Quebranto.

80 A Quinta Cor é o Branco.


Notas iniciais
Olá pessoal, um super SORRY pela demora. Estava não sem inspiração, mas com uma overdose de influências e ideias para plots, o que acreditem, pode ser tão ruim quanto. No entanto, apesar de já ter nomeado todos os capítulos da quarta temporada e ter os históricos dos principais novos personagens estabelecidos, não conseguia terminar este último capítulo. Não por acaso ele saiu hoje. Pois, cá estou eu às três da madrugada postando, depois de ter escrito meio capítulo inspirado pelo chute dramático que me faltava. Para os fãns assíduos de The Walking Dead (uma das maiores influências de Quebranto), preciso comentar: Que mid-season finale foi aquele? O oitavo episódio da quinta tempora, Coda, foi um dos melhores. Não vou dar spoilers. Mas foi bem controverso. Sinto que muitos vão discordar de mim, mas eu gostei do rumo assumido. Um risco, mas também necessário. Agora, voltando ao capítulo, boa leitura! Espero que ainda tenha alguém acompanhando, e que gostem. Não vou dar nenhuma pista, mas tem algumas surpresas. *-*

Carol

Faye fixou as bombas embaixo do ônibus. Os contêiners em miniatura pareciam pequenos detalhes amarelos sob o veículo empoeirado, e já disforme. Como se esperássemos por algum sinal divino, observamos o trabalho bem feito. Helena apoiava-se em mim, aguardando a cientista. Cecília e Dino estavam abraçados, bem próximos. Suspirei. Era tudo ou nada. Aliás, como sempre, ultimamente. Fazendo um sinal afirmativo para Faye, liberei a explosão. Juntos, todos nós saímos da estrada e corremos para a calçada, abaixando atrás de um carro. Com o rosto tenso, ela apertou o interruptor improvisado em suas mãos. Não saberia descrever precisamente como ela modificara os objetos para torná-los explosivos. Mas na íntegra, posso dizer que o mundo inteiro chacoalhou, quando o ônibus de turismo voou pelos ares. Sentimos a pressão no chão, e até mesmo em nossos próprios corpos, que vibraram com o impacto sonoro. Zonza, senti o mundo girar lentamente, enquanto um zumbido insuportável insistia em preencher meus ouvidos com sua zombaria. Erguendo-me, encarei os contornos difusos de meus amigos, ajudando-os a se levantarem também. As feições de Faye tornaram-se sombrias quando ela apontou para a estrada atrás de mim, de onde viéramos. Segui seu gesto, movendo-me três vezes mais lentamente do que queria. Suas palavras não passavam de ondulações na superfície, enquanto um oceano de profunda confusão se estendia ao meu redor. Ainda pouco ciente da gravidade de nossa situação, reconheci os contornos de mais uma horda de mortos-vivos, caminhando lenta e descordenadamente em nossa direção. Assim como a horda presente no porto. Nossa esperança seria deixar aquele local antes que ambos os grupos estivessem terrivelmente próximos. O problema, era que falar era muito mais fácil que fazer. E já fazia algum tempo, eu não me sentia mais tão incrível e totalmente certa do sucesso de minhas ações. Isso, desde que proteger a mim mesma ficou em segundo plano, e passei a me preocupar com todos igualmente. Um erro que eu esperava nunca ter de reparar com sangue. Mas, naquele momento, já não tinha tanta certeza se isso seria possível.

Flashback: Carol.

Era muito difícil para mim, aceitar que minha relação com Luca havia acabado. Estava péssima, completamente humilhada, e grata por não ter ninguém olhando enquanto meus olhos derretiam o lápis e o rímel que eu havia passado. Naquela altura, parecia ridículo que eu tivesse sequer dado-me ao trabalho. Nada faria com que eu parecesse menos horrorosa, com o astral que eu estava. Tensa, amarrei os cabelos mais uma vez. Para completar a cobertura do bolo de merda, tinha acabado de descobrir que reprovaria o ano. De novo. Já estava matematicamente reprovada em mais matérias do que poderia me dar ao luxo, e sem a menor perspectiva de qualquer solução mágica para o meu problema. Pelo menos, eu tinha as escadas do segundo andar, onde ninguém bisbilhotava durantes as aulas. E aquele cantinho contra a parede, havia se tornado o meu canto da paz, nos três anos em que tivera de aturar o Santa Bárbara e as freiras loucas lideradas pela Irmã Claudia. Minhas mãos estavam tremendo enquanto eu tentava pensar numa forma de não me condenar por querer Luca de volta. Estúpida. Eu sabia que ele estava apaixonado pela Victoria. E que ela nunca ficaria com ele. Não quando estávamos nos aproximando tanto, ano passado. Se eu não tivessa dado força e dito a ela que estava tudo bem, ela não estragaria uma amizade. Talvez fosse uma pessoa melhor do que eu havia pensado desde o começo. E com certeza não merecia uma amiga que tenta agarrar o namorado dela em plena escola, no banheiro dos meninos. Coitada.

– Hey Carol, sente-se mal? — a voz de Matias veio como um sussurro. Todo mundo sabia que o Cortes era afim de mim. Ele até tinha medo de me dirigir a palavra. Devia estar muito nervoso. Acabada e totalmente carente, gostei daquela atenção. Sorri, ainda que meio sem vontade. — Você está rindo pra mim? Está mal mesmo. — Ele sentou-se ao meu lado, conseguindo realmente me fazer sorrir. — Qual o problema? Sei que não somos próximos, mas às vezes, a melhor pessoa pra guardar seu segredo é um estranho.

– Duvido muito disso — rebati, arqueando uma sobrancelha e sorrindo.

– Ok. Reformulando: Às vezes a melhor pessoa pra guardar seu segredo, é um estranho afim de você, e que reuniu coragem pra falar com a pessoa de quem tem mais medo no mundo, pela primeira vez. — A franqueza dele foi o que me fez enxergá-lo pela primeira vez. Um carinha legal. Talvez eu devesse ter permitido que ele fizesse meus trabalhos. Provavelmente não estaria reprovando.

– Você provou seu ponto — suspirei. — Estou louca de pedra porque o Luca me rejeitou, e mesmo que eu não estivesse mais querendo nada com ele no fim, agora o quero de novo. Só porque me dispensou quando tentei agarrá-lo — ele pareceu espantado. — Não faça essa cara. Sem julgamentos, ok?

– Ok, madame. Pode continuar. — Matias ergueu os braços em rendição, totalmente pateta com aqueles óculos quadrados e o pescoço magro. Mas de alguma forma louca, achei fofo.

– E estou reprovada. Matemática, Física e Geografia. Completa e decididamente reprovada — desabafei, toda chorosa. — Todos os meus amigos vão se formar, menos eu.

– Geografia, Carol? Sério? — ele estava se controlando para não rir. Eu também. — Ok, vou te ajudar. Mas vai ter que ir à festa de formatura comigo se passar de ano, ok?

– Ok — aquele foi o melhor trato que já havia feito na vida. Eu só não sabia.

Nos dois meses seguintes, estudei exaustivamente com Matias. É claro que ele ia na minha casa sem que nenhum dos outros soubesse. Era um pesadelo escondê-lo de todos, já que morávamos no mesmo condomínio. Um inferno. Pelo menos, encararam meu afastamento como se eu estivesse dando espaço para Vicky e Luca, e os dois acabaram continuando a namorar sem qualquer interferência minha. O que era um alívio tanto pra mim quanto pro Luca, que estava contente com minha ausência. Tanto melhor. A companhia de Matias estava ajudando bastante. Ele não era tão idiota sem o bando de gente estranha com quem andava. Infelizmente o conheci tão tarde, e ainda menos seus amigos esquisitos, que também não eram tão maus. E, tirando o fato de ser conhecida como a vadia da escola e de ter tido que transar com o professor de Geografia (droga de matéria), meu ano letivo terminou de forma agitada, mas satisfatória. Consegui recuperar minhas notas em quase tudo, e com a ajuda de Matias, superei a separação com Luca de uma vez por todas. Naquela época pareceu que a vida seguiria tranquilamente, com harmonia entre meu seleto grupo de amizades. Eu ainda não sabia da gripe esquisita que já estava rolando, muito menos o que viria depois. Estava feliz.
No final, Matias ficou meio estranho. Acho que ele talvez estivesse ouvindo boatos na família dele. Agora que eu havia conhecido Faye, e descoberto como tudo aquilo começara, fazia bem mais sentido que ele soubesse de tudo antes de qualquer outro. Além do fato de ele ser um baita nerd fã de zumbis, seu pai era um dos figurões do ramo farmacêutico, junto com a família da doutora. Ingênua, eu achei somente que ele estivesse se afastando de mim, por estar intimidado com a minha beleza e charme. O que não seria nenhuma surpresa, porque eu sou estonteante e costumo causar esse efeito nas pessoas. Confesso que fiquei perplexa quando ele foi me buscar pra festa de formatura. Foi a aposta que paguei com maior satisfação.

– Eu não fazia ideia de que você e o Matias estavam juntos! — Ana parecia animada, e realmente linda antes de fazer seu discurso como oradora da turma. Seus cabelos realmente eram incríveis lisos. Não mais bonitos. Mas muito legais. — Ele é meu amigo há três anos e não me disse nada!

– Eu fiz ele calar o bico! — cochichei. — Mas não estamos nos pegando. Ele me ajudou, e agora vou dar a ele a melhor festa que já teve — dei uma piscadela para Ana, que revirou os olhos antes de rir.

– Seja boazinha com ele. É um dos meninos mais legais que conheci — disse, séria. — Lembre-se que não foi fácil me tornar sua amiga depois dos nossos problemas no primeiro ano. Otávio até hoje não esqueceu. Então por favor, pela nossa amizade duramente conquistada, seja legal!

– Cruzes! Que drama! Se eu não soubesse que você curte outra coisa, diria que é afim do Matias — provoquei, rindo. — Além disso, serei boazinha. Até consegui fazer a Vicky desencanar do TOC por um tempo. Estou ficando boa nessa coisa de amizade. — Pra minha surpresa, Ana pegou na minha mão, antes que eu pudesse partir.

– Eu sei. E tenho certeza de que vai ficar melhor ainda...

Carol.

Com um grunhido de protesto, Helena se levantou. Ela parecia bem machucada na perna atingida pelo tiro, embora nenhum dos outros parecesse muito melhor. Deus, eu preferia ter de matar uma monstrinha como a Lívia outra vez, a ser responsável pela segurança daquelas pessoas. Maldição. Haviam deixado-me para trás com a única cientista capaz de sintetizar a cura, e a única inumana cujo quadro clínico já fora revertido em toda a história. Surreal. E extremamente irritante. Queria arrancar meus olhos, pra não ter de ver a confusão na qual tinham empurrado meu corpo esbelto. Sem pensar muito à respeito, achei que ser barulhento não seria mais um problema, depois do estardalhaço fodido que já havíamos feito. Então, empurrei Helena para dentro do carro de Faye, e sentei ao volante. A doutora não perdeu tempo, e empurrou Dino e Cecília pra dentro, jogando-se ao lado deles. Dando a partida no motor, acelerei e contornei os destroços em chamas com o veículo, descendo a pequena ladeira e virando a curva final, de frente para o porto.
Era uma visão horripilante. Eu nunca vira um lugar tão destruído desde que aquilo tudo começara. A maior parte dos restaurantes estava incendiada. E, vindo na direção da confusão, uma multidão de mortos parecia disposta a verificar o que havia no nosso carro. Apavorada, fiquei pensando no que fazer. Morrer não parecia uma boa opção. Mas estávamos cercados pelos mortos, e pelo fogo. Subitamente, lembrei de Madeline, e de seu sacrifício. Mais uma explosão poderia ser útil para os meus amigos. E eu poderia finalmente fazer aquilo que já havia me recusado, um dia. Minhas mãos se fecharam com força, e finalmente percebi que precisava daquilo. De uma conclusão. De um fim. Precisava esquecer a dor suprimida da perda de Jonas, que nem haviam permitido que eu sentisse de verdade. Desde o momento em que Topázio arruinara a pousada, eu ficara responsável pelas vidas de outros. E não aguentava mais. Eu estava cansada. Haviam muitos fantasmas ali, agora. E eu queria encontrá-los. Virei-me disposta a pedir que todos saíssem do carro. Meu momento finalmente, havia chegado.

– Carol, ali! Vi movimento dentro daquela cerca viva! Podem ser nossos amigos! Naquele hotel, ali! — Faye apontou, desesperada. — Vamos sair daqui!

– Não faça o que está pensando — pediu Cecília. — Nenhum de nós três sobrevive, se você se matar.

– O quê? Carol, não! — Dino pareceu assustado. E ele sempre se esforçava tanto pra ser corajoso. Aquilo de um jeito estranho me afetou. Mesmo não sendo a tia adotiva número um de ninguém, nem ter tido grandes momentos com os gêmeos em todos esses anos. — Por favor, não nos deixe sozinhos não...

– Ok — assenti. — Sem suicídios hoje. Quero que vocês contem até três e fujam. Vou usar as balas que ainda restam nesse pedaço de ferrugem, que eu chamo de arma. Alcanço vocês.

Um breve momento silencioso foi preenchido pela brusquidez da ação, quando todos correram para fora ao mesmo tempo. Mais atrás, Faye se deteve para puxar Helena do carro. Já bem perto, amparei a menina enquanto ela se esforçava para não ser um peso morto. Em vão, diga-se. Virei-me à tempo de ver um dos zumbis agarrando Cecília pelos cabelos, enquanto ela gritava em desespero. Dino puxou uma pequena faca da roupa, e empurrou a criatura já apodrecida para longe de Cecília, fincando o punhal através da têmpora do infeliz mumificado e assexuado pelo tempo. Pra mim, o rosto esquelético pertencera à uma senhora, algum dia. Segui o exemplo do nosso soldadinho corajoso, e descarreguei minha arma no cérebro dos desgraçados. Percebi que os tiros e a carne humana exposta do nosso grupo, estavam impedindo nosso plano de se concretizar. Então saquei que era hora de sair de cena. Àquela altura, todos já estavam do outro lado, e confesso que pela primeira vez tive total certeza de que o certo a se fazer, era pular a cerca. Ok, trocadilho infame. A questão é que fiquei completamente desmoralizada quando caí do outro lado, numa posição no mínimo tântrica. Cecília começou a rir, enquanto Faye me tirava daquela situação.

– E aí? Alguém que conhecemos? — antes que alguém respondesse, um grito alto chamou a atenção para o segundo andar do hotel com a piscina mais verde e nojenta que eu já tinha visto.

– Essa voz não me é estranha... Parece o tal do Herbert! — Helena observou, apontando para cima.

– Ok, então nossos meninos o pegaram. Ele parece estar tendo um momento difícil ali. — comentou Faye. — Cecília, pode esperar aqui com o Dino? Se algum bicho entrar, corram lá para cima. É só pra que não fiquem expostos. Ok?

– Graças à você estou enxergando outra vez, Faye. Farei qualquer coisa que você disser que é o melhor — brincou Cici, enquanto levava Dino para o interior do térreo. Os dois sentaram-se numa das poltronas, enquanto eu e as duas cientistas caminhamos para cima. Mancamos, no caso da Helena.

– Você devia ter ficado lá embaixo — repreendi, observando sua perna machucada.

– O assassino do Ruan foi pego. Quero ver o que o Arantes vai fazer com ele — havia mais que vingança em seu olhar. Sede de justiça.

Quando chegamos ao quarto de onde saíam os sons, confesso que fiquei francamente embasbacada. Herbert estava amarrado à uma cadeira, com ninguém menos que Victoria e Arantes parados ao redor dele, enquanto Diogo permanecia parado ao lado de uma Irma algemada, um Ricardo de olho roxo e boca sangrando, e um Dante visivelmente exausto. Todos pareceram surpresos quando nos viram, mas de um jeito aliviado e feliz. Sem a menor noção de perigo, corri para abraçar minha amiga. Vicky cambaleou para trás, mas logo me envolveu num aperto caloroso, enquanto parecia sair de um transe.

– Deus, Carol! Que saudades! — ela fungou, emocionada. Afastei-me e fiz carinho no seu cabelo. — Nora também está feliz por te ver bem.

– Isso sim é um avanço — disparou Diogo, e o fitei com meu olhar de Medusa. — Desculpe. Meu nome ainda está no vermelho, pra você?

– Rosa pink. Está clareando — brinquei. — E aí, qual é a do amordaçado? — Herbert virou-se para mim com a brincadeira, e mais parecia um animal.

– Estamos discutindo se vamos matá-lo. Como se tivesse alguma chance de eu não estripar esse filho da mãe! — esbravejou Arantes, socando o prisioneiro outra vez. Irma estava horrorizada com sua mordaça, encolhendo-se como uma lesma velha.

– Sargento, não seria melhor que o levássemos para as autoridades da Fortaleza? Com certeza Orlando não vai deixá-lo vivo quando souber que é um assassino. Mas ao menos ele pode corroborar a nossa versão da história. De que armaram pra nós! — Faye pousou a mão no ombro de Arantes, que pareceu se acalmar, apenas para livrar-se do toque dela.

– A mulher pode confirmar o que você quiser. Ele morre. Irma vai presa. — Arantes puxou sua faca de caça da cintura. Todos antecipamos o que aconteceria, lembrando da morte violenta de Arlindo.

Mas foi Herbert quem se soltou. Avançando sobre a doutora, agarrou-a pela roupa, rodando-a contra a parede. Faye bateu de costas e escorregou para o chão, tonta pelo impacto. O mercenário arremeteu contra ela mais uma vez, mas Helena pôs o pé em seu caminho e o homem desequilibrou, caindo de joelhos. Ricardo avançou contra ele e o segurou pelos cabelos, enquanto Diogo e Victoria davam espaço para que Arantes ficasse de frente para o nosso inimigo. O militar não demonstrava qualquer emoção, além do vazio. Mas quando ele falou, pudemos sentir toda a amargura da perda, e todo o luto de um filho que se vai.

– Agora sim, eu posso dizer que enterrei o meu filho — Arantes de fato, enterrou sua faca muitas vezes em Herbert. — Maldito... — esfregou as mãos ensanguentadas no cabelo, apenas para fazer cara de nojo. — Amarrem o nojento. Deixem ele virar e apodrecer nesse quarto de hotel.

– Aproveitando a vibe vingança, você podia arrancar fora a mandíbula dele, pra não ter o risco do filho da mãe ainda matar mais alguém — sugeri, com meu humor negro soltando faíscas por ver as coisas se resolvendo.

– Carol! Que nojento... — reclamou Vicky, mas Arantes acabou fazendo exatamente o que eu havia dito. Ele sim era assustador, não minha ideia!

Com Irma presa e completamente muda (pelo humor de Arantes depois de matar Herbert, eu não sabia se ela calara-se por medo, ou se tinham arrancado a língua dela), Faye contou a Victoria que o único barco realmente grande no porto, o verde, era o Odisseu. Uma das poucas embarcações da Fortaleza, e que eles haviam roubado para que pudessem chegar ao continente. Por sua vez, Vicky nos atualizou sobre tudo o que tinha acontecido, incluindo as mortes de Sabrina e Valéria. Admito que não lamentei por nenhuma delas, mas sim por Ana, que foi obrigada a matar alguém que significava tanto. De qualquer forma, fiquei feliz pela morte da vadia das flores. Os zumbis eram as únicas criaturas capazes de fazerem com ela, coisa bem pior do que eu tinha imaginado. Quase senti pena por eles, que tiveram de comê-la. Juntos, caminhamos até o andar de baixo, onde Cecília abraçou Vicky emocionada, apenas para ser substituída pelo abraço caloroso de Dino.

– Hey, garotão! Como você está lindo! Acho que as saudades foram tantas, que até esqueci como você está alto! — Vicky o beijou nas bochechas, deixando o menino todo vermelho. — Sua irmã está esperando. Ela não larga dos bebês.

– Eles são bonitos? — indagou, curioso. — Acho que devem ter cara de joelho.

– Preciso concordar! — comentei, rindo. Apesar dos olhares de censura, não me importei. Ficaríamos bem.

O mais difícil foi caminhar entre os becos da cidade, até o restaurante do pai da Victoria. O senhor Frittoli era mesmo um homem bastante criativo. Colocar o nome da própria filha numa franquia de restaurantes na Região dos Lagos do Rio de Janeiro... Clichê de gente rica? Não, nem um pouco. Grata por não ter de me preocupar com mais ninguém, caminhei de forma muito mais livre enquanto nos aproximávamos do refúgio. A maioria dos mortos já havia subido as ruas em direção do ônibus, e provavelmente ali ficariam até as chamas apagarem, ou o navio emitir os sons de sua partida. Com os poucos retardatários, podíamos lidar facilmente. O que era bom, também, já que ninguém mais tinha uma bala sequer. Sem armas, tínhamos apenas nossas facas, e a força dos braços. Duas coisas que eu nunca pensei que seriam necessárias na minha vida, antes do acidente de um policial infectado vomitar sangue em cima de mim, na ponte Rio-Niterói. Pensar que havíamos encontrado a Faye naquele dia, era muito louco. Como se de alguma forma, tudo estivesse conectado. O que, depois de observar Cecília prever o futuro, já não era nada demais. Haviam muitas coisas além do que podíamos imaginar, no nosso mundo. Talvez, mesmo antes daquele vírus mortal tomar nossas vidas como uma explosão de dinamite, já houvessem dezenas de outros pavios acesos ao redor do mundo. Tentando não pensar muito sobre isso, decidi que ficaria contente se pudesse tomar um gole de gim, na Fortaleza. Isso sim, é que seria uma obra prima do destino...

Tânia.

Manuela parecia realmente consternada. Com o olhar fixo, mantinha-se em vigilância constante, num ciclo repetitivo de angústia e ansiedade. Fazendo carinho nos cabelos de Hugo, depois verificando o seu ferimento. Repetidamente. Carinho, verificação. Invertendo a ordem vez ou outra. Aquilo estava começando a me aborrecer, mesmo compreendendo sua situação. Embora eu imaginasse aquilo de maneira um pouco diferente, caso ainda estivéssemos na pousada. De fato, Manuela amadurecera muito. Duvido que na conjuntura atual de sua mentalidade, fosse capaz de cometer o erro de se entregar à Ricardo de novo. O que ninguém sabia, era que eu tinha conhecimento desta história mesmo antes que Otávio me revelasse tudo à respeito. Contudo, a urgência de Nanda era a minha maior preocupação na época, e acabei negligenciando a conversa que desejava ter com Rico, antes de sermos separados de todo o resto do grupo. Havia sido esta a razão para que eu o pressionasse de maneira tão incisiva, também. Eu queria que ele confrontasse os próprios erros. Agora, vendo o pobrezinho do Hugo naquele estado, queria apenas que todos estivessem de volta, e que de alguma forma conseguíssemos levá-lo até a tal Fortaleza, para cuidados médicos.
A verdade era que eu fizera um maravilhoso trabalho em seu ferimento. Mas o Beijo das Sombras era uma droga alucinógena, quando triturado e inalado como pó, do jeito que Valéria utilizara contra Carolina e as meninas. Agora, quando aplicado numa lâmina, como a maluca também o fizera, eu não tinha como prever que tipo de efeitos seriam provocados. Caso a quantidade fosse concentrada, Hugo poderia ter uma overdose. Já estava começando a se debater há minutos, enquanto a região ao redor da pequena perfuração ficava cada vez mais inflamada. Deus, eu precisava tanto de ajuda que começaria a gritar ali mesmo, não fosse os gemidos do menino loiro, em sonhos turbulentos.

– Ri... Rico. Ricardo. Rico... — era como uma prece. Como um desejo. Ou uma despedida? — Rico... Não. Não! Rico! NÃO!

Manuela segurou os ombros do rapaz, enquanto Nanda e Vilma afastavam-se com os bebês, para que estes não fossem despertos e começassem uma choradeira. Otto, totalmente apavorado, agarrou as pernas de Hugo, enquanto sua cabeça se debatia e elevava o tronco contra as forças dos dois. Sentindo a visão arder com as lágrimas, corri para segurar sua cabeça e impedir que ele a ferisse seriamente. Ana, meio dormindo e meio acordada, parecia-se com uma gazela assustada. Apavorada, e sem a menor disposição para lutar. O retrato de alguém totalmente exausta. Matar Sabrina devia ser um peso maior do que ela estava preparada para carregar, no momento. Conter Hugo foi menos trabalhoso do que eu esperava, mas ao vê-lo bater os dentes e tremer por inteiro, temi que pudesse arrancar um pedaço da própria língua. Manuela pareceu ter a mesma impressão, pois já ia tentando enfiar um pedaço de pano na boca do menino.

– Não faça isso, Manuela. Você pode acabar perdendo um dedo. De novo — a adverti. A risada que se seguiu não poderia ser de ninguém, senão de Carol. Voltei-me para a porta da frente do restaurante, a tempo de vê-la entrando no local, acompanhada por nossos amigos. Haviam quatro pessoas que eu não conhecia, mas imaginei que fossem aliados. Com exceção da prisioneira algemada, óbvio.

– É bom ver que você não se tornou uma vira-casacas, Manu — rindo, Carol pareceu aliviada por olhar ao redor, e ver todos bem. E não era a única. A quantidade de abraços e gestos de carinho que se seguiram, foi impressionante.

– É um prazer conhecê-la, Tânia — disse-me a oriental bonita, que Otto apresentou-me como Faye. — Quando os rapazes nos contaram a quantidade de experiência que você tem com ferimentos provocados nesse mundo, fiquei fascinada. Acredito que podemos nos dar muito bem.

– Estou às ordens, doutora — sorri, recordando meus dias no hospital de Belo Horizonte. Ela assentiu, e observou Hugo, cujas mãos tremiam. Ricardo estava debruçado sobre ele, ao lado de Manuela. Aparentemente incomodado, Dante o observava de longe, ao lado de Hugo. Aos poucos, as conversas morreram enquanto todos pareciam notar o estado precário do rapaz. Pálido e mole, já não gemia constantemente. Rico estava chorando, com as mãos no rosto. Manuela parecia concentrada em fitar o chão, enquanto Nanda rezava, segurando seu crucifixo entre as unhas negras.

– O que houve com Hugo? — Faye caminhou ao meu lado, para junto dele. Nos abaixamos, ajoelhando ao seu lado, no chão. — Mordida de zumbi?

– Não, Deus me livre... Ele foi esfaqueado. Mas a lâmina estava envenenada... — com um gesto, pedi que Rico se afastasse do garoto. Totalmente absorto no seu desespero, ele me obedeceu sem questionar. Manuela também. Levantei a blusa de Hugo, e mostrei o ferimento para Faye. — Beijo das Sombras, eu acho. Aquela flor laranja...

– Nossa Senhora! — horrorizou-se Faye. — Alguém me dê uma faca, logo! — Arantes, o militar todo sujo de sangue, (e que estava me dando medo) aproximou -se e inspecionou o ferimento, entregando a lâmina para a médica. Ela moveu-se rápida e rigidamente sobre Hugo, pressionando a lâmina contra as pontas dos dedos de sua mão. — O veneno se concentra nas extremidades do corpo. Numa lâmina, com o pó refinado, pode causar overdose, e outros sintomas. Por sorte, as mãos dele ainda não estão roxas. Vamos salvá-lo, mas outros sintomas incluem amnésia, alucinações, e alguns distúrbios de comportamento retardatários, como consequência da exposição exagerada à toxina.

– Mais ou menos o que aconteceu comigo, na abstinência? — indagou Cecília, preocupada.

– Não. O Beijo das Sombras não vicia. Os sintomas a que me refiro podem ser pequenos transtornos de comportamento, como TOC ou alucinações esporádicas... — Faye furou a ponta dos dedos na outra mão de Hugo. — Existem medicamentos que expulsam a toxina pela urina, mas ele não vai aguentar até chegarmos na Fortaleza. A sangria é melhor... Tânia, pode dar um pequeno ponto nas incisões que eu já fiz?

Como se despertasse de um sonho, comecei a trabalhar. Ana pareceu empolgar-se com a necessidade da ação, e limpou os ferimentos, auxiliando-me enquanto eu utilizava linha de sutura e agulha curva para finalizá-los. Longe de si mesmo, Hugo sequer esboçou uma reclamação. Depois, com o dez dedos devidamente estabelecidos, ele pareceu dormir muito mais tranquilo, embora seu aspecto estivesse pior, pela perda de sangue. No entanto, a maior parte do veneno era passado, e poderiámos considerá-lo fora de perigo. O que não era grande coisa, se não saíssemos daquele lugar em menos de uma hora. Principalmente com os zumbis em enorme quantidade, que começavam a abandonar os focos de incêndio criados pelo ônibus detonado. Grata pela velocidade da Dra. Keiko em auxiliar um amigo, decidi que gostava dela pouco depois de pensar sobre isso. Nossos amigos não poderiam ter encontrado pessoa melhor.
É claro que não demorou muito, e os assuntos voltaram-se para o elefante branco na sala. Como sairíamos daquele porto condenado? Era fácil deduzir que os planos seguiriam um rumo até o Odisseu, barco da Fortaleza. No entanto, como realizaríamos tal façanha? Não me parecia claro. Pelo menos, não enquanto mantive-me ouvindo as conjecturas de todos, calada. Foi apenas quando vi Arantes, acendendo um cigarro, que compreendi nossa válvula de escape.

– Victoria, o que acha de um incêndio? — interrompi a linha de raciocínio coletiva, que já girava em torno de uma estratégia de divisão em grupos. Eu estava cansada de divisões. — Podemos colocar fogo no restaurante, e deixar que o foco de incêndio atraia as criaturas, enquanto chegamos até o porto. Não estamos nem um pouco distantes. Será seguro.

– Isso se não aparecer nenhuma ave, ou inseto... — concordei com um aceno, diante da colocação plausível de Ana. — Mas na verdade, precisamos correr o risco. Não temos outra escolha.

E foi exatamente o que fizemos. Quando deixamos o restaurante em fila indiana, senti-me extremamente nervosa diante daquele momento. Hugo estava desacordado nos braços de Ricardo. Eles dois não poderiam oferecer proteção alguma. Carregando os bebês, Vilma e Dino eram acompanhados de perto pelo olhar atento de Fernanda. Finalmente, ela se tornara a mãe carinhosa que eu sabia, Diana estaria orgulhosa de ver. Juntos, avançamos em meio ao caos, subitamente ouscados quando Diogo e Arantes jogaram um pouco de combustível e acenderam um fósforo na varanda do Victoria's. Lembro-me de haver sorrido, com o pensamento de que Dimitri e o pai de Victoria eram os donos daquela rede de estabelecimentos. O que fazia com que, tecnicamente, tivéssemos permissão da própria dona, para queimá-lo. Conforme os mortos aproximavam-se, tiveram a atenção desviada para o fogo. Carolina passou por mim, apoiando os passos de Helena com a ajuda de Dante. Juntos, os três foram os primeiros a chegar ao cais. Rapidamente Otto e Arantes começaram a puxar uma corda grossa, que estava atada ao barco. Provavelmente uma maré cheia e tempestades haviam feito com que o veículo se afastasse, esticando ao máximo a corda. Sob a noite densa e cheia de expectativa, o fogo era como um farol de luz branca, e não vermelha. Como a paz que vem após a conclusão de uma guerra, acreditei que havia esperança em nosso caminho. Eu devia ter esperado um pouco mais, para tanto. Quando um zumbido ensurdecedor agrediu meus tímpanos, reconheci a melodia infernal que vinha dos céus. Sobre nossas cabeças, dois inumanos morcegos desceram, como mensageiros da morte e do desespero.
Veloz e mortífero, um deles acabou atingindo a corda da embarcação com as garras na ponta da asa, rompendo-a. O estalo que se seguiu foi acompanhado pelo esguicho da água na beira do porto, e no pânico de recuperar a corda, Otto acabou caindo na água. Cecília gritou com o susto e Diogo pulou atrás do amigo. Logo, Arantes o agarrou pela mão, e os tres mantiveram o Odisseu parado. Na comoção do momento, Dante e Carolina correram para ajudar, enquanto todo o grupo se mobilizava para recuperar nossa rota de fuga. No entanto, não havia ninguém atento a mim, infelizmente. Meu mundo girou mil veze mais rápido, quando as mãos de uma das criaturas fecharam-se ao redor do meu pescoço. Agarrando-me por trás, o monstro de pele lisa e escorregadia ergueu-me, enquanto eu sentia como se brasas ardentes substituíssem as minhas cordas vocais. Minha visão ficou embaçada, mas vi Victoria agarrando a corda e reforçando grandiosamente o esforço dos nossos amigos. Não vi, no entanto, Faye vindo em meu auxílio, e sendo arremessada por metros, pelo segundo inumano. Com uma exclamação muda e dolorosa, ela dobrou sobre si mesma. Carolina viu o que estava ocorrendo, mas estava mais distante do que Ana, que jogou-se sobre as costas do inumano que mantinha-me cativa. Ele soltou-me, mas fui acometida por uma tosse consumidora, lutando por ar e libertação daquela ardência terrível. No meu terror inenarrável, vi Ana sendo mantida presa no chão pela criatura. Assustada, senti uma mão nos meus ombros, e virei-me a tempo de encontrar o olhar de Nanda.

– Tânia, está tudo bem? Deus do céu... — ela alisou meu rosto, apavorada.

– Estou, querida. Ajude Ana e Faye... — pedi à esmo, sem saber sequer onde os outros estavam.

– Ok, eu estava apenas deixando as crianças num lugar seguro... Estou indo!

Fernanda correu até Ana, abaixando segundos antes da asas do morcego virar-se, ofendida. Ela desviou-se do golpe com uma graça assustadora, e ergueu-se com uma destreza ainda maior. Sentindo-se desafiado, o inumano negou-se a manter suas atenções numa inimiga frágil como Ana. Voltando-se para Nanda, tentou acertá-la com os ossos nas pontas das asas com toda a voracidade possível. Limitando-se a desviar dos ataques, Nanda girou rapidamente, atingindo a membrana lisa com suas unhas, que romperam o tecido com a facilidade que um leão rompe a pele de um cordeiro. O inumano gritou ao ver-se impedido de voar, e isso chamou a atenção do outro, que tentava matar Carol e Dante, que tentavam distraí-lo para que Faye pudesse fugir. Consegui levantar quando Ana se aproximou, e nós duas caminhamos apressadas para junto dos gêmeos, que seguravam os bebês ao lado de Ricardo e um Hugo desmaiado.
A segunda criatura tentou ir em auxílio da primeira, numa relação quase desesperada. Os dois pareciam determinados a chegar perto dos bebês, e todos nós estávamos no caminho. Eram seres apaixonados pelos seus objetivos insanos. Criaturas irracionais, movidas pelos instintos de um predador orgulhoso e mimado. Distraída na luta com seu oponente, Nanda não notara a aproximação do outro inumano. Tentei gritar, mas tudo que consegui foi um gemido. Que não se provou justificado. Rápida como um guepardo, Nanda estraçalhou a garganta do monstro com a asa ferida, logo depois de imobilizar suas asas com um choque elétrico. O monstro caiu demantelado, e o outro estancou seu movimento, assustado. Olhando para os lados, a criatura percebeu que toda a atenção do grupo estava sobre ele. O Odisseu estava perfeitamente atracado ao porto, e Arantes já abaixava a pequena escada de acesso. Foi o que bastou para que ele percebesse que estava em desvantagem. Com um chiado horroroso, levantou voo para fugir. Uma faca de cabo rubro transpassou uma de suas asas, e ele caiu de joelhos sobre a madeira enfraquecida pela maresia.

– Uau! Ótimo arremesso, Vilma! — parabenizou-a Ricardo, com uma risada. Todos ficaram surpresos, enquanto ela corria para pegar sua faca de volta, que caíra na areia da praia. Apolo fora transferido para o colo de Ana, ao meu lado. Antes que o monstro conseguisse levantar, Nanda agarrou suas asas, mantendo-o virado de barriga para baixo. Debatendo-se, o ser tenebroso pareceu capaz de virar o jogo. Mas o estalo da eletricidade pungente disparada das mãos de Fernanda, o paralisou de vez. Ela ainda o segurava muito tempo depois que o monstro morrera, com um ódio inato e assustador. Todos ficaram chocados com a expressão de prazer no rosto de Nanda, enquanto fumaça desprendia-se da boca do pobre desgraçado.

– Pessoal, vamos embora! Os mortos estão vindo! — Otávio acenou para que fôssemos até eles, e recebi de bom grado a ajuda de Carolina, para me levantar. Sabia que ficaria rouca durante muito tempo, ainda.

Nossa entrada na embarcação foi, surpreendentemente, fácil. Todos caminhamos rápida e organizadamente. Sem hesitação ou ataques. Acredito que nós merecíamos que pelo menos aquele aspecto do plano, desse certo. Faye estava com um corte na testa, mas ficaria bem. Eu não esqueceria que ela se arriscara por mim. Todos acomodaram-se o mais rapidamente possível, enquanto os zumbis se atiravam para o mar, na tentativa desesperada de nos alcançar. Com um solavanco, começamos a nos afastar da costa, enquanto Arantes guiava o iate. Todos nos acomodamos na popa do veículo, e particularmente, fiquei encantada com todo o conforto presente naquele lugar. Apesar de sujo e agredido pela maresia e ventos bravios, parecia-se mais com uma pequena moradia de luxo, do que com uma rota de fuga. Não parecia o tipo de veículo projetado para grandes viagens, nem que poderia suportá-las frequentemente.

– Vamos levar a prisioneira para baixo. Arantes disse que teremos uma cabine só pra ela — riu Diogo, puxando uma Irma ultrajada pelo braço.

– Esse navio não parece muito com um veículo de resgate... — resmungou Carol. — Mas eu amei.

– Não foi projetado para resgates, realmente — concordou Faye, sorrindo. — Mas estaremos seguros. A Fortaleza não é muito distante daqui. Fica mais próxima do continente do que vocês imaginam.

– Não vejo a hora de chegarmos. — Ana sorriu, encostando a cabeça no ombro de Otto. Nanda a observava silenciosamente, sem expressão alguma. Ela estava sentada ao meu lado, muda, enquanto todos mantinham-se ocupados com pequenas conversas paralelas.

– Está tudo bem, querida? Foi meio impressionante o que fez lá atrás — observei, abraçando-a, passando meu braço ao redor de sua cintura.

– Olha só pras minhas mãos — ela ergueu-as diante dos nossos rostos, como se estivesse exibindo a cor de um esmalte. Concentrando-se, ela arfou de surpresa, quando todas as dez começaram a encolher. Escondendo-se sob sua pele, voltaram ao tamanho natural de antes, parecendo bem pouco ameaçadoras, ainda que negras. — Legal, né? Eu não sabia que podia "desligar" isso. É por isso que estava dando choque nas pessoas, sem querer. Agora sou como o Quindin, meu antigo gato. Só mostro as garras quando estou nervosa.

– Impressionante, de fato — rindo, a puxei para um abraço, contente por estarmos seguras, longe do lugar onde ficáramos todos presos nos últimos dois anos.

Mesmo naquela noite obscura, eu não poderia estar mais feliz. Ainda que fossem incertos nossos destinos, naquele momento eles eram o que tínhamos de melhor. Juntos, éramos mais fortes, não invencíveis. Mas fortes o bastante para suportar o que quer que nos fosse imposto. Essa era a grande diferença, do nosso grupo para todos os outros. Não éramos como uma família. Éramos uma família, de verdade. E mesmo com as dores, tragédias e medo, sabíamos que no fim, teríamos uns aos outros. Por mais improváveis ou assustadoras que as circunstâncias fossem. Éramos almas em quebranto, mas também renascidas. Estávamos finalmente juntos, e nada mais importava.

Flashback: Otávio.

Victoria estava especialmente impaciente naquele dia. Andando em círculos no seu quarto, ela estava me fazendo suar. Mesmo com o ar-condicionado central da casa dela ligado. Como eu ficava nervoso quando ela tinha uma das suas crises de ansiedade. Sempre acabávamos os dois ali, no quarto dela, arrumando as coisas mais de mil vezes. Na quarta vez em que tínhamos organizado os DVD's dela, tive que me controlar para não pular pela janela e acabar morto no primeiro ano do ensino médio. Bufando, comecei a demonstrar que estava insatisfeito. É óbvio que ela iria notar em algum momento. Não demorou muito, mas Deus, no meu estado de espírito pareceram anos.

– O que foi, Otto? Você não precisa me ajudar. Pode ir lá embaixo jogar XBox com o Carlos, se quiser — ela estava totalmente irritada. Cruzes.

– Não adianta ficar resmungando. Você sabe o real motivo de estarmos aqui. Você e o Luca se beijaram. E daí? — coloquei o exempler de Chicago em cima da estante de filmes. — Não é uma Guerra Mundial, você sabe...

– A Carol é uma das minhas melhores amigas! Tá legal que ela foi uma vadia comigo do quinto ano ao nono, mas ela se tornou alguém muito especial na minha vida! E namora o Luca. Aquele maluco... Como pode ter beijado alguém como eu tendo a ela? — Vicky afundou na cama, escondendo o rosto com sua almofada em formato de unicórnio.

– Corta essa de "sou feia" e "sou maluca". Todo mundo sabe que você tem TOC há anos. Passamos a infância juntos, oida. Quando o Luca veio morar aqui, vindo de São Paulo, ele ficou logo afim de você. Só que éramos todos pirralhos, e como você vive nessa sua bolha...

– Eu não vivo numa bolha! Deus, isso me faz lembrar daquele filme, em que um menino é criado numa bolha de plástico, e no fim não tinha doença alguma! Credo, quem ainda lembra daquele filme?! Sou uma aberração! — e ela estava chorando. Droga. Meu celular tocou, e o som da melodia de Going Under, do Evanescence encheu o quarto. Vicky revelou seu rosto inchado, fazendo careta pro meu toque.

– Ninguém mais ouve isso, você sabe. Não sei o que você e a Ana tem com esse pessoal das antigas. Lady Gaga, Beyoncé, Evanescence... Tão dois mil e dez... — resmungona, ficou me espionando curiosa. — Quem é?

– A própria. Ana, vou te colocar no viva-voz. Pelo menos você não vai morrer tão cedo! — rindo, deslizei o dedo no meu bloqueio de tela e mudei a ligação para a opção de conferência de imagem. O rosto de Ana surgiu no visor, enquanto ela olhava para nós animada.

– Vocês não vão acreditar no que aconteceu. Vicky, escuta só: A Carolina passou aqui na frente de casa aos berros com o Luca! Eles se separaram! É sua chance. Fui na casa do Otto pra contar a ele primeiro, mas já que estão juntos... O que acha? — ansiosos, aguardamos a resposta. Aquela era uma dúvida minha, também.

– Hãn? Acho que eu devia ir à casa dela, e perguntar se precisa de algo...

– NÃO! — eu e Ana dissemos juntos. — Ela não te contou nada ainda, esqueceu? — Ana parecia querer dar um tiro em si mesma.

– Você é lerda? — indaguei, revoltado. — O cara que você gosta deu um fora na garota mais querida da escola! Não vai fazer nada?

– Minhas amizades são mais importantes. Como vocês dois — Victoria fungou. — Como me aguentam?

– Nós te amamos. — Ana revirou os olhos. — Não é óbvio?

Otávio.

Todos estavam dormindo. E pegar no sono foi mais fácil do que qualquer um poderia ter previsto. Apesar dele, ouvi quando alguém passou ao meu lado na popa, movendo-se para baixo. A pessoa estava indo em direção às cabines. O local onde devíamos ter dormido, quando a maioria de nos acabara simplesmente caindo em qualquer lugar. Esperei até que a pessoa saísse de vista (era difícil distinguir quem era, devido à luminosidade quase nula), e levantei-me. Nem mesmo Arantes resistira. Estava dormindo, também. Completamente parado, o iate era embalado pelas ondulações do mar. Uma canção de ninar que vinha do oceano, nos levando à terra do descanso e escuridão infinitos. Nanda e os bebês estavam numa daquelas cabines. Hugo também, dormindo em uma das camas enquanto recuperava-se. Além deles havia Irma, nossa prisioneira. Ela fora amordaçada e algemada à uma das camas. Mas poderia ter se soltado. E eu não queria correr aquele risco. Lenta e gentilmente, desci até o corredor comprido de madeira lisa. Portas amplas estendiam dos dois lados, e um pequeno corredor curvava-se à direita, indicando as suíte enorme com hidromassagem. O ricaço que Faye havia roubado devia estar realmente irritado por perder aquela belezura toda. Não me atrevi a acender as luzes. Mas percebi que o ser misterioso que eu estava seguindo, já havia passado por uma daquelas portas. Quando comecei a andar entre elas, não imaginei que fosse ficar tão irritado por não poder ver. Entendi um pouco melhor o alívio de Cecília. Deus... Ouvi um grunhido, e quase continuei meu caminho. Mas ele ficou mais forte, e tornou-se algo diferente de inquietação ou rabugisse. Era medo. Irrompi na cabine de Irma, agarrando o vulto que curvava-se sobre ela, com as mãos envoltas em seu pescoço. Puxando o agressor da prisioneira para longe, caí no chão ao lado dele. Num ato de urgência, acendi as luzes.
Deparei-me com Ana, assustada e pálida. Havia suor por todo o seu rosto, e ela parecia realmente transtornada. Então, de joelhos, ela começou a chorar. Soluços doloridos, que vinham à superfície como se lutassem e abrissem à força, o seu caminho para fora. Abracei-a, e chorei também. Pobrezinha. Não pude imaginar a dor que eu sentiria, caso tivesse que matar Cecília. Mesmo que ela ficasse surtada, de repente. Com alívio, percebi que eu não corria esse risco. Se havia alguém capaz de aceitar o futuro ali, era ela.

– Eu sequer vi o rosto dela, Otto. Eu não a reconheci quando atirei, sabe? Pensei que era outra pessoa. Deus... Eu nunca vou poder dizer que ia perdoá-la! — A apertei com mais força, totalmente arrasado. — Pelo menos, acredito que vou poder vê-la de novo. — Seu olhar sustentou o meu, mais firme. Ela apontou para Irma. — Achei que essa mulher era a culpada por influenciar a Sá, mas no fundo, eu sabia que ela era exatamente daquele jeito. Esse mundo acabou com ela, Otto... Ela foi diluída por cada coisa ruim... Desde o Arlindo. Espero que esse final, e tudo o que ela sofreu, conte para que ela tenha um pouco de paz, do outro lado.

– Ela terá. Tenho fé que sim — confessei. — Sabe, eu acredito que há um lugar bom, e um ruim, pelo qual todos nós vamos passar. O que determina o tempo em que vamos ficar em cada um deles, antes de nascer de novo, somos nós quem decidimos.

– Espero que seja assim. Vou ficar mais tranquila quando for minha vez — ela sorriu, mas não de verdade.

– Mas não vamos descobrir isso por muito tempo! — ri, tirando sarro para descontrair. Ana não sorriu. — O que houve? — Eu também não estava mais brincando.

Ana pousou a mão no meu rosto, e afastou seu lenço amarelo do pescoço. As marcas de três profundos arranhões ali jaziam, totalmente infectadas. O inumano. Não consegui discernir o que estava vendo, do que estava pensando. Por um segundo só vi o rosto daquela criatura fritando, e o ódio frio no rosto de Fernanda. Ela já sabia, e por isso fora tão cruel. Somente o ápice da dor, era capaz de tornar Nanda cruel. E eu só a vira daquele modo, quando matara Arlindo. Ali, de certa forma, ela sofria o luto pela própria inocência. Mas no Porto da Barra, seu luto era por Ana. E agora eu compreendia. Não me contive, não havia necessidade. Era um dos meus piores pesadelos se tornando realidade. Deitei a cabeça no colo de Ana, e chorei de verdade. Ela é quem me consolou, enquanto acariciava meus cabelos. Ergui a cabeça um pouco depois, e meu olhar cruzou com o de Irma, presa à cama. Ela estava claramente comovida e desconfortável. Desgraçada.

– Olha só o que você e o seu bando provocaram! OLHA! — Minha revolta era completamente injustificada. Totalmente sem sentido. Irma não tinha culpa alguma.

– Vamos lá para cima? Quero ver o sol antes de... Você sabe. — Ana estava sorrindo, apesar de agora eu estar notando melhor seu estado febril.

Totalmente em silêncio, Ana e eu caminhamos para a proa da embarcação. Juntos, nos sentamos na ponta do iate, olhando para o mar e o céu noturno, que tornava-se levemente rubro, com o arrastar das horas. Como desejei que o tempo parasse... Aos poucos, outros tons uniram-se ao caleidoscópio dos astros, acrescentando um pouco de roxo, rosa e laranja. Ouvimos um pequeno ranger de madeira atrás de nós, e nos viramos enquanto Victoria aproximava-se, abraçando a si mesma. Ela estava totalmente confusa, apesar de bem humorada. Atrás dela, uma Carol com cabelos bagunçados e olhar irritado vinha, claramente irritada por ter sido acordada.

– O que vocês estão fazendo? — Vicky estava rindo. — Fiquei olhando pra vocês um tempão, aí quando vi que estavam curtindo o nascer do sol, chamei a Carol. Achei que podia ser o primeiro momento só nosso, em muito tempo... Que cara é essa, Otto? — Ana mostrou seu ferimento, ainda abraçada a mim. A expressão de Carol despencou. Ela despiu-se totalmente do seu personagem, e colocou a armadura de lado. Chorosa, agarrou a nós dois, com Vicky unindo-se ao nosso aperto no mesmo instante, em choque. — Não acredito que isso esteja acontecendo...

– Não é culpa de ninguém. — Ana a acalentou, alisando a juba dourada de seus cabelos. — Algumas coisas simplesmente precisam acontecer. Só fiquei chateada por não ver a Fortaleza. Vou morrer curiosa.

– Ridícula — xingou Carol. — Deus, nunca imaginei que eu fosse te dizer isso, mas vou sentir sua falta. Sabe, não que eu não pensasse que era sua amiga, mas sempre achei que depois do Luca, não precisaria dizer mais isso a nenhum de nós cinco. Sempre achei que eu seria a próxima...

– Eu também — concordou Ana, fazendo com que todos ríssemos. Àquela altura, já estavamos sentados no chão da proa, e não nos bancos. Grudados, nós quatro podíamos observar o céu de maneira ainda melhor, enquanto o horizonte nos atingia com sua beleza avassaladora. — Mas você evitou tanto, e ficou adiando sua vez... Tive que passar na frente. — Ana começou a tossir, e sua mão ficou coberta de sangue, quando a retirou da boca. — Huh, não é um bom sinal... Acho que não faço o tipo inumana. E Vicky, não tente. Sério. Lembra do que aconteceu com o Luca? Se a pessoa não tiver em si o necessário pra mudar sozinha, não deve mudar.

– Eu sei. Nunca mais vou cometer o mesmo erro. — Vicky beijou a testa dela. — Quer esperar até o fim? — Um gesto positivo. — Ok. Ficaremos os quatro juntos. Para sempre.

– Pra mim, vai ser mesmo. Não deixem isso desanimar vocês, pessoal. A festa só está começando... — Ana segurou minha mão, e a apertou quando a tosse a acometeu novamente. Carol mordeu o próprio lábio para segurar o choro, mas acabou não aguentando.

Olhamos para o sol até o fim. Gostaria muio de dizer que Ana se foi como se dormisse, de maneira singela e suave. Mas no fim, ela começou a sofrer. Não sei por qual razão, mas não atendi ao seu pedido. Não pude suportar. Antes que sua agonia fosse forte demais, a tirei deste mundo, para o que eu espero que seja algo muito melhor. Surpresas, Carol e Vicky choraram ainda mais, e apertaram o corpo dela, junto comigo. Ana morreu como uma pessoa corajosa. Ela ainda estava sorrindo, tentando nos alegrar, quando se surpreendeu com minha atitude. Mas apesar dos olhos surpresos e fixados em mim como uma repreensão pela minha impeciência, seu sorriso se manteve. Como se a última piada particular entre nós dois, a dupla dinâmica, ainda estivesse perdida em seus lábios. Pensei que ela era muito sacana, por esconder aquela última graça de mim. Mas era o jeito certo de partir. Os melhores nunca entregam todos os seus truques.
Com um gemido contido, Carol fechou os olhos de Ana e manteve suas mãos sobre o rosto dela, fazendo carinho. Sentindo o sangue de minha amiga molhando meus braços que a sustentavam, reprimi o impulso de gritar. Ainda não queria acordar os outros. Vicky fungou e apertou-se mais contra Carol. Um movimento suave se fez notar no canto de minha visão periférica. Deslizando a mão sobre o meu ombro direito, Cecília sentou-se no chão da proa ao meu lado, deitando a cabeça em meu ombro. O sol despontou no céu, escapando do ofuscar invejoso de uma nuvem de chuva. Seus raios deviam ter nos banhado em luz, mas foram bloqueados pelos contornos de Diogo, enquanto ele também se sentava ao lado de Victoria. Sorrindo, pensei ter visto os traços de outras pessoas, apesar de toda a luz que quase cegava-me por completo. Como se pudesse sentir a presença de outros, através do toque da luz branca em meu corpo. Como se o sol fosse um holofote, mirando-nos com sua luminescência à despeito de todo o calor ausente. Naquele manhã em que pensei ter visto o paraíso, o astro-rei não era dourado, nem ardente. Sua cor era o branco, e seus raios eram suaves dedos de Deus, levando nossas lágrimas até Ele. Por todo o consolo das presenças ao meu redor, notei que apesar dos defeitos e dos reparos que alguns precisavam, estávamos todos sempre unidos, lado a lado. E, de alguma forma bem louca, o fim do mundo nos trouxera uma profundida que eu sabia agora, jamais teríamos nas nossas antigas vidas. Eu conhecia quem eu era. Quem nós cinco, éramos. Luca fizera o seu melhor, e estava em paz no fim. Ana também. E soube naquele momento que, se houvesse algo bom esperando do outro lado, com toda a certeza era ali onde meus amigos estariam.

– Ela vai ficar bem, Otto. — Cecília beijou meu pescoço, ignorando suas próprias lágrimas para secar uma das minhas, com seu polegar. Percebi que a maior parte do seu sofirmento, era pelo meu pesar, também. — Há muita luz esperando por alguém como ela. A deusa é generosa com aqueles que morrem em seus braços, com aqueles que ainda se lembram dela. Ana se foi banhada pelo mar, as lágrimas e o sangue da Mãe Natureza. E ela acreditava de verdade. Nem mesmo a maldade de Topázio a fez desistir.

– O que você vê, de verdade? Sabemos que ver o futuro não era o seu dom como inumana. Vê alguma coisa esperando por nós? — Vicky parecia cansada, mas sua voz tinha além de insegurança, esperança.

– Neste momento, sinto mais do que vejo. Sinto o espírito de Ana em paz, e o amor que ela envia a vocês. Sinto que ela me ama, também. Sinto que o que vamos fazer nesse lugar será muito importante, e que vamos ser testados — apesar de sua expressão séria, Cecília sorriu. — Mas tenho fé em nós. — Ela curvou-se e beijou o rosto de Ana. — É lindo aqui. Um ótimo lugar para morar pra sempre. Ana vai dormir no mar.

– Ela vai, sim. Sem precisar reclamar, nem acordar de mau humor — riu Diogo, com os olhos vermelhos. Ele beijou o topo da cabeça de Victoria. — É bom estarmos todos juntos, de novo.

E era, sim. Ainda que quiséssemos entregar nossa amiga ao mar o mais rápido possível, permanecemos ali com ela até que todos começaram a acordar. E, enquanto todos despediam-se de uma grande amiga, despedi-me de uma parte de mim mesmo. O Fred Weasley para o meu Jorge. O pikachu do meu Ash. Minha companheira de jornada. Minha irmã. Ainda que tivesse sido necessário tamanha tragédia para que eu notasse o quão longe havia chegado da minha antiga vida, e o quão orgulhoso eu estava pelas vidas de cada um dos meus entes queridos, valia à pena. Algumas coisas simplesmente têm que acontecer, como dissera Ana. E, para mim, era muito importante ter podido encontrá-la, antes do fim. Embora eu não quisesse, isso devia me bastar. Era o melhor presente que eu podia dar a ela. A aceitação, e a promessa de ser alguém melhor, todos os dias. Além de um agradecimento por ter me protegido pelos anos mais frágeis da minha vida. Este último, eu esperava poder dar pessoalmente, no meu dia.

Notas finais
E atendendo à pedidos, coloquei flashbacks. Não é algo que eu havia programado, mas sem perceber, acho que tornou o final do capítulo ainda mais impactante. Acredito que haja um paralelo interessante, nesses momentos. Talvez vários, e acredito que os leitores mais atentos possam ter percebido alguns. Sem mencionar pontos que poderão surpreender, na próxima temporada. Migalhas de pão que deixei pelo caminho, e acho que ninguém percebeu, hehe. ^-^ Isso deixa tudo melhor ainda, kkk. Bem, como é final de temporada, estou muito falante. Antes do Natal deixo o presente de vocês. Os dois capítulos iniciais de Teorema de Gaia. Por favor, se estiverem acompanhando pela internet, sem sequer terem uma conta no Nyah! (minha irmã caçula faz isso com mais de trinta fanfics ao mesmo tempo ¬¬) façam uma forcinha e favoritem e/ou comentem! Apelações terminadas, um grande abraço a todos! Kisses by DroppingPieces!