Quebranto.
83 Gaia.
Notas iniciais
Hugo.
Minha cabeça ainda estava pesada, como se eu estivesse constantemente carregando um peso maior do que meus ombros eram capazes de suportar. Desde o início daquele problema, quando fui envenenado por Valéria, sabia que acabaria retornando ao meu estado inicial de vítima. Era o tipo de capuz que me servia bem, há muito tempo. Sempre sobrevivendo com meu esforço, embora minhas batalhas se resumissem mais à enfrentar todo tipo de injúrias à saúde, do que realmente proteger meus amigos e minha própria existência. Talvez, fosse eu mesmo um fardo. E estar ali diante de três pessoas que eu jamais imaginei que fossem se reunir depois dos últimos dias, só tornava mais claro o tipo de cola grudenta que eu tornara-me, mantendo diversas pessoas atadas à mim como um parasita. Temia sugar todos que se importavam comigo, consumindo suas esperanças e desejos. Talvez... Talvez fossem apenas os resíduos de veneno em meu sistema falando, mas aquela agonia incessante, não parecia prestes a me deixar. Como um tipo de desconforto que fica durante bastante tempo, quando engolimos mais comida do que nossa garganta pode suportar. Um mal-estar que pouco tem a ver com o físico, e está muito mais profundamente relacionado ao fato de ser completamente inútil, mesmo que contra a vontade. Quando o garoto de roupas azuis bem clarinhas mediu minha pressão arterial, relaxei um pouco mais. Ele afastou-se em seguida, após regular o fluxo de soro no suporte conectado ao meu braço esquerdo. Senti a mão de Manuela na minha, e sorri. No fundo, eu sabia o quão complicada era a nossa relação, mas sabia também que tudo o que havíamos passado juntos, diminuíra o peso dos erros do passado. Era hora de finalmente esquecer, e tentarmos todos voltar à normalidade roubada por Topázio. De um jeito novo.
– Pensamos que você fosse ficar nervoso se acordasse aqui sozinho. Nos deu um susto e tanto. Outra vez. — Ricardo estava a centímetros do meu rosto, aflito até a ponta do pé. Com medo de como eu iria tratá-lo. Continuei absorvendo o ambiente, até ver Dante ao lado de Manuela, sorrindo. Não pude evitar, e acabei sorrindo de volta. Ver os cabelos bagunçados dele, e aquele sorriso de encher o mundo, fez tudo aquilo parecer mais fácil. Eu não teria sobrevivido longe de todos, se não estivesse ao lado dele. Tinha certeza de que apesar de doloroso, tudo havia sido como devia. De alguma forma. — Ainda sente-se tonto?
– Estou bem. Poderia estar melhor com um gole de vodka, mas acho que isso deve estar em falta por aqui. Pelo menos no hospital... — resmunguei, rindo no fim da frase. — Por que ninguém fala com a gente?
– As pessoas só falam sobre nós, por aqui. Mas estão com medo de falar com a gente. Parece que somos um tipo de celebridade instantânea. Sabia que o pai da Victoria é um dos Nove, e namorado da Faye? — Manuela cochichou, em tom conspiratório. Mas não havia ninguém mais na enfermaria.
– Por quê está murmurando, Manu? Endoideceu de vez? — minha risada foi sonora. Dante acabara de ler meu pensamento. Ele deteve-se diante da minha reação, e acabou sorrindo também. Ricardo notou o pequeno momento entre nós, e seu rosto tornou-se desconfortável. Ele pigarreou.
– É bom te ver bem, e sorrindo. Hugo, precisamos conversar... — Coloquei a minha mão sobre a sua. Todo o ambiente pareceu intensificar naquele momento. Meu olhar na direção de Rico foi profundo, enquanto eu tentava encontrar em olhos tão familiares, algo que eu ainda conhecesse. Percebi, que ele se tornara um estranho para mim. Alguém que eu amaria para sempre como o último membro da minha família, e que eu protegeria até o fim dos meus dias. Mas só. E isso me entristeceu mais do que se eu sentisse ódio por sua traição, e quisesse matá-lo por não encarar o problema. Não sentir nada, foi pior.
– Em breve. Agora não. Por que vocês dois não vão ver como vai indo a reunião de boas-vindas no Memorial? Poderiam se certificar de não esquecerem os nomes de nenhum dos nossos amigos que se foram. Ouvir dizer que Os Nove vão gravá-los numa pedra enorme. Vocês deviam ir até lá, e conferir — sugeri, quase implorando para que Dante e Ricardo sumissem dali. Era demais ter de encarar os dois ao mesmo tempo. Uma pressão silenciosa na qual ambos rezavam pra que eu enjoasse do outro, e Manuela torcia para que pudesse ficar com o que restasse. Pelo menos a situação parecia estar em minhas mãos. Podia ser pior.
– Sim. Vou colocar o nome da mamãe naquela pedra. — Ricardo inclinou-se, e beijou minha cabeça, seus lábios encostando em alguns fios de cabelo. — Ela ficaria orgulhosa de nós dois. Do quão longe chegamos.
– Vou por o nome da Mirla pra você, Manu. Fique com o Hugo por mim, sim? — Dante sorriu, e tocou de leve em minha mão, apertando e retirando-se em seguida. Manuela pareceu pensativa enquanto os dois iam embora.
– Que inveja de você, sabia? — A frase foi tão sincera e bem humorada, que acabei rindo. — Sério. O Dante está arrasado. Aposto que pra ele, você vai perdoar o Ricardo.
– Eu queria te dizer com certeza absoluta que não vou. Mas não quero pensar nisso agora — admiti, a vergonha fazendo arder minhas bochechas. — De verdade. Não pode me distrair com algum assunto?
– Que tipo de tarefas acha que vamos ter? As pessoas aqui se vestem com cores de acordo com seus deveres. Parecem castas. Assusta. Espero que não coloquem nós dois para cuidar de crianças ou lavar o chão... Se bem que pela segurança, eu faria os dois sorrindo. — Manuela parecia cansada, com olheiras e o cabelo preso à grosso modo. Senti-me solidário a ela, por nenhum motivo em particular.
– Deus a ouça. Tudo de que eu não preciso agora, é de mais uma surpresa ruim — resmunguei, fitando a janela ao meu lado.
Dali, era possível ver a aglomeração que começava a se formar lá embaixo, na ágora. Em breve, seríamos irredutivelmente assimilados por aquele grupo cheio de recursos e com aparência extremamente saudável. Mais do que qualquer um de nós poderia ter a esperança de pedir, depois de momentos tão ruins. O sorriso de Ana ainda era vivo na minha memória, e era fácil demais lembrar de sua perda. Bastava-me fechar os olhos. Ainda assim, o que mais intrigava-me, era saber porquê a ideia de estar naquele grupo não parecia inspirar nenhum dos meus melhores sentimentos...
Cecília.
As cores na Fortaleza, tinham um significado muito além do ordinário, e eram um meio de comunicação implícita, fácil de desvendar para alguém como eu. Durante muito tempo, minha vida se resumira às trevas e aos sons. Aprendi a valorizar minha visão, e a usá-la além da capacidade de qualquer outro. Antes, quando eu ainda era estudante e totalmente cega para as verdades da Deusa, não seria capaz de reconhecer minhas visões por aquilo que realmente eram. Avisos. Intuições. Livramentos de situações difíceis. Não. Ao contrário, preferi trancar-me em mim mesma, fazendo segredo até para os meus entes mais queridos. Tudo isso ruiu quando entrei naquela boate, e conheci Topázio. Em nosso tempo enclausuradas juntas, contei-lhe tudo sobre a Wicca. Tudo o que eu sabia, pelo menos. Foi mais uma revisão mental, então. Algo para manter a sanidade. Era difícil encontrar um grupo de bruxas praticantes no Rio de Janeiro. Meu coven era online, devido a isso. Minha Sacerdotisa, Belladona, era como uma mãe calorosa, incentivando-me a receber minhas visões com intensidade e entrega, e não medo. No dia em que fui mordida, e me tornei inumana, tive certeza de que a Mãe tinha planos para mim. E o Pai também. Apesar de não na concepção cristã, sempre acreditei em Deus. Não que ele tenha em algum momento se tornado homem, mas Cristo foi um grande bruxo. Pelo menos, não ouvi falar de nenhum homem não-iniciado, com poderes sequer semelhantes aos dele. Teologia à parte, eu sabia o quanto a fé era algo poderoso. Principalmente depois de ver por quanto tempo Topázio manipulou dezenas de pessoas, mantendo-me em cativeiro. As drogas, então. Uma parte negra da minha vida. Uma das maiores ofensas direcionadas ao meu corpo. Vez ou outra ainda sentia certa agitação, e terrores noturnos. Não podia permitir que Otávio soubesse de nenhum deles. Não com o pobrezinho tão fragilizado pela perda de Ana. Isso havia sido como esfolar um animal vivo. Forçou-o a demonstrar toda a sua fragilidade e humanidade oculta de todos, menos de mim. Otávio nunca deixou de ser o mesmo garoto inocente e engraçado que eu conheci. Mas as perdas estavam sendo duras, e cada vez mais, eu temia por uma ruptura definitiva. Uma mudança irreverssível. Por hora, eu sabia que seria perda de tempo concentrar-me nisso, principalmente porque nenhuma visão aterrorizante se fizera presente, e eu sabia o quão intensas e indefinidas elas podiam ser. Como no caso de Nanda, em que um pequeno detalhe fizera toda a diferença.
Caminhei ao lado de Otto em silêncio, quando Faye nos guiou através dos Alojamentos. O lugar era realmente enorme, com níveis subterrâneos de dar inveja à um arquiteto principiante. Havia muitos elevadores de vidro e metal maciço, talvez aço. Nunca fui boa referência à respeito de engenharia, então sei bem que minha descrição pode parecer pouco coerente. Mas ali estava eu, ao lado de todo o meu grupo (com excessão daqueles que haviam sido encaminhados para o centro médico), encolhida diante da grandiosidade daquela estação de alojamentos quase futurista. Cerca de duas rampas laterais principais, seguiam em espiral para os níveis superiores, enquanto mais duas guiavam para o interior do local. O átrio estava abarrotado de pessoas, e o piso de mármore negro fazia com que todo o local parecesse devorar as pequenas luzes fluorescentes acesas em locais estratégicos, nas pequenas lâmpadas internas, presas às pilastras e paredes. Uma mesa central, semelhante à uma recepção, erguia-se em material idêntico ao do chão e das paredes. Os detalhes prateados em aço polido, agregavam uma sobriedade quase governamental. Haviam alguns moradores da Fortaleza por ali, também. Um grupo de aproximadamente sete pessoas, com roupas negras detalhadas com cetim verde oliva, bem claro.
– Esses são Organizadores, submetidos ao Ministério da Logística, que o Renée comanda. — Eu não sabia quem era Renée, mas aqueles que haviam acompanhado Victoria para o interior do local, pareceram compreender melhor. — As cores das roupas são um meio de identificação, mas nada impede que uma pessoa mude de função, ou simplesmente se vista de outro modo. Roupas comuns são usadas em momentos como as boas-vindas no Memorial, ou festas organizadas pelo Ministério da Cultura.
– Essa é boa. Se eu tiver que usar rosa pink, juro que me atiro das muralhas que vimos lá fora. — Carol riu abertamente, cutucando Diogo com o braço. Ele sorriu de leve, aliviando sua expressão pesada pela ausência de Vicky.
– Não seria a primeira. Nos últimos dois anos, muitos encontraram a morte atirando-se dos Muros. Por isso, ficou proibida a circulação de qualquer um que não pertença aos Sentinelas. Entre os defensores da Fortaleza, não são tolerados suicidas, nem covardes — o tom de voz dele era calmo, mas suas palavras pareceram ferro em brasa, sobre nós. Toda a nossa pequena excursão parou em frente à recepção, enquanto os Organizadores corriam com fichas, recolhiam nossas digitais e anotavam nossos nomes, um a um. — Boa tarde a todos. É um prazer conhecer os amigos, ou melhor, a família de minha filha. Sou o Allan, e ficarei contente em ajudar Faye a alojar todos confortavelmente.
– Prazer, sogro. — Diogo adiantou-se, estendendo a mão para Allan. O homem avaliou-o lentamente, enquanto Otto suprimia uma risada ao meu lado, bem como Carolina. Pisei no pé de Otávio. Ele estava sendo muito inconveniente.
– Ai. Doeu! — Cobri meus lábios com o indicador, virando-me em sua direção. Ele calou-se. Arantes pareceu divertir-se, enquanto o momento entre os dois homens demorava-se, e Victoria adquiria cada vez mais, certo tom de roxo.
– Prazer. Imaginei que minha filha fosse demorar-se o quanto pudesse, para apresentar-nos de modo apropriado. Pelo que posso ver, você conhece-a tão bem quanto eu! — Allan estava rindo, e Diogo também. Todo o grupo pareceu soltar a respiração, enquanto o choque de Victoria era palpável. Admiti que era divertido. Meu olhar foi atraído pelo pequeno garoto ao lado dela, um menino muito bonito, e de olhos idênticos aos da irmã, apesar de negros. Ele estava um tanto desconfortável em nossa presença, embora parecesse interessado em Vilma, que fingia desinteresse e evitava encará-lo. Sorri. Podia sentir que uma conexão com os gêmeos não demoraria muito.
Após o pequeno momento de tensão, cada um de nós recebeu um cartão de identificação, com nosso nome impressão. Fiquei completamente abismada com aquele tipo de recurso. Tecnologia que eu não via há no mínimo, dois anos. Só a eletricidade ao redor já era impressionante. Numa elucidação rápida, Allan explicou que toda a Fotaleza funcionava com um sistema gerador de energia à base de luz solar, além de diversos receptores de energia eólica em atividade na Fazenda, de onde os produtos naturais e a maior parte dos alimentos vinha, já que a pesca não era segura. Segundo o Conselheiro, a ilha artificial ficava distante o suficiente, para que nenhum tipo de enxame teleguiado pudesse captar os campos elétricos gerados pela força ali produzida. Inclusive, desde o início da epidemia, apenas por duas vezes o local havia sido de fato ameaçado, e a "rebelião" do antigo Presidente era um dos motivos. Com os recentes acontecimentos por ali, o moral da população estava baixo. Nossa chegada, como salvadores responsáveis por guardar Faye e sua equipe, aliviara muitas tensões internas. Por isso, estávamos sendo particularmente agraciados pela Presidente Silvia, com instalações tão boas quanto as dos Secretários dos Nove. Achei uma posição injusta, ainda que não estivesse reclamando. Um de nossos luxos como "campeões do povo", seriam chuveiros elétricos, enquanto a população comum não os possuía. Lembro-me de que o pensamento foi mais um pressentimento do que uma premonição, mas tive certeza de que aquele tratamento especial causaria transtornos. Eu só não imaginava que seriam tão devastadores.
Apertados no elevador transparente, acompanhamos a descida até o penúltimo nível mais baixo dos alojamentos. Quanto maior o grau de importância na Fortaleza, mais subterrâneo sua instalação seria. Era necessário prevenir que os cidadãos de importância essencial para o funcionamento da ilha permanecessem seguros. A naturalidade com que Allan dizia aquilo, fez com que eu entendesse que ele realmente era alguém que sempre tivera de tudo, em sua vida pregressa. Era perceptível o lento desconforto em Victoria, ao perceber que seu pai permanecia o mesmo, quando ela já mudara tanto. Todos nós, inclusive. Mesmo Carolina, parecia um pouco contrariada. Eu não duvidava que um bom banho a deixaria devidamente feliz, então. Nem mesmo o amor de Jonas poderia mudar sua verdadeira essência. Carolina era uma pessoa muito boa, e muito hábil em esconder seus sentimentos. Ainda assim, gostava do conforto. O que não é defeito algum, quando você é forçado por anos a abrir mão dele. E, se Topázio não fora capaz de convertê-la, com suas promessas de uma vida segura quando mais estava assustada, Carolina não seria problema. A Fortaleza não a mudaria. Mas ela não era minha única preocupação. Qualquer um de nós poderia surpreender a si mesmo, e a todos, se as tentações certas fossem impostas.
– Bom, pessoal, chegamos ao corredor dos Secretários. É o penúltimo andar, acima dos alojamentos dos Nove. Lembrando que é proibida a entrada no último andar sem autorização prévia da Presidente Silvia, ou sem que um dos Conselheiros se responsabilize por você. Quem desobedecer será enviado para os níveis subalternos, onde fica a Prisão. Na cobertura do edifício. — Allan abriu a primeira porta ao seu lado. — Os Organizadores do Renée indicaram este quarto para Arantes, Carolina e Helena. A quarta vaga já está ocupada por Matias Cortes, no quarto masculino.
– Sério que eu vou ficar com o Matias? Quem foi que organizou isso aí? — Carolina estava desconfiada. Fiquei curiosa sobre seus motivos.
– Minha secretária, Valentina Cortes. — O quarto membro do alojamento era o irmão da Secretária de Defesa. Não devia ser má pessoa. Por algum motivo irritante, Otávio não parava de sorrir, fitando Carolina com um prazer oculto beirando à maldade.
– Ele namorou a Carol na escola. Era nosso colega de classe. — Ergui as sobrancelhas em sinal de surpresa, e Otto piscou. Estava explicada a situação embaraçosa. Lentamente, os designados entraram em seus aposentos, reduzindo nossa pequena caravana.
– A seguir, fica o alojamento de Ricardo, Manuela, Dante e Tânia. Como todos estão na Enfermaria, ele permanecerá fechado. Os cartões deles serão entregues à Victoria, para que ela os repasse quando for buscá-los no centro de enfermagem. — Faye entregou quatro cartões para Vicky. — Ah, avisem a seus amigos, que estes cartões são apenas como identidades. Identificação. Para entrar em seus quartos, precisam apenas tocar um destes sensores. — Tocou a maquininha ao lado da porta, cujo brilho verde tornou-se azul, destravando-a. — Está programado para aceitar a entrada de seus quatro usuários, e qualquer um dos Nove, que têm livre acesso a qualquer quarto. Ela trancou novamente a porta do alojamento, chegando ao próximo. — Este, pertence aos gêmeos. Vocês vão adorar o quarto, crianças. Victoria e Diogo vão ficar com vocês.
– Isso é mesmo necessário? — A voz de Allan era neutra, mas podia-se sentir a queixa muda por trás da frase.
– Essas crianças foram confiadas a mim, pai. Pelo irmão delas. Eu e Fernanda somos responsáveis pela educação deles. E bem, Diogo sempre fica comigo. Não é novidade nenhuma para nós. Desculpe. — Victoria deu um choque de realidade em Allan, que piscou duas vezes até entender as implicações que o tom de sua filha sugeria. Sussurrando desesperadamente, Vicky se fizera entender sem maiores alardes. O que combinava muito com ela.
– Bom, por último temos o quarto de Cecília, Otávio, Fernanda e Hugo. Vocês dois podem entrar na frente, e receber os colegas de vocês quando eles chegarem. Bom descanso. — Faye abriu nosso alojamento, e segui Otávio para o interior do cômodo.
– Essas crianças cresceram muito. Viu o tamanho daquele Diogo? Minha garotinha com um homem grande daqueles... — ouvi Allan reclamar, enquanto abraçava Faye, perplexo. Sorri enquanto fechei a porta do aconchegante dormitório, produzindo um pequeno "click", quando ela trancou-se automaticamente.
Otávio sentou-se na pequena poltrona acolchoada, de um azul metálico que beirava ao verde escuro. O som das amolfadas moldando-se a ele pareceu o suspiro de uma velha amiga encontrando seus benfeitores, após anos de solidão. O cheiro era puro, sem resíduos de produtos de limpeza, nem sinal de mofo. O tipo de ambiente realmente limpo, intocado. Olhei ao redor, um pouco enclausurada por saber que tratava-se de um cômodo no subterrâneo, mas não senti a opressão do ar, nem falta de janelas para o exterior. Uma janela de ventilação aspirava a poeira do ar, acima da minha cabeça. Observando de modo mais calmo e atento ao redor, notei pequenas janelas semelhantes, espalhadas para cada ponto do quarto. A sala comunal na qual estávamos, era apenas a antecâmara para duas portas. Curiosa, aproximei-me. Abri uma delas, e uma cama sóbria de lençóis brancos revelou-se. Duas pequenas cômodas de madeira de alvenaria conferiam ao ar nos arredores, sabor amadeirado. Apesar do ar puro e refrescante, o cheiro era característico e ao mesmo tempo, reconfortante. Parecia algo esculpido à mão, obra de um carpinteiro talentoso. Ouvi o som da outra porta abrindo-se, e fechando-se logo em seguida. Quando virei-me para chamar Otávio, perdi ao fôlego ao bater de frente com seu peito, quase desequilibrando-o.
– O outro quarto é idêntico a este. Sem chance que você vai dormir com a Fernanda. Ela vai ficar bem com o Hugo. Certeza. — Suas mãos já estavam por toda a parte, tentando despir-me. Eu não era puritana. Sabia que os homens podiam entrar num estado de desejo tão cego quanto o deus assumia, na época da colheita. Quando o momento é propício na roda do ano, e a deusa procria a vida, e com ela faz girar as estações. Mas Otávio não era como os outros homens. Ele era gentil, mesmo com pressa. Suas mãos não puxavam nem apertavam, mas deslizavam quase cirurgicamente pelo meu ventre, sob o tecido fino da blusa de mangas compridas que eu ainda estava usando. — Você passou direto pelo banheiro. Aposto que nem o viu ainda.
– Não vi mesmo. Juro que não consigo entender essas portas da cor da parede, que mais parecem passagens secretas. Encontrar o banheiro é algum tipo de missão, ou o quê? — comentei, permitindo que Otto guiasse nossos corpos de maneira trôpega, em direção ao chuveiro. Havia uma limpeza profunda no recinto de azulejos azuis e teto metalizado, com luz neutra e detalhes em aço, como as saboneteiras, cabides para toalhas de banho e maçanetas da porta de vidro ao redor da banheira de pedra branca.
Abrimos a porta de vidro, e entramos na banheira. Otávio ainda estava usando suas calças. Eu, contente por sentir a água quente escorrendo pelas minhas costas nuas, afastando meus cabelos do rosto. Abri a boca e a água doce preencheu-me, maravilhosamente. Não recusei-me a engolir alguns goles. A água daquele chuveiro era mais limpa do que a de muitos outros lugares, de onde havíamos retirado a solução para a nossa sede. Sorrindo, suspirei quando senti as mãos de Otto massageando meus ombros. Encostei-me a ele, sentindo seu peito molhado contra mim. Esfreguei meu corpo com a esponja pendurada na beirada da banheira, utilizando o sabonete líquido sem cheiro para me livrar de qualquer resquício do lugar caótico que deixáramos para trás. Quando a banheira ficou cheia, Otto fechou a torneira, e sentou-se do lado oposto, observando-me. Ele já havia despido-se completamente, mas parecia distraído pelo meu banho demorado. Quase um ritual, eu diria. Estava imensamente grata por estar limpa, finalmente.
– Eu poderia olhar pra você o dia inteiro. Nem ficaria enrugado nessa água quente pra caramba! — Eu sorri, juntando meu cabelo molhado de um lado do pescoço. Movi-me lentamente em direção a Otávio, sentando-me entre suas pernas. Ele beijou minha nuca, e seus braços envolveram-me como se fossem feitos para mim. Tudo ficaria bem, se eu continuasse acreditando nisso. Acreditando que, independente do que acontecesse, nosso lugar sempre seria ao lado, um do outro. Juntos.
– Não precisa ficar olhando, você sabe... — provoquei, sem conseguir conter o riso proeminente no fim da frase. — Não acredito que estamos aqui. É bom demais...
– É inevitável ficar desconfiando. Você não precisa se culpar por isso. É instinto, Cecília. Depois do que Topázio fez com você, é compreensível... — interrompi seu falatório, cobrindo sua boca com minha mão. Estava ajoelhada na banheira, agora de frente para ele. A pele muito branca de Otávio, estava vermelha com o calor da água. As pequenas sardas em seus ombros, que eu não conhecia, pareciam lindas contra a luz fluorescente. Cores. Tudo o que eu mais amava, depois de curada. Enquanto investi sobre ele, Otto pareceu desarmado, ansioso. Ele não se moveu, e quando retirei minha mão, continuou parado. Lentamente, aproximei o meu rosto do dele, e toquei os seus lábios com os meus. Durou menos de um segundo, até que ele correspondesse e trouxesse meu corpo para junto do seu.
A água começava a esfriar, mas não nos importamos. O toque dele era quente o bastante para afastar o frio, o medo, e qualquer resquício de raciocínio lógico que eu pudesse desenvolver naquele instante. Era simplesmente demais para lidar, e minha urgência era tão grande quanto o amor que eu sentia por ele. Impondo-me sobre o seu corpo, senti minha respiração falhar quando nos conectamos, e Otto disse o meu nome, os pelos de seus braços completamente arrepiados enquanto pressionavam minha pele. Lembro-me de cada fragmento daquela sensação, e o que senti, foi que irreversivelmente pertenceríamos um ao outro. Para sempre. Como o amor eterno que une a Lua e o Sol. O Deus e a Deusa. Água e Fogo. Terra e Ar. Otávio era o meu Espírito. O meu tudo. E apesar de poder enxergar, não tive medo de fechar os meus olhos, e contemplar a escuridão. As trevas não tinham poder algum sobre mim. Não mais. Sustentando o meu peso, Otávio apoiou as mãos nos dois lados da banheira, e ergueu-se lentamente, pondo-me em seu colo. Juntos, nos movimentamos com a sintonia de um instrumento, e seu músico. Como se nada pudesse de fato, nos afastar. A despeito da temperatura da água, ou do frio que o ar condicionado central trazia aos poucos, podia ver as gotículas de suor na testa de Otto, através dos seus cabelos negros. Ele parecia ainda mais bonito em êxtase. Uma expressão que somente eu poderia conhecer. Uma parte dele, que me pertencia. Um segredo, assim como o que eu entregava a ele. E pouco depois, quando tudo acabou, nenhum de nós parecia particularmente infeliz. Sabíamos que, agora, teríamos uma verdadeira chance. A possibilidade real de termos uma vida assim, por muito tempo. Estabilidade e segurança. Um lugar cheio de gente, cheio de luz. Sorrindo e beijando seu rosto, senti-me lânguida como a serpente que se arrasta no deserto. Totalmente satisfeita, e exausta. Sem o domínio real de minha consciência, permiti que Otto me erguesse, levando-me de volta para o quarto. Um cavaleiro e sua dama. Rindo com o pensamento divertido (Otto de armadura era simplesmente hilário), adormeci.
No sonho, eu estava sentada de frente para uma fonte, num vasto jardim. Sabia que era um sonho, porque jamais em minha vida vira uma estátua de Afrodite tão bela, quanto aquela de onde fileiras de água cristalina tremulavam, dançando sob os espectros de luz do sol. Claro, o dia era agradável. Não senti calor algum contra minha pele, não estava suada. Meu vestido, era branco e cheio de flores bordadas em cor de rosa. Lembrei-me com um sorriso tímido, que quando menina aquela era minha roupa favorita. Isso parecia ter sido há muito tempo, mas não ali, naquele lugar de paz e reflexão. Ali o tempo pouco importava, porque era a minha alma que estava sendo meu guia. E ela me levava tranquilamente, enquanto caminhava em direção ao interior da trilha de cascalhos, que levava para a pequena floresta atrás da fonte. Olhei para trás, curiosa, pouco antes de perder o monumento de vista. Atrás do banco onde eu estava sentada, havia a casa grande de uma mansão vitoriana. Um lugar muito parecido com aquele em que eu crescera. Torcendo as mãos de ansiedade, comecei a saltitar (literalmente, como uma criança), através das árvores. Eu não conseguia entender bem as razões para que meu corpo parecesse tão fora de controle, mas aí entendi. Era uma lembrança, e não só um sonho. A primeira vez em que eu pensara ver o futuro. O dia em que meus pais se afastaram de mim. Caminhei mais rápido então, convencendo-me de que não adiantaria resistir àquilo. Aquele fluxo de eventos deveria seguir o seu curso. Eu, mais do que ninguém, sabia que existiam forças inexplicáveis contra as quais era melhor não lutar. Finalmente deparei-me com uma praia. A areia era de um dourado cor de creme alucinante. Não havia impureza ali. E com certeza, não havia uma praia de verdade na mansão dos meus pais. Também era sonho, então. Eu tinha algum livre-arbítrio, e alguma parte naquilo tudo. Algo que deveria me lembrar, quando despertasse.
– Você está certa, filha — a voz era igual a da minha mãe, mas tão cheia de amor, que eu sabia não ser a dela, realmente. Ela nunca havia falado comigo daquele jeito. Não depois do dia em que eu havia vislumbrado o futuro, pela primeira vez. — Eu lhe trouxe até este momento. Há algo que preciso lhe dar.
– Minha Deusa — murmurei. Eu estava morrendo de medo. — A senhora já me deu tudo que eu poderia querer. Até mesmo a cura para minha cegueira.
– Mas eu não tomei parte em sua cura, criança. Se para você ela é uma benção, não veio de mim — caminhando em minha direção, Gaia saiu do mar, vestida de azul. Seu vestido era a espuma do mar. Em seus cabelos, conchas e pérolas brilhavam, como joias. Sua pele era do tom das montanhas, bronzeada como os troncos das árvores. Seus cabelos, o fluir dos rios, lisos e negros, escorrendo através de sua silhueta. Os seios eram fartos, e o olhar gentil. Majestosa. E humilde. — Todo o seu caminho, lhe trouxe para mim, filha. Desde que a balança do equilíbrio que protege este mundo quebrou-se, tenho tido certa permissão para interferir. De maneira muito mais direta.
– Através de mim? — nem em um milhão de anos eu me consideraria digna.
– E de outros também, ao redor do mundo. Há muitas outras histórias, tão importantes quanto a sua e de seus amigos. Os sacrifícios de todos, determinarão o destino da humanidade. Tudo começou aqui, no Brasil. Mas as sementes da destruição já haviam sido lançadas pelos seus antepassados. Desde a aurora da humanidade. Em algum momento, eu teria de permitir à Terra, que revidasse — seu olhar tornou-se triste, quase cansado. — É terrível o que os humanos são capazes de trazer à eles mesmos.
– Eu concordo. Conheci o pior da humanidade, Mãe — choraminguei, parecendo tão infantil quanto o meu vestido. Eu nunca me queixara da tortura. Da abstinência. Mas para ela, eu podia. Podia chorar. Podia ser frágil.
– Eu sei, filha. Mas eu a protegi, também. Mesmo o cárcere, a manteve a salvo. Somente a prisão impediu que você deixasse a boate, e perdesse o seu destino. Você presicava encontrar estas pessoas. Ou minha mensagem agora, não poderia ser entregue. O dom que eu lhe concedi, desde o nascimento, é seu. Escute minha voz. Controle-o. Neste lugar, um dos maiores testes da humanidade será realizado. Você precisará ser forte. Enxergue a verdade, filha. Lembre-se dos Falsos Profetas. Há dignidade, entre aqueles que os acolheram. E também, traição. Este é meu último presente. Um aviso, e uma benção. Não considere sua visão uma cura. Pois ela a cegou para todo o resto, e lhe retirou minha defesa. Agora, você deverá contar consigo mesma. — Gaia aproximou-se, e envolveu-me num abraço, afetuoso. Sorri e chorei, por um tempo que não sei processar. Pode ter sido um segundo. Para mim, foram séculos. — Lembre-se de mim. Eu sou todas as deusas, e nenhuma. Sou a Virgem, e também a Bruxa. E estou em toda parte, com vocês.
– E nosso Pai? Onde ele está? — indaguei, ansiosa. Eu queria ter esta última dúvida esclarecida. O Deus de Fernanda era real?
– Minha filha... Por que acha que ainda respira? — rindo, Gaia mandou-me um beijo, e começou a retornar em direção ao mar. — Olhe para a terra, e me encontrará. Olhe para o céu, e o verá...
Nanda estava sobre mim, seu rosto pairando emoldurado pela cabeleira ruiva, brilhante. Sua expressão era cautelosa, mas cheia de afeto. Sorri ao vê-la. Só então notei que estava vestida. Minha camisa de mangas compridas (grande o bastante para cair até o meio das minhas coxas), estava de volta. E Otávio não estava em parte alguma. Curiosa e intrigada ao mesmo tempo, sentei-me lentamente, encostando-me contra a cama. Fernanda sentou-se, e notei que suas unhas estavam perfeitamente normais. Até poderiam disfarçar sua condição, não fossem os olhos. Ela também estava muito mais limpa, revigorada. Isso deveria significar que os bebês estavam bem. Meu coração relaxou um pouco mais, antes de finalmente tomar fôlego. Ainda não estava totalmente recuperada da (ótima, diga-se) experiência anterior.
– Esse lugar é incrível, não é? Dá até medo, de tão grande. — Nanda sorriu, contorcendo-se involuntariamente na cama, como uma menina inocente de quinze anos, outra vez.
– Realmente. Mas ao mesmo tempo, é tranquilizante saber que existe um oceano entre nós, e aquelas coisas... Estamos recomeçando, realmente — conclui, pegando a mão de Nanda entre as minhas. O sonho recente retumbava na minha mente, mas eu não permitiria que ele impedisse-me de vivenciar o momento. Podia ser tudo coisa da minha cabeça, apesar de eu achar algo extremamente inviável.
– Mais uma vez, né? — Nanda respirou fundo, e mordeu o lábio inferior. — É. Sinto falta do Gabriel. Ele ia amar isso aqui.
– Vamos deixar o nome dele, no Memorial — chamei, sorrindo. De fato, estávamos em cima da hora para a cerimônia em nossa homenagem. Pelo menos, assim dizia o relógio na parede em frente à minha cama. Era estranho ver que o tempo voltava a significar alguma coisa. Eu precisaria me acostumar a isso.
E, apesar das palavras de Gaia na beira daquela praia intocada, resolvi que ao menos durante aquelas boas-vindas, eu seria apenas a Cecília. E não uma bruxa. Não uma vidente. Só uma garota feliz por estar segurando a mão do namorado, ao lado dos amigos, e por ter escapado da morte num ambiente hostil e que parecia finalmente, distante. Se ao menos minha guarda não estivesse tão baixa, talvez eu estivesse pronta para o que viria a seguir. Mas nunca saberei o que poderia ter acontecido. Apenas posso lamentar toda a tragédia que se iniciou, naquela noite. Pois foi ali, que nossas vidas abateram-se outra vez, em quebranto.
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