Quebranto.
84 Memorial.
Notas iniciais
Carol.
– Então, Helena, pode me dizer exatamente a razão para todos estarem tão animados sobre nós? Quer dizer, eu entendo que somos a maior novidade por aqui em muito tempo, e que as pessoas estão nervosas depois do tal Orlando. Mas é só isso mesmo? — Eu duvidava muito. Por sorte, ela não esconderia nada de mim por muito tempo já que, apesar da presença de Matias e Arantes em nosso pequeno quarto, eu reconheceria facilmente uma mentira. Aquela garota não parecia especialmente acostumada a mentir, nem esperta o bastante para dissimular com a qualidade necessária para me enganar.
– Você tem razão sobre isso, Carolina. As pessoas da Fortaleza não estão apenas curiosas e animadas. Muitos estão morrendo de medo da Victoria, e da Fernanda. Não sei se você reparou, mas não tem nenhum inumano nessa ilha. As pessoas daqui não entendem bem os transgênicos, e nunca conheceram indivíduos capazes de adaptarem-se tão bem ao vírus GM. Então, é particularmente assustador conhecer o seu grupo. A forma como chegamos... Até o mais fraco de vocês parecia capaz de matar nossos sentinelas com facilidade. E talvez, depois de tudo o que viveram, sejam. As pessoas têm medo disso. — Não gostei da forma como ela falou sobre nós, mas conclui que ela devia ter razão. No entanto, achei um absurdo ficar calada ouvindo, quando durante muito tempo foi a nossa "brutalidade" que a manteve viva. Assim como Faye.
– Só não esqueça quem foi que matou o Herbert friamente, lá em Búzios. Arantes foi bem mais cruel e vingativo do que qualquer um de nós, e seu povo não tem medo dele porque acha que o conhece. Eles vão perceber que estão enganados sobre nós, também. — Arantes pareceu irritado com minha colocação, e retirou-se para o banheiro, em silêncio. Matias continuou calado, fitando as próprias mãos enquanto fingia não prestar atenção na conversa. — Eu sei que eu sugeri fazer aquilo, mas eu sou uma cretina assumida. Isso é esperado de mim. Não sou do tipo que finge ser aquilo que não é. Fico feliz que tenhamos esclarecido isso.
– Fique tranquila, Carol. Aceite esse presente, estamos num lugar seguro. Não precisa ter medo da sua sombra. Todos vamos ficar bem. Você vai se enturmar rápido, quando receber sua designação. Ter um trabalho a fazer é o que mantém esse lugar, e as pessoas funcionando. — Helena sorriu, e pegou minha mão. — Sou muito grata pelo que fez por nós, lá em Búzios. Mas realmente acho que você devia aposentar a armadura, por algum tempo. — Ela levantou-se, e caminhou em direção a porta, que dava para o corredor principal. — Arrumem-se logo, dentro de duas horas precisamos estar na ágora. A cerimônia de boas vindas. Não se atrasem. Vou ver se Faye precisa de mim no laboratório.
A porta fechou-se atrás dela, e fiquei olhando para Matias, surpresa com a forma com que o Universo parecia trazer de volta fragmentos da minha vida. Nem podia acreditar na sorte que Victoria tinha, por seus pais estarem vivos. Ainda que não fosse totalmente sorte, agora que todos sabíamos da história sobre o GM, e a Farmacêutica Keiko. Eu só estranhava que Matias ainda estivesse vivo, e longe da ilha particular de sua família. O que teria acontecido? Ele pareceu notar minha curiosidade, e soltou uma risada diante do meu olhar. Ia falar algo, e debrucei-me sobre a mesa de mogno entre nós, mas Arantes interrompeu meu gesto, abrindo a porta do banheiro e saindo através do quarto, de roupas camufladas pretas e uma boina torta muito engraçada. Ele não dirigiu palavra a mim, deixando o recinto rapidamente. Dando de ombros, voltei meu olhar para Matias, apenas para encará-lo sorrindo para mim, em silêncio.
– Está te matando, não é? — Arrumando os cabelos castanhos avermelhados, ele parecia bem mais bonito do que realmente era. Eu não me deixaria enganar pela empolgação. Ele continuava o mesmo bobalhão de sempre. — Acho que não saber o que me aconteceu, está te incomodando mais que a recepção da galera.
– Não é que você tem razão? Olha Matias, eu não lembrava que você era tão observador. Um gênio, realmente — resmunguei, revirando os olhos. — Agora me diz, você e sua irmã passaram por umas boas, não é?
– Sim — concordou, e seu olhar não era mais tão animado. — Meu pai preferiu se proteger por si mesmo, apesar de ter ajudado no Projeto GM. Enquanto eu transmitia meu blog, as coisas pareciam estar dando certo. Até que não deram. Nossa ilha foi invadida por uns caras. Um bando de soldados com uma embarcação roubada da Marinha. Os seguranças revidaram, e tivemos mortes. Os mortos... Bem, eles voltaram.Eu e Valentina fugimos com minha mãe e dois amigos. Meu pai foi baleado. Nosso barco ficou sem gasolina, e o Almir enlouqueceu depois de beber água salgada. Ele se afogou. Minha mãe tinha sido arranhada. Ela... Ela acabou não sobrevivendo. Chegamos até aqui depois de uma patrulha da Fortaleza nos encontrar à deriva. Nosso barco estava sendo puxado para a costa da ilha. Algo sobre uma correnteza marítima, ou algo assim, salvou a nossa vida. O pai da Vicky estava supervisionando a ronda. Ele me reconheceu. Nos deixou entrar. — Matias ficou sério, mas então sorriu. — É estranho chamar a Victoria de Vicky. Quer dizer, ela sempre foi legal na escola, mas eu nunca falei realmente com ela. Minha amiga era a Ana, e eu sempre a ouvia falando tão bem de vocês, que acabei me aproximando à distância.
– Ela falava bem de todos? — pensar em Ana deixou-me abalada, e de repente, falar sobre ela foi reconfortante.
– Ela gostava muito de você, Carol. Apesar de não concordar com algumas coisas na época da escola, e dizer que você era superficial, fútil e fácil com certa frequência. Mas ai de quem tentasse dizer o mesmo, na frente dela! Ela virava uma fera pra te defender! — Agora era Matias quem estava me reconfortando. — Acredite, você era muito querida por ela. Não acho que você precise realmente de mim, pra te dizer isso.
– Eu sei que preciso. É muito fácil esquecer, nesse mundo... — suspirei. — Eu também a amava. Mesmo com as nossas brigas. A maioria delas sempre foi culpa minha, em todo o caso.
– Isso não é nenhuma novidade, pra mim — Matias continuava me observando, mas algo mudou em seus olhos. Uma ternura desconhecida, mas sempre presente em seus gestos. — A melhor coisa que fiz foi não te deixar reprovar, na escola. Adorei ter passado aquela última noite com você, de verdade. Mesmo que você tenha se recusado a ir até em casa, comigo. Poderíamos ter passado por tudo isso juntos, até hoje.
– Eu nunca contei aos meus amigos, que você me deu essa escolha. É claro, eu não sabia que você acabaria me salvando. Mas nunca mencionei que poderia ter ido embora com você. — Acariciei o rosto dele, esticando meu braço sobre a mesa. Ele cobriu minha mão com a dele, e a beijou. Foi legal sentir aquilo de novo, mas levou certo tempo até perceber que o peso em meu peito ao lembrar de Jonas, não iria a lugar algum. Ainda era estranho pra mim, estar sozinha com outro cara. — Mas não me arrependo de estar lá para os meus amigos. Eles precisavam de mim, e eu precisava deles. Algumas coisas simplesmente precisam acontecer, como disse a Ana.
– Sim. Elas precisam. — Seus olhos azuis brilhavam, e o cabelo castanho pareceu comprido demais, enquanto ele tentava prender meu olhar. Ainda assim, a descontração em seu semblante tornou o gesto sexy, ainda que eu não estivesse pensando exatamente naquilo, no momento. — Vamos para o Memorial? Está começando.
Nós fomos. No caminho, encontramos nosso pessoal deixando os quartos. Meu cabelo ainda estava molhado do banho, e minhas roupas simplesmente cheiravam mal demais, agora que eu estava limpa. Cecília e Otto estavam por perto, com Nanda, os gêmeos, e Victoria trazendo Diogo consigo. Meus amigos. Com um aparência melhor do que eu lembrava de tê-los visto, desde o incidente na pousada. Fizemos uma fila completamente desorganizada, até que Faye surgiu, vinda do último nível. Ela estava acompanhada do pai de Victoria, e parecia deslumbrante. Estava usando um uniforme azul marinho, um terno idêntico ao das outras Conselheiras, embora não fosse vermelho. Tio Allan vestia um terno preto, e uma gravata de cetim vermelho, muito brilhante. Os dois estavam usando alianças idênticas. Foi o que me lembrou da coisa de "marido", que o Otto havia mencionado. Como Victoria devia estar à respeito disso? Dentre todos os membros do nosso pequeno grupo, apenas Tânia e Hugo não estavam presentes. Hugo ainda estava atordoado depois do atendimento precário realizado por Faye em Búzios, e Tânia estava muito resoluta sobre vigiar os bebês o tempo inteiro. Apesar das tentativas de Nanda, para trazê-la aos dormitórios. E eu não sei quanto aos outros, mas eu achei bem esquisita essa coisa de deixar as crianças aos cuidados da enfermaria de um lugar onde acabei de chegar. Ou Nanda não estava batendo bem da bola, ou realmente estava acreditando cem por cento que havíamos encontrado uma utopia, ou o que fosse. E se Topázio não havia nos ensinado nada, então talvez os mercenários tivessem. Não dava pra confiar em ninguém. Principalmente em outros grupos. Deus!
– Olá, a todos. É muito bom desejar-lhes uma boa noite, na Fortaleza. — Faye parecia deixar o mundo mais tranquilo, quando sorria. Era como uma boneca de porcelana. Será que se ela tropeçasse e caísse, quebraria? Eu me perguntava. — Agora que estão todos limpos, vamos caminhar em grupo até a ágora. Nossa população espera por nós. Em breve, vocês farão parte de nossa comunidade, e espero que juntos, possamos reconstruir o mundo que uma vez possuímos.
– Sigam-nos, por favor. Arantes está aguardando com alguns sentinelas para escoltá-los durante a caminhada, apenas para efeitos de homenagem e protocolo. Não se preocupem. — Allan ativou a plataforma onde todos estávamos amontoados, e subimos através dos níveis superiores.
– Não acham exagero, essa homenagem toda? Quer dizer, não é como se algum de nós realmente tivesse salvo essas pessoas — disparei, mas minha vos saiu três oitavos mais aguda do que eu imaginei. Não queria bancar a azeda.
– Você está certa, Carol — confirmou Allan. — Mas como Conselheiro de Defesa, acredito que um evento popular como esse, pode ser bom para o moral. Principalmente depois da execução de nosso Presidente anterior, e do banimento de dezenas de cidadãos rebeldes, para o continente. Além disso, a equipe de Faye foi considerada morta. Não sabíamos o quão ruim Búzios estava. Tê-los de volta é um consolo, depois do conflito pelo qual passamos. Vocês não estavam aqui. Não entenderiam quão rápido as coisas ficaram bem ruins.
Eu não estava plenamente satisfeita, mas serviria, por hora. Preferi não encher o saco de Allan, especialmente enquanto todos estavam ouvindo e olhando. Victoria estava praticamente babando pelo pai, mas eu sabia que quando a saudade passasse, as perguntas viriam. Assim como a irritação pela perda de sua mãe. Talvez nessa hora, fosse o momento certo para conseguir respostas. Eu não queria que ninguém pensasse que nossa líder não mandava em nada. Se já a temiam por ser inumana e filha de um Conselheiro, dar a impressão de que seu grupo era composto por rebeldes (contando comigo), seria pedir por encrenca. Ao invés disso, deixamos o prédio dos Alojamentos sob palmas animadas das pessoas, e o som estridente de uma maldita corneta, tocada por um dos sentinelas. Desejei fazer aquele cara engolir aquela coisa dourada inteira, e de uma vez só. Odiava o som daquelas coisas. Mas sorri, com animação e felicidade realmente verossímeis (e até certo ponto, legítimas), enquanto caminhávamos o caminho de volta através do centro pavimentado, da Fortaleza. Uma espécie de pátio central, cercado pelos edifícios funcionais. Estes, cercados pelos Muros, em seguida. No pátio, haviam coisas interessantes. Uma fonte, vários banquinhos de ferro ou madeira, mesas de concreto com tabuleiros de xadrez formados em azulejos brancos e negros. E a ágora. Uma estrutura enorma, que lembrava muito um coliseu. Ou o Maracanã. Só que pela metade. A coisa parecia uma arquibancada gigante, de pé a duas quadras da Escola. Era virada na direção dos outros prédios, com um tablado de mármore elevado, e posicionado de frente para quem estivesse sentado naqueles lugares apertados. Sobre este tablado, estava uma imensa estrutura de esteatito, cuja base era coberta por mármore negro e bordas de aço inoxidável. Sobre a estrutura, uma surperfície lise formava uma enorme mesa de pedra, onde dezenas de nomes já haviam sido entalhados. Um rapaz negro, com braços muito fortes, estava segurando um pequeno martelo e um prego comprido porém fino, de aparência bem resistente. Ele escreveria os nomes que pedissemos. Matias segurou minha mão quando chegamos mais perto, e começamos a tomar nossos lugares, lentamente. A multidão acompanhou nosso cortejo, e estava sentando-se também. Velhos, crianças, adolescentes, mães e pais. Pessoas comuns. Foi fácil imaginar a curiosidade deles sobre nós. Que bom que isso estava sendo motivo de riso, por enquanto. Mas até quando?
Os Nove chegaram logo depois. Com exceção de Faye, todas as Conselheiras usavam terninhos vermelhos. Os homens, ternos negros ou cinzentos, com gravatas vermelhas. Assim como os assistentes e secretários que os serviam. Ninguém nas arquibancas usava esta cor, no entanto. Referência aos romanos, talvez? A cor vermelha como símbolo de poder? Interessante. Silvia usava um broche diferente das outras mulheres. Uma bandeira do Brasil minúscula contrastava ante a luz das muitas velas e tochas acesas no local, enquanto a noite aproximava-se cada vez mais. Era engraçado que ali as coisas parecessem antigas, com iluminação natural, quando a menos de dez metros era possível ver as lâmpadas fluorescentes acesas no pátio. Mas na ágora, a tradição prevalecia. Uma espécie de tentativa para enraizar nova cultura. E que estava dando certo, a julgar pela devoção dos moradores, e o imenso respeito que dirigiam a nós. Ao menos, sob os holofotes. Um a um, os Nove subiram no tablado. Todos sentaram-se de frente para nós, em enormes cadeiras de madeira simples, mas que deviam muito pouco a tronos, a julgar pelo seu tamanho e entalhe. Além, é claro, dos assentos acolchoados em vermelho. Credo. Silvia foi a última a se sentar, logo depois de Faye. Depois disso, uma menina franzina se levantou. A julgar pela aparência, eu jamais diria que ela seria uma das nove pessoas mais poderosas naquele lugar. Ela possuía um nariz adunco, e uma franja negra capaz de disfarçar o impacto dos enormes óculos de armação fina, clássicos e redondos sobre o seu rosto. Sua maçãs do rosto eram belas, pelo menos. O sorriso também. As roupas sociais combinavam com o aspecto sério de seu rosto. Ela caminhou à frente do Memorial de esteatito cinza claro, e passou de leve as pontas dos dedos sobre alguns dos nomes ali gravados. Então, todas as conversas e sussurros morreram. Uma Conselheira desejava falar.
– Olá, meus amigos. É maravilhoso estar com vocês, esta noite. Para aqueles que ainda não me conhecem, sou Francine Mateis. Venho a todos, pedir que recebam nossos novos amigos — erguendo os braços em nossa direção, a Conselheira baixinha foi seguida por leves aplausos, ainda pouco entusiasmados. — Estes sobreviventes, verdadeiros lutadores, escaparam de mais horrores do que podemos imaginar. Somos afurtonados, por tê-los entre nós. Sem sombra de dúvidas, serão adesões extremamente valorosas para nossa comunidade. Conto com vocês, como amiga e Conselheira da Cultura, para fazer com que todos sintam-se devidamente acolhidos em nosso lar. — Ela sorriu gentilmente, olhando fixamente na direção de Victoria. — Será uma honra reunir os nomes de seus entes queridos, aos dos nossos. Você gostaria de vir até o tablado, e ditá-los ao nosso escultor?
– Sim, é claro. Será uma honra. — Victoria falou com convicção, mas sua voz tremeu em certo ponto. Senti a emoção que emanava dela. — São tantos para lembrar, pode demorar um pouquinho...
– Oh, compreendo. Bem, você pode escolher alguém para substituí-la, então. Como líder de nossos novos membros, gostaríamos que você opinasse sobre as atribuições indicadas a cada um. A Conselheira Faye tentou adequá-los de maneira condizente com suas habilidades, mas ela insistiu que pedissemos o seu aval. Ela alega não conhecer a todos profundamente. — Francine pareceu atenciosa e realmente interessada. O que seria acolhedor, numa situação normal. Embora eu não pudesse dizer que qualquer coisa em minha vida era normal, há muito tempo.
– Faye está certa. — Victoria confirmou, com um sorriso firme. — Alguns de nós não conviveram com a Dra. Keiko por tanto tempo. Eu mesma, inclusive. No entanto, sabemos o quão séria e dedicada aos seus objetivos ela é, e acreditamos em sua palavra, e em suas ações. Eu peço à minha amiga, Carolina, que analise em meu lugar as atribuições de nossos amigos. Ela os conhece tão bem quanto eu, e saberá onde cada um de nós será de fato, melhor aproveitado. Eu prefiro escrever o nome dos nossos entes queridos no Memorial. Dos membros de nossa família, que não conseguiram chegar até aqui. — Simplesmente apavorada. Foi como me senti, quando Victoria me colocou na berlinda, ali naquele lugar cheio de gente.
– E quem seria a Carolina? — Francine olhou em nossa direção, e quando levantei-me, ela sorriu. — Oh, olá querida. Que bela aparência! Venha, venha. Junte-se a nós. Revisaremos suas atribuições enquanto Victoria e nosso escultor lidam com o trabalho pesado, sim?
Preferi não responder à senhorita "vamos brincar", e iniciei a difícil tarefa de descer através daqueles degraus/assentos, que definitivamente não haviam sido projetados devidamente. Além disso, a quantidade de pessoas amontoadas tornava o trajeto inteiro, uma verdadeira tarefa ingrata. Por quê Vicky não podia ter pedido aquilo para Fernanda? Ela estava sentada bem na frente, do lado dela! É claro que eu estava contente pelo voto de confiança, mas francamente... Ok. Eu só estava sendo reclamona. Qual é, estava cansada daquela bobagem toda, e de mau humor só de olhar para aquela nariguda feliz. Que tipo de pessoa falava daquele jeito com uma multidão? Sentia-me na quinta série outra vez. Uma droga de professora que sempre insistia em nos tratar como o jardim de infância. Deus. Eu odiava o jardim de infância. Odiava dividir os brinquedos com as outras crianças. Mesmo aqueles que eu não estava usando. Droga. Será que eu tinha sido uma vadia egoísta a vida inteira? Isso explicaria muita coisa. Quando finalmente alcancei Francine, Victoria já estava sob o tablado, ao lado do menino com o martelo. Aqueles braços musculosos... Ok. A roupa laranja dele era um pouco esquisita, mas percebi que todos na Fortaleza usavam adereços e roupas de uma ou duas cores, apenas. Eu estava ansiosa para descobrir o quê aquilo significava, de qualquer forma. Francine tomou-me pela mão, e levou-me até Silvia. Renée, o cara bonito com quem Arantes havia implicado, entregou-lhe algumas folhas de papel, que ela pousou em seu colo. Fiquei ali, de pé diante dos Nove, enquanto observava Victoria sussurrando nomes para o rapaz, e os moradores nas arquibancadas voltarem a conversar, quando Francine sentou-se de volta.
– Olá, Carolina. É um prazer. — Silvia sorriu sem mostrar os dentes, e pegou a primeira ficha de sua pequena pilha.
– Pode me chamar de Carol. Com a pronuncia brasileira ou americana, tanto faz. Mas... Melhor só Carol. — pedi, de maneira involuntária. De alguma forma, senti que devia imprimir minha identidade, e valorizar as dos meus amigos, também. Deixar claro que não aceitaria qualquer coisa.
– É claro, querida. Tudo bem. — Ela ficou em silêncio, lendo a primeira ficha. — Nomeamos Victoria e Diogo para os Sentinelas. Sob a supervisão do Conselheiro de Defesa. Está de acordo? — Acenei positivamente. Era óbvio que Tio Allan faria bom uso dos poderes de Vicky, e de quebra, poderia ficar de olho nela e no genro. — Ótimo. Um bom começo. — Ela suspirou, aliviada. Seu sorriso pareceu mais sincero. — Nomeamos Dante e Cecília para Instrutores, da Escola. Sob supervisão da Conselheira Helga, da Educação.
– Eu discordo. Dante é ótimo com crianças, e pode ensiná-las Música, se derem um violão. Mas Cecília pode ajudar de outra forma. Ela é ótima para dar conselhos sobre questões importantes. De uma forma que não posso explicar abertamente. Mas é alguém a quem eu olharia, se precisasse de ajuda. — Realmente, seria um desperdício colocar uma vidente pra vigiar crianças. Queria que lhe dessem o devido valor. Por algum motivo, Faye pareceu desconfortável com meu palpite. Não poderia dizer que eu lamentava seu desconforto. Ela devia ter escolhido posições privilegiadas para nós, e eu não queria parecer ingrata. Mas simplesmente, aquilo era pouco para Cecília. E pronto.
– Bem, então eu repasso o caso para os Conselheiros. Algum dos Nove sugere uma mudança? Caso todos permaneçam em silêncio, Carol escolherá a atribuição de Cecília, comigo. — Silvia anunciou, olhando ao redor em busca de auxílio. Francine ergueu a mão. Silvia sorriu.
– Já faz séculos que procuro uma Secretária. Se Cecília quiser, pode trabalhar comigo, como assistente. — Renée deu uma risadinha. Babaca. Percebi que os assuntos na arquibancada haviam morrido quando as atribuições começaram a ser ditas. Mesmo Vicky prestava atenção. Por algum motivo, ela estava sorrindo pra mim. Assim como Cecília. Fiquei surpresa por conhecê-la tão bem, então. Ponto pra mim.
– Alguma objeção, Carol? — Silvia olhou feio para o almofadinhas do Renée, que se calou.
– Sei que minha amiga não julga nenhuma posição, inferior à outra. Nenhum de nós é assim, e não queremos ser melhores do que ninguém. — Encarei o tal de Renée. Ele notou minha indireta, e sorriu debochado. Aquilo me enervou. — Tenho certeza que Cecília será a melhor Secretária que o Conselho da Cultura já teve. Seja lá o que isso quer dizer.
– Anotado. — Silvia pareceu gostar do que eu havia dito. Talvez ser a presidente a impedisse de dizer certas verdades aos seus subordinados, pelo bem da convivência. Eu não era nada disso, então... — Nomeamos Tânia e Ricardo, para Enfermeira e Médico Dentista, respectivamente. Responderão ao Conselheiro João Pedro, da Saúde. — Eu sorri, concordando. Ela não podia ter feito outra escolha, realmente. — Perfeito! Precisamos muito de um dentista. Agora... — A presidente mexeu em seus documentos, passando os nomes já definidos para trás. — Fernanda e você, Carolina, para os Sentinelas. Conselho da Defesa. — Ergui o polegar, já enjoada daquilo. Qualquer coisa que eu tivesse que fazer seria chato, ao menos como Sentinela eu poderia rezar para chutar o traseiro de alguém. — Maravilha. Temos ainda Manuela, para os Organizadores. Conselho de Logística. — Ri. Ela trabalharia com o Renée. Meu humor perverso falou mais alto. Além disso, Manuela não tinha lá grandes talentos. Concordei. Silvia escreveu um "OK" em sua ficha, e passou para a próxima. — Hugo foi solicitado como Secretário da Fazenda, à pedido da Conselheira Faye. Segundo ela, o jovem tem formação em Geologia e será útil na exploração da pequena mata artificial da ilha. O Conselheiro Tássio aprovou a petição, e deixou a decisão final a cargo do rapaz. Como ele encontra-se hospitalizado, caberá a você decidir, Carol.
– Ele fará um ótimo trabalho. Tenho certeza. — Claro que eu não tinha certeza. Mas já era o segundo Secretário nomeado, entre nós. Se alguém tivesse que ter vida boa, que fosse o Hugo. Ele merecia, coitado. Ultimamente, com o chifre e uma porrada atrás da outra, um pouco de auto estima faria bem. Eu não era tão cretina, para querer tirar isso dele. Não mais, pelo menos.
– Perfeito. E selecionamos o jovem Otávio para o cargo de assistente em Justiça, secretário da Conselheira Martha, substituindo seu secretário anterior, que foi banido da ilha. A petição foi solicitada pelo Conselheiro Allan, e aprovada pela responsável. Carolina? — com o anúncio final, Silvia voltou-se para mim.
– Por mim está perfeito. Posso voltar pro meu lugar? — por algum motivo, o pessoal nas arquibancas riu. Acho que meu tom de voz deixou claro o meu enfado. Matias estava rindo também, de braços cruzados. Francine levantou-se de novo, e o silêncio reinou. Ela era mesmo respeitada, ao que parecia. Eu não imaginava o porquê.
Gentilmente, ela indicou-me o caminho de volta para o meu lugar (me dispensando sem dizer uma única palavra, a mal educada), e escalei aquilo tudo de volta. Quase derrubei uma senhora quando pisei sem querer na mão de Ricardo, e dei um pulo de susto. Matias agarrou minha mão, e enganchou-me para cima, ao lado dele. Victoria ainda estava sobre o tablado, e o rapaz negro parecia realmente concentrado, com bastante suor cobrindo o seu rosto. Havia pó e resquícios da pedra-sabão por toda parte ao redor do monumento. Ele esculpia um nome, e preenchia os vincos com um tipo de tinta preta, que os tornava realmente legíveis, e belos. O som de suas pequenas marteladas morreu, quando ele escreveu o último nome. Então ele fitou Francine, e acenou, secando o suor da testa.
– Ótimo. Todos nós, da Fortaleza, conhecemos o procedimento. Para nossos novos moradores, o explicarei agora. Victoria dirá o primeiro nome de cada um que foi lembrado no Memorial. Em coro, vamos repetir cada um deles, enviando nosso amor a estas pessoas, onde quer que estejam neste momento. Devemos lembrar que o amor de Deus é eterno, e que todos retornam para ele, de algum modo. — Francine virou-se na direção de Victoria, e fechou os olhos, como que em oração. Todos os Conselheiros fizeram o mesmo, assim como os moradores na arquibancada. Não deviam ter nem cinquenta pessoas ali, mas parecia uma multidão sem fim. Ainda mais num momento tão constrangedor. Fechei os olhos também, completamente sem graça quando Matias fechou os dele.
– Eu gostaria de dizer algo, antes. Não pude escrever realmente todos os nomes daqueles que eu vi morrerem, no caminho pelo qual eu e meus amigos passamos. A lista seria longa demais. Mas as pessoas que mencionei, realmente fizeram parte dos nossos corações, e marcaram nossas vidas de modo profundo. Há outras pessoas, que eu preferiria esquecer. Alguns que se tornaram piores do que jamais seriam no mundo normal, e que não merecem estar ao lado daqueles que eu e meus amigos amamos. Estes que ditarei para vocês agora. Com todo o amor... — Vicky tomou fôlego, e fungou para segurar as lágrimas. — Jeanette. Armando. Lucíola. Daniela. Tiago. Rafael. Luca. — A cada nome, a vibração de dezenas de gargantas preenchia a ágora. Eu não pensei que o momento fosse ser tão poderoso, mas quando chegou a vez de Luca, quase desabei. — Madeline. Saulo. Julia. Eloá. Mirla. Diana. — Matias pegou a minha mão. Notei que todos pareciam espantados com a quantidade de mortos pelos quais lamentávamos. Se eles soubessem quantos realmente foram... — Gabriel. Jonas. Lívia. Lavínia. Sabrina. Ana. — Fiquem em paz.
– Fiquem em paz — dissemos todos, numa só voz.
Assim terminamos as boas-vindas aos nossos amigos do continente. Hoje à noite, o Refeitória preparará uma pequena comemoração no prédio da Escola, para todos. Sem tarefas noturnas. — Francine sorriu, pegando na mão de Victoria. — Antes da festa, vocês receberão as roupas designadas nas cores de suas funções. É uma forma de identificação extra, e de identidade. Representa o orgulho por possuirmos uma função, uma tarefa pelo benefício de todos. Espero que achem suas cores bonitas, e as usem com prazer.
– Obrigada. Usaremos. — Vicky olhou para mim antes de descer do tablado. Ela piscou e pediu desculpas ao dar de ombros. Apenas ri e revirei os olhos, mandando um beijo em seguida.
De alguma forma, nada parecia destruir aquilo que havíamos sido uma para a outra. E se houvesse algo de que eu pudesse me orgulhar, era de que não importava o quão insuportável eu fosse. Eu sempre teria amigos ali, por mim. E isso era definitivamente, o mais importante. E embora eu não soubesse naquela hora, era este pensamento que tornaria mais suportável, a sensação de medo e tristeza que encerraria o nosso longo primeiro dia naquele lugar. Uma sensação assombrosa que me faria perceber que, não importava realmente o quão longe fôssemos. De alguma forma, os horrores e traumas aos quais havíamos sobrevivido, nos seguiriam. Como se eternamente, assombrassem nossos corações, e mentes. Como se possuíssem para sempre, parte do que somos.
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