Quase Um Anjo
10 Cap. 10 – Um pouco de azar junto com sorte.
Notas iniciais
Mais seis meses haviam se passado. Pela primeira vez meus pais não estavam viajando e a casa estava cheia. Meu aniversário estava chegando e esse seria o dia de apresentar John para a minha família.
Stephen estava com uma cara nada boa para o meu lado e ultimamente chegava em casa tarde e sempre bêbado. Liza sempre reclamava com ele, mas em relação a John, não tinha nada contra. Mike estava com ciúmes, ele sempre perguntava onde eu estava quando chegava em casa tarde, eu nunca dizia.
Mallory e Sam estavam sempre presentes, claro. Mas nunca me deixavam para ir dormir como costumavam fazer. Nathan ia sempre a minha casa e nós nos divertíamos. Certo dia quase nos beijamos por causa do clima tenso que estava; ele brigou com uma ficante e veio desabafar comigo.
Realmente ele era meu melhor amigo, eu não estava colocando muitas esperanças na amizade, mas era legal. Eu gostava dele, mais do que devia, aliás, mas isso não interferia em nada. Eu não sentia ciúmes dele nem ele de mim.
John sempre me chamava para passear pela cidade, na maioria das vezes andávamos pelos quarteirões de uma rua próxima a casa dele, mas isso era legal.
Eu estava no meu quarto com o Nathan, ele estava sentado no chão, por cima de umas revistas de esmaltes e Sam estava reclamando com ele por causa disso, ele apenas ria da cara dela. Depois Mallory assumia e o fazia pintar as unhas dos pés. Ele não gostava, mas fazia tudo com uma cara lindamente emburrada.
– Você me paga, Lor. Me paga! – ele falava enquanto pintava minhas unhas.
– Não liga pra ela, Nate. – murmurei olhando um livro que estava em minhas mãos.
– É, não liga pra ela, Nate. – Sam falou em um tom zombeteiro.
– Vocês acham que sou manicure, é? – ele falou pintando a unha do dedinho bem caprichada.
– Parece, né. – murmurou Mallory.
– Não começa! – ele reclamou.
Começamos a rir e depois de um tempão emburrado, ele riu também imaginando a cena. Todos os dias ele ia para minha casa e nós arrumávamos umas coisas pra fazer. Lembro-me bem de quando o chamei pela trigésima vez para assistir filme comigo.
Flash back on –
[Telefone tocando na casa do Nathan]
– Alô? – falou ele com uma voz sonolenta.
– Nate? É a Sara, vem aqui em casa hoje. – falei com um tom feliz.
– Certo, o que faremos? – ele bocejou.
– Assistir filme!
Eu sorri e ele apenas ficou um tempão sem falar nada, depois começou a falar;
– Não, Sara! A Fantástica Fábrica de Chocolates de novo não! Por favor, né. Só tem esse filme? Podemos alugar outros. – ele tagarelou nervoso.
– Por favor, Nate. Você sabe que eu sempre esqueço como é o filme. – falei como uma criança pidona.
– Sara... Eu já sei as músicas de cor, sei até as falas! – ele falava ainda nervoso.
– Ah, Nate! Por favor, vai...
– Ta, ta. Chego ai em meia hora. – telefone desliga.
– Flash back off.
E era sempre assim, sempre que iríamos assistir um filme, era esse. Eu adorava o filme, além de um tempo estar começando a ficar enjoativo.
– Nate, vamos assistir um filme? – sorri, já vendo seu sorriso desaparecer.
– Não! – ele bufou.
Ri baixo com Mallory e Sam, corri para a prateleira com filmes e peguei uma caixa de dvd, o mostrando ainda em minhas mãos.
– A Lagoa Azul, que tal? – ri baixo.
– Deus do céu! Não inventa, Sara Blackwell! – ele se sentou na cama.
– Por favor, vai.
Falei já colocando o filme e me sentando na cama, indo até o meio e me afundando nos lençóis. Nathan riu e depois se sentou ao meu lado, olhando para a televisão.
– Você é louca. – murmurou ele.
– Percebeu agora? – falou Mallory e nós rimos.
Uma hora depois, o filme estava acabando e eu sempre reclamava com o Nathan por sempre estar rindo nas partes tristes do filme. Meu celular tocou e eu o peguei na mesinha.
– Quem é? – perguntou Nathan.
Estreitei os olhos e os revirei rindo baixo.
– John. – respondi e ele balançou a cabeça, voltando a olhar para a televisão. – Oi, John! – falei com um sorriso de Sam.
– Oi, Sara. Podemos nos ver hoje? Tenho umas coisas pra conversar contigo. – ele falou com uma voz longe.
“Eita” falou Mallory.
“Fica quieta” reclamei.
– Claro, onde? – falei.
– Praça, próximo a sua casa. Em dez minutos... – a ligação caiu.
Desliguei o celular e me levantei da cama.
– Onde vai? – perguntou Nathan.
– Onde “vamos”. – o corrigi ele esperou e continuei. – Vamos comigo na pracinha, o John quer me ver.
– Oush, não tenho nada haver com isso, poxa. – ele reclamou.
– Ah, mas vai sim.
Falei dando língua e entrando no closet. Troquei de roupa rápido e então apareci no quarto, depois saindo de casa com o Nathan ao meu lado.
Não era tão longe da minha casa, era apenas um quarteirão depois, dava pra ir andando.
– O que ele quer falar? – perguntou Nathan.
– Não sei, mas não parece ser bom.
– Não mesmo. – disse Mallory e Sam ao mesmo tempo.
Apenas saímos dos portões da propriedade Blackwell e fomos em direção à praça. Andamos por um pouco mais de dez minutos e o Nathan estava calado, apenas observando.
Chegamos na pracinha e lá estavam uma BMW preta, estacionada com um garoto loiro encostado na dianteira no carro.
Me aproximei e vi que Nathan parou próximo a uma árvore, depois entrou em uma cafeteria e ficou lá.
– John... – falei me aproximando.
– Oi, Sara. – ele se desencostou do carro e andou até eu, dando-me um beijo na testa.
– O que você queria falar? – perguntei sentando em um banquinho.
– Sobre nós. – ele murmurou e se sentou ao meu lado.
Seu rosto não tinha muita expressão e ele fitava a rua escura e fria – já estava chegando o inverno. Franzi o cenho apenas o olhando e esperando o diálogo começar. Mallory e Sam estavam caladas em minha cabeça, acho que tão curiosa e assustada quanto eu.
– Tem outra garota e ela... – ele falou só isso, acho que não tinha forças pra continuar.
– Outra garota? – engoli em seco.
Meus olhos estavam marejados e minha expressão também era um tanto estranha. Minhas sobrancelhas estavam arqueadas e meus lábios entreabertos. Minhas mãos estavam descansando no banco e minha respiração era um pouco fraca.
– Sim... – ele respondeu num sussurro. – Sinto muito.
Não falei nada, apenas o olhei. Aqueles olhos castanhos estavam em cima de mim carregando tristeza. Seus lábios pressionados e suas mãos estavam viradas para cima, como se estivesse vendo a hora certa para me tocar.
E foi assim, ele se aproximou um pouco e tocou nossos lábios, eu apenas fechei meus olhos inalando pela ultima vez, seu cheiro e sentindo pela ultima vez o gosto de seus lábios.
Me afastei um pouco e o olhei, dei um leve sorriso fraco. Aquilo era o bastante. Foi um diálogo curto, mas eu entendi.
– Boa noite, John. – falei me levantando.
Ele ficou lá sentado. Talvez se culpando, talvez se arrependendo, ou talvez só estando triste por isso ter um fim.
Andei até a cafeteria e parei na frente da vidraça. Olhei para Nathan e inclinei um pouco a cabeça para o lado. “Está tudo bem?”, foi o que consegui ler dos lábios dele. Ele se levantou e saiu do local.
Minha vista já estava embaçada, eu apenas o olhei e dei um sorriso fraco.
– Ah, Sara. Sinto muito. – então ele me abraçou.
Foi um abraço forte e seguro, protetor como só ele costumava fazer. Começamos a andar ainda abraçados. Algumas lágrimas escorriam pelo meu rosto, eu apenas tentava segurá-las. Meu coração não doía, estava apenas machucado, estava apertado. Com o Nathan ali, eu me sentia melhor.
– Eu te levo, vamos. – ele falou me colocando em seus braços.
“Por que isso agora?” murmurou Mallory com uma voz de choro.
“Sorte que temos o Nate... sempre com a gente” falou Sam e eu apenas cai nos braços dele e dormi sem ouvir o que as garotas falaram depois.
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