Quase Sem Querer...
43 Lembranças
Notas iniciais
Elena abriu os olhos, fitando a fachada do colégio a sua frente, enquanto sentia suas entranhas se revirarem dentro de si. Aquele seria seu primeiro dia de aula do jardim de infância, e em sua cabeça de criança com seis anos, era o seu pior pesadelo. Ela tinha medo das coisas que a esperavam depois dos portões pretos de ferro que separavam a realidade afável e maravilhosa de Elena e o mundo escolar totalmente desconhecido por ela.
A pequena garota de cabelos castanhos escorridos até a cintura voltou-se para seu pai, logo atrás de si, com os olhos castanhos marejados, assustados, e com um pedido de suplica no fundo, implorando para que ele a levasse de volta para o conforto da sua casa. John meneou a cabeça negativamente enquanto se agachava na frente de Elena, segurando-a de maneira reconfortante pelos ombros.
_ Querida, se acalma, tudo vai ficar bem... – Ele sorriu amavelmente tentando passar segurança para a pequena amedrontada a sua frente – Confie em mim... O papai nunca mentiria pra você...
_ Eu sei... – Elena choramingou enquanto olhava para os sapatos vermelhos de fivelas, envergonhada pelo seu medo sem nexo – Mas eu estou com medo... E se ninguém gostar de mim?
_ Você não tem com que se preocupar! Mas vamos fazer o seguinte...
John pegou sua carteira no bolso de trás da calça, e de dentro de um dos compartimentos da mesma retirou um saquinho de veludo vermelho e surrado, enfiou os dedos com cuidado e sobre os olhos curiosos de Elena, tirou de lá um par de pequenas fivelas de cabelo, cada uma com uma fileira de perolas branquinhas e lustrosas.
_ Essas fivelas são as mesmas que sua mãe usou no dia do nosso casamento, eu estava esperando o dia do seu casamento para te da-las... – John dizia enquanto separava uma mecha de cabelo do cabelo escuro de Elena, prendo a mesma com uma das fivelas, para depois repetir o mesmo gesto com o outro lado. – Pra que você pudesse sentir sua mãe presente, mas eu acho que você precisa disso agora...
Elena sentiu as lágrimas queimarem atrás dos seus olhos, mas não estava triste, ou assustada. Ela estava aliviada, e agradecida pelo gesto simples, porém significativo de seu pai. A pequena pulou nos braços de seu pai, e o abraçou com força, beijando sua bochecha, para depois sair correndo para além dos portões da escola. Ela estava pronta para encarar sua nova realidade.
***
Era hora do intervalo, então sua professora indicou para que Elena e seus colegas de turmas pegassem suas lancheiras e voltassem a se sentar nas cadeiras envoltas das pequenas mesas redondas espalhadas pela sala de aula para que pudessem comer. Todos pareciam sorridentes e empolgados com o primeiro dia de aula, até Elena, que de inicio estava apavorada agora não se sentia tão mal. Elena pegou sua lancheira, mas ao fazer isso pode perceber que sentada entre o espaço entre a estante de livros e a parede colorida da sala, estava uma menininha de cabelos castanhos curtos e ondulados, que chorava baixinho com a cabeça apoiada nos joelhos.
_ Oi? – Elena sussurrou enquanto se aproximava a passos lentos da garota choramingando. – Ei... Ta tudo bem?
_ Me deixa em paz... – a garotinha murmurou baixinho enquanto se encolhinha mais ainda contra a parede.
_ Se acalma, vai ficar tudo bem... – Elena disse as mesmas palavras de seu pai quando o mesmo procurou reconforta-la. Elena se abaixou próximo a garotinha e esfregou desengonçadamente o ombro da mesma.
_ Nada vai ficar bem... – A menina voltou seu olhar para Elena, os olhos dela estavam vermelhos e inchados, como se estivesse chorando durante dias afinco, talvez semanas – Você não me conhece, nem sabe da minha vida... Como vai saber que as coisas vão ficar bem?
_ Confie em mim, eu não mentiria pra você...
Elena disse com um sorriso amigável, tentando pegar a mão da menina, mas ela se afastou bruscamente voltando a posição inicial, com a cabeça apoiada nos joelhos com os braços ao redor dos mesmos. As sobrancelhas de Elena se juntaram em um vinco enquanto ela tentava pensar o que fazer agora, e uma ideia surgiu em sua pequena cabecinha. Ela tirou uma das fivelas de perolas de seu cabelo, e o segurou com os lábios enquanto separava uma mecha do cabelo curto da garota, e depois prendeu a mesma com a fivela de sua mãe.
_ Olha, assim vai ser como se você sempre tivesse um anjo da guarda com você... – Elena disse com um sorriso amável nos lábios quanto a garotinha de olhos brilhantes, que havia parado de chorar e agora fitava Elena confusa porém com uma ponta de admiração pelo gesto da pequena Elena.
_ Eu sou Katherine Pierce...
_ Eu sou Elena Gilbert... – Elena pegou a mão de Katherine e a ajudou a ficar de pé – Vem, vamos lanchar!
Katherine apenas assentiu positivamente com a cabeça e logo depois que Katherine pegou seu lanche, elas foram em direção a uma mesa dentre as demais, sentando uma do lado da outra, como se fossem já velhas amigas. Elena tirou seu lanche de dentro da pequena bolsa, e ficou radiante quando viu que seu pai havia preparado seu lanche favorito: Suco de uva com sanduiche de manteiga de amendoim e geleia de uva.
Elena separou o canudo da caixinha de suco, e tentou espeta-la na parte laminada que indicava na caixa. Ela forçou e empurrou com toda a sua força, mas o canudo teimava em não entrar. Ela segurou com uma mão a caixa, e com a outra tentava colocar o canudo na mesma. Elena tentou insistentemente até que conseguiu fazê-lo, porém a força que colocou na mão que segurava a caixinha foi tão grande, que fez que o liquido roxo subisse pelo recém colocado canudo, e esguichasse como uma mangueira em cima de Katherine sentada ao seu lado, molhando justamente a parte debaixo do macacão estilo jardineira que ela usava.
_ Oh meu Deus! Katherine me desculpa...
Elena se levantou imediatamente, tentando limpar sua bagunça sob os olhos espantados e novamente chorosos de Katherine. Elena se desculpava enquanto pedia para que ela não voltasse a chorar, mas o que foi um esforço totalmente em vão, quando um dos garotos da sala se levantou e viu o ocorrido, e para chamar a atenção de todos, começou a cantarolar ‘ela fez xixi nas calças’ enquanto apontava para Katherine. Elena ficou tão pálida quanto Katherine, que agora tinha lagrimas grossas descendo por seu rosto, enquanto todos da sala se juntavam ao redor delas e cantavam o verso infeliz.
_ Não, não foi isso que aconteceu! – Elena tentava dizer para todos ao seu redor, mas ninguém a ouvia. Ela voltou seu olhar pra Katherine, que agora a olhava com os olhos vidrados e rancorosos demais para uma criança de seis anos. – Me desculpe...
_ Eu nunca vou te desculpar por isso! Eu te odeio! E pode ter certeza que vou fazer da sua vida um inferno!
Katherine disse antes de sair correndo, deixando Elena e todos para trás. Elena tentou segui-la, mas aquela cacofonia se tornava cada vez mais distante assim como Katherine e todos ao seu redor. Tudo estava se tornando mais lívido e embaçado, como uma lembrança antiga a qual era quase nunca era revivida, e como se fosse um sonho, Elena despertou. Porém assim que o fez, teve vontade de voltar a dormir quando uma dor lancinante lhe atingiu a parte das costelas, a fazendo gemer sofregamente em resposta.
Ela estava dentro do cadilac de seu pai, mas o mesmo estava de cabeça pra baixo, e se não fosse pelo cinto de segurança poderia estar pior, no entanto ela não se lembrava de ter passado o cinto. Sua cabeça doía, e algo quente e úmido escorria pelo seu braço. Elena olhou ao seu redor, procurando se situar e lembrar-se do ocorrido, mas tudo parecia confuso. Ela se lembrava de que estava no casamento de Jenna, mas no meio da festa recebeu uma mensagem de Bonnie para encontra-la, quando estava no local onde deveriam se encontrar, sentiu algo lhe bater na cabeça e a escuridão se apossar de sua visão, e quando deu por si estava em um carro com Katherine ao seu lado.
_ Oh meu Deus...
De repente tudo surgiu em sua mente, e ela se lembrou do surto de Katherine, da luz e da buzina, e de quando agarrou o volante e o virou rapidamente, desviando do carro que vinha em direção a elas, porém a velocidade era muito alta para tão manobra e elas acabaram capotando o carro. Elena girou com cuidado sua cabeça, tentando não causar mais danos ao seu estado ainda desconhecido enquanto procurava ver o estado de Katherine. E para seu espanto ela jogada de um jeito anatomicamente impossível no teto bege camurçado e agora manchado de sangue.
_Katherine? – Elena a chamou apreensiva, mas não obteve nenhuma resposta. – Katherine, por favor, me responder...
Elena dizia suplicante enquanto lutava consigo mesmo para que as lágrimas grossas que queimavam atrás de seus olhos não descessem, e atrapalhassem a ajudar Katherine, que aparentemente estava em um estado muito pior que o seu. Elena olhou pelo carro, em busca de algo que pudesse ajudar, e acabou por encontrar o celular de Katherine jogado em meio aos vidros quebrados do para-brisa. Ela se esticou, conseguindo alcançar o aparelho, que logo começou a vibrar em sua mão. Elena conseguiu atender e ligar o viva voz do aparelho:
_ Katherine, onde você está? Cadê a Elena? – Para seu alivio Elena pode escutar a voz desesperada de Damon soar pelo carro.
_ Damon? – a voz de Elena saiu rouca como se ela não falasse por dias.
_ Lena? Lena, é você? – Damon perguntou nervosamente preocupado, era perceptível pela sua voz – Onde você está? O que aconteceu? Você está bem?
_Damon, a gente... Acidente... – Elena conseguiu murmurar baixinho, já que sua voz parecia sumir aos poucos – A Katherine... Ela... O bebê...
_ Acidente? Como assim? – Damon procurava manter a calma enquanto tentava entender o que as palavras desconexas de Elena – Amor, por favor... Onde vocês estão? Eu já estou ligando pra emergência... Você sabe onde estão?
_ Da-Damon... Dam... — Elena tentava balbuciar, enquanto sentia uma dormência estranha se por sobre si, e que gradativamente estava a engolindo. – ‘to’ com sono...
_ Elena! Elena! Por favor! Acorda!
Ela conseguia escutar a voz de Damon ficar distante em sua cabeça, enquanto suas vistas se tornavam turvas e embaçadas, e mesmo que ela quisesse manter-se acordada, a dormência era mais relutante que Elena, e aos poucos ela foi sendo levada para a escuridão. Ao longe ela escutava a voz de Damon a chamando baixinha saindo pelo alto falante do telefone. Elena tentou dizer mais alguma coisa, mas já era tarde demais, a dormência a havia tomado conta de seu corpo.
[Continua...]
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