Notas iniciais
Pessoal! Finalmente o último capítulo! Devo dizer que estou emocionado por terminar a segunda parte de Quebranto. Quando eu comecei a fanfic, jamais imaginei que encontraria pessoas tão incríveis e tão especiais quanto vocês, que a acompanham e apoiam. Um muito obrigado especial para Mare, Its, Axl Effy, SweetSacrifice, Azoody, Rhaamahem e Vicky. Vocês são mais que leitores, fazem parte da minha vida. Muitas vezes suas palavras de incentivo e carinho me permitiram encontrar a luzinha no fim de um túnel sem inspiração, e sem ânimo. Sem mencionar o tempo em que já estamos juntos. E para todos que eu não mencionei, ou que sequer conheço, um agradecimento igualmente grande. Só de ver os acompanhamentos e visualizações diárias da fic, já me encho de alegria. Agora, chega de chororô! Bom Quebranto pra vocês!

Fernanda.

É difícil ouvir que você vai morrer. Mais cruel ainda, é ter certeza de que o que lhe foi dito, é uma verdade. Não havia a menor possibilidade de eu preterir a vida de meu filho, em prol da minha. De meus filhos, na verdade. Eu teria bebês gêmeos, como Dino e Vilma. Gêmeos. Eu não podia acreditar naquilo. Cecília era mesmo incrível. Talvez a inumana mais poderosa que eu já encontrara, e tão meiga... Otávio e Gabriel haviam me dito que ela estava péssima por mim, e não quis me contar o que vira. A verdade, é que eu já estava preparada para tudo. Aos poucos, podia sentir meus filhos crescendo dentro de mim. Não tínhamos um calendário, mas eu podia jurar que já havia feito dezessete anos. Eu não era tão ingênua quanto antes, nem de perto. Arlindo me tomara a inocência, mas me dera outras coisas em troca, junto com o horror. Crianças que eu já amava mesmo sem nunca ter visto. Vontade de permanecer viva, e determinação para fazer o que fosse preciso para continuar assim. Eu só lamentava não poder criá-los. Mas também, eu sabia que eles estariam em boas mãos, com Victoria e Tânia. Gabriel poderia ser o pai deles, e protegê-los por mim. Isso, se ele melhorasse. Eu não podia culpá-lo por estar revoltado. Ele se recusara a tocar em mim, e a sentir os bebês. Parecia ter raiva deles, por me tirarem dele. Eu não queria nada daquilo, mas compreendia o que era preciso. Eles eram o futuro, uma chance da humanidade seguir em frente. Quando me foi dito o que fora previsto, e eu apenas confirmei o maior medo de Gabriel, ele apenas afastou-se, arrasado.

– Cuidado pra cabeça não pegar fogo, ruiva. Tá pensando em quê? — Diogo resmungou, aproximando-se de mim na varandinha do quarto que eu dividia com Gabriel. O sol estava mesmo insuportável. O calor descera como um manto, depois da chuva do dia anterior.

– No que Cecília viu. — percebi a mudança em seu rosto. Diogo também estava preocupado. Era estranho pensar que um ano antes, ele me causava um pouco de repulsa. Principalmente antes de conhecer Victoria, apesar de ele ter salvado minha vida bem antes disso. — Sabe, eu não me importo de morrer. Só não pensei que seria assim.

– Eu não sei como você ainda acredita em Deus. — ele resmungou. Havia algo diferente em sua voz. Dor? Com certeza ele estava sofrendo. Era isso o que mais me doía. Saber que todos que eu amava sofreriam por mim, e involuntariamente culpariam meus filhos por isso. Do mesmo modo que eu os havia culpado pelos erros do pai.

– Deus não tem nada a ver com isso, Diogo. — censurei-o. — Não o culpe pelos erros de um homem. Quem sabe se eu não tivesse me vestido daquele jeito, naquela noite...

– Para com isso. — ele cortou-me. — Não justifique a loucura dele. Nenhuma mulher merece isso. Nenhuma.

– Ok. — concordei, secando uma lágrima intrometida, que havia caído. Por que tanto drama com relação à morte? Por que eu simplesmente não podia aceitá-la, como Jesus fizera, e ter a certeza de que algo melhor estava me esperando? Existia mesmo algo melhor?

Meu corpo se retesou quando Diogo me abraçou. Eu não estava esperando por aquilo. Tensa, percebi que os soluços que começaram a sacudir o meu corpo, eram o choro contido há meses, por tudo o que havia acontecido. Eu perdera minha segunda mãe. Diana era muito mais que uma amiga, e certamente saberia o que me dizer agora. Sua perda ribombou em meu peito, abrindo a velha ferida. Chorei por todos que haviam sido perdidos, chorei por mim. Diogo estava mudo, mas seu coração estava acelerado. Eu sabia que era uma maneira de dizer que ele sentiria minha falta. Oh céus, eu sentiria tanto a falta dele também! Meus braços fecharam-se ao redor de sua cintura, e escondi meu rosto na camisa suja que ele vestia. O pano cinzento começou a molhar onde meus olhos o tocavam, mas então, não era como se eu sentisse o meu rosto. Senti os lábios de Diogo tocando o topo de minha cabeça, como um irmão mais velho faria. Aquilo não me ajudou. Minha família morrera nos primeiros dias daquele horror, assassinados por uma turba de pessoas desesperadas e ensandecidas pelo medo. Todos os meus irmãos mais velhos, estavam mortos. Eu só tinha meus amigos, minha família. Minha família...

– Vamos dar um jeito de mudar isso. Você não precisa morrer. Nem as crianças. — apenas concordei, acenando contra seu peito. Finalmente afastei-me dele, e encontrei Victoria nos observando. Os olhos de minha amiga estavam marejados. Ela ficara sabendo. Sem dizer nada, Vicky abriu os braços pra mim, e como uma criança, me refugiei neles.

Eu e Victoria passamos aquele dia inteiro, juntas. De um modo que não ficávamos desde os tempos do Trocado. Trocamos opiniões e experiências sobre tudo o que acontecera na Privilège, e senti-me mortificada por descobrir o que aqueles de nós que haviam sido presos, haviam passado. Só passei a admirá-la ainda mais. Quem conhecera Victoria antes da transformação, como eu, jamais imaginaria que ela se tornaria alguém tão determinada, tão centrada. Forte, sim, isso ela sempre fora. Mas sem a confusão que sua ansiedade lhe causava antes, ela havia se tornado tudo o que aquele mundo exigia de nós. Como o de Jonas, o corpo de Victoria era firme, bem mais definido e rígido do que antes. Eles eram sobreviventes, agora. Algo que eu jamais seria. Sabendo que Vicky havia dito algo e eu não captara, virei em sua direção, na cama. Aquele olhar preocupado de novo. Mas ela o disfarçou bem. Sorrindo ternamente, foi surpreendida pela chegada de Otto, ao quarto. Ele parecia incerto, mas delicado como sempre. Aquele menino era um amor. Alguém, com quem certamente eu flertaria se não fosse por Gabriel. O pensamento me fez sorrir. Aquilo pareceu animar meus amigos. Ana e Carolina não demoraram a chegar, ambas com um desconforto evidente em suas expressões faciais. Preferi não incomodá-las a respeito disso.

– E então, como você está? — Carol indagou. Era muito engraçado vê-la com o curativo sobre o olho. Parecia uma pirata. Mas uma linda pirata. Seus cabelos tão curtos, tinham tornado seu rosto mais angelical, embora fosse óbvio que as aparências eram enganosas. Ainda assim, ela me surpreendera positivamente, por muitas vezes, nos últimos tempos. Era alguém de quem eu jamais esperaria tanto altruísmo e pensamento coletivo. Ela mentira, é claro. Era sua especialidade. Mas mentindo, conseguira enganar alguém como Topázio. E isso não era pra qualquer uma. — Não me venha dizer que está bem, porque eu sei que você está surtando por dentro.

– Na verdade, eu não ia dizer isso. — observei, rindo. Estou exatamente tentando não surtar, de modo que quando alguém me lembra da situação na qual me encontro, isso me deixa muito tensa.

– Desculpe. — ela sorriu, sentando-se na cama. De repente, foi como voltar a um ano atrás, enquanto esperávamos por notícias de Luca. Nós cinco, havíamos estado na mesma posição. Agora, era sobre a minha morte que falávamos. Qual era o problema do universo com os ruivos?

– Acho que as palavras de Cecília podem ser interpretadas de vários modos. -sugeriu Ana, parecendo exatamente a mesma sabe-tudo de antes. Quis beijá-la por estar de volta. — Morte muitas vezes pode significar um renascimento, em profecias.

– Isso porque você tem muita experiência com profecias, né? — zombou Otto, rindo. Ana mostrou-lhe o dedo médio. — Mas na verdade, faz sentido. A Cici entra em transe quando diz algo assim, e realmente não sabe direito as circunstâncias nas quais as coisas vão acontecer.

– Espera... Cici?! Que porra de apelido é esse, Otávio? — reclamou Carolina, esganiçada. Como se Otto não tivesse acabado de me dar esperança.

– Ignore-a. — pediu Victoria rindo, quando Otávio abriu a boca para retrucar, ofendido. — Viu só, Nanda? Podemos tentar descobrir o que causaria sua morte, e evitar isso.

– Tomara. — concordei, esfregando minhas mãos. — Mas então Otto, você e Cecília?

– O que tem a gente? — ele indagou, descarado. Todas as meninas riram ao mesmo tempo. Otto franziu o cenho. — Qual a graça?!

– Você não engana ninguém. — riu Victoria. — Tá caidinho pela Cecília. E acredite, não há problema nenhum nisso.

– Desde que você não esteja transferindo o que sente pela Julia. Num mundo como o nosso, não podemos desiludir ninguém. Ainda mais se ela for o escudo que nos mantém vivos, onde estamos. — observou Ana, ácida. Adorei ouvi-la daquele modo, novamente.

– Não vou desiludir ninguém, suas fofoqueiras. — Otávio riu. — Estamos nos conhecendo, ok?

Sem dizer nada, caímos na gargalhada. As orelhas de Otto ficaram vermelhas, e eu subitamente notei que ainda havia um resquício de alegria no mundo. Estávamos sujos, sem destino certo, sem recursos, sem comida e feridos de todas as formas possíveis. Física e mentalmente exaustos. Mas ainda tínhamos uns aos outros. E valeria à pena morrer por isso. Eu tinha certeza de que, fosse lá o que estivesse me esperando, eu não enfrentaria sozinha. Teria aqueles que amo para segurarem minha mão, até o fim. Como num complemento ao meu pensamento, Gabriel surgiu ao lado da porta, inseguro. Ele fora atraído pelo som das risadas, mas seu semblante era triste. Ele fitou-me com olhos intensos, como se o negro que ali residia, pudesse refletir e encontrar a escuridão do meu próprio coração, mesmo que a luz de todos ao meu redor, pudessem suprimi-la. Com Gabriel, eu encontrara o apoio necessário para seguir em frente, para aceitar tudo o que ocorrera. Nada daquilo podia me ferir mais, embora eu ainda lembrasse. Por ele. Com ele.

– Posso falar com você? — ele olhou ao redor, não querendo ser um estorvo.

– Claro. — troquei um olhar com Victoria, e ela chamou a todos para fora, com um gesto. Sorri em silêncio. Era tão se comunicar com alguém sem precisar dizer nada. Era exatamente o tipo e confiança que eu tivera com Madeline e Diana, um dia... — Sente- se aqui comigo. — pedi, minha voz num fio.

– Me desculpe por estourar com você. Doeu muito quando tive que te contar tudo, e você não desmentiu o que Cecília disse. — Gabriel estava bonito, com a luz do sol poente em seu rosto. Seus olhos negros esverdeados pareciam iluminados pelo afeto. — Não importa o que aconteça. Quero aproveitar cada momento que eu ainda tenho com você.

– Não me deixe impedi-lo. — nos beijamos, e imediatamente nada mais importava. Nem mesmo a morte. Não me importava que eu fosse fraca. Pois se ela viesse, eu sabia que poderia encará-la, com toda a força do meu coração.

Victoria.

Quando sai da Pousada, caminhando até um pequeno pátio tranquilo no meio do conjunto de quartos e construções do local, encontrei Diogo olhando para as estrelas. Ele havia colocado um dos lampiões que trouxéramos sobre um dos banquinhos de pedra em meio à grama alta, que crescera sem controle. O local parecia agora, um centro arqueológico. Como as ruínas de uma estrutura que o homem esquecera, o que de fato ocorrera. Eu senti-me uma intrusa naquele momento de reflexão do meu namorado. Ele parecia tranquilo, plácido como eu raramente costumava vê-lo. Seus cabelos negros já ameaçavam chegar aos ombros. Eu teria de cortá-los à força, em breve. Os músculos marcados e evidenciados pela camiseta cinza, pareciam os contornos de uma escultura contra a luz da lua crescente. Era estranho observar o céu nos últimos dias. Trancafiada na boate, eu chegara a pensar que jamais veria estrelas, outra vez. Talvez ele estivesse pensando o mesmo. Era impressionante como havia uma mensagem oculta na vingança de Mozart contra Diogo. Às vezes, quando plantamos uma pequena semente de destruição, e ela germina, arruinamos as vidas de pessoas que sequer conhecemos. Mas elas se lembram. E de tal forma, como num ciclo de ódio, essa semente retorna para nós como um cruel conhecido, um velho inimigo que nos espreita nas sombras. Apesar de minhas reservas, aproximei-me de Diogo e o abracei por trás. Seu corpo era enorme se comparado ao meu. Magricela, eu achava a coisa mais impressionante do mundo que um homem tão grande pudesse estar interessado em mim. Mas minha insegurança ficara para trás, há muito tempo. Eu era uma mulher, tão diferente da garota ingênua e problemática, mesmo mimada, que eu já fora. Acho que esta era a maior consequência de se viver num mundo como o nosso. A mudança. Em momentos silenciosos e breves como aquele, eu podia senti-la como uma presença, um chamado. A mudança, a mobilidade, era o que nos movia. O que nos prendia ao chão.
Eu sabia quão forte e quão sublime era a mudança. Muitas vezes, tive de realizar coisas que eu jamais imaginara realizar, nem em meus maiores devaneios. E também havia Nora. Em momentos como aqueles, de paz e calma, eu podia senti-la em mim como apenas uma característica, uma emoção. Não havia outra personalidade. Apenas uma parte do todo, como uma célula em meu sistema. Adormecida, até que eu precisasse dela novamente. Mas eu também tinha a consciência de que um dia, quando toda a mudança estivesse terminada e eu finalmente fosse alguém diferente, Nora desapareceria com o vento. Pois seríamos enfim, uma só criatura. Sentindo-me constantemente como Dr.Jekyll, finalmente reconheci que a analogia não podia ser mais precisa. Eu também amava o meu monstro. Amava meu Mister Hyde, pois Nora também me mantivera viva em inúmeras vezes. Ela era o passo que eu não poderia dar, o gatilho que eu não conseguiria puxar.

– Qual o sentido disso tudo, Victoria? — indagou Diogo, num tom de voz baixo e controlado. Esta era uma pergunta que eu não esperava ouvir dele. Diogo era simples. Sobreviver, transar, comer e beber. Era fácil. Mas de novo, eu devia saber que ele também havia mudado. — Quer dizer, olha só a Fernanda. O que faremos sobre ela?

– O que for preciso, querido. — respondi, deitando minha face contra a curva de sua coluna. Ele suspirou. — Faremos o possível por todos que amamos. Sempre foi assim. Esse é o sentido de tudo. Uma respiração de cada vez, continuar aqui. Precisamos sobreviver a isso.

– Precisamos mesmo? Por quê? — ele virou-se sorrindo. — Não quer se despedir de mim ainda?

– Uma das razões. — concordei, apoiando a mão em seu peito. Eu sabia que estávamos bem, e permaneceríamos assim. — Achei lindo ver você com a Nanda. Viu como é bom expressar o que sentimos?

– É, mais ou menos. — ele riu. — Sou péssimo em expressar sentimentos.

– Um dia você chega lá. — consolei-o. — Já até consigo ver você sorrindo.

– Tenho uma ideia melhor pra me fazer sorrir. — ele sugeriu, puxando-me pela cintura. Revirei os olhos.

Finalmente, estávamos em paz.

Epílogo.

Eu abri meus olhos, e a chuva estava enregelando meus ossos. Era difícil sentir qualquer coisa no asfalto, enquanto o ferimento em meu estômago enviava agulhadas, verdadeiros espasmos de dor e ausência, por todo o meu corpo. Eu sabia que estava sangrando. Eu via a mácula provocada em meu vestido, onde Nora me esfaqueara. Ela acreditara muito facilmente em minha morte. Eu nunca cometeria tal erro. Mas eu podia jurar, pelas cinzas do lugar que eu construíra que ela ainda se arrependeria por não ter finalizado o serviço. Maldita Nora. Virando-me de bruços, permiti que um pequeno gemido de dor deixasse os meus lábios. Não havia ninguém para escutá-lo, afinal. Arrastei-me pelas poças dágua, esfregando o rosto no asfalto áspero e em minhas atuais condições, tão macio. Eu sabia que não morreria naquele momento. Não sem antes ter algo que a partir daquele instante, moveria os meus dias. Vingança.
Ouvi os passos e murmúrios dos mortos, que se aproximavam. A luz do luar iluminava suficientemente bem para que eu soubesse que ali, eu estava cercada. De fato, somente um milagre poderia me salvar daquelas coisas horrendas. Eu julgara mal. Elas não estavam tão distantes quanto eu achara. Agora, de fato podia senti-las abaixando-se, revolvendo-se ao meu redor como um bando de abutres que atormentam o predador ferido. Eles queriam minha carniça. Desejavam beber do meu sangue, que escorria de meu ventre indo de encontro à chuva, e ao esgoto. Exausta, larguei-me naquele chão frio. Eu podia aguentar uma morte como aquela. Já presenteara a muitos com o mesmo destino. E, mesmo que eu fosse perversa de muitos modos, não era covarde como poderiam pensar. Eu perdera tudo. Meus aliados estavam mortos, com absoluta certeza. Nenhum dos meus inimigos teria misericórdia, depois do que havíamos lhes causado. Eu sabia que nada poderia salvar minha adorada Thaís, nem Alexandre. Mozart e Marcílio eram descartáveis, mas eu sentiria falta de tanta lealdade. Agora, eu estava morta. Victoria e seu alter-ego cruel haviam me tomado tudo. Haviam destruído a Privilège. Tudo por culpa de Carolina, a traidora. Meu único arrependimento era o de não ter podido matá-la antes do fim.
A primeira criatura fechou sua mandíbula em torno de meu braço, que inutilmente eu erguera, tentando adiar o inevitável. Gritei com voz fraca, já perdendo a consciência. Mas não antes de ver a luz, e quem saiu dela. Um homem diferente de tudo que eu já encontrara. Seus olhos, um preto e um branco, me atestavam que se tratava de um Inumano. Mas ele não estava só. Outros, mais quatro, estavam parados atrás dele. Armados não com armas de fogo, mas com facas, um arco e até mesmo, uma peixeira. O que estava mais perto de mim, tinha o corpo coberto por tatuagens tribais e carpas coloridas. Era careca, e tinha mais piercings do que eu podia contar. Encontrei-me rindo de toda aquela sorte. Meus ferimentos no braço direito sangravam onde os mortos haviam conseguido morder. Mas eu ainda estava respirando. O homem movimentou-se mais rápido do que eu pude acompanhar, e derrubou três zumbis, que sucumbiram à tamanha violência. Ele agachou-se ao meu lado, enquanto seus aliados exóticos se espalhavam ao nosso redor. Reparei neles como nunca antes eu reparara em alguém. Eram todos inumanos. Cinco deles. Iguais a mim. Uma mulher com aspecto pouco saudável e pele esverdeada, lançava facas de arremesso contra os mortos. Ela tinha metade da cabeça raspada como seu companheiro, mas a outra era tomada por um cabelo branco e pouco viçoso. Ela lambia as lâminas antes de lança-las, e onde as mesmas tocavam, os cadáveres podres eram corroídos por tamanho veneno. Assemelhava-se a uma cobra sinuosa, movendo-se como se estivesse brincando com bonecos de carne pútrida. Outro membro do grupo, o maior homem que eu já vira, erguia a lançava os corpos decadentes uns contra os outros, como se nada fossem. Ele era uma muralha de músculos, tatuagens e pulseiras de couro com espinhos.
Meu novo melhor amigo me levantou no colo, mas não sem antes conferir meus olhos. Ele sorriu, e seus dentes amarelos pareceram dentes de tubarão, enquanto a felicidade obscena reverberava por toda a extensão de seu rosto repleto de cicatrizes. Outro de seus companheiros, este com longos cabelos negros maltratados que caíam até a altura de seus cotovelos, se esgueirava, dando cambalhotas com o corpo em posições impossíveis aos humanos normais. Um Inumano contorcionista. Ele matava como se cantasse um cântico de amor. Era como assistir a um filme em câmera lenta. Seus alvos mal emitiam sons. O último dos membros era uma garotinha de cabelos avermelhados, que caminhava ao lado de um cão zumbificado, como se ele fosse um animal castrado. Eu mal podia compreender como alguém tão pequeno, carregava uma expressão tão maléfica no rosto. Afeiçoei-me a ela, embora visse semelhanças que me fizeram pensar que já a conhecia.

– Ô Gárgula, vambora! — gritou o Contorcionista. O Brutamontes virou-se em sua direção, sorrindo. — Depois você esmaga mais fedorentos.

– Fedorentos esmagam fácil. — concordou o grandalhão, como um imbecil. Sorri. Ele seria fácil de controlar. O homem que me carregava bufou.

– Lívia, mande seu cão limpar o caminho. — meu "herói" comandou, e a garotinha apenas olhou fixo nos olhos do pastor alemão zumbificado parado ao seu lado, que disparou à frente do grupo. Percebi que sobre ela, algumas baratas e aranhas caminhavam, embrenhando-se em seus cabelos e roupas gastas. Reprimi meu nojo. A serpente começou a retirar suas lâminas do corpo dos zumbis, enquanto caminhava entre os corpos. Ela pareceu achar algo interessante, quando ergueu um fio de cabelo loiro e enorme. — O que achou, Samanta? — o homem que me levava tomou o fio de suas mãos, e cheiro. Um rastreador, então. — Doce. Uma jovem bonita. E inumana. Uma aquisição pro nosso grupo. Mas tem outros cheiros aqui...

– São os amigos dela. Humanos. — cuspi, engasgando de dor.

– Oh, seu bichinho novo está vivo, Marcelo! — Samanta riu de modo indiferente. Odiei o modo como "bichinho" soou. Era assim que eu me referia à Thaís.

– Ela é forte. — ele concordou. Pareceu pensar, por alguns instantes. Ao longe, a garotinha seguia em frente, acompanhando os outros dois membros daquele grupo totalmente assustador, até para mim. — Se nossa nova amiga tem humanos com ela, então já temos o nosso próximo destino. Afinal, é um pouco difícil encontrar comida com estas coisas competindo conosco.

– Vocês são canibais!? — indaguei, surpresa com o nojo crescendo em minha garganta.

– Oh sim. Mas não vocês, meu amor. Nós. Você não vai comer nada além do que eu lhe der. — ele riu novamente, divertindo-se com o terror em meu rosto. Respirei fundo, no entanto. Eu era pior que qualquer um deles. Tiraria proveito da situação. Sem dizer nada apenas sorri, acenado em concordância. — Ótimo. Eles podem ter ido para longe, mas não vou demorar a achá-los. E quando isso acontecer, vamos nos divertir bastante...

Enquanto seguíamos em frente, na direção de um jipe velho, notei o cão da menina devorando um zumbi, ou ao menos despedaçando o cadáver. Aquele era um grupo diversificado, selvagem e promissor. Lamentei não poder controlá-los efetivamente, mas quem sabe não fossem todos como Jonas? Topázio estava de volta ao jogo, e eu nunca jogava para perder.

– Quem são vocês? — indaguei confusa enquanto a fraqueza entorpecia ainda mais os meus pensamentos.

– Somos o seu bando agora, madame. Todo mundo aqui tem um nome além do de nascimento. Nenhum de nós gosta de ser chamado de Inumano, e só um de nós pode usar o nome verdadeiro do outro. Parece que você não tá acostumada com família, né não? — ele riu, sacudindo a cabeça tatuada. — Eu sou o Chefe. Aquele grandalhão, é o Gárgula. A menina é a Princesa. O magrelo ali é o Ninja, e a irmã dele é a Peçonha. Qual é seu poder inumano?

– Eu controlo mentes. Ou controlava... — estava ficando cheia daqueles loucos. Quanto tempo ia levar até aquela chuva infernal passar e alguém cuidar dos meus ferimentos?

– Então Madame combina bem com você. É teu nome agora. — todos os outros riram com meu batismo, e enquanto ele me colocava no banco traseiro do jipe, senti que eu nunca mais seria a mesma de antes. E tudo por culpa de Nora. Pelo menos, tínhamos o cheiro dela. E eu nunca me esqueceria dele, até que cravasse minhas unhas na sua garganta...

Notas finais
Alguém animado pra próxima temporada? Kisses by DroppingPieces!