Quebrados
11 Eu te amo.
Notas iniciais
Na viagem para casa, Dylan não tinha acordado. Ele estava muito cansado e resmungava algumas coisas em seu sonho. Eu fiquei atrás com ele, e Dante dirigia. O meu garotinho estava com a cabeça em meu colo e os cabelos faziam cócegas nas minhas pernas. Ele era simplesmente adorável, a pele braquinha, as bochechas rosadas, os cílios compridos e os cabelos loiros. Será muito bonito quando crescer. Igual ao pai, será um pecado para os olhos das mulheres.
—É bom saber disso. — Dante respondeu sorrindo pelo retrovisor e eu me toquei de que tinha falado alto a última frase. — Então a senhorita me acha bonito, elegante e cavalheiro heim...
—Sim, muuuuito, Kannenberg. — Atirei um tom sarcástico. — Ainda bem que você é modesto. — Ele riu.
—Você também é muito bonita, Sofia. — Os olhos azuis grudaram em mim. Ele me admirava silenciosamente. — É atenciosa, inteligente, gosta de cozinhar, aprende rápido as coisas, tem um bom coração e é muuuuito teimosa, além de sexy. — Enfatizou a última parte com aquele sorrisinho.
—Obrigada. — Era a única coisa que eu consegui responder... Ele me deixou corada com os elogios e o diabo do sorriso. — Dante, você precisa controlar esses seus malditos sorrisos. — Acusei.
—Por que? — Ele achou engraçado, rindo com a melodiosa voz rouca. — Eu não posso mais sorrir? — O homem continuava com as covinhas.
—Não, meu noivo, você pode. Claro que pode! Eu estou dizendo para você controlar os seus malditos sorrisos de molhar calcinhas, Kannenberg. Isso, é um perigo! — Apontei para ele no espelho. — O seu sorriso é muito pornográfico para ser exposto por aí, meu noivo. A diretora quase teve um orgasmo quando você sorriu para mim. Diabos, eu acho que ela teve. — Eu adorava fazê-lo rir, e ele estava rindo muito...
Eu preferia vê-lo com os sorrisos e rindo ao invés da culpa em seus olhos. Ele sentia muita culpa e eu queria fazer alguma coisa por ele.
—Mamãe... — Dylan falou sonolento, cortando o clima relaxante que estávamos tendo. Ele não acordou, mas continuava chamando por sua mãe uma ou duas vezes. Eu apertei o corpo do pequenino para mais perto de mim. Dante ficou tenso, eu o vi segurar o volante com força e estreitar os olhos.
—Dante, está tudo bem. Dylan está dormindo. — Inclinei para a frente e toquei o ombro dele, reconfortando-o ou tentando, no caso.
—Faz algum tempo que ele não chama pela mãe. Não é como se fosse a primeira vez, mas mesmo assim ainda torna muito difícil escutá-lo. — Uma dor aguda fez os meus olhos lacrimejarem. Ou melhor, os olhos dele me fez lacrimejar e sentir a dor. Por que ela tinha que morrer? Isso era injusto, ela deveria estar tomando conta deles... Sorrindo com eles, jantando com eles ou gritando de dor por eles. Não eu. — Não chore, Sofia. Eu não gosto de te ver chorando, faz tudo ficar pior...
—Por que, Dante?! — Enxuguei os olhos. — Por que você se culpa tanto?! O que você fez para se culpar? O que ela te fez? O que aconteceu com ela? Em que você errou? O quão você a machucou para não conseguir contar nada?! — As perguntas poderiam ter continuado de infinitas formas, mas eu tinha que parar ou ele ficaria ainda mais perdido. Ele estava emocionalmente acabado, ou eu o tinha deixado acabado, pálido, os olhos ficaram distantes de um azul claro. Eu reconhecia aquele olhar vago, quase morto... Era uma tristeza desesperadora que o deixou em seu próprio mundo. Um silêncio que fazia parte da vida, que ele compreendia tanto quanto eu.
Não achei que ele diria alguma coisa depois de eu ter surtado, mas ele falou mesmo assim.
—Eu errei muito e eu duvido que serei perdoado algum dia por ela. — Ele falava como se ela estivesse aqui e doía mais do que vê-lo com um olhar triste. A agonia de cada palavra ficou gravada na minha mente "eu errei muito e eu duvido que serei perdoado algum dia por ela". "Errei muito" e "perdoado", como ele poderia ser perdoado por alguém morto? Ele não seria nunca perdoado ... Este era o seu ponto fraco. Eu toquei uma ferida muito profunda e que era sensível demais para as minhas mãos.
Como eu poderia ajudá-lo se eu estava abrindo um buraco mais fundo com as minhas perguntas? Se Dylan soubesse de tudo, eu teria que pergunta ao menino...? Como eu poderia pedir alguma coisa para uma criança que chamava pela mãe? Seria cruel demais colocá-lo em uma posição dessas.
—Por que tudo não podia ser mais simples, heim? — Murmurei para o rostinho em minhas pernas. A criança que também estava sofrendo, que perdeu uma mãe e não sabia que tinha uma tia, o meu pequeno sobrinho apertava os olhos com força. Era como se ele soubesse que fui eu quem feri o pai com as minhas malditas perguntas.
Eu passei a mão em sua testa, deslizando para as sobrancelhas loiras e contornando as bochechas rosadas. Era um alívio vê-lo com a expressão suavizada, pelo menos ele podia dormir tranquilo agora.
Demorou muito para chegarmos em casa, principalmente porque ninguém estava falando nada. Eu não conseguia olhar para o Dante. Eu não sabia como me aproximar dele neste momento sem deixá-lo em paz. Literalmente em paz, porque o que ele não queria era eu fazendo as minhas malditas perguntas sem fundo. Mas, eu precisava saber, eu tinha que saber... Cibele era a minha irmã e deixou o meu sobrinho com o pai, um pai emocionalmente esgotado e que podia ser mais complicado de montar do que um quebra-cabeça com 10000 peças. Eu tinha que entender primeiro tudo isso, antes de ajudá-lo.
Dante abriu a porta do carro e eu peguei Dylan no colo, ao invés de entregá-lo, saí com ele em um dos braços e a bolsa em outra. Eu que queria colocar o meu garotinho na cama.
Não dá-lo para o pai era o meu jeito de ser teimosa, como eu sempre fui.
Quando entramos em casa e Dante fechava a porta da sala, Dylan começou a acordar, esfregando os olhinhos com os cabelos molhados de suor em sua testa e olhando para mim um pouco manhoso. Ele ainda estava no meu colo.
—Tia Sofi... — Ele disse triste, agarrando o meu pescoço. — Eu não quero mais ir para a escola. — Sussurrou só para mim, porque eu sabia que ele não diria isso ao pai, nunca. Dante não o tiraria da escola por qualquer coisinha. O meu sobrinho era esperto, ele conhecia o pai muito bem.
—Por que, meu amor? Você achava a escola tão legal, ontem. — Afaguei a cabeça dele e fui até o sofá, sentando.
Dante estava nos olhando, mas não se juntou à nós. Ele ficou parado perto da porta e com os braços cruzados. Ele estava deixando eu lidar com isso, o que eu respeitei muito.
—Certo, Dylan, então você não quer estudar? — Olhei bem fundo nos olhinhos azuis dele. — Você não disse que queria ser como o seu pai? — Dylan acenou firme.
Olhei para o Dante de relance e ele levantou as sobrancelhas com um meio sorriso de lado, como se dissesse "verdade?". Eu sorri com um sim e voltei a falar com o Dylan.
—Dyl, seu pai estudou para ter a empresa que ele comanda. Ele foi para a escola, para a faculdade e ainda continua estudando. — Os olhinhos azuis prestavam muita atenção em mim e de vez em quando, espiava o pai. — Se você quer ser como o seu pai, você tem que ir para a escola Dyl.
—Mas, tia Sofi, eu não quero ir...
—Por que você não quer ir? — Ele estava pensando se iria dizer ou não. — Os seus amigos são ruins com você, Dyl? — Ele abanou a cabeça fortemente. — Então por que você não quer ir para a escola? — Ele começou a chorar, soluçar, me abraçar e tentar dizer alguma coisa, tudo ao mesmo tempo. — shhh... Tudo bem, Dyl. Vai ficar tudo bem. — Continuei acaricindo as costas dele, enquanto ele dava altos soluços e molhava todo o meu vestido com as suas lágrimas.
—Tia Sofi, eu gosto da escola. — Ele confessou baixinho, encostado em meu peito. — Papai sabe que eu bati em um menino, não é? — Eu sorri e acenei um sim, quando ele olhou para mim e depois olhou para o pai com medo.
—Seu pai não está bravo, Dylan. — Beijei a testa dele, enxugando as lágrimas que terminavam de escorrer. — Mas, por que você bateu no menino? — Ele apertou os lábios e fez uma carinha de dar dó. Era como se tivesse levado um chute no estômago e continuasse resistindo para não cair.
—Ele disse que eu não tenho uma mamãe, tia Sofi, mas eu tenho. Ela só está um pouco doente. — Respondeu desanimado, abaixando a cabeça. — E falou que o papai só está cuidando de mim, porque eu não tenho outra pessoa para morar. — Olhou para mim com os olhos cheios de lágrimas. — É mentira! O papai sempre me ajuda com as lições de casa e sempre brinca comigo quando tem tempo e sempre me dá boa noite antes de dormir e sempre diz que me ama quando eu tenho um pesadelo e vou dormir com ele. O papai sempre esteve comigo porque ele gosta de mim, não é?! — Eu não sabia quem estava chorando mais, eu ou ele. Nós dois nos abraçamos. Que criança incrível que eu conheci...
—Claro, Dyl, seu pai te ama muito, mais do que tudo no mundo, e gosta muito de você. — Falei, vendo o Dante a dois passos de mim, agachando na minha frente e erguendo os braços. Ele estava tremendo e eu entreguei o Dylan à ele, depois recebi um "obrigado" de seus lábios.
Dyl abraçou o pai com força, enquanto Dante fazia o mesmo com os olhos fechados. Eles estavam tendo um momento, pai e filho.
—Dyl, eu te amo muito, meu filho. — Foi a primeira coisa que ele sussurrou. — Muito obrigado por ser meu filho, Dylan. A sua mãe também te ama muito, porque a tia Sofi também te ama. Não é, ma belle? — Ele olhou para mim, em seguida Dyl virou os olhinhos azuis para me ver.
—Sim, meu garotinho, eu te amo um montão! — Abri os braços como ele fez uma vez. Sorri, limpando o narizinho dele com um pedaço de papel que achei na bolsa. — Seu melequento. — Ele riu.
—Viu, Dyl, ela te ama muito. — Dante também sorria. Ele abaixou para sussurrar no ouvido de Dyl. — Um dia a mamãe vai... — Eu não consegui escutar o resto.
—Eu odeio quando os dois fazem isso... — Estreitei os olhos e eles olharam para mim, rindo.
—É apenas de homem para homem, não é Dyl? — O pai piscou para o filho, que o imitou de um modo muito fofo. Essa criança era a miniatura loira de Dante. Ele adorava copiar o pai.
—Sim, papai, de homem para homem. Você é mulher, Tia Sofi. Desculpa, mas eu não posso contar. — Ele mostrou um sorrisinho tão amável, pedindo desculpas para mim.
—Okay, Dyl, eu entendo. — Revirei os olhos, fingindo não notar ele saindo do colo de Dante e vindo me abraçar. — O que você quer, garotinho? — Cutuquei a cabeça dele com um dedo e ganhei um sorriso cheio de dentes.
—Você está com ciúmes do papai, não é tia Sofi? — Esse menino...
Dante riu, nos observando sentado no chão.
—Não. — Mostrei a língua e fiz uma careta. — Eu não estou com ciúmes, porque essa pessoinha aqui me adooooraa muito! Não é?! — Baguncei os cabelos loiros dele.
—Siiiiiiiimm! — Ele gritou alegre. — Eu te amo muuuuitoo, tia Sofi!!
—Se você me ama muuuuitoo, então você vai para a escola?
—Talvez...? — Ahhh, esse menino... Eu olhei para o Dante que não dizia nada, mas estava com um sorriso divertido no rosto e era como se ele falasse "ele é meu filho, tente persuadí-lo". Eu fiquei séria, inclinando para ver os olhos claros de Dylan. — Certo, Dyl, então a partir de amanhã eu não vou ser mais a sua babá.
Pode-se dizer que o pai e o filho me olharam surpresos, ou chocados.
—Tia Sofi, o que você está falando?
—Você me ouviu. Eu não vou mais ser a sua babá. — Afastei ele de mim. — Vou embora amanhã.
—Por que?! — Os dois perguntaram juntos.
—O que eu fiz, tia Sofi?! — Dyl agarrou o meu braço antes que eu pudesse me levantar. Mostrei indiferença, tentando soltá-lo.
—Você disse que não vai mais para a escola, Dylan. — Respondi olhando para um ponto na lareira. — Eu não cuido de crianças que não vão para a escola. — Ele me olhou emburrado.
—Mas...
—Sem mas, eu não vou cuidar de você se você não for para a escola.
—Sofia... — Dante se levantou. Eu estreitei os olhos para ele, pedindo para não me interromper. Ele me entendeu e depois não disse mais nada. Voltei minha atenção ao pequenino.
—Dyl, a escola é importante. Não é só porque alguém disse que você não tem mãe ou pai que você não vai mais para a escola. — Ele estremeceu os lábios, mas estava segurando para não chorar.
—Mas tia Sofi, eu não quero ir.
—Tudo bem, então eu não vou mais cuidar de você. Eu vou embora amanhã. É isso que você quer?
—Não, tia Sofi, por favor não vai... — Ele agarrou a bainha do meu vestido, fazendo eu quase desistir de dar a bronca. Quase. — Eu não quero que você vá embora, por favor. — Fez beicinho.
—Se eu ficar, você vai para a escola? — Ele começou a chorar e eu não tive dó. — Sem choro, Dyl. Você precisa enfrentar as coisas por agora, pelo que você fez ao menino. Não foi certo bater nele só porque ele disse coisas que doeram. Não é certo usar a força para machucar alguém que te irritou e você também não pode fugir dos seus erros, isso é muito errado. — Ele acenou com um sim, o garoto era muito inteligente, ele tinha entendido completamente o que eu disse. Limpei o narizinho escorrendo. — Eu estou te ajudando a crescer, Dyl. Se você não quer a minha ajuda, então eu vou embora...
—Eu entendi, tia Sofi, eu vou para a escola. — Mostrou-se decidido e afrouxou um sorriso inocente, muito fofo, que só ele conseguia fazer. — Eu preciso muito da sua ajuda, então não vai embora, okay? — Ergueu o mindinho para eu prometer.
—Okay. — Respondi entrelaçando o meu dedo com o dele. — Agora vamos tomar um banho, seu melequento! — Fiz cócegas nele e o peguei no colo.
Dante estava encostado na lareira, nos observando por vários minutos antes de vir até nós.
—Obrigado, belle. — Ele deu um beijo na minha testa e depois na de Dyl, sorrindo orgulhoso. — Vocês dois são adoráveis juntos.
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