Quebranto.

54 Alvorada de Pó.


Notas iniciais
Olá, pessoal! Penúltimo capítulo! Huhull! Já podem ir preparando o terreno para a terceira temporada, galera! Vai ser bem legal! Com tudo o que rolou, acho que um capítulo mais tranquilo é uma parada na ação frenética com que a fic vinha vindo, para refletirmos sobre algumas das consequências de tudo o que aconteceu. Estabelecendo um cenário novo pra próxima temporada, também dá pra gente ver um pouco mais de Hugo e Ricardo, atendendo à pedidos... Boa leitura!

Hugo.

– Nós sobrevivemos. — as palavras de Ricardo permanecerem suspensas no ar por alguns segundos. Estacionados em frente à Pousada Vila Geribá, estávamos todos aliviados por ainda vivermos. — Apesar de tudo, estamos juntos. Em nome de todos os outros que não puderam chegar tão longe, devemos manter viva a promessa de que daremos o melhor para que isso tudo valha a pena. — ele me olhou, e trocamos um olhar cúmplice. Havíamos conversado no caminho até a Pousada, e juntos, havíamos decidido que era o momento de Ricardo assumir seu posto como líder do grupo, a menos que a maioria desejasse o contrário. — Por isso, me coloco à disposição de todos para retomar o "posto" de líder, que em comum decidimos estabelecer. Se alguém desejar a posição, também entenderei. Não há necessidade de sentirem-se intimidados. Eu não desejo ter poder sobre as escolhas de vocês. Não sou Topázio. — todos olharam para Diogo automaticamente. Ele competira com Ricardo por aprovação antes, há quase dois anos. Victoria o tirara da jogada. Ela não votaria contra ele agora, e isso era algo que poderia fazer toda a diferença.

– Por mim está ótimo assim. — ele negou-se, no entanto. — Só acho que o Hugo devia ser o líder. Todo mundo sabe que é ele quem manda. E bem, até agora ele acertou mais que o Rico. — todo mundo olhou pra mim. Ninguém sabia o que fazer com o comentário de Diogo. O transformei em algo positivo, lógico.

– Realmente. Eu sou o máximo. — brinquei, aliviando a tensão. A verdade é que apesar de defender o que eu achava certo com afinco, meus conselhos não eram nada mais que exatamente isso. Conselhos. Opiniões. Ricardo nem sempre me ouvia, e nem eu desejava que assim o fosse. — Mas sou melhor conselheiro que líder. Rico sabe o que faz.

– Então está decidido. — Victoria encerrou o assunto, temendo polêmicas. — Agora, sobre a pousada? Ela não me parece muito resistente.

– Não é uma parada final. — alertou-a Cecília. Todos nos calamos quando ela se manifestou. Ela sim parecia tocada pela Deusa, se eu fosse acreditar nesse tipo de coisa. Notei que Lavínia já começava a fitá-la com o mesmo respeito que dirigia à Topázio. Ri internamente, refletindo que algumas pessoas haviam nascido para serem governadas. Ferida, Manuela ainda gemia de febre, dentro do ônibus. Apenas Tânia suportava tê-la por perto, e naquele momento a vigiava de perto enquanto também cuidava de Dino. — Meu escudo nos protegerá até que tenhamos um plano. Além disso, a maioria das criaturas concentraram-se em Armação de Búzios, desde que a base militar caiu. Acho que grande parte ainda não conseguiu andar de volta para cá. Teremos sossego por algum tempo.

– Teremos que ficar o mais silenciosos possíveis. Mas acho que dará certo. — opinou Otávio, baixinho.

Não demorou muito até que todos estivéssemos instalados na Pousada. Naquele momento, com todos cansados de todas as formas possíveis, qualquer grão de areia que pudesse trazer a paz, seria bem vindo. Aos poucos, descarregamos as mochilas de roupas e objetos pessoais do nosso veículo. Não tínhamos muito ali. Quase tudo o que poderia ser útil ficara para trás, na boate. Incluindo a maioria dos remédios e curativos que poderiam ser muito úteis naquele exato minuto. Tenso com a exposição à qual estávamos submetidos, Ricardo apressou a todos. Rapidamente, Diogo e Jonas verificaram o interior do lugar, e não encontraram dificuldades. Não havia muito com o que lidar lá dentro, a não ser corpos quase mumificados de ex-funcionários do local, e vestígios de que um grupo vivera ali recentemente. Eu não pensei muito sobre isso naquele momento, afinal estava muito mais interessado em largar a mochila com um pouco de minhas roupas sobre uma cama, e sentar-me nela, confortável. Com uma pintura azul claro e quase colonial, a pousada era um oásis de sensibilidade no meio de um mar de escuridão. Era um refúgio, um frescor de primavera. Com blocos interligados, assemelhava-se quase à uma mansão, e devia ser muito bela antes de tudo aquilo. Agora, estava quase que totalmente coberta pela vegetação até então artesanal, que a cercava. As plantas haviam crescido, e suas vinhas já invadiam alguns dos cômodos que haviam sido esquecidos abertos. Um ambiente exótico, mas nem por isso menos acolhedor e bucólico. De fato, toda aquela tinta descascando e aspecto envelhecido faziam com que o lugar lembrasse muito os chalés típicos dos contos infantis, mas com um tom particularmente sombrio, naquele caso. Nossa fábula não seria de fadas, mas de mortos.
Diferentemente da Privilège, ali a luz elétrica não funcionava. Dessa forma, utilizamos os dois únicos lampiões que acabaram sendo trazidos conosco, como fonte exclusiva de luz. Não era nada demais naquele breu, mas apenas o suficiente para sabermos se alguma criatura mutante ou perigo estivesse espreitando nas sombras. Ninguém comeu, e ninguém teve coragem de checar os banheiros, em busca de um banho. Como consenso, deixaríamos que a manhã nos revelasse se havia ou não água encanada naquele lugar. Mais uma coisa que havíamos perdido. Outra vez. Tirando os coturnos de couro marrom que eu estava usando, encolhi minhas pernas na enorme cama de casal do quarto que eu e Rico havíamos pego. Não dava pra ver um palmo à frente do meu rosto, o que podia ser totalmente desesperador num mundo como o nosso, eu sei. Contudo, Ana e Sabrina haviam verificado todos os quartos do primeiro andar com um lampião, e liberado aquele para nós. Enquanto todos vasculhavam aquela pousada em repouso, eu preferi me encolher num canto e (tentar) descansar. Dante e Otávio também haviam ficado de ajudar a transportar os feridos para dentro, de modo que me despi de qualquer iniciativa. Ninguém parecia estar precisando particularmente de mim, pra variar.
Um filete de suor escorreu pela minha nuca, e o sequei depressa. Eu odiava aquela sensação na minha pele, como se algo vivo estivesse deslizando por ela. Acariciei os lençóis indefinidos ao meu redor, e os senti extremamente macios e escorregadios. Não saberia dizer que pano era aquele sem ler a etiqueta do produto, mas era algo muito gostoso ao tato. Tirei minha jaqueta preta e a joguei ao lado da cama, sentindo o ambiente abafado contra minha pele. Meus cabelos úmidos estavam mais compridos do que eu poderia desejar, enquanto que minha blusa de malha branca, toda manchada e envelhecida, estava grudando no meu peito. Os jeans cinzentos e gastos também não facilitavam as coisas. Mesmo assim, num gesto puramente instintivo e infantil, cobri o corpo inteiro. Ali em meu casulo, fiquei refletindo sobre tudo o que havia ocorrido. Eu não sabia bem como agir sobre todas aquelas coisas. De um jeito perturbador, eu acreditara em Diana desde sempre, sobre o caráter de Topázio. Essa foi a única razão para que eu não me afastasse de Rico, com todos os desmandos dela. Ainda assim, eu não podia dizer que eu e ele éramos os mesmos. Nenhum de nós o era, àquela altura, mas eu precisava ser honesto. Eu não podia dizer com certeza até que ponto todo o carinho que eu nutria por Ricardo ia além do fraternal. E acho que para ele, o mesmo estava valendo. Eu já me sentira de escanteio diversas vezes desde que deixáramos o Trocado, mas afastara de mim tais coisas, com medo de ser egoísta perante problemas maiores. Agora que havíamos recomeçado, e que todas as ameaças ao grupo estavam em tese exterminadas, eu desejava saber se haveria tempo para por em ordem tudo o que ficara subentendido, ou mal resolvido. Eu teria tempo de voltar, de ser como antes? Essa possibilidade ainda era válida, naquela situação de temor constante? Eu não esperava por tanto, mas devo dizer que senti-me surpreso quando Ricardo fechou a porta do quarto atrás de si, e surgiu com uma vela acesa na mão direita.

– Sua pele fica bem à luz de velas. — ele observou. Eu ri, encabulado.

– Só você, pra tirar um elogio da cartola numa hora dessas. — rebati, olhando com atenção para o quarto banhado pela parca luminosidade. — Graças a Deus, nenhum monstro saltando das sombras.

– Suponho que até eles tenham que descansar, em algum momento. — ele piscou, todo cheio de graça. — Ou não, no caso dos zumbis. Mas fique tranquilo, os outros farão vigia. Nós que ficamos trancafiados nos últimos dias ganhamos o direito de dormir sem interrupções. — ele sentou-se do outro lado da cama, e tirou as botas militares pretas que estava usando. — Cansado?

– Morto. — assumi. — Mas correria uma maratona por um pouco de água. Estou triste por não ter corrido na cozinha, na hora do desespero.

– Eu estou triste porque achei duas garrafas de uísque e conhaque no meio dos suprimentos, e nenhuma de água. — riu Ricardo. — Segundo Lavínia, ela entrou em pânico quando viu os errantes e agarrou as garrafas mais próximas, sem olhar sequer para o que estava escrito. Eu não duvido nada que tenha sido exatamente isso, o que aconteceu. — ele me olhou por algum tempo, esperando uma reação. Eu apenas sorri. — O que foi? Algo errado?

– Nada. É só... tudo isso. Até quando vai durar? Estamos outra vez recomeçando. — expus, embora eu soubesse que não estava sendo totalmente honesto. — Além disso... Te sinto muito distante, em alguns momentos. Mesmo quando estávamos presos. E depois, tem momentos como aquele, quando me amarraram. Te senti tão perto de mim...

– É porque eu estou. — ele tocou minha mão, atencioso. — Nenhum de nós pode ficar próximo fisicamente, o tempo inteiro. Mas tudo o que faço, o que me move e me mantém vivo desde que mamãe morreu, é você. Sei que pareço distante algumas vezes, mas até aí eu nunca fui muito falador, mesmo antes disso tudo. E acredite, quando estou pensando no meu canto, certamente é sobre algo relacionado a você. Já no seu caso, não sei o que pensar quando te vejo assim, fechado...

– Eu sou um livro aberto. — me defendi.

– Tanto que beijou Otávio. — meu olhar o fulminou. Ponto sensível? Com certeza. — Desculpe. Eu prometi que não ia mais falar nisso. Nós já passamos por isso. A questão é: precisamos manter a individualidade. Não quero pra gente o que houve com Ana e Sabrina. Veja, elas poderiam ter morrido sem resolver isso tudo. Se é que ainda há chances pra elas. — ele parou de falar quando me viu fitando-o com um olhar humorado. — Que foi?

– Cê já tá se preocupando com os problemas dos outros, outra vez. — apontei. Ele coçou a cabeça, sem jeito. — Tudo bem, isso só mostra que você se importa com eles. Tá tudo bem. — foi minha vez de me aproximar dele. Realmente, eu era estúpido demais. Estava arrumando questionamentos infundados, apenas para levantar uma tese que só era coesa na minha própria mente. Em resumo, eu estava pagando de louco na história. Estava tudo bem.

O beijei enquanto as sombras da pequena chama de vela iluminavam o teto do quarto. Sob os espectros da noite, nossos contornos tornaram-se um só. Mas não houve nada além de proximidade naquela noite. Exaustos, dormimos lado a lado como crianças fariam num acampamento. Ok, talvez não de maneira tão inocente. Mas vocês entenderam a questão. Aquela era uma noite de descanso, de refazimento. Não havia ambiente para nada além da restauração, da esperança. Nem mesmo para o amor.

Ana.

A noite estava morta, como todo o resto. Como eu sabia disso? Não se podia ouvir o cricrilar de um único grilo, sequer. Apenas o silêncio, o não ser. A ausência. Debruçada numa das janelas de madeira da pousada, eu tinha ali uma boa visão da lua nova. Nunca me parecera tão misteriosa e assustadora quanto naquele momento. Amarrando meus cabelos rebeldes à grosso modo, afastei-os do meu rosto tentando ver melhor o horizonte. Nada me fazia mais feliz naquele momento, que saber que eu ainda estava viva. Ter escapado da Privilège, depois de estar tão perto de Topázio, era um milagre. Uma segunda chance. Uma nova oportunidade, para não cometer novamente os erros de antes. Eu faria diferente. Precisava ser diferente. Por mim, e por todos os outros que haviam morrido tentando escapar da doença de uma mulher perturbada. Estava incrivelmente quente ali, um contraste com as últimas semanas, que vinham sendo frias. O tempo mudara muito naquela região do Brasil, em dois anos. Havia menos chuva que o normal, porém bem mais períodos de frio e de tempestades elétricas. Era como se aos poucos, o próprio planeta percebe-se o que estava havendo, começando a reprogramar a si mesmo para seguir em frente. Um sobressalto no escuro alertou-me, mas quando virei na direção do corredor que dava na varandinha onde eu me escondera, encontrei Sabrina parada, olhando-me. Ela estava abatida, pálida. Cansada seria um bom modo de descrever sua aparência. Seus cabelos loiros estavam maiores, e por ter raspado a cabeça, agora ela tinha uma parte do cabelo bem baixa, e a outra caindo ao lado do rosto em cascata. Parecia estar satisfeita, contudo. Apenas me encarava.

– Nós conseguimos. — ela disse, com um sorriso discreto.

–Sim, conseguimos. — afirmei, retribuindo-lhe o gesto. Continuamos nos encarando por alguns instantes. Não havia muito o que dizer, no entanto.

– Podemos conversar sobre a gente? — eu não imaginei que Sabrina fosse tão direta, naquele instante. É claro que nossa história havia começado de modo abrupto, e desde o início fora intensa, mas mesmo assim era difícil de lidar com as coisas tão às claras.

– Sinto muito, Sá. Não consigo pensar em nada que a gente poderia dizer, pra mudar tudo. Mesmo que eu tenha sido enganada por Topázio, não foi este o motivo que me fez te deixar. Sei que foi errado trair, e que eu não estava no meu juízo perfeito. Mas algumas coisas já vinham me chateando desde muito antes. — repudiando sua tentativa, eu sabia que não devia ceder agora. Ambas precisávamos disso. Eu precisava voltar a ser quem eu sempre fora. Enquanto meus amigos haviam se tornado pessoas melhores e mais aptas, agora eu podia ver a espiral descendente na qual eu me afundara. Para o meu bem, e mesmo que isso não fizesse diferença no futuro, eu precisava deixá-la mais uma vez.

– Eu entendo. Não se preocupe, não vou mais te incomodar. — ela se virou para o andar de cima, onde ficavam os quartos, e saiu de perto. Na penumbra do luar, eu respirei fundo. Estava feito.

Carolina estava sentada ao lado de Jonas, com a cabeça em seu ombro enquanto os outros pareciam interessados à sua volta. Ela estava contando tudo o que ambos e Dimitri haviam feito para que Topázio acreditasse que eram leais a ela. De uma forma estranha, Carol era a última pessoa que eu pensei que pudesse se sacrificar por alguém, e eu estava surpresa num sentido positivo, por ver a mudança que este mundo provocara nela. Se há um ano atrás Luca e Fernanda tivessem permitido que ela se matasse, então estaríamos todos mortos agora. De um jeito especial, soube naquele momento que tudo estava conectado. O destino, ainda que não escrito em pedra, tinha um roteiro pré-definido e sujeito à alterações. Era também um modo reconfortante de compreender coisas com as quais eu nunca havia lidado antes. Como Cecília. Ela era diferente de qualquer outro Inumano ou animal que já havíamos encontrado desde o Apocalipse. Era uma criatura além da minha compreensão, em tantos níveis, que eu sentia-me constrangida perto dela. O mundo havia mudado muito, em muito pouco tempo.
Sentei ao lado de Otto numa poltrona da recepção. Do outro lado dele, Cecília mantinha-se calada, e pensativa. Ela deitara de lado, encolhida na posição fetal, com as pernas tocando a coxa direita de Otávio. Sua cabeça, estava sobre o braço acolchoado da mobília. Sem perceber, meu amigo repousara sobre os pés da vidente sua mão direita, e os estava acariciando distraidamente, enquanto conversava com Victoria sobre o encontro dela com Topázio. Estávamos todos muito próximos naquele espaço relativamente aconchegante, apesar do calor. Com exceção de Rico, Hugo, Sabrina, Manuela, Nanda, Gabriel, Tânia e os gêmeos, que já estavam instalados nos quartos, todos os outros pareciam elétricos e receosos demais para dormir. Assim, foi natural que rapidamente encontrássemos uso para a garrafa de uísque trazida por Lavínia. Abraçado com seu violão, que ele deixara no ônibus alguns dias antes da queda da boate, Dante parecia contente por afiná-lo.

– Então Carol, eu preciso dizer que foi muito legal da sua parte ajudar a Victoria, quando ela voltou pra salvar a Manuela. Eu realmente achei uma atitude muito bonita. — comentou Lavínia, impressionada. Todos nos mantivemos quietos, mas era óbvio que sentíamos o mesmo. Com o ferimento acima de seu olho coberto por um curativo improvisado, Carolina sorriu.

– Digamos que eu já estive numa situação parecida, e duas pessoas especiais também voltaram por mim. Me identifiquei com Manuela. Eu sei como é querer desistir de tudo. — ela sorriu, pensativa. Voltando no passado, cheguei a me sentir um pouco mal por ter batido nela, quando achamos que Vicky estava morta. Ninguém é culpado por amar outra pessoa. Nem escolhia por quem ia se apaixonar. Eu sabia disso melhor do que ninguém.

– Fico feliz que aquele pesadelo tenha acabado. É como acordar de um sonho muito ruim, depois de muito tempo dormindo à força. — relaxou-se Dimitri, que se sentara numa poltrona individual.

Naquela noite, lembro de ter ficado acordada até muito tarde, embora seja difícil lembrar-me do momento exato em que adormeci. Ao acordarmos as coisas se tornam bem menos claras do que antes adormecermos, principalmente depois de ingerirmos um pouco de álcool no processo. Mas era fato que o sol já despertara há algum tempo quando acordei, e senti que eu era uma das últimas a levantar antes mesmo de abrir os olhos. O que realmente me despertou na verdade, foi o calor direto dos raios solares contra minha pele. Remexendo-me na cama de casal, estiquei-me toda a passei a mão ao meu redor. Vazia. Mas também, o que eu esperava encontrar? Sabrina? Esfregando o rosto para livrar-me da confusão matinal, senti o suor que se prendia ao meu pescoço como uma película fria e pegajosa. Levantei-me com o som de vozes ao longe aproximando-se de meus ouvidos. Era possível ouvir a movimentação de meus amigos através do assoalho de madeira e das paredes finas. Vila Geribá não era um lugar melancólico como os outros nos quais havíamos vivido. Isolada em relativa tranquilidade, a pousada permanecera quase intocada pela loucura que dominara o mundo. Fora saqueada, como pudemos notar, mas não destruída. Podia inclusive, ser ainda considerada bela, mesmo depois de toda a vegetação ao redor ter crescido, e de ter sido danificada em alguns pontos, pelo último grupo que ali tinham vivido. Imaginei qual seria o motivo para terem abandonado o lugar.
Desci as escadas para o hall, observando as rachaduras no corrimão, como se uma luta tivesse ocorrido ali. Com o clarão do dia, era muito mais fácil identificar a passagem de outras pessoas pelo local. Haviam restos de lixo espalhados pelo chão, pedaços de papel, folhas secas e até algumas roupas velhas caídas, como se tivessem sido deixadas para trás. Uma marca se sangue seco na parede da escada também revelava que alguém descera por ali correndo. Havia um orifício feito à bala na janela que dava no corredor da escadaria. Alguém havia atirado ali, por algum motivo. Isso me fez pensar em quão relativa era nossa segurança. O escudo de Cecília era quase nulo agora, e qualquer criatura poderia ter seguido o barulho do ônibus até bem perto dali. Nunca mais estaríamos tão a salvo, quanto antes. E talvez isso fosse algo bom, pois impediria que eu me esquecesse outra vez, do tipo de mundo com o qual estou lidando. Quando virei-me para o térreo, encontrei Cecília e Otávio sentados lado a lado na escada. Eles estavam sérios, conversando. Meu amigo olhava para o rosto marcante dela, enquanto Ceci virava o rosto na direção dos raios de sol que vinham de uma vidraçaria acima da porta da pousada. Seus olhos eram tão expressivos, apesar de tristonhos...

– Temos que contar para a Fernanda. — Otávio insistiu.

– Mas ela mal me conhece. Não é uma boa notícia para se receber de uma semi-desconhecida, Otávio. Ela é uma jovem tão cheia de vida. Talvez eu tenha feito uma previsão pela metade, já aconteceu antes... Um de vocês deveria contar. — defendeu-se a jovem, sorrindo. Ela colocou os cabelos lisos atrás da orelha, e mordeu o lábio inferior. Notei que Otávio seguiu o gesto com o olhar, e fiquei constrangida por estar espionando aquele momento dos dois. — É tão estranho sentir o calor do sol.

– Eu imagino. — meu amigo sorriu, afetuoso. — Vai se acostumar, com certeza. Prefere que eu fale com a Nanda?

– Sim. Eu não estou muito bem com essa história, não seria totalmente imparcial ao dar a notícia. — ela justificou, deixando implícito que poderia influenciar Fernanda a algo.

– Entendo o que diz. Mas felizmente não somos nós quem faremos esta escolha. Cabe à Fernanda. E talvez ao Gabriel. — ela acenou em concordância. Otto levantou, e estendeu a mão para Cecília. Ela sentiu sua ausência, e esticou o braço, agarrando-o e se erguendo.

Os dois afastaram-se rapidamente, enquanto eu me indagava o que diabos eles precisavam dizer a Nanda. Mas algo ainda mais sério me chamava a atenção. Como eu não percebera que Cecília se parecia com Julia? Será que Otávio estava projetando o sentimento de uma para a outra? Eu não saberia dizer, mas imaginei que ele percebera a semelhança. Era bom que ele não magoasse aquela garota. Ela era um trunfo que não podíamos arriscar perder. Apesar de toda a naturalidade e compreensão de todos, eu acreditava que muitos dos meus amigos viam-me como um peso, como alguém fraca e muito influenciável. Bem, meu objetivo era provar a eles que eu não era nem uma coisa, nem outra. Seria uma caminhada longa e difícil, com certeza, mas toda viagem começa com um passo. Ou um pontapé inicial. Sem Sabrina como muleta, eu andaria novamente sozinha. Era como uma alvorada cheia de poeira e expectativa, que desbravava o horizonte para novas possibilidades e perigos. E como era bom, rever e conhecer essa nova e antiga amiga, a liberdade...

Notas finais
Mereço algum comentário? Deixem sua opinião, pra que eu possa me animar e postar o último capítulo bem rapidinho, rs. Ah, vou fazer uma pequena pausa quando a temporada acabar, para revisar o material da terceira parte. Alguns personagens que iriam morrer ainda estão vivos, e alguns que estariam vivos, morreram. Isso vai alterar um pouquinho a história, mas nada demais. Por isso, vou precisar editar um pouco os meus rascunhos. De todo modo, até dia 25 de abril sai o primeiro capítulo da terceira parte. Dependendo de vocês, o último da segunda já sai amanhã, rs... Beijos e valeu a quem está lendo! Kisses by DroppingPieces!