Quatro Patas
7 À espera de um anjo
Notas iniciais
Saudade e angústia são dois sentimentos que Billy conhece bem. Ele aprendeu o significado das duas palavras nos pelos desde que o seu rei menino desapareceu.
O que Billy infelizmente não sabe é que Miguel também sente demais a sua falta e não vê a hora de voltar para casa. Nem passa pela cabeça do menino que talvez ele não consiga colocar os pés naquele quintal de novo e reencontrar o melhor amigo de quatro patas.
Protegido pelo mundo inocente da infância — onde monstros embaixo da cama são bem mais assustadores do que problemas de saúde —, Miguel não entende a tristeza aparente no rosto dos pais, que se revezam à sua cabeceira por intermináveis horas. Tampouco compreende as palavras difíceis que os médicos soltam no ar entre um exame e outro. Cardiomiopatia dilatada, diâmetro diastólico dos ventrículos, insuficiência cardíaca e transplante soam como grego para ele.
Quando Miguel pergunta aos pais quando poderá voltar para casa e abraçar Billy, eles lhe dizem que será logo. Como o logo nunca chega, Miguel questiona de novo nos dias seguintes.
Hoje, a sua mãe explicou que eles estão à espera de um anjo. Um anjo que trará um coração novinho em folha para o filho, já que o seu infelizmente apresentou um defeito raro. Depois disso, todos voltarão para casa.
Assim, os dias vão passando. Mas o tal logo continua sendo adiado. E o tal anjo segue distante, como uma luz no fim do túnel. Miguel pensa que talvez ele tenha se perdido pelo caminho até o hospital. Mas jamais perde a esperança que o encontre em algum momento.
Essa manhã, quando a mãe dele volta para casa apenas para tomar um banho rápido, Billy fica em alerta. Como nos outros dias, ele sente o cheiro do menino impregnado nela e fica ensandecido. Também fica decepcionado porque não vê qualquer sinal da criança no carro.
A mulher entra em casa e se arrasta para o banheiro escada acima. Enquanto isso, o vira-la empurra a porta de entrada e corre rumo ao quarto de Miguel. Pula na cama como tem feito todos os dias, sempre que o homem ou a mulher aparecem. Constata que o cheiro do menino está desaparecendo cada vez mais do travesseiro e dos lençóis esticados.
Há pouco tempo, ele estava ali e Billy o acordava com lambidas no pé da orelha. Miguel sempre despertava em meio a caretas e risos. Aquele era um tempo muito bom. Os dois sentem falta dele.
O vira-lata fica ali por longos minutos, cheirando o território de Miguel, até que sente os passos da mulher descendo a escada e o odor de sabonete no ar. Ele corre para alcançá-la. Passa pela porta pouco antes dela ser fechada. Billy segue a mãe do menino com o olhar enquanto ela entra no carro e dá partida.
Algum tempo depois, cansado de tanta espera, ele toma impulso para pular o muro. Consegue na quinta tentativa e ganha a liberdade com uma aterrissagem dolorosa.
Assustado com o movimento de veículos e pessoas, Billy fica desorientado por um momento. Até que fareja a mulher. Ela ainda está com o cheiro do menino impregnado no casaco que não trocou. O vira-lata sabe exatamente para qual direção seguir.
Ele corre. Corre. E corre mais um pouco. Não para nem quando um vizinho o reconhece e tenta capturá-lo. Billy simplesmente corre dele também depois de latir em protesto. Segue em disparada pelas calçadas da vizinhança, pelo meio-fio, no meio da rua. Por muito pouco, não é atropelado por uma moto.
Ele segue correndo na esperança de colocar fim à saudade angustiante que sente.
Fale com o autor