Quebrados
12 Mamãe.
Notas iniciais
Era quase duas da manhã quando levantei para pegar um copo d'água e Dyl continuava dormindo tranquilamente ao meu lado. Ele estava abraçado ao ursinho de pelúcia. Depois de ter confessado tudo à mim, o pequeno pediu para dormir comigo, pensando que talvez eu fosse embora no dia seguinte, mesmo eu fazendo a promessa do mindinho...
Saí nas pontas dos pés, descendo as escadas. Estava muito quieto e escuro, dava uma sensação estranha estar ali. Ascendi a luz da sala, no fim das escadas, e virei para abrir a porta da cozinha.
—Santo Deus! — Gritei com a mão no coração. — Você quer me matar de susto?! — Eu dei de cara com um Dante, semi nu. A cozinha estava escura e ele por algum motivo não tinha acesso a luz, antes de eu entrar.
—Por que você está acordada à essa hora, Sofia? — O homem continuava na minha frente, sem camisa e com os braços cruzados. A voz ainda em um ronrono rouco de "acabei de acordar".
—Eu precisava de um copo d'água e não consegui dormir... — Dei de ombros, desviando dele e indo até a geladeira. — E você? — Sentei com o copo na mesa, encarando as gotículas de água na borda escorrendo lentamente, apenas para não olhar o meu chefe me encarar com aqueles delirantes olhos azuis e o cabelo todo desarrumado, como se tivesse saído da cama neste exato momento.
Droga, ele era muito sexy para um pai, muito quente para um cunhado e um tesão como chefe. Eu fisguei um peixe grande mesmo... um puta peixe. Fingi brincar com o copo, rodando-o em meus dedos.
—Eu tive um pesadelo. — Ele disse, sentando ao meu lado e apoiando as mãos na cabeça baixa. Suspirou levemente, parecendo cansado. — Eu precisava pensar um pouco.
—À essa hora, no escuro? — Não pude deixar de perguntar. Ele tinha estado no escuro, em uma cozinha, não na sala ou no seu quarto. Era bem estranho...
—Sim. — Virou o rosto para mim, os olhos com uma olheira acentuada e sorrindo como se lembrasse de uma pessoa. — Eu gosto da cozinha, era o lugar preferido de Cibele. — Vagou por um tempo, olhando para a parede além de mim.
A minha irmã de novo... Eu provavelmente tinha fechado a cara ou algo assim; acho que eu tinha, porque ele gentilmente tocou o meu rosto e mostrou o seu sorriso de desculpa.
—Não fique assim, minha belle. — Beijou a minha testa e se afastou como se nunca tivesse me conhecido. — Eu vou subir, então... — Por reflexo eu segurei o pulso dele, soltando rapidamente e ficando um pouco envergonhada por meu gesto impensável. — Você quer que eu te espere? — Atenuou a voz para que eu não me assustasse com seja lá o quê tivesse nessa cozinha mórbida. Eu estava exagerando, mas ele tinha me dado um belo de um susto à alguns minutos atrás.
— Não. Está tudo bem, eu só vou beber a minha água e depois ir para a cama. Pode subir. — Sorri, ignorando o meu alívio quando ele voltou a sentar. — É sério, Dante. Você pode subir. — Empurrei ele para se levantar da banqueta, mas o homem não se mexeu. Nem um centímetro, ele era forte como um muro. Céus.
—Está tudo bem, eu te espero. Não é tão longe assim o meu quarto, Sofia. — Ele abriu um meio sorriso, um muito charmoso. Alerta de perigo. Dante era um perigo com aquele sorriso, eu tinha esquecido disso.
—Okay. — Peguei o copo e bebi o líquido rapidamente, enquanto ele me observava. Eu nunca fui tão assediada na minha vida, bebendo água. Ele deslizava os olhos da minha boca até a minha garganta e descendo cada vez mais... — Terminei! — Pulei da banqueta e fui direto para a pia.
—Eu percebi... — As covinhas saltaram, sorrindo. — Não quer mais água? — Disse naquele tom que só ele conseguia fazer com um sotaque meio francês, meio alemão. Dante tinha uma mãe francesa e um pai alemão, daí os dois sangues criaram esse ser maravilhoso com os olhos azuis, alto e cabelos negros.
—Não, já bebi o suficiente. A gente já pode subir. Você já pode subir. Eu preciso dormir. Boa noite, Dante! — Corri para as escadas, sem esperar a resposta. Eu tinha um pressentimento de que se eu ficasse, ele não me deixaria subir. Eu tinha quase certeza disso.
(...)
—Bom dia, minha flor. — Abri os olhos com o som da voz dele. Ele estava sentado na beira da minha cama, passando a mão sobre os meus cabelos e segurando o meu sobrinho no colo. Que imagem linda. — Você não vai para a universidade hoje, Sofia? — Ele olhou para o seu relógio Rolex e eu despertei na hora. Eu peguei o meu celular, que estava na cabeceira da cama e xinguei um meio "Caralho", porque Dylan estava ouvindo. Eu não tinha ligado a porra do meu celular ontem! Eu tinha esquecido completamente dele o dia inteiro...
Liguei o objeto mais útil que inventaram em todos os tempos e sentei na cama, arregalando os olhos com todas as mensagens de Ana, mandando eu me foder. Tinha em torno de umas 100 ligações perdidas e uns 50 SMS. Parei em uma que chamou a minha atenção. Era de um número bloqueado, a mensagem fez com que eu me petrificasse. A foto fez eu me contorcer de dor, os meus dedos largaram o meu celular e eu precisava vomitar... Saí da cama correndo para o banheiro e indo direto para a privada, ajoelhando e tossindo desenfreadamente. Não, por favor, de novo não. Supliquei mais uma vez à Deus ou seja lá quem estivesse me ouvindo.
—Sofia, está tudo bem, meu amor. — Dante tinha sentado perto de mim no chão e me abraçado logo em seguida. — Eu vou te proteger, não se preocupe. — Ele sabia o porquê de eu estar com medo. Ele tinha lido a mensagem.
"A próxima criança ficará assim", a mensagem dizia com uma foto de uma criança toda cortada, faltando alguns membros e dentro de uma caixa. Eu ia desmaiar se visse aquilo de novo.
—Ele não pode fazer isso, pode? — Perguntei como se estivesse sendo torturada à perguntar isso. — Ele não pode levar Dylan também, não é? Se for assim, eu vou embora... — Apertei forte a camisa dele. — Eu não quero ver o meu pequeno Dyl como aquilo, Dante. Eu não quero vê-lo em uma caixa.
—Você não vai, Sofia. Eu vou proteger vocês dois. — Os olhos dele tranquilizaram o meu coração, mas a dúvida continuava me fazendo enlouquecer. Eram perguntas que eu sempre teria medo de fazer. Eram pensamentos que preocupariam a minha vida inteira. Eu nunca estaria em paz, eu nunca seria uma pessoa normal novamente.
—Se eu for embora, você vai ficar bem, não é? — Queria sorrir, mas era impossível com aqueles olhos perdidos em arrependimento. — Dylan vai entender se eu for.
—Você não pode ir, Sofia. Você fez uma promessa à ele e eu não vou ficar bem. — Ele estava me apertando forte, a expressão mudando para algo mais preocupante. Eu tinha deixado ele incomodado, triste, arrependido e algo mais. — Não agora, por favor...
—Mas ele está me procurando... Ele pode machucar Dyl. — Abaixei a cabeça, porque era a verdade. — Esse alguém está me procurando, está tentando me caçar. Eu desconfio de todos ao meu redor, porque eu não sei quem pode me machucar e me pôr em uma caixa algum dia. Eu tenho essa preocupação desde que levaram Thomas. Eu não sabia de início, mas agora eu sei. Era um aviso para mim, não para a família Buchaim, Dante. Eu recebi um bilhete algumas semanas atrás, mas eu não te disse, eu ia te dizer ontem, mas não consegui com tudo o que aconteceu. Ele está atrás de mim. Essa mensagem confirma tudo. Por que eu? Eu nunca tive o que as pessoas ricas têm, eu nunca fiz inimigos, eu nunca nem dei algum motivo para alguém me odiar. Por que eu, Dante?
Ele estava tão acabado quanto eu, olhando-me com uma dor terrível e sem palavras para responder. Dyl estava na porta, nos encarando silenciosamente e segurando o seu ursinho, o Sr. Jingle como ele chamava.
—Papai, a mamãe precisa saber agora ou ela vai embora. — Foi o que eu não entendi ele dizer, chegando perto de nós e me abraçando. — Não é, mamãe? — Eu olhava para a criança em meus braços, indignada com as palavras dele.
—Não, Dylan, eu não sou a sua mãe. — Tirei ele do meu colo, tentando um sorriso. — Eu sou a sua tia, Dyl.
O garoto olhava para mim com dó, depois virou a cabeça para o pai.
—Vamos, papai, nós precisamos mostrar à mamãe o seu quarto. — Ele ainda não dizia nada, enquanto Dylan o puxava para levantar em um esforço fracassado.
Dante finalmente se levantou e me puxou com ele, dando-me um abraço caloroso, amável, forte e um bufar leve antes de dizer.
—Eu sei que você não vai me perdoar. Nunca. — Sussurrou em meu ouvido e depois voltou a atenção ao pequenino. — Vamos mostrar à mamãe então, Dyl. Ela vai ficar surpresa. — Disse como se eu não estivesse ali. Eu já estava surpresa com o papo de "mamãe isso, mamãe aquilo".
Passamos por várias portas antes de chegar ao final do corredor. Uma das portas tinha o nome de Cibele. Era o quarto dela, ao lado do dele. A porta dele estava escrita Dioniso. Cada porta tinha o nome de um Deus, era muito curioso isso. Por que ele fez isso?
Dante segurava a minha mão, enquanto tirava uma chave do pescoço. Ele nunca deixava de trancá-la quando não estava lá dentro, porque sempre que eu tentava entrar lá enquanto ele não estava em casa, a porta nunca se abria. Sempre trancada. Eu nunca consegui a chave, porque obviamente a chave ficava na corrente, em seu pescoço.
—Você me promete que não vai fugir? — Avisou antes de abrir a porta por completo.
—Por que eu fugiria? — Ele então estreitou os olhos, apertando a minha mão.
—Por favor, Sofia, você promete? Por mim ou pelo menos por Dyl? — Dyl segurava a minha outra mão, com os olhinhos ansiosos e esperando a minha resposta.
—Tudo bem. — Falei antes dele empurrar a porta e deixar eu entrar.
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