanos, fechei as mãos sobre a madeira do palanque, trazendo lascas nos dedos. Tínhamos uma hora, e a julgar pelo ritmo com que as coisas estavam acontecendo, não era difícil prever a melhor forma de aproveitar aquele tempo.
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